Chile: sobre os mineiros e a «explosão social»
3 anos depois da “explosão social”, uma pergunta que não quer calar na cabeça do povo trabalhador no Chile: onde estavam os mineiros na explosão social?
Por: Olga Rojas
A pergunta é importante, porque embora seja no sentido de questionar a classe operária mineira, salienta que o papel dos operários da mineração é importante para o povo trabalhador no Chile. O povo não se questiona: onde estavam os advogados, onde estavam os publicitários, onde estavam os sociólogos (respeitando e admirando todos os empregos e profissões). Perguntam onde estavam os mineiros.
Mas, por que é importante tentar responder isso? Porque a classe operária mineira no Chile, tem um papel fundamental na economia, especialmente se falarmos dos mineiros do cobre, já que a exportação deste mineral corresponde a 50% das exportações que realizamos. Hoje, o salário do Chile continua sendo o cobre. Se os mineiros paralisam, põem em xeque os interesses do grande empresariado das multinacionais e do magnata Luksic (dono da Antofagasta Minerals). Além disso, o maquinário com o qual trabalham na mineração, poderia ajudar muito nas tarefas de autodefesa contra a repressão do Estado e gangues ultradireitistas. As Forças Armada dependem do dinheiro do cobre para funcionar e nas últimas décadas os oficiais ficaram milionários com esta riqueza.
Agora, o processo do 18 de outubro vivemos de forma mais espontânea, não foram os sindicatos em sua maioria que organizaram a luta, as e os trabalhadores se organizaram em assembleias territoriais, em brigadas de primeira linha, em brigadas de saúde, etc. Os sindicatos estavam, mas não como protagonistas, e isto ocorreu também com a classe operária mineira.
Os mineiros estavam nas praças protestando quando não estavam no seu turno de trabalho, muitos fizeram parte das primeiras linhas, inclusive um vídeo da Mina El Teniente mostra um grupo de mineiros ao som de “já vão avistar, as balas que nos atiraram vão retornar”. A pressão vinha tão forte de baixo, que os sindicatos da mineração e a CUT junto com outras organizações, através do Bloco Sindical da Mesa Unidade Social tiveram que canalizar a pressão chamando para uma Greve Geral para o dia 12 de novembro.
O que aconteceu em 12 de novembro?
Neste dia o chamado à Greve se concretizou, os batalhões mais importantes da classe operária que se incorporaram foram os Portuários e uma parte dos mineiros, com os operários de La Escondida na liderança. No norte do país, a maioria das companhias mineradoras de cobre públicas e privadas mantiveram suas operações a meia velocidade. Em Calama e no interior da cidade de Antofagasta, próxima de algumas importantes jazidas de cobre, trabalhadores montaram barricadas, bloqueando vias e impedindo a passagem de ônibus com pessoal e caminhões de insumos para as tarefas. Entretanto, não foi uma paralisação de 100%, pois muitos sindicatos nem baixaram a convocação às suas bases nem organizaram a manifestação, foi uma saída embrionária da classe operária, mas que gerou um impacto importante.
Também estiveram sindicatos de pescadores artesanais, e com certeza, a classe trabalhadora protestando em várias cidades do país. Esta combinação do protesto nos territórios com autodefesa combativa e a entrada de batalhões da classe operária, fizeram a grande burguesia tremer.
Este foi o ponto culminante da revolução, é por isso que todos os partidos políticos representantes do empresariado se reuniram com urgência para fazer a desarticulação do processo revolucionário, e dessa forma cedem algo que durante décadas não queriam dar: um Processo Constituinte, mas amarrado até à medula pelas regras do famoso Acordo pela Paz, assinado “entre a meia noite e o canto do galo”. Dessa forma a Convenção Constitucional teve um caráter contraditório: foi uma conquista, mas só a tivemos graças à luta, os de cima não queriam dá-la facilmente, porém ao mesmo tempo que os partidos empresariais a entregaram, se encarregaram de que estivesse desenhada para não tocar nos seus interesses (Não podia destituir Piñera, não podia tocar nos TLCs (Tratados de Livre Comércio), impôs à Convenção um altíssimo quórum de ⅔, etc.).
O Partido Comunista, que naquele momento tinha boa parte da direção da Mesa de Unidade Social que convocou a Greve de 12 de novembro, não assinou esse Acordo pela Paz, entretanto depois o validou, e na divisão de tarefas, seu papel foi manter todo o movimento operário e sindical passivo. Como parte dessa tarefa, tiraram a reivindicação “Renuncia Piñera” da lista de demandas da Mesa de Unidade Social, ficando a Nova Constituição como única mudança relevante, algo que supostamente (já vimos que não) seria outorgado por esse Acordo pela Paz. Mas outra coisa que fizeram, foi que, depois da triunfante jornada de luta de 12 de novembro, não voltaram a convocar uma greve, deixando assim o movimento descender.
Assim, tanto a Frente (FA) Ampla que assinou o Acordo pela Paz, como o Partido Comunista (PC) que não o fez, dividiram suas tarefas para salvar o governo de Piñera. Hoje a FA e o PC são governo, e já vemos sua aproximação com os partidos dos 30 anos. São mais do mesmo.
Os portuários e as retiradas das AFPs
Embora este texto seja sobre os mineiros, não é demais lembrar o impacto que a classe operária tem quando sai à luta, não só como ocorreu em 12 de novembro, mas também quando se discutiu as retiradas das AFPs (Administradoras de Fundos de Pensões/Aposentadorias). Piñera se negava a aceitar as retiradas, nos bairros pobres fizeram barricadas, mas foi também a força das paralisações iniciais dos portuários e suas declarações, exigindo as retiradas de fundos de pensões/aposentadorias, que foram o motor para dobrar o governo.
Os mineiros e a Convenção Constitucional
Como a maioria da classe trabalhadora, vários mineiros tiveram expectativas na Convenção Constitucional quando estava iniciando, e assim “delegaram” aos constituintes as mudanças que o “Chile” necessitava. Entretanto, houve um setor mais consciente da mineração, que junto com a Constituinte María Rivera do MIT, impulsionaram duas propostas de normas centrais: a nacionalização da grande mineração do cobre e a negociação por ramo de trabalho- direito à greve.
A iniciativa de recuperar o cobre para financiar os direitos sociais (como a segunda iniciativa), foi encabeçada por um sindicato muito novo: o Sindicato Interempresa da Mineração-18 de Outubro (SIM-18 de Outubro). A iniciativa de recuperar o cobre teve mais de 24 mil assinaturas, inclusive na Convenção foi aprovada por maioria simples, no entanto, o Acordo pela Paz impôs o quórum de ⅔ para mudanças relevantes, e esta iniciativa não teve esses ⅔ na Convenção.
Os dirigentes do SIM-18 de Outubro fizeram parte dos 38% da população chilena que votou Aprovo, mas não porque confiaram na Nova Constituição ou a defenderam, já que sua principal demanda foi rejeitada: recuperar o cobre. Mas aprovaram porque sabiam que reconhecia alguns mínimos direitos democráticos para a classe trabalhadora, as mulheres, LGBTI, mapuche, etc. E pela necessidade de dizer NÃO MAIS à Constituição de Pinochet. Não é demais dizer que em El Salvador, em um acampamento especificamente de mineiros, a opção aprovo ganhou.

Entretanto, a maioria da classe trabalhadora, e portanto também boa parte dos mineiros, votaram rechaço, por uma análise que fizemos em outro texto.
Por que o 12 de novembro não foi aprofundado? Havia outra alternativa?
Com tudo isso, em primeiro lugar, fica claro que os mineiros, estiveram, e têm estado na luta, só que não saíram organizados sindicalmente ou de forma concentrada, o que é uma debilidade, e isto porque não existe uma organização sindical – nem política – revolucionária que organize sua luta. Seus dirigentes continuam sendo, em sua maioria, dirigentes pró -empresa inclusive membros filo Partido Comunista.
O 12 de novembro não se aprofundou devido a que a Frente Ampla, o PC e toda a burocracia sindical de “esquerda” e direita preferiram salvar o regime dos 30 anos, e com isso salvar Piñera. É por isso que não convocaram nenhuma outra Greve, apenas seguiram os passos do Acordo pela Paz.
A realidade teria sido outra, se uma segunda Grande Greve Geral fosse convocada, incorporando todo o setor operário mineiro (ou ao menos a maioria) e dos principais ramos da economia, para derrubar Piñera e que todos os assassinos e repressores pagassem. E, além disso, exigir uma Nova Constituição, mas sem as travas do Acordo pela Paz.
Entretanto, sob a realidade do Chile atual, é difícil que tivesse existido essa outra opção, pois ainda não há uma alternativa de direção política, construída no seio da classe operária, em particular entre os mineiros, e que faça contrapeso ao PC, FA e aos partidos dos 30 anos. Não há sequer um sindicato mineiro ou operário em geral que faça esse contrapeso na luta. O espontaneísmo que no início foi progressivo, vai mostrando os limites do processo revolucionário. Mas frente a esta difícil realidade, não podemos ficar de braços cruzados, fica uma grande tarefa pela frente.
A classe operária mineira continua viva
A classe operária mineira, como toda a classe trabalhadora, sofreu um golpe brutal com a ditadura, sua organização foi destruída. E depois sob os governos «democráticos» destes 32 anos, os partidos, governos e a burocracia sindical continuam asfixiando o papel da classe operária. Dizem que esta já não existe como nos anos 60 ou no período da Unidade Popular, e que só existem cidadãos ou “povo”. A ultraesquerda filo anarquista tem em seu centro a referência ao “povo pobre”, o que é importante, mas nega o papel estratégico da classe operária.
Apesar da desorganização e dos golpes, a classe operária está longe de estar morta. Segundo estudos, no Chile em 1965 tínhamos 509.000 operários e em 2020 tínhamos cerca de 2 milhões. No mesmo período, em particular os trabalhadores da mineração aumentaram de 43 mil para mais de 200 mil. Pode ser que a nível percentual representem mais ou menos em relação ao conjunto da classe trabalhadora se o compararmos com os anos 60, mas o que é evidente é que a classe operária está longe de estar morta ou desaparecida. Há uma política totalmente consciente, do empresariado e dos partidos reformistas para colocar a classe operária como morta! Mas a realidade mostra a eles que a classe operária continua mais viva do que nunca!
Por tudo isso dizemos que é imprescindível reconstruir as organizações da classe operária, recuperar os sindicatos sob um programa de luta pelas demandas dos trabalhadores (salários, condições de trabalho, acordo coletivo, direitos sociais como moradia, saúde, aposentadorias, educação, etc) e também por demandas históricas, como a renacionalização do cobre com controle da classe trabalhadora e o fim do capitalismo, um sistema de exploração e opressão.
Se a classe trabalhadora tivesse encabeçado as mobilizações de 12 de novembro de 2019, tudo poderia ter sido diferente. Por isso, o MIT propõe construir uma organização política no seio da classe operária, que em uma próxima explosão revolucionária possa conduzir o conjunto do povo para solucionar de uma vez os problemas sociais e ambientais que existem no Chile e no mundo.
tradução: Lilian Enck




