sex ago 12, 2022
sexta-feira, agosto 12, 2022

Debate sobre a Ucrânia com o “Birô Político da IV Internacional” e Gilbert Achcar

O direito da resistência ucraniana de exigir armamento a todos os governos

Recentemente, o “Birô Político da IV Internacional” (nome atual da corrente conhecida como SU-Secretariado Unificado) publicou uma declaração sobre a guerra na Ucrânia. Nela definem a invasão do exército russo ordenada pelo regime de Vladimir Putin como uma “agressão” e apoiam a resistência ucraniana em sua luta pela autodeterminação e independência do país e que o “melhor cenário possível” seria “A derrota do invasor russo nas mãos do povo ucraniano”.[1] 

Por: Alejandro Iturbe

Inclusive, algumas figuras públicas desse espaço político realizaram uma viagem de solidariedade à Ucrânia (entre eles, o ex-candidato presidencial do NPA francês, Olivier Besancenot), como parte da Rede Europeia de Solidariedade com a Ucrânia e contra a guerra[2], poucos dias depois da realização do Comboio de Apoio à Resistência Ucraniana do qual participaram sindicalistas e ativistas de vários países: Brasil, França, Itália, Polônia, Lituânia e Áustria (entre eles, militantes da LIT-QI), assim como da resistência na Ucrânia[3].

Saudamos a posição desta organização internacional já que nos localiza no mesmo campo diante desta guerra (o da resistência do povo ucraniano), diferenciando-nos daquelas organizações de esquerda que apoiam a agressão de Putin ou daquelas que “não têm lado” neste conflito[4].

No marco desta coincidência central, queremos desenvolver fraternalmente, por um lado, um debate sobre a caracterização do contexto internacional no qual esta guerra ocorre, por outro, sobre as contradições, ambiguidades e omissões que a declaração apresenta quando deve propor a questão do armamento para a resistência, uma questão central em uma guerra.

O que é a Rússia de Putin hoje?

A declaração define que o contexto da guerra é a disputa entre dois polos imperialistas (a OTAN e a Rússia) que embora até agora “tenham evitado qualquer confronto direto que possa derivar em uma guerra interimperialista”, tal guerra “poderia ser o resultado de uma espiral descontrolada”. Mais adiante retomaremos a questão desta guerra hipotética. Nesta questão, queremos partir do debate sobre qual localização a Rússia tem atualmente na “hierarquia de nações” da qual falava Lênin em seu livro O imperialismo, fase superior do capitalismo e do papel do regime de Putin nesse contexto.

Durante a Segunda Pós Guerra, a ex-URSS chegou a ser a segunda potência econômica mundial, com uma grande base industrial. Depois da restauração do capitalismo e da dissolução da URSS, grande parte da base industrial russa foi desmantelada (apenas permaneceu intacto o “complexo industrial militar”). A Rússia se transformou em um grande exportador de gás e petróleo e, em menor medida, de cereais e minérios. Por isso, o New York Times definia este país como “um grande posto de gasolina[5]. O núcleo de oligarcas burgueses que o regime de Putin expressa é o grande beneficiário nacional deste modelo de acumulação capitalista.

Um modelo que tem uma completa dependência financeira do imperialismo europeu (em especial da Alemanha). Sem o fluxo de fundos da União Europeia (UE), a economia russa pararia. Por exemplo, a principal empresa do país, a estatal exportadora de gás Gazprom está endividada acima de seu valor de capital (como outras empresas de grande importância)[6]. Ou seja, a Rússia não é um Estado imperialista mas um país capitalista, muito dependente do imperialismo. Não por acaso as sanções econômicas aplicadas pela invasão, sem ir realmente a fundo, estão atingindo duramente a economia russa.

Ao mesmo tempo, o regime ditatorial de Putin tem uma autonomia política relativa e, fundamentalmente, autonomia militar. Por isso, sendo um agente da dependência financeira da Rússia com o imperialismo e parte do campo contrarrevolucionário junto com este, o regime de Putin e os setores burgueses que expressa, aspiram a manter uma “área própria de influência” nas repúblicas da ex União Soviética e em algumas do ex Bloco do Leste, como a Sérvia, nas quais quer ser o intermediário do processo de aprofundamento do domínio imperialista.

Entretanto, a Rússia atual não tem a potência econômica necessária para fazê-lo “por bem”. Por isso, cada vez mais, Putin deve apelar para a repressão dos regimes aliados e às ações militares. Por exemplo, teve que intervir para salvar os regimes da Belarus e Cazaquistão dos processos revolucionários que os enfrentavam.

A invasão à Ucrânia (um Estado em disputa) se enquadra na mesma necessidade. Em um sentido, continua a resposta que teve depois que a revolução democrática de Maidan (2013/2014) derrubasse o regime aliado de Viktor Yanukovich e instalasse um regime democrático burguês. Ou seja, a anexação da Crimeia e a criação das “repúblicas” artificiais de Lugansk e Donetsk.

Reiteramos que consideramos que a Rússia não é um país imperialista e não vemos Putin questionar seu papel na divisão mundial do trabalho, mas defender seu espaço próprio como intermediário do domínio imperialista. Porém o que foi tolerado e aceito pelos imperialismos estadunidense e europeus no caso da Belarus e do Cazaquistão já não o é no caso da Ucrânia, e poderá ser suicida.

E se a OTAN atacar a Rússia?

Como vimos, esta diferença sobre a caracterização da Rússia não nos impede de ter uma posição comum sobre a guerra atual (apoio à resistência ucraniana), porque ambas as organizações temos a caracterização de que há um país opressor/agressor (Rússia) e um país oprimido/agredido (Ucrânia). Entretanto, assumiria uma importância central se a guerra mudasse seu caráter e se transformasse em um enfrentamento direto entre a OTAN e a Rússia e, neste contexto, essa aliança militar atacasse esse país.

Para nós, nesta situação, teria que se defender a Rússia, porque significaria a agressão da OTAN imperialista contra um país mais débil e dependente (Rússia). Ou seja, estaríamos pela derrota da OTAN. Pelo contrário, como a caracterização da declaração do “Birô Político da IV Internacional” é que esta seria “uma guerra interimperialista”, a posição deveria ser o “derrotismo revolucionário” em ambos os lados, defendido por Lênin frente à Primeira Guerra Mundial. Ou seja, “a derrota do próprio imperialismo é o mal menor” e orientava o partido bolchevique russo a “transformar a guerra interimperialista em guerra revolucionária de classes”[7].

A declaração se opõe a qualquer escalada que possa transformar esta guerra em um enfrentamento interimperialista direto”. Esta posição é correta, no marco da caracterização que utiliza e no momento atual da guerra da Ucrânia. Entretanto, omite fixar uma posição revolucionária clara se essa guerra hipotética ocorrer.

Uma questão chave: o armamento

Em todo caso, isto é algo que só teria importância em um futuro. Por isso, acreditamos que muito mais importante é outra ausência na declaração: a falta de resposta a como a resistência ucraniana deve obter armas, uma questão chave em uma guerra na qual queremos que triunfe.

Por um lado, a declaração propõe corretamente: “apoiamos seu direito a resistir, inclusive militarmente, e nos solidarizamos com sua decisão de fazê-lo. Defendemos seu direito a se armar e, portanto, a receber as armas necessárias para resistir contra um exército muito mais poderoso”.

A pergunta que surge de imediato é de quem a resistência ucraniana tem “o direito de receber armas” ou, o que é o mesmo, a quem tem direito de exigir que as entreguem. Intimamente ligada a esta questão, qual deve ser a política das organizações revolucionárias frente aos governos que podem fornecer essas armas?

Neste ponto, o “Birô Político da IV Internacional” entra em uma profunda contradição. Por um lado, destaca que a resistência ucraniana “recebeu envios de armas, ajuda humanitária e inteligência de países da UE e a OTAN”, que essa ajuda contribuiu para” os primeiros êxitos desta resistência” e aumentou “as esperanças ucranianas de derrotar o agressor russo”. Por outro, ao mesmo tempo, denuncia “o objetivo evidente dos dirigentes dos Estados Unidos e da UE de transformar a guerra em função de seus próprios interesses[…] Pretendem usar o campo de batalha da Ucrânia para a realização de seus objetivos geopolíticos”.

Esta forma de focar a questão do armamento acaba colocando esta organização em um beco sem saída: como apoiar o direito da resistência ucraniana em se armar quando, ao mesmo tempo, os governos dos países que podem fornecer essas armas (integrantes da OTAN) pretendem usar essa resistência para seus “objetivos geopolíticos” imperialistas?

A resposta da declaração é guardar silêncio. Por isso, na parte em que propõe as tarefas para os trabalhadores e as massas dos outros países fora da Ucrânia e da Rússia (em especial aqueles pertencentes à UE e à OTAN, onde o “Birô Político da IV Internacional” tem suas maiores forças) não diz uma palavra sobre a questão do armamento para a resistência ucraniana. Expressa o “apoio à resistência armada” e a todas “as iniciativas que contribuam para reforçá-la”, porém, insistimos, nenhuma palavra sobre como obter o armamento necessário para isso.

Se na declaração predomina o silêncio sobre esta questão chave, Gilbert Achcar (uma das referências desta organização em questões de política internacional) expressa com muito mais clareza a posição subjacente por trás desta ausência.  Em um artigo publicado recentemente, ele expressa: “O povo ucraniano trava uma guerra justa contra uma invasão imperialista e, portanto merece nosso apoio”. Entretanto, em seguida acrescenta que esse povo “não tem o direito de envolver diretamente outros países em sua defesa nacional: não tem direito de exigir da OTAN…que lhe envie armas e equipamentos suscetíveis de ampliar o alcance da guerra. Merece nosso apoio, mas isso não é mais que uma obrigação moral”.[8](Negrito nosso)

Desta forma, Achcar elimina a contradição que analisamos antes: a resistência ucraniana é justa, porém não tem o direito de exigir armas dos governos de outros países para equilibrar a grande desigualdade militar que tem frente ao exército russo. Por isso, o apoio que Achcar concede é apenas “moral”. Ou seja, apenas de palavra, limitado a manifestações nos outros países ou ao envio de delegações solidárias. A respeito da questão chave do armamento, a mensagem é que o central já não é o triunfo da resistência ucraniana, mas  passou a ser evitar que “o alcance da guerra se amplie “.

Qual deve ser uma posição revolucionária frente à questão do armamento?

Nosso raciocínio político e suas conclusões são muito diferentes. Partimos da consideração de que se trata de uma guerra na qual apoiamos um dos lados sem duvidar: a resistência de um povo que combate seu inimigo em grande desigualdade de condições. Então, reiteramos, a questão do armamento e dos suprimentos militares passa a ser uma questão central para materializar esse apoio.

Por isso, tal como diversas declarações da LIT-QI expressam, apoiamos ativamente os esforços dos ucranianos para obter armas e suprimentos para se defender. Nesse contexto, acreditamos que é totalmente correto mobilizar-se para exigir de todos os governos (inclusive dos países integrantes da OTAN) que entreguem à resistência ucraniana as armas e todos os materiais necessários (munições, alimentação, medicamentos) diretamente e sem nenhuma condição.

Queremos evitar falsas polêmicas. Somos totalmente contra a entrada da OTAN no conflito, exigimos sua dissolução e denunciamos a “corrida armamentista” que vários de seus Estados membros estão desenvolvendo, como a Alemanha. O que dizemos é que temos que exigir desses governos que, ao invés de fortalecerem cada vez mais essa ferramenta militar imperialista, entreguem as armas à resistência ucraniana direta e incondicionalmente.

Nas condições atuais, consideramos que esta é uma tarefa chave para propor ao resto do mundo e, especialmente, nos países imperialistas membros da UE e da OTAN. É a forma concreta não apenas de apoiar a resistência ucraniana em sua luta contra a invasão russa, mas também de combater profundamente a OTAN.  A posição do “Birô Político da IV Internacional” e de Gilbert Achcar, por um lado acaba favorecendo a superioridade militar russa e, por outro, coloca o combate contra a OTAN em um plano totalmente abstrato (“moral”, diria Achcar).

A tradição do trotskismo

Ao adotar esta posição do direito da resistência ucraniana de exigir armas a governos de outros países, por um lado, e a obrigação dos revolucionários desses países de apoiar essa exigência, por outro, não fazemos mais que seguir uma tradição do trotskismo, uma vez que definimos que se trava uma “guerra justa”.

Durante a Guerra Civil Espanhola, é muito conhecido o fato de que Trotsky elogiou a decisão do governo mexicano de Lázaro Cárdenas de enviar armas para o governo republicano que lutava contra as forças de Francisco Franco (foi o único país do mundo, fora da URSS, em fazê-lo) [9]. Naqueles mesmos anos, em um debate contra uma corrente do Partido Socialista dos EUA, que se negava a apoiar a luta do campo republicano contra Franco, Trotsky usava o exemplo de dois hipotéticos barcos que saíssem, a partir dos EUA ou da França, com armas para a Espanha: um deles destinado ao governo republicano e o outro às forças franquistas. “Qual deveria ser a atitude dos trabalhadores [desses países imperialistas]?”, se perguntava. Sua resposta era muito clara: boicotar o destinado a Franco e deixar passar o destinado ao governo republicano[10].

Continuando com a Guerra Civil Espanhola, Trotsky elogia “um excelente artigo” de um de seus secretários, Rudolf  Klement, “Princípios e táticas na guerra” (que ajudou a editar em sua versão final). Neste artigo se expressa: “Nos países imperialistas, que estão aliados com os países que estão travando guerras progressivas e revolucionárias, tudo se reduz a isto: que o proletariado lute com meios revolucionários por um apoio militar direto, efetivo, controlado por este, para a causa progressiva (‘aviões para a Espanha!’ gritavam os operários franceses). Em todo caso, este deve promover e controlar um apoio militar direto realmente garantido (o envio de armas, munições, alimentos, especialistas, etc.), inclusive a custo de uma “exceção” da luta de classes direta”[11].

A questão fica muito nítida: em “guerras progressivas” é válido que os trabalhadores dos países imperialistas exijam “apoio militar direto e efetivo…  para a causa progressiva…”. Nesse marco, trata-se de lutar “com meios revolucionários” para que o proletariado possa controlar o processo. A política que o “Birô Político da IV Internacional” e Gilbert Achcar propõe, não tem nada a ver com a que Klement e Trotsky formularam.

Sobre a “ampliação do alcance da guerra”

De fato, eles mudaram o eixo de sua política de um verdadeiro apoio à resistência ucraniana para o de evitar que “o alcance da guerra se amplie”. O que significa este conceito? Imaginamos que isto não significa que estejam contra que a resistência ucraniana realize ataques fora de seu território sobre bases de suprimento e apoio do exército invasor, localizadas em território russo, ou que ataque o sistema de mísseis apontando para a Ucrânia que Putin instalou em Belarus[12].

Interpretamos que se refere a uma mudança do caráter da guerra no próprio território ucraniano. Ou seja, que deixe de ser uma guerra justa de libertação, para transformar-se em um episódio de uma guerra interimperialista entre a OTAN e Rússia. A ideia subjacente no texto de Achcar é que, com o envio de armas para a resistência ucraniana por parte dos governos dos países integrantes da OTAN, esta mudança já estaria ocorrendo e, por isso, tem que opor-se a isso (ou, no mínimo, não apoiar).

Já vimos qual era o critério de Klement-Trotsky sobre esta questão do armamento. Mas há um debate muito semelhante a este no qual a IV Internacional (Trotsky já havia falecido) fixou uma posição: a guerra chino-japonesa. Este conflito bélico começou antes da Segunda Guerra Mundial, em 1937, quando o exército japonês invadiu e ocupou vários territórios chineses. A invasão começou a enfrentar a resistência nacional chinesa expressa em duas vertentes diferentes: a do exército do governo republicano burguês liderado pelo general ChiangKai-shek e a do exército comunista de camponeses, liderado por Mao Zedong. A superioridade do armamento japonês era muito grande.  Naqueles momentos, Trotsky escreveu: “Se existe no mundo uma guerra justa, essa é a guerra do povo chinês contra seus opressores”[13]

Em 1939, iniciou-se a Segunda Guerra Mundial. Depois do ataque à base estadunidense de Pearl Harbor, no Havaí (7 de dezembro de 1941), os Estados Unidos e a Grã Bretanha declararam guerra ao império japonês e o governo chinês se incorporou aos Aliados. A realidade combinou a guerra de libertação dos territórios chineses com a guerra interimperialista do Pacífico oriental[14]. Os Estados Unidos começaram a enviar armamento e suprimentos, e a treinar oficiais do exército de ChiangKai-shek, o que melhorou sua capacidade militar e lhe permitiu começar a lançar algumas ofensivas. Além disso, tropas chinesas participaram da recuperação da Birmânia junto às forças britânicas e estadunidenses.

Nesse contexto, nos EUA, desenvolveu-se um debate entre o SWP (Socialist Workers Party, seção da IV Internacional) e alguns dirigentes que tinham rompido com o partido alguns anos antes. Estes sustentavam que, desde que o governo burguês de Chiang integrou-se aos Aliados e estes o apoiavam militarmente, já não se tratava de uma guerra justa de libertação, mas de uma frente a mais da guerra interimperialista e, portanto, na China, tinha que se propor o “derrotismo revolucionário”.

Um extenso artigo de John G. Wright (membro do Comitê Nacional do SWP), publicado na revista Fourth International (em abril de 1942) responde a esta posição. Depois de analisar o porquê, baseado nas posições de Lênin, Trotsky e dos trotskistas que tinham apoiado a China, Wright aborda os critérios para considerar se a guerra tinha mudado seu caráter com o apoio dos EUA à China:

“Qualquer um que se oponha ao apoio da guerra da China contra o Japão, primeiro deve demonstrar que o elemento nacionalista na guerra da China contra o Japão não tem um significado sério em comparação com a intervenção direta dos ‘Aliados’ imperialistas da China. […]Entretanto, para propor a questão de uma mudança no caráter da guerra da China, em primeiro lugar é necessário demonstrar que a relação de forças inclinou-se inquestionavelmente a favor dos imperialistas. Este é o cerne da questão”[15].

Frente a estes critérios, a posição de Wright, do SWP e da IV Internacional é muito definida: o fato de um governo imperialista enviar armas e suprimentos (inclusive instrutores e apoio logístico) às forças chinesas  não modificava o caráter de guerra justa de resistência nacional. Nem sequer modificava que essa guerra ocorresse de modo combinado com a guerra interimperialista do Pacífico oriental. O “Birô Político” pode usar o nome da IV Internacional e reivindicar-se como sua continuidade, mas a verdade é que, há muitos anos, abandonou suas bases teóricas, políticas e programáticas.

A verdadeira política dos países da OTAN e suas contradições

Na realidade, o “Burô Político” e Achcar nem sequer caracterizam corretamente a política dos EUA e dos países imperialistas da Europa nesta guerra e, nesse marco, suas contradições (entre EUA-Grã Bretanha, por um lado, e Alemanha-França, por outro).

Depois da restauração do capitalismo na Europa do Leste, o imperialismo estadunidense aceitou que as potências europeias (comandadas pela Alemanha e França) fossem as principais beneficiárias de sua semicolonização e que tivessem uma “coexistência pacífica” com Putin, que lhes fornecia parte importante do gás e petróleo que precisavam.

Joe Biden muda profundamente esta política: em seu discurso de posse, localizou o enfrentamento com o regime de Putin como seu segundo objetivo internacional, depois da China. Após a invasão à Ucrânia, declarou que o presidente russo “não podia continuar no poder”[16]. Esta é uma resposta ao fato de que Putin chutou o balde da coexistência pacífica. Mas, acreditamos que também expresse uma questão muito mais profunda: um setor da burguesia imperialista estadunidense quer entrar diretamente na semicolonização da Ucrânia e também da Rússia, sem a mediação da Alemanha e da UE e, menos ainda, de Putin.

Isto gerou importantes contradições com os imperialismos europeus, que a guerra na Ucrânia mostrou com maior clareza. Embora tenha havido pleno acordo na não intervenção direta da OTAN, surgiram diferenças tanto na questão das sanções econômicas quanto no fornecimento de armas à resistência, especialmente com a Alemanha [17]. Refletiam tanto o desgosto com a política de Biden de entrar diretamente na semicolonização da Europa do Leste como a dependência da UE do fornecimento de gás russo.

Assim, a ação de Putin obrigou a Alemanha a aproximar-se cada vez mais da posição de Biden-Boris Johnson. Mas a política do setor mais duro das potências imperialistas não é “ampliar o alcance da guerra”, mas, por um lado, fornecer armas à resistência ucraniana, de modo limitado, para estender a duração da guerra e, por outro, aplicar sanções econômicas mais duras, que desgastem Putin.

Eles não querem um triunfo categórico da resistência ucraniana, que provocaria uma crise agudíssima no regime de Putin e sua possível queda. Abriria o risco de processos revolucionários não apenas na Ucrânia mas também na Rússia sem que o imperialismo tenha tempo de uma reposição controlada. Estes processos impactariam, sobretudo a Europa do Leste e também no Ocidente do continente.

Essa é a perspectiva pela qual lutamos a partir da LIT-QI e na qual marcamos nossa política. Por isso, seguindo os critérios de Klement-Trotsky, nos EUA e nos países imperialistas da Europa, dizemos “mais e melhores armas para a resistência ucraniana”. O “Burô Político da IV Internacional”, embora afirme que o “melhor cenário possível” seria “a derrota do invasor russo nas mãos do povo ucraniano”, nos propõe uma política que conspira contra esta possibilidade.

O povo ucraniano luta heroicamente contra a invasão ordenada pelo regime de Putin e as atrocidades que está levando a cabo. Já lhe infringiu derrotas significativas. Demonstrou que a máquina de guerra russa pode ser derrotada e, com isso, derrotar um importante colaborador da contrarrevolução no mundo. Por isso, a luta do povo ucraniano não é apenas pelo seu país: uma derrota do regime de Putin nesta invasão daria um grande impulso à luta dos trabalhadores e das massas na região e em todo o mundo. Esta é hoje a luta de todos os trabalhadores do mundo.

[1]https://fourth.international/es/566/europa/447

[2] https://vientosur.info/olivier-besancenot-sobre-la-guerra-en-ucrania-en-la-izquierda-opera-una-especie-de-paralisis-politica/

[3]https://litci.org/pt/csp-conlutas-vai-a-ucrania-com-comboio-operario-internacional-e-realiza-entrega-de-donativos/

[4] https://litci.org/pt/polemica-sobre-a-consigna-nao-a-guerra-na-ucrania/

[5] https://www.nytimes.com/es/2022/02/23/espanol/rusia-ucrania-economia.html

[6] Sobre esta questão, recomendamos ler El endeudamiento externo de Rusia: dinámica, estructura y riesgos en las condiciones de las sanciones económicas de los países de occidente, de Tatiana Sidorenko en: https://www.redalyc.org/journal/599/59947016001/

[7] Ver LENIN, V.I., El socialismo y la guerra (1915) en https://www.marxists.org/espanol/lenin/obras/1910s/1915sogu.htm

[8] ACHCAR, Gilbert, “La diferencia entre ayudar a Ucrania a defenderse y practicar una política belicista”. Tomado de la versión en español publicada por Viento Sur en https://vientosur.info/(16/05/2022).

[9] Sobre este fato, ver https://elpais.com/diario/2005/05/29/domingo/1117338759_850215.html

[10] Sobre este exemplo ver o artigo “Contra el ‘derrotismo’ en España” del 14/9/1937 en https://ceip.org.ar/Contra-el-derrotismo-en-Espana

[11]Rudolf Klement (1937): Principios y tácticas en la guerra (marxists.org)

[12] https://www.dw.com/es/ucrania-rusia-emplaza-sistema-de-misiles-en-bielorrusia/a-61324471

[13]Ouevres, 14, 30/07/1937, p. 216.

[14] Sobre esta questão, recomendamos ler https://litci.org/es/la-naturaleza-de-la-segunda-guerra-mundial-iii/

[15] WRIGHT, John G., “Whywedefend China?”, en:https://www.marxists.org/history/etol/writers/wright/1942/04/china.htm(original en inglés, traducción nuestra)

[16]El Kremlin responde: Quien gobierne Rusia no es decisión de Biden | Video | CNN

[17] https://noticias-do-brasil.com/internacional/2022/04/25/alemanha-promete-decisao-rapida-sobre-envio-de-armas-pesadas-para-a-ucrania.html Tradução: Lilian Enck

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