dom abr 21, 2024
domingo, abril 21, 2024

A resistência militar ucraniana e o novo momento da guerra

Estamos frente a uma nova conjuntura na guerra da Ucrânia. A surpreendente resistência ucraniana – cujas forças armadas foram engrossadas com o recrutamento de uma significativa maioria de operários e membros da classe trabalhadora– colocou o segundo maior exército do mundo na defensiva e transformou a Ucrânia no epicentro do enfrentamento entre a revolução e a contrarrevolução a nível mundial. Está provando que pode ganhar a guerra, pois está desenvolvendo uma atividade coordenada entre artilharia e infantaria, junto com a ação dos combatentes voluntários e os partisans que fazem sabotagem dentro dos territórios ocupados. Mas precisam de armamento adequado, superior e mais eficiente para os combates que tem pela frente.

Por: Americo Gomes e Pavel Polska

O imperialismo se recusa a enviar este armamento, alegando que tem medo que caiam nas mãos de contrabandistas e do exército russo, mas em verdade, “medo que se usem contra o território russo e se produza uma escalada na guerra”. A verdade é que o imperialismo tem medo das consequências que uma vitória categórica da resistência ucraniana terá sobre todos os povos do mundo.

A imprensa burguesa esconde o papel da valorosa resistência formada por trabalhadores comuns das mais diversas categorias e profissões, que pegam em armas para se defender dos invasores russos. Uma população proletária armada, enquanto a burguesia foge do país e pretende seguir fazendo seus negócios desde fora.

Um novo momento da guerra

Nos quase 9 meses de combate estivemos frente a vários momentos do conflito. Como a ofensiva russa e o cerco a Kiev, depois o recuo para o leste do exército russo. Hoje há uma mudança de posições, com o exército russo abandonando a cidade de Kherson e toda a margem ocidental do rio Dnieper, demonstrando que Rússia está na defensiva se entrincheirando na margem esquerda para buscar defender a Crimeia. Isso sem subestimarmos as ações russas, os danos que causa e a possibilidade de uma nova ofensiva.

A resistência ucraniana conseguiu derrotar a guerra relâmpago russa, esgotar a ofensiva e reverter o curso da guerra.  Se calcula que aproximadamente 80.000 soldados ucranianos tiveram que morrer para demonstrar que a causa ucraniana vale a pena, e que a ajuda e sua defesa funcionam.

Em Kiev isto foi fundamental por causa dos combatentes voluntários que vieram da classe trabalhadora.[1]

A resistência de Kiev

Em 25 de fevereiro os militares se viram obrigados a entregar milhares de rifles AK aos cidadãos de Kiev para preparar a resistência, se calcula 18 mil[2]. “Gente muito normal”, mas todos disposto a lutar até o final nas ruas ou nos campos de batalha de Bucha e Irpin, inclusive com muitos deles só contando com coquetéis molotov para enfrentar tanques. Compartilhavam comida, dormiam em alojamentos comuns e muitas vezes se desesperavam juntos com os sons da artilharia inimiga.[3]

Enquanto isso os comboios russos que se deslocavam nas estradas dos bosques ucranianos eram emboscados por unidades ucranianas. Em algumas ocasiões estas unidades deixavam passar os tanques para atacar os caminhões de combustível que seguiam os blindados.  Asim logo os tanques ficavam sem combustível e tinham que parar, em condições de serem capturados intactos. 

Para fazer frente ao avanço das hordas russas, o exército ucraniano descentralizou o sistema de mando e controle e outorgou autoridade aos líderes “no terreno”, que conheciam melhor a situação. As formações ucranianas, mais motivadas, flexíveis e efetivas, eram unidades pequenas e altamente móveis para evitar converterem-se em objetivos grandes e fácies de serem atacadas pela Rússia. 

Entre fevereiro e março os combates em Kiev foram rápidos, cinco semanas. E os invasores fugiram, mas as perdas ucranianas foram terríveis. Este foi o caminho para a vitória na Batalha de Kiev. 

A resistência ucraniana em ofensiva.

Neste momento, podemos afirmar que a ofensiva militar está nas mãos dos ucranianos. Estão libertando uma área territorial extensa ao redor de Kharkiv e avançam para o sul e leste. Há notícias de localidades liberadas em Lugansk y Donetsky, forçando a retirada russa. Como Kupiansk, que era um importante centro de abastecimento oriental para as forças russas. O Ministério da Defesa da Rússia disse que suas tropas se retiraram também do centro militar da vizinha Izyum e de Balaklyia, para “se reagrupar”,

De acordo com especialistas militares, é a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que unidades russas inteiras foram perdidas. A combinação de ataques maciços de foguetes na retaguarda russa e ataques bem-sucedidos em seus principais locais de frente, como Davydiv Brid, acabou mostrando resultados. 

Neste momento a cidade de Kherson foi recuperada e a população, que resistia à presença das tropas russas e à deportação forçada (que o Kremlin chamou de “evacuação”) recebeu as tropas ucranianas como verdadeiros libertadores.  Este foi um dos fatos mais importantes da guerra e terá desdobramentos para o desenlace da guerra. Para a Rússia significa que as chances de tomar Mykolaiv e Odesa foram eliminadas. Uma derrota humilhante para quem há um mês reivindicou a soberania sobre Kherson e a região.

Agora os combates vão se concentrar na margem oriental do Dnieper, com as forças russas fortificadas na margem leste e sul, de acordo com imagens de satélites com três linhas defensivas paralelas de 100 quilômetros de longitude, compostas por trincheiras, ninhos de metralhadoras, bunkeres e blindados. Para os ucranianos vencerem, é necessária uma superioridade aérea, que só pode ser conseguida se lhes forem fornecidos aviões e a artilha for capaz de alcançar os 300 quilômetros de distância, além de mais sistemas de defensa antiaérea. Tudo que o governo dos Estados Unidos tem se negado a fornecer até agora.

O trabalho “partisano” de resistência clandestina em Kherson

Junto com o cerco a Kherson há o trabalho clandestino dos partisans dentro da cidade. Para evitar que eles se comuniquem os russos cortaram a internet da região, por isso eles se comunicavam com rádios ou celulares analógicos, quando as torres estão funcionando.

Os oficiais russos iludiram os soldados de que seriam recebidos como libertadores do povo da Ucrânia contra os “nazistas” opressores. Por isso muitos deles estão atônitos e desprevenidos com a recepção que tiveram desde os primeiros dias. Não só não foram recebidos com flores, mas são odiados ativamente. Este ódio alimenta o movimento partisans nos territórios ucranianos ocupados.

Ser um partisan não é necessariamente estar envolvido diretamente em uma sabotagem. Muitos transmitem massivamente os movimentos de colunas e grupos de invasores em tempo real para as tropas ucranianas, muitas vezes simultaneamente por dezenas de observadores dos edifícios de vários lados de uma rua ou avenida. Os ucranianos têm um serviço público na aplicação para telefones chamado “Дія” (“Ação” em ucraniano), que publica copias eletrônicas dos documentos válidos para a polícia ou guarda fronteiriço: como passaportes, licença de conduzir, certificado de vacinação, etc. Desde fevereiro, esta aplicação serve para doações ao exército ucraniano, comprar bônus militares para ajudar as Forças Armadas de Ucrânia e, ingressar ao programa “eVorog” (“inimigo” em ucraniano)[4].

O “eVorog” permite a todos os cidadãos de Ucrânia informar em tempo real à um chat especial sobre o movimento de comboios dos inimigos, onde passam a noite e pessoas que cooperam com eles.

A partir de setembro, mais de 368.000 ucranianos usaram o chat “Ação”, e agora um canal de Telegram. Os informes também abrangem os movimentos das ferrovias, depósitos de munições, estações de radar, posições de artilharia, aeródromos de helicópteros e até lugares de residência do pessoal de mando das tropas russas.

Por outro lado este chat alimenta os usuários ativos, com ajuda para métodos de determinar a geolocalização e, se e necessário, ajuda de técnicos.

Em Kherson há o “GRUPO DE SUPERVISÂO”, que coordenou as primeiras manifestações de protesto na cidade contra a presença russa e se transformou em uma rede de inteligência ucraniana na região. Conta com 42 mil subscritos, que seguem atualmente a ofensiva das Forças Armadas de Ucrânia, VSU (siglas em ucraniano).

Através deste chat, também se arrecada dinheiro para ajudar as unidades ucranianas a liberar a região. Dinheiro que vai para a compra desde de câmaras termográficas até luvas térmicas.

Entre estes partisans há os “heróis” individuais e grupos auto-organizados. Estes grupos além de fornecer informações também atacam patrulhas russas e lhes tomam as armas, inclusive em ocasiões justiçando alguns membros das tropas ocupantes. Outros são especialistas em algumas áreas ou somente olheiros.

Os informantes partisans vão desde avôs, que com seus netos informam da movimentação de tanques ou onde os russos montaram um quartel general. O centro dos partisans organiza as informações e as cataloga individualmente e em grupos, garantindo o fluxo de informações para as forças de combate.

Ha outros que estão armazenando armas e preparando emboscadas. Não existe uma grande rede que organize tudo. Ainda que grupos especiais de combatentes tenham entrado e sigam entrando no território ocupado.

Logicamente os russos reagem com Campos de filtragem e controle, que as forças de ocupação usam para manter, interrogar e deportar centenas de milhares de ucranianos, e em alguns lugares atinge 100% da população masculina. Em Kherson todos os homens, a partir dos 16 anos e sem limite de idade, foram detidos, golpeados durante um par de dias, presos em poços cavados por eles mesmos. Junto com as operações de limpezas da população como em Dniéper. Há busca em casas e verificação de telefones. Ha campos de concentração formados com civis como perto de Mariupol, com muitos prisioneiros, jovens com menos de 18 anos. Assim como: a “colônia 17” em Henichesk; a “90” (?); o centro de detenção temporal em Kherson; e o centro de detenção preventiva em Nova Kakhovka. Além de lugares de tortura como a escola vocacional em Henichesk, onde equiparam uma “kativno” (verdugo em ucraniano).

A Rússia é considerada líder mundial em capacidade e táticas avançadas de Guerra Eletrônica (EW), que é o conjunto de ações militares que utilizam energia eletromagnética, de ondas de rádio a raios gama, para assumir o controle da radiação do inimigo. Por estas transmissões de voz, rádio, radar e micro-ondas fluem informações, inteligência, dados, imagens, ordens e relatórios. Por isso realizam interferência, neutralização e bloqueio de transmissões HF, VHF e UHF inimigas. Tentando cegar ou falsificar as emissões sobre o território ucraniano dos sistemas de navegação (GPS- americano, GLONASS-russo, Galileo-europeu e Beidou-chinês) para dificultar o monitoramento da trajetória de mísseis de médio alcance implantados no teatro de operações[5]

Quando nada disso dá certo simplesmente cortam completamente a eletricidade e as comunicações em algumas cidades durante um ou dois dias. Mesmo assim a resistência nos territórios ocupados segue funcionando.

A defesa territorial

Em algumas áreas libertadas se criaram as Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia, oficialmente são consideradas um componente de reserva militar das Forças Armadas da Ucrânia, foram formadas após a reorganização dos Batalhões de Defesa Territorial. São milícias de voluntários, formadas por reservistas em tempo parcial, geralmente ex-combatentes veteranos e voluntários civis locais para defesa territorial, tecnicamente sob o comando do Ministério da Defesa, formalizadas em 2022, como um corpo de defesa unificado. 

Muitos deles são ex-combatentes derrotados nos conflitos de 2014, na guerra da Crimeia ou nos combates iniciais da Guerra em Donbass pelos separatistas apoiados por Moscou. Naquela época estavam mal preparadas, mal equipadas, sem profissionalismo, moral, espírito de luta e com grave incompetência no alto comando. A partir daí foram formando milicias voluntárias e grupos paramilitares para combater os separatistas. Estes Batalhões de Defesa Territorial e Batalhões de Voluntários tiveram o mérito de terem mantido a linha contra as forças separatistas e permitiram que agora os militares ucranianos pudessem vir a ofensiva

Em 11 de fevereiro de 2022, o número de voluntários foi aumentado de 1,5 para 2 milhões[6].  Com a invasão russa muitos civis se juntaram a grupos locais das Forças de Defesa Territoriais para combater os invasores. Até 6 de março, quase 100.000 pessoas haviam se voluntariado para as Forças de Defesa Territoriais[7].  Foi tanta gente que algumas unidades deixaram de aceitar voluntários ao atingirem seu limite operacional. Houve relatos de voluntários ucranianos pagando subornos ou usando conexões para se juntar à Defesa Territorial.

Nestas defesas territoriais, quando são oficiais, todos são voluntários, mas assinam contratos, recebendo armas e salários. Seu status não é diferente ao de um soldado, inclusive a lei permite enviar unidades DT à frente fora de suas regiões.

Ha cidades próximas a linha de frente, como Toretsk, ou vilarejos, com um par de milhares de habitantes, como Plakhtyanka, que só podem criar formações voluntarias. Seus membros recebem armas, mas não assinam contratos e não tem salários. Então eles arrumam seus próprios recursos: coletes a prova de balas que pegaram da polícia, armas defensivas e de caça, fundiram ouriços antitanques e bloquearam a entrada da aldeia. Se organizaram em turnos e elegeram um chefe. E se conectaram com o SBU (Serviço Seguridade Ucrânia)

Estudam táticas de combate, literatura militar. Quando as cidades são atacadas por russos eles escondem os arquivos e computadores e tiram as bandeiras dos prédios públicos. Pedem armas constantemente, estas são prometidas, mas na maioria das vezes não chegam.

Era uma vez uma ponte

Recentemente assistimos a explosão da ponte no estreito de Kerch na Crimeia. O ataque danificou uma artéria estratégica de abastecimento e logística para as forças russas e foi um grande impulso para o moral ucraniano, mostrando que a Rússia não é invulnerável. O serviço de inteligência russo fala que foi um caminhão-bomba ucraniano.

A ponte parecia invulnerável ainda mais para a Ucrânia que não tem armas de longo alcance poderosas o suficiente para causar danos a esta ponte de aço concreto, pois o imperialismo se recusa a fornecer este armamento; sua força aérea não é páreo para os S-300 russos ou as baterias antiaéreas S 400. O armamento dos drones TB2 são adequados somente para destruir veículos e postos de comando.

Além disso a ponte tem um patrulhamento pesado, feito por tropas de elite, patrulhas aéreas de combate, helicópteros de ataque nas proximidades e unidades de guerra eletrônica nas proximidades, formando uma defesa formidável para este alvo de maior valor do conflito.

Do ponto de vista militar a maior parte da logística que abastece a frente sul, centrada em torno da cidade de Kherson, passa pela Crimeia, com um forte impacto sobre as forças russas sitiadas e espremidas pela contraofensiva ucraniana. As munições e reposições de armas para os combates são fornecidas a partir de bases logísticas do outro lado do rio. O ataque à ponte do estreito de Kerch enfraqueceu essa linha de suprimentos e piorou o quadro de combate para os russos.

Em termos de propaganda moral ucraniana foi um choque para os civis russos que já se recuperavam do impacto de da mobilização forçada. O próprio Putin abriu a ponte da Crimeia em 2018, dirigindo um caminhão pelo estreito. Um aliado seu construiu a ponte, e o ataque ocorreu um dia após seu aniversário de 70 anos. Novamente a eficiência russa para a guerra foi questionada.

O FSB, o serviço de segurança da Rússia está fazendo uma intensa verificação de segurança. Buscando o motorista do caminhão e a rota que ele percorreu antes de cruzar a ponte, mas poucas informações foram tornadas públicas. 

O crédito do ataque está atribuído à resistência russa ucraniana que atua em territórios ocupados. Desde o início da invasão eles são responsáveis ​​por assassinar líderes locais considerados colaboradores de Moscou.  Há algumas semanas foram mortos cinco oficiais do FSB e dois oficiais militares russos de alto escalão em um hotel em Kherson.

Os ataques ucranianos aumentaram desde que a Rússia anexou fraudulentamente os quatro territórios ucranianos em setembro. Estes ataques isolados tornaram-se cada vez mais eficazes à medida que esses grupos começaram a se coordenar com o comando militar da Ucrânia. Os ataques esporádicos estão se tornando mais focados e deliberados como parte de uma estratégia geral.

As forças de operações especiais ucranianas estão treinando, aconselhando e armando grupos partisans, na arte da sabotagem, táticas de ataque e fuga, comunicações secretas e a capacidade de permanecer escondido dentro de uma população enquanto causam estragos no inimigo.

Dentro de Kherson, a atividade central é de vigilância com observadores e monitoramento os movimentos de militares e seguranças russos, com informações sendo então entregues aos militares ucranianos.

Mas os partisans não operam apenas em Kherson, mas também na cidade ferroviária de Melitopol e em Nova Kakhovka, próxima ao rio Dnieper, e cerca da barragem e foz do Canal da Crimeia do Norte, vital para fornecer água doce a 85% da Crimeia. Mais de 20.000 soldados russos estão presos do outro lado do rio Dnieper.

O bombardeio da ponte está encorajando guerrilheiros e grupos de resistência em áreas ocupadas, por isso os ataques aumentarão em frequência e escopo. Tendo como centro as linhas de suprimento da Rússia, já que sua dependência excessiva do transporte ferroviário torna o trabalho do guerrilheiro ucraniano muito mais fácil. A explosão da ponte se soma ao naufrágio do cruzador Moslva e o possível colapso em Donetsk.

Putin recua batendo

Putin recua, mas golpeia duro neste recuo: realizou a escandalosa fraude dos plebiscitos nos quatro territórios, para construir a justificativa que sendo território russo poderia fazer de tudo para defende-lo, inclusive utilizar armas atômicas; e realiza ataque com os drones iranianos e com misseis a infraestrutura ucrânia, com o objetivo de danifica-la irreparavelmente para o inverno, interrompem o acesso a serviços básicos causando grande sofrimento à população civil, pretende com isso que o sofrimento pelo frio desmoralize uma parte da resistência.

Estes ataques deixaram várias regiões do país sem eletricidade e água potável. Se calcula que atingiu 40% da infraestrutura ucraniana. Em Kiev e pelo menos sete outras regiões da Ucrânia, há falhas no abastecimento de energia. Os ataques são considerados “devastadores” à infraestrutura energética do país. Em um país onde as temperaturas no inverno podem cair para menos 30°C. 

Putin também acredita que o frio deve diminuir o ritmo das operações militares ucranianas. Isso ajudará a Rússia a manter suas linhas de defesa, o território capturado e restabelecer o abastecimento normal de suas tropas.

Apesar disso os ataques com os drones “Shahed-136”, não são uma demonstração de força, ainda que causem muitos danos. São drones, não tropas. Iranianos, não russos.

Outro aspecto da política de Putin são as deportações forçadas. Em Kherson, ordenaram que 70.000 residentes fossem reassentados em lugares mais distantes da região ocupada no leste do rio Dnipro. Há inclusive ameaça de que a explosão da represa Kakhovka controlada pelos russos poderia inundar a área. 

A resistência toma as formas necessárias

No momento em que os contínuos ataques russos, contra o sistema de calefação e eletricidade para o inverno pelos mísseis e drones kamikaze têm efeito, os trabalhadores ucranianos que reparam a rede elétrica estão trabalhando a todo vapor, enquanto a população economiza eletricidade se abstendo de usar lavadoras e outras maquinas que consumam muita energia. 

Nos principais centros da cidade de Kyiv, as luzes das ruas apagam ao anoitecer. Apesar de que as sextas a noite mantêm acessas em algumas ruas do centro para que os músicos de rua possam tocar suas músicas e as pessoas possam dançar.

É possível vencer

Segundo especialistas, os avanços da Ucrânia no campo de batalha foram alcançados coordenando “tanques com veículos blindados com apoio de artilharia para perfurar as defesas russas, identificar fraquezas e explorá-las, movendo forças rapidamente”.  Além da ação de “partisans” dentro do território ocupado, que gera pânico e terror na tropa russa de ocupação.

Cabe ao movimento operário de maneira geral e as suas organizações e instituições redobrar a campanha de exigência do envio de armamento NECESSÁRIO para que os ucranianos sejam capazes para derrotar o exército de Putin e denunciar que os governos imperialistas não estão fornecendo armas em qualidade e número suficiente, pois sua política central é negociar um acordo pelo fim da guerra à custa da soberania ucraniana e da entrega de parte do território do leste.

O envio de armas por parte do imperialismo aumentou (pressionado pela resistência e pela campanha internacional), mas ainda é insuficiente. Por exemplo até hoje não enviaram aviões. O imperialismo norte americano continua se recusando a enviar aviões e treinar pilotos ucranianos[8]. Os ucranianos pedem F-15, F-16 e A-10Thunderbolt (especial para apoio aéreo contra forças terrestres de infantaria). Além disso, não enviam as armas com tecnologia avançada, alegando que podem cair em mãos russas. 

Da mesma forma foi um avanço o envio do Sistema de Foguetes de Artilharia de Alta Mobilidade (Himars) M142 de 80 KM (os russos chegam a 90), para isolar as unidades russas de suas unidades de apoio. Mas os ucranianos continuam pedindo os mísseis ATACMS, compatíveis com os Himars, mas com alcance de 300 quilômetros. Os atuais permitem destruir os centros de comando e de depósitos de munição. Os mais longos permitiriam separar as unidades russas de suas unidades de apoio. A justificativa é que não confiam que a resistência não vá atacar, com eles e os aviões, o território russo.[9]

Foram enviados o míssil anti tanque Javelin. Os Drones “Bayraktar TB2”, dos turcos e “tanques T 72” da Polônia. Assim como foi um avanço o envio dos veículos de infantaria alemão Marder. Mas o governo alemão ainda não enviou os tanques Leopard 2 de última geração, (construídos pela empresa de armas Krauss-Maffei Wegmann, com sede em Munique), vitais para apoiar as tropas que libertem regiões do leste da Ucrânia.

Nas eleições parlamentares nos Estados Unidos, candidatos republicanos, principalmente trumpistas querem cortar a ajuda a Ucrânia. A deputada Marjorie Taylor Greene, disse em um comício em Iowa que “sob os republicanos, nenhum centavo irá para a Ucrânia”. O líder da minoria na Câmara, Kevin McCarthy, que espera se tornar presidente da Câmara afirmou que um Congresso controlado pelo Partido Republicano não daria à Ucrânia “um cheque em branco”.  As críticas à ajuda militar e financeira ucraniana tentam empalmar com a crescente crise econômica nos EUA. Quase metade dos republicanos, 48%, acredita que o país está enviando muito apoio a Kiev[10].

 “Apoiar a resistência operária e popular com armas e apoio político”

Na Ucrânia a classe operária e o proletariado estão armadas e organizados para o combate. Ainda que esta organização não tenha ainda independência política, há ainda muitas ilusões com relação ao governo Zelensky, que apesar de não ter fugido do país, como a burguesia nacional, de fato está a serviço dos oligarcas e corporações estrangeiras e o projeto do imperialismo de transformar o país em uma semicolônia, que é o que explica a edição de muitas de suas leis antioperárias.

A vitória de Kherson que surpreendeu a muitos, demonstra que a resistência Ucrânia pode vencer, contra o poderoso exército russo de Putin, mas para isso precisa de apoio e solidariedade de nossa classe. Por isso é necessário a intensificação da campanha de “Armas para Ucrânia, pela derrota militar de Putin”, os sindicatos e organizações do movimento operário tem que assumi-la, deve se estender para as fabricas e locais de trabalho de todo o mundo. Os combates na margem oriental do Dnieper vão ser também muito difíceis e violentos, mas está provado que a resistência pode expulsar o invasor russo comandado por Putin. Para isso a ação de nossa classe de maneira independente é fundamental.

Esta foi a ação exemplar feita com os dois comboios internacionais realizados pela Rede Sindical Internacional da qual participou a CSP-CONLUTAS do Brasil, levar solidariedade, política e material e mostrar que a resistência ucraniana tem o apoio dos trabalhadores em todo mundo.


[1] decisiones difíciles valen la pena

28 de octubrede202221:38 por Illia Ponomarenko

[2] https://www.bbc.com/news/live/world-europe-60517447

[3] decisiones difíciles valen la pena

28 de octubrede202221:38 por Illia Ponomarenko

[4] https://www.youtube.com/watch?v=VTAxA3Omfmw

[5] https://atalayar.com/en/content/unseen-and-unknown-electronic-war-ukraine

[6] https://www.politico.eu/article/ukraine-russia-military-citizen-reservist-defense/

[7] https://ua.interfax.com.ua/news/general/808104.html

[8] A Câmara aprovou, mas o senado não, está parado o Comitê de Serviços Armados do Senado

[9] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2022/07/19/ucrania-pede-aos-eua-mais-sistemas-de-foguetes-de-precisao.htm

[10] https://www.nbcnews.com/politics/congress/republicans-try-allay-concerns-us-aid-ukraine-ahead-election-day-rcna56016

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