ter set 27, 2022
terça-feira, setembro 27, 2022

Mandar sucata para a Ucrânia para justificar o rearmamento

O governo de Pedro Sánchez declarou seu “apoio à Ucrânia” e o “envio de armas”. Semelhantes declarações contaram com o apoio de setores da direita e a reação indignada de Podemos, Esquerda Unida e outros setores, onde proliferam os amigos confessos e inconfessos de Putin, que em nome do “pacifismo” lhe negaram e negam ao povo ucraniano o direito de defender-se.

Por: Ángel Luis Parras

Mais recentemente, a ministra Margarita Robles reafirmava um «apoio bilateral total» ao país que a Rússia invadiu para, em seguida, unir-se correndo para defender o aumento do gasto militar que a guerra atual “mostra ser necessária”.

Mas após mais de 100 dias de guerra, o governo com sua “ajuda militar à Ucrânia” faz lembrar essas senhoras e senhores do bairro de Salamanca que investem fortunas em se “vestir na última moda”, que não poupam gastos nas bolsas de “Louis Vuitton”, vestidos de “Hermés” ou óculos de “Dolce & Gabbanna”, mas, isso sim!, não deixam de doar as vestimentas usadas ou “fora de moda” às suas criadas, quando não as doam às “irmãs de caridade”. Toda uma demonstração de caridade cristã que “justifica” continuar com desperdícios e com sua falta de vergonha em mentir.

Em que se traduziu o apoio “bilateral total” à Ucrânia? 

No início do mês de março, Pedro Sánchez anunciou que tinha enviado “material ofensivo” à Ucrânia. Neste material do primeiro carregamento militar foram enviados 700.000 caixas de munição, 1.370 lança granadas Instalaza C-90 e mais de 1.000 metralhadoras Ameli.  As primeiras armas, as mais modernas, as C-90, é uma arma de um só disparo, ou seja, uma vez disparado o projétil , a arma fica inutilizada. Segundo algumas fontes, o exército ucraniano vinha naqueles dias disparando 35.000 projéteis de tipo semelhante a cada dois dias.  Dessa forma, anote no apoio “bilateral total” essa quantidade de mísseis que serve para escassas 2 horas de guerra.

O outro material enviado, foram as Ameli, umas metralhadoras leves fabricadas na E.N. Bazán que, em teoria, tem um alcance regulável que pode chegar até 800 ou 1000 metros e disparar 900 tiros por minuto. Entretanto, sua funcionalidade é tão má que há 10 anos foram retiradas do exército de terra, o último que as usava. “Não disparavam as rajadas muito bem, travavam e esquentavam”, foram as razões dos especialistas militares para retirá-las do exército. Este primeiro envio de armas à Ucrânia mereceu o seguinte comentário nas redes militares: “Pensei que estávamos com a Ucrânia, ao ver que enviamos as Ameli, sei que estamos com a Rússia” [1]

Cerca de dois meses mais tarde, no fim de abril, ocorreu um segundo envio de 200 toneladas de carregamento bélico em 30 caminhões e uma dezena de veículos leves, que foram enviados ao navio logístico Ysabel. Esse carregamento foi o anunciado por Pedro Sánchez em sua visita a Zelenski, divulgado como “a maior contribuição do país desde que a guerra começou…o dobro do que o Governo havia transferido à Ucrânia até o momento”.

Quando os militares ucranianos receberam a ajuda na fronteira polaca, comprovaram que a ajuda militar espanhola “limitou-se a entregar três coisas: 400 unidades de munição de artilharia de 155 mm, seis milhões de cartuchos calibre pequeno do tipo 7,62 e vestimenta militar,com a surpresa da presença de botas militares para o inverno” .[2] Tanto os caminhões como os veículos leves voltaram vazios ao porto polaco de Gdansk para reembarcar no navio Ysabel de volta à Espanha. Aí ficava a “maior contribuição do país desde que a guerra começou”, incluindo as botas de inverno…para o verão ucraniano.

Há apenas alguns dias, tornava-se pública a intenção do governo de enviar uma terceira remessa de ajuda militar à Ucrânia, desta vez de tanques, os célebres carros de combate Leopard.  A notícia não seria menor, pois sendo assim, a Espanha se converteria no primeiro país a enviar material militar ofensivo. Concretamente falou-se entre 40 e 53 carros de combate Leopard 2 A4. Os Leopard  são carros de combate alemães que foram sendo aperfeiçoados desde os anos 60. O modelo que seria enviado à Ucrânia (o Leopard 2A4) chegou à Espanha em 1998 produto de uma colaboração entre Espanha e Alemanha. Os tanques foram adquiridos primeiro em regime de aluguel e finalmente adquiridos como propriedade em 2005 por 15 milhões de euros. Até hoje, este envio ainda não está autorizado e depende, entre outras coisas, do beneplácito da Alemanha que tem a patente destes carros e sem cuja autorização não podem ser enviados. Mas mesmo assim, se seu envio for autorizado, estamos falando de carros de combate que estão armazenados desde 2008 pelo Exército de Terra inutilizados em uma base militar de Zaragoza à beira da obsolescência.

Talvez o melhor resumo deste novo envio de “ajuda militar” tenha sido feito pelo jornal El Periódico com um título inequívoco: “Os tanques Leopard que a Espanha poderia doar à Ucrânia, o Peru não os quis nem a preço de liquidação” [3] .

Os gastos militares e a guerra da Ucrânia 

O gasto militar real dos Orçamentos Gerais do Estado para 2022 aprovados pelo Governo de coalizão PSOE- Unidas Podemos aumenta para 22.796 milhões de euros, 124% mais do que o Ministério da Defesa atribuí (10,155 bilhões), o que supõe um novo recorde histórico e um crescimento de 5,75% em relação ao ano anterior (Informe 2022 de aiPAZ).[4]

Segundo o informe citado, este acréscimo se explica em parte pelo aumento de 16,2% nos investimentos em armamentos, que chegam aos 4,581 bilhões, o que supõe 21,38% do total dos investimentos estatais ou o que é o mesmo, que 1 de cada 5 euros que a Administração central investe tem uma finalidade militar. Assim, o gasto militar alcança até 62 milhões de euros por dia, o que supõe 479 euros por habitante.

Ainda assim, em 8 de junho passado, o Ministério da Defesa solicitava um aumento de  3 bilhões de euros em seu orçamento para “fazer frente aos compromissos da Espanha com o reforço da defesa aliada ante a cúpula que a OTAN celebrará em Madri nos próximos dias 29 e 30, segundo fontes governamentais”. (El País, 8/06/22). Segundo este mesmo jornal, “O Executivo espanhol já comunicou à Aliança Atlântica seu plano para duplicar o gasto militar antes de esta década terminar (passando de 1,03% para 2% do PIB). Um crédito extraordinário serviria para evidenciar de fato e não somente com palavras” (idem).

O chamado Rastreador de apoio à Ucrânia[5], que é emitido pelo ifw Kiel, é tomado como referência pela Comissão Europeia para acompanhar as contribuições dos Estados membros à Ucrânia. Em seu último informe (10 de maio), a ajuda bilateral militar que a Espanha entregou ao Governo ucraniano é quantificada em quatro milhões de euros.

O governo então, destina à “ajuda militar” à Ucrânia o equivalente a 0,017% de seus gastos militares. Em troca, lhe envia a sucata retirada e prepara mais sucata para enviar.

Amparar-se na “Ajuda militar” à Ucrânia como justificativa social do aumento armamentista só demonstra a falsidade e o cinismo deste governo e de toda a OTAN. Mas opor-se ao envio de armas à Ucrânia, em seu direito de autodefesa, em nome de “combater o armamentismo” não fica longe dessa falsidade e cinismo e ainda contribui decisivamente para a desmobilização social em defesa da Ucrânia e à defesa, confessa ou inconfessa, de Putin e sua miserável invasão.

Notas:

[1] Estupor entre militares por las armas enviadas a Ucrania: “Las Ameli se retiraron del Ejército porque fallaban” (elconfidencialdigital.com)

[2] El Gobierno paraliza el envío de armas a Ucrania pese al desesperado llamamiento de Zelenski (theobjective.com)

[3] Los tanques Leopard que podría donar España a Ucrania no los quiso Perú a precio de saldo (elperiodico.com)

[4]https://aipaz.org/el-gasto-militar-real-del-estado-espanol-para-2022/#:~:text=El%20gasto%20militar%20real%20de,un%20crecimiento%20del%205%2C75%25

[5] https://www.ifw-kiel.de/ O último informe data de 10 de maio e o próximo está anunciado para 16 de junho.

Tradução: Lilian Enck

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