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terça-feira, julho 23, 2024

Entrevista| Na Grã-Bretanha está ocorrendo o processo de luta mais impressionante do momento

Avanzada Socialista (imprensa do PSTU da Argentina) entrevistou Martin Ralph, secretário da Liga Socialista Internacional, seção da LIT-CI na Grã-Bretanha, sobre a onda de lutas no Reino Unido que reúne ferroviários, motoristas de ônibus, trabalhadores de correios e trabalhadores do sistema público, entre outros. As centrais sindicais se recusam a convocar uma greve geral, mas os trabalhadores poderiam obriga-los. A última greve geral no Reino Unido foi em 1926.

AS: A primeira coisa que impressiona no processo é a diversidade de setores que estão lutando, o que eles têm em comum?

MR: Isso está correto. Há uma ampla gama de sindicatos e organizações em luta. Além disso, há muitos ativistas que podem não ser sindicalizados, mas que estão apoiando as greves. As pesquisas mostram que a maioria da população apoia as greves. O que os une é a longa experiência da Grã-Bretanha se tornando uma nação de baixa renda. Após o crash do mercado de ações de 2008, veio um período de austeridade global, mas que foi duramente imposto à Grã-Bretanha tanto pelo Partido Conservador como pelo Partido Trabalhista, e isso continuou por dez anos. Isso significou privatização, corte de serviços, demissão de funcionários do Estado e, em geral, redução dos salários dos trabalhadores, que foram deixados para trás pela inflação. E depois veio a pandemia, e os salários foram congelados em busca do chamado “esforço nacional”, como diziam. A invasão das forças russas na Ucrânia aprofundou problemas que já existiam na cadeia de suprimentos. O preço do gás e do petróleo começou a subir em janeiro deste ano, e isso atingiu a todos, à classe operária e principalmente à mais pobre. Mas também atinge a classe média e os pequenos comércios. E assim o governo tentou conter o descontentamento e acho que eles deram 150 libras de subsídio para contas de energia. Mas a essa altura as contas já haviam aumentado 300% e as pessoas começaram a se preocupar muito. E então as empresas de petróleo e gás obtiveram enormes lucros e a raiva aumentou. Ao mesmo tempo, o governo do Partido Conservador e toda a mídia burguesa, como o Financial Times e o El Economista, diziam que os altos salários causavam inflação… depois de doze anos de baixos salários! Isso não podia mais se sustentar, nenhuma das burocracias sindicais poderia sustentar essa mentira se quisesse preservar legitimidade. Então você tem salários em queda, lucros maciços em uma escala nunca vista antes e aumento dos preços dos alimentos.

Na semana passada eu estava em um piquete dos trabalhadores dos correios e eles tinham oferecido 2%, e a inflação agora é oficialmente de 11%, o que significa que possivelmente é maior do que isso. Mas não só isso, o correio e o sistema de trens está privatizado, o que significa que o dinheiro vai para os acionistas. Então, eles estão dizendo aos trabalhadores que não podem aumentar seus salários em mais de 2%, na mesma semana em que estão dando aos acionistas £ 750 milhões. As pessoas podem ver a desigualdade que existe neste sistema capitalista. É por isso que há tanta raiva e é muito comum ver que as enfermeiras não são pagas, quando trabalharam tanto durante a pandemia e todas as quintas-feiras saíamos para aplaudir essas heroínas. Os motoristas de ônibus também trabalharam duro durante a pandemia, assim como os ferroviários… eles eram heróis na época e agora vão dar a eles um aumento de 2, 3 ou 4%. Mas o que quer que lhes ofereçam é menos do que a inflação, que sobe todo mês. Para o próximo mês de janeiro, espera-se que seja de 13%, mas há quem sustenta que será de 18%. É possivelmente a pior inflação na Europa. Em 18 de junho, o Trade Union Congress (TUC, na sigla em inglês, uma espécie de Central) organizou uma manifestação em Londres sob o lema “We want better” (que é como “Queremos melhor”), o que não é necessariamente um grande slogan, mas mesmo assim atraiu 60 mil trabalhadores. Havia também o CWU (o sindicato das comunicações) e o RMT (o sindicato dos ferroviários) e muitos outros sindicatos. Fomos e perguntamos aos trabalhadores se o TUC deveria coordenar as lutas e a maioria respondeu “com certeza”, como se fosse uma pergunta estúpida que estávamos fazendo, mas ninguém está articulando essa demanda. O único sindicato que disse naquele dia “se querem se solidarizar conosco, organize uma greve nacional” foi o RMT.

AS: Essas demandas se limitam principalmente ao salário e custo de vida ou há questões mais gerais sobre o sistema?

MR: Eles estão principalmente ligados ao custo de vida, mas cada setor também tem suas próprias demandas. As aposentadorias também foram atacadas em alguns casos. Mas o ponto que o RMT e outros sindicatos estão deixando nítido é que este não é um ataque a nenhum sindicato em particular, mas sim uma guerra de classes travada pelo governo conservador. Ouvi hoje que há muitas manifestações acontecendo na Escócia, em Manchester, em Londres e em Liverpool com milhares de pessoas, e ontem o RMT colocou assim: “De 15 a 17 de setembro vamos mostrar à mídia, ao governo e às corporações que temos poder. Que o RMT tem os meios para parar o país a menos que cheguemos a um acordo. Temos que nos unir como classe e ficar juntos em piquetes e outras ações.” E depois se dirigem para o governo: “Se eles querem brigar com os funcionários dos correios, nós vamos lutar contra eles. Se eles querem brigar com as enfermeiras, nós vamos lutar contra eles.” Então a greve geral, bem, parece estar se armando, embora a palavra não esteja articulada, suponho que por pressão do TUC. E, ao contrário da América Latina, as greves gerais são muito raras na Grã-Bretanha. A última greve geral foi em 1926. Há uma grande preocupação com a privatização do  Sistema Público de Saúde (NHS pela sigla em inglês) , porque o percentual de privatizações está crescendo. Não há dinheiro entrando para o NHS. Muitos hospitais durante o Covid estavam perto de entrar em colapso. Também não há moradia digna. A grande maioria das habitações sociais, que abrigavam milhões de trabalhadores neste país, foi vendida nas décadas de 1980 e 1990. A educação não está privatizada, mas está se tornando cada vez mais mercantilizada, está em processo de privatização. E então, como eu disse, os salários estão caindo. Portanto, há muitos elementos, mas eles ainda não estão sendo traduzidos em um programa. Estamos escrevendo sobre isso, sobre a necessidade de um programa. Mas, sem dúvida, milhões de trabalhadores sentem esse problema.

AS: Quais tarefas está desenvolvendo na Liga?

Uma das tarefas que estamos impulsionando é ver isso como parte de um problema mundial, que é o capitalismo. Todos podem ver que essa inflação decorre de um sistema disfuncional e decadente. Mas estrategicamente precisamos fazer relações com trabalhadores de outros países. A solidariedade que os trabalhadores do mundo nos enviam é impressionante, mas é uma debilidade do movimento trabalhista britânico não ter tantas conexões com trabalhadores de outros países. Sabemos que houve lutas na Alitália e companhias aéreas na Espanha e em outros países, então há mobilização. É muito provável que a Grã-Bretanha esteja passando pelo processo de luta mais impressionante do momento, mas para continuar precisa aprofundar suas conexões internacionais. Afinal, muitas das empresas que enfrentam são controladas internacionalmente, dirigidas por empresários dos Estados Unidos, Bélgica ou França. Então, fazer essas conexões é muito estratégico.

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