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terça-feira, setembro 27, 2022

Brasil do retrocesso: Nunca a fome e a pobreza cresceram tanto

A crise, o retrocesso e o processo de degradação do país, aprofundados no último período pelo governo Bolsonaro, vem produzindo números inéditos. Ao mesmo tempo em que o agronegócio tem safras recordes, nunca tantos brasileiros passaram fome. Em nenhum outro período do Brasil, também, não se registrou uma queda tão abrupta da renda dos pobres como agora.

Por: PSTU Brasil

O país da fome

Nunca tantos brasileiros foram dormir sem ter o que comer. Em 2022, 33,1 milhões de pessoas passam fome no Brasil. Os números estarrecedores fazem parte do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil, divulgado no último dia 8 pela Rede PENSSAN (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), uma coordenação de entidades e ONG’s.

Na primeira versão da pesquisa, divulgada no final de 2020, 19,1 milhões de pessoas passavam fome no país. Em apenas um ano, esse número teve um acréscimo de 14 milhões. O número de domicílios com moradores passando fome saltou de 9% para 15,5%.  Ao mesmo tempo, mais da metade da população, 125,2 milhões de brasileiros, 58,7%, sobrevive com algum tipo de insegurança alimentar. Um aumento de 7,2% em relação à última pesquisa. Comparado com 2018, o aumento é de 60%.

Se a pesquisa anterior atestava que o Brasil retrocedia à situação de 2004, agora esses novos números remontam aos piores momentos da década de 1990, um retrocesso de 30 anos.

O avanço avassalador da fome é expressão do desemprego, da precarização do trabalho, da carestia, do fim do auxílio-emergencial no último período e a alta inflação que atinge, principalmente, as famílias mais pobres. Tanto que, mesmo entre as famílias que recebiam Bolsa Família e Auxílio Brasil, a fome cresceu. Entre os que recebem meio salário mínimo, a fome atinge 32,7% das famílias que recebiam algum benefício, e 29,4% das que não receberam.

Fome tem cor e gênero

Dentre a população pobre que sofre com a fome, os negros e as mulheres são os mais afetados. Enquanto 46,8% dos lares comandados por pessoas brancas sofrem com algum tipo de insegurança alimentar, nos domicílios chefiados por negros esse número chega a 65%. A fome entre a população negra de forma geral saltou de 10,4% para 18,1% entre 2020 e 2022.

Essa disparidade também se observa em relação a gênero. Nas residências comandadas por homens a fome passou de 7% para 11,9%. Quando se observa os lares comandados por mulheres, a fome salta de 11,2% para 19,3%.

Queda na renda sem precedentes

Quase ao mesmo tempo em que se revelam os números recordes de famintos no país, é divulgada a queda vertiginosa da renda, sobretudo dos mais pobres, em 2021. Pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) intitulada “Pnad Contínua: Rendimento de Todas as Fontes 2021”, mostra que a renda média atual, de R$ 1.353, é a menor desde o início da pesquisa, em 2012. De lá até 2020, a renda caiu 6%.

Já em 2021, a metade mais pobre da população sobreviveu com apenas R$ 415 mensais por pessoa, um tombo de 15,1% em relação aos R$ 489 recebidos em 2020, em valores atualizados pela inflação. São 106,35 milhões de pessoas subsistindo com apenas R$ 13,83 por dia.

Nesse empobrecimento sem precedentes, os mais pobres foram os que mais sofreram. Os 5% da população de menor renda, 10,6 milhões de pessoas, tiveram queda de 33,9% no rendimento de 2020 para 2021. De uma renda per capita domiciliar de R$ 59, os mais pobres viram recuar para R$ 39.

A comparação com 2012 dá uma ideia mais precisa do tamanho do retrocesso e empobrecimento que os mais pobres viveram nos últimos anos. A renda era então de R$ 75, quase o dobro dos atuais R$ 39. Já a população que vai dos 5% aos 10% mais pobres viram sua renda per capita reduzir de R$ 217 para R$ 148 nesse mesmo período.

Recolonização, superexploração e barbárie

A fome e a carestia são resultados direto do processo de recolonização do Brasil imposto pelo imperialismo e uma burguesia sócia e submissa, junto a sucessivos governos, e radicalizado por Bolsonaro, no qual se força o retrocesso do país a mero exportador de matéria-prima para o mercado internacional, beneficiando meia dúzia de grandes multinacionais do agronegócio. Isso explica que, num momento em que se prevê uma safra recorde de grãos de mais de 258 milhões de toneladas, e recordes na exportação, tantos brasileiros passem fome.

Quase a totalidade da produção agropecuária não vai para alimentar a população, mas para abastecer o mercado lá fora. Ou seja, não se transforma em comida na mesa do povo, mas em matéria-prima para a produção de ração animal, ou outros produtos industrializados. Para se ter uma ideia, 89% da produção de grãos do país se resumem a soja e milho, grande parte disso ração. Já a produção de proteína animal, da qual o Brasil é o segundo maior exportador mundial, também vai para a exportação, e o que resta é vendido aqui para o povo com preços inflacionados, a tal ponto que comer carne virou um luxo para poucos.

Para continuar atendendo os interesses do agronegócio, o governo Bolsonaro destina bilhões a financiamentos subsidiados ao setor, ataca o meio ambiente e ameaça a existência dos povos originários.

Por outro lado, o desemprego, a precarização do trabalho e a retirada de direitos impõem salários cada vez mais rebaixados. A inflação, neste sentido, é uma forma de, na outra ponta, confiscar parte cada vez maior dos salários da classe trabalhadora. É a imposição um novo patamar de superexploração em benefício das grandes empresas e multinacionais que controlam a economia do país. É a saída do imperialismo e da burguesia de, num momento de crise do capitalismo, manter e turbinar seus lucros.

O resultado disso é que, num momento em que o agronegócio lucra como nunca e o Brasil volta ao ranking das 10 maiores economias do mundo, a fome e a insegurança alimentar atinjam mais da metade da população, e o empobrecimento avance de forma inédita, principalmente entre os mais explorados e oprimidos.

 

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