dom jan 29, 2023
domingo, janeiro 29, 2023

Porque devemos apoiar a resistência ucraniana

Uma gigantesca mobilização popular é parte da resistência à invasão, civil e militar, e é a causa primeira desta derrota até agora sofrida pelas tropas russas.

Por Cristina Portela

Ao entrar no seu segundo mês, a invasão das tropas russas à Ucrânia sofreu a sua primeira derrota. Sem conseguir entrar em Kiev, e depois de sofrer pesadas baixas, o exército russo foi obrigado a retirar, abandonando o objetivo de conquistar todo o país e instalar um governo fantoche na capital ucraniana.

O exército invasor concentra-se agora no Leste da Ucrânia, consolidando as suas posições no Donbass e procurando garantir uma faixa de território que ligue as duas autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Luhansk à Crimeia, já anexada por Moscovo.

Como explicar esse primeiro fracasso fragoroso de um exército respeitado e temido em todo o mundo?

Resistência popular

Putin não levou em conta, nos seus planos de guerra, a vontade e a determinação do povo ucraniano de derrotar os invasores. Longe de ser uma tropa desmoralizada e temerosa, o exército ucraniano demonstrou estar de moral elevada, porque se apoia num sentimento de revolta capaz de unir a grande maioria da população.

Além disso, não é só o exército que está a mobilizar-se. São os milhares de ucranianos que se alistam nas unidades de defesa territorial. São outros milhares organizados em grupos de entreajuda para abrigar em cidades mais seguras os habitantes das zonas conflagradas; outros responsáveis por fazer com que o abastecimento chegue a todos, fazendo entregas de alimentos nas casas dos mais velhos ou de pessoas com deficiência; outros ainda oferecem transporte nos seus carros para conduzir às fronteiras da Ucrânia refugiados que procuram pôr os seus filhos em segurança.

Desta resistência faz parte também a mobilização de milhares de corajosos cidadãos e cidadãs russas que têm demonstrado a sua oposição à guerra, reivindicando o fim da invasão e o regresso das tropas. Mais de 15 mil foram presos em manifestações de rua.

O caráter da guerra

Os ucranianos que pegam em armas ou participam em outras formas de resistência à invasão e os russos que pedem o regresso imediato das tropas travam combates diferentes, mas com a mesma natureza e objetivo. É que, ao contrário de uma guerra interimperialista, como foi a I Guerra Mundial, em que as potências em guerra lutavam por conquistas territoriais e o controlo de riquezas, a guerra da Ucrânia é uma agressão de uma potência militar, a Rússia, que procura anexar o país mais pobre da Europa.

Antes de começar a invasão, Putin deixou bem claro que pretendia reviver o Império czarista, afirmando que os ucranianos eram russos (de onde se subentende que a Ucrânia não devia existir) e que o “inventor” da Ucrânia foi Lenine, ao defender o direito à autodeterminação dos povos. Perante a derrota militar, que o impediu de anexar toda a Ucrânia, Putin procura agora garantir conquistas territoriais antes de encerrar a guerra.

Assim, nesta guerra há claramente uma potência regional, a Rússia, que procura dominar um país pobre e dependente. A Ucrânia é o país invadido. Não podemos tratá-los como se fossem iguais. Os ucranianos não lutam por conquistas territoriais nem querem subjugar outros povos. Defendem a sua soberania e integridade territorial contra o invasor. Por isso, travam uma guerra justa que deve ser apoiada.

Resistência armada

Apoiar a Ucrânia na atual guerra significa defender a entrega de armas ao Estado ucraniano, mesmo sabendo que elas provêm da NATO. Não o admitir levar-nos-ia a cair numa total incoerência: somos a favor da resistência ucraniana, mas opomo-nos a que ela tenha sistemas de defesa aérea terra-ar ou armas antitanque. Isto é: apoiamos a luta, mas não queremos que ela tenha meios de defesa diante de um dos maiores exércitos do mundo. Isto é: pediríamos aos ucranianos que atacassem os tanques com as suas mãos ou com armas ligeiras?

Há quem argumente que os ucranianos devem ter armas, mas que estas não podem vir dos imperialistas norte-americanos ou da NATO. Mas quem seriam então os fornecedores? Os traficantes internacionais de armas, donos do negócio mais lucrativo do mundo?

Há ainda os que, em alternativa ao fornecimento de armas, defendem exclusivamente as negociações de paz. De uma forma ou de outra, o acordo que sair dessas negociações irá consagrar quem estiver em melhor posição no terreno. Se a guerra fosse interrompida quando as tropas russas cercavam Kiev, as negociações teriam como consequência o reconhecimento da vitória de Putin. Por isso, qualquer movimento antiguerra e pela paz deve partir de uma premissa: a exigência da retirada das tropas russas de todo o território ucraniano.

As (falsas) razões dos que defendem Putin
Em quase dois meses de guerra na Ucrânia, sucedem-se cenas de terror em que as vítimas são mulheres, crianças e velhos – a população civil desarmada.

Um teatro e uma maternidade são bombardeados em Mariupol; centenas de cadáveres são encontrados em Butcha, cidade dos arredores de Kiev; a estação de comboios de Kramatorsk, no Donbass, é atingida por mísseis, causando mais de 50 mortos, entre os quais 5 crianças. Mesmo diante desse mar de sangue, há muitos que ainda defendem a invasão russa, de forma direta ou mais disfarçada.

Para esses, o presidente russo, Vladimir Putin, teria sido forçado a isso devido à presumível integração da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), destino de vários países do extinto Pacto de Varsóvia; há os que acreditam na justificativa de Putin de que as tropas russas entrariam na Ucrânia para libertá-la dos nazistas; outros argumentam que haveria duas guerras em simultâneo, uma de agressão russa contra a Ucrânia e outra, mais perigosa, entre os EUA/Nato e a Rússia, em que os primeiros seriam os agressores.

Deixemos de lado a justificativa da caça aos nazistas ucranianos que só convence os mais ingénuos. Afinal, Putin era até há pouco tempo o queridinho da extrema-direita europeia e recebeu o presidente brasileiro Jair Bolsonaro de braços abertos. Nas suas intervenções militares, seja na Síria ou na Chechénia, adotou métodos fascistas, em que o exército russo bombardeava, indistintamente, combatentes armados e população civil. Como agora na Ucrânia.

Fixemo-nos no primeiro e no último argumento dos defensores de Putin.

O cerco da Nato

O cerco da Nato e dos EUA à Rússia é o argumento clássico dos “campistas” – aqueles que, dentro da “esquerda”, dividem o mundo entre os bons, isto é, os russos e os seus aliados, mesmo que já tenham se convertido ao capitalismo há décadas, e os maus, que são todos os outros, liderados pelos EUA. Dentro da lógica “campista”, é preciso escolher em qual dos campos se situar. Dessa forma, apoiam (com algumas variações) ditaduras, como China, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela ou a própria Rússia.

Por essa lógica, a pressão feita sobre a Ucrânia para que adira à União Europeia e à Nato ou simplesmente mantenha-se na esfera de influência “ocidental” é razão suficiente para desculpar a invasão. A soberania da Ucrânia e o direito democrático do seu povo de decidir o seu destino são simplesmente ignorados e subordinados ao interesse russo de mantê-los sob o seu controlo.

A tese das duas guerras
Não há duas guerras na Ucrânia – como também não houve no Vietname ou na Síria, isso apesar de lá também estarem presentes os interesses conflituantes de Rússia e EUA. Por esse critério, todas as guerras seriam interimperialistas, inclusive as de libertação das colónias no pós-Segunda Guerra Mundial, o que é claramente um erro.

Na guerra atual, só existe um lado que pretende ter ganhos territoriais à custa de território alheio e tinha como objetivo anexar a Ucrânia. Um objetivo ao qual renunciaram explicitamente graças à resistência ucraniana.

A invasão da Ucrânia por Putin e a defesa, seja frontal ou encapotada, que fazem dela ativistas ou correntes políticas ligadas aos trabalhadores é justamente o que fortalece a Nato e os imperialismos norte-americano e europeu. Frente às barbaridades cometidas na Ucrânia, dá jeito a Joe Biden, Ursula von der Leyen ou António Costa posar de defensores da democracia e dos povos oprimidos.

 

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