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terça-feira, julho 23, 2024

Argentina| O ajuste da unidade

Com uma comemoração que, aos olhos da crise atual, não deixa de parecer exagerada, finalmente Sergio Massa, que era Presidente da Câmara de Deputados, assumiu como Ministro da Economia com superpoderes. Com medidas que, por onde quer que olhemos, implicam em ajuste para o povo trabalhador.

Por: PSTU Argentina

Após meses e meses de uma disputa pública dentro da Frente de Todos (FDT) que teve momentos de máxima tensão, a ascensão de Massa e as medidas propostas aparecem como promessa de unidade do que alguns chegam a mencionar como um relançamento do espaço de governo que daria esperanças para 2023. Essa “unidade” dos rapazes (e moças) peronistas, que por momentos pareceu uma utopia impossível, é sem dúvida, o que a imensa maioria da aliança do Governo comemora.

Mudança de rumo?

A disputa destes últimos meses supostamente, teria a ver com o rumo econômico que deveria ser tomado e o nível de ajuste a ser implementado. Neste esquema, Cristina representando o setor K (Kirchinerista, ndt.) da FDT, foi identificada como o setor menos condescendente com o FMI e mais propenso a medidas a favor do povo trabalhador, enquanto que Guzmán, era o setor mais pró-mercado.

Mas finalmente a promessa de “unidade” não implicou nem em um perfil mais duro com o FMI, nem em medidas mais progressivas. Pelo contrário, todos se enfileiraram atrás de um plano de ajuste profundo com o FMI e ainda maior do que anunciado pela provisória e circunstancial Ministra da Economia anterior, Silvina Batakis, há poucas semanas. 

O kirchnerismo para justificar que agora defende um aumento de tarifas pior que o que Guzmán pretendia (porque contemplará qualitativamente muitos mais usuários), se ampara em que a desvalorização foi evitada e anunciaram algumas possíveis ajudas miseráveis e extras para aposentados/as e trabalhadores/as formais. Mas a verdade é que Cristina já vinha falando no sentido de muitas destas medidas em seus discursos, misturando com críticas picantes e relato épico. Basta lembrar o que foi proposto sobre os movimentos sociais e a correlação que isso tem com os anúncios de Massa a esse respeito. 

Então, mais que mudança de rumo, como muitos querem fazer parecer, o que há é uma intensificação e aceleração do rumo marcado pelo acordo com o FMI. Outra coisa não era possível no capitalismo argentino e era de se esperar de um personagem conhecido por suas relações com a Embaixada dos EUA e “os mercados” como é o novo superministro.

Não satisfeito

Ainda assim, o setor patronal representado politicamente no Juntos por el Cambio (JxC), se mostrou insatisfeito com as medidas anunciadas. É que a voracidade empresarial em meio a uma crise que a nível internacional é vista com uma perspectiva ainda mais complexa, não tem limite, e vendo como o Governo tendeu a conceder permanentemente, apostam tudo. O dólar da soja, que foi um prêmio à especulação, voltou a mostrar que quanto mais endurecem, mais podem ganhar.

Para os mais pobres, nada

As medidas antioperárias e populares são tais que o setor à “esquerda” da FDT, o de Grabois, colocam que vão definir se continuam no interior da aliança ou não. Principalmente porque o pedido de Salário Básico Universal, que se supunha que o kirchnerismo apoiava, foi descartado e nem sequer foi anunciada uma medida para os setores de trabalhadores informais, precários, etc que representam no mínimo  40% dos trabalhadores.

A única coisa anunciada foi o “controle dos planos sociais”, como se fossem a razão do déficit fiscal e não os milhões que vão em subsídios às patronais ou ao pagamento da Dívida Externa.

A decepção que Grabois mostrou e a medida que talvez, apenas talvez, sua Frente Patria Grande tomaria, não deixa de ser no mínimo tardia depois de 3 anos de um Governo do qual fizeram parte, onde a pobreza e a dependência do FMI não pararam de crescer.

Manter os aliados fundamentais

É evidente que para as medidas insignificantes em relação à renda do povo trabalhador que o Governo tomará, não priorizou os movimentos sociais e sim, “jogar um osso” às direções sindicais e aos aposentados.

São bem conscientes de que com os ataques ao salário que nós trabalhadores estamos sofrendo e a quietude absoluta das direções sindicais que lhes era muito difícil de sustentar, e por isso chamaram à mobilização de 17 de agosto. E garantir a “paz social” é uma necessidade fundamental para que o plano de ajuste possa avançar e nesse sentido as direções sindicais são seus aliados fundamentais: assim vêm demonstrando todos estes anos.

Agora, a marcha convocada pela CGT (Confederação Geral de Trabalhadores) e CTA (Central de Trabalhadores/as da Argentina), que por ora se mantém, terá um caráter contra os especuladores, sem mencionar nem um ápice ao Governo, a não ser para apoiá-lo.

A perspectiva

Vão conseguir avançar com a totalidade de seu plano? Em um mundo com tal grau de incerteza é difícil ver o final. Sim, é verdade, que a perspectiva econômica mundial é cada vez mais complexa e isso sem dúvida afeta e determina a nacional. Apesar dos festejos, em termos econômicos, não a tem fácil, mas também não é impossível se conseguirem manter a paz social.

Só o povo trabalhador organizado  poderá frear este ajuste, e para isso, é necessário derrubar os muros de contenção que hoje são as direções e estruturas sindicais e sociais, que vêm deixando passar todos e cada um dos ataques e organizar-nos a partir de cada local de trabalho ou bairro para passar por cima delas. Apoiar e unir as lutas que estão em curso, organizar a raiva que começa a se formar, na perspectiva de impor uma greve geral e um novo argentinaço, que finalmente, vire a mesa e imponha um plano de emergência operário e popular.

Tradução: Lilian Enck

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