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terça-feira, abril 23, 2024

Trotsky | Aprendam a pensar

Uma sugestão amistosa para certos ultraesquerdistas [1]

Leon Trotsky, 22 de maio de 1938

Certos fraseólogos ultraesquerdistas profissionais tentam a todo custo “corrigir” as teses do secretariado da Quarta Internacional sobre a guerra, de acordo com seus próprios preconceitos ossificados. Atacam especialmente a parte das teses que afirma que, em todos os países imperialistas, o partido revolucionário, permanecendo em oposição irreconciliável com seu próprio governo em tempo de guerra, deve, no entanto, moldar sua política prática em cada país de acordo com a situação interna e os agrupamentos internacionais, diferenciando claramente um Estado operário de um burguês, um país colonial de um imperialista.

“O proletariado de um país capitalista que está em aliança com a URSS[2] [afirmam as teses] deve manter totalmente sua hostilidade irreconciliável contra o governo de seu próprio país. Nesse sentido, sua política não difere da do proletariado de um país que luta contra a URSS. Mas na natureza das ações práticas, diferenças consideráveis ​​podem surgir dependendo da situação concreta da guerra.” [A Guerra e a Quarta Internacional, em Escritos 1933-34]

Os ultraesquerdistas consideram este postulado, cuja exatidão foi confirmada por todo o desenrolar dos acontecimentos, como o ponto de partida… do social-patriotismo.[3] Como a atitude em relação aos governos imperialistas deve ser “a mesma” em todos os países, esses estrategistas apagam qualquer distinção além das fronteiras de seu próprio país imperialista. Teoricamente, seu erro decorre de tentar construir, fundamentalmente, bases diferentes para políticas em tempo de guerra e em tempo de paz.

Suponhamos que amanhã irrompa uma rebelião na colônia francesa da Argélia sob a bandeira da independência nacional e que o governo italiano, motivado por seus próprios interesses imperialistas, se prepara para enviar armas aos rebeldes. Qual deve ser a atitude dos trabalhadores italianos neste caso? Tomei intencionalmente um exemplo de rebelião contra um imperialismo democrático com a intervenção a favor dos rebeldes de um imperialismo fascista. Devem os trabalhadores italianos evitar enviar armas aos argelinos? Deixemos que os ultraesquerdistas ousem responder afirmativamente a esta pergunta. Qualquer revolucionário, junto com os trabalhadores italianos e os rebeldes argelinos, repudiaria tal resposta com indignação. Mesmo que, ao mesmo tempo, explodisse uma greve geral marítima na Itália fascista, os grevistas teriam que abrir uma exceção para os navios que transportassem ajuda aos escravos coloniais em rebelião; caso contrário, não passariam de vis sindicalistas, não revolucionários proletários.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores marítimos da França, mesmo que não enfrentem uma greve, estarão obrigados a fazer todos os esforços para bloquear o carregamento de munições destinadas a serem usadas contra os rebeldes. Somente tal política, por parte dos trabalhadores italianos e franceses, constitui a política do internacionalismo revolucionário.

No entanto, isso não significa que os trabalhadores italianos estão moderando sua luta, neste caso, contra o regime fascista? De jeito nenhum. O fascismo presta “ajuda” aos argelinos apenas para enfraquecer seu inimigo, a França, e estender sua mão voraz sobre suas colônias. Os trabalhadores revolucionários italianos não se esquecem disso em momento algum. Fazem um chamado aos argelinos para que não confiem em seu “aliado” traiçoeiro e, ao mesmo tempo, continuam sua própria luta irreconciliável contra o fascismo, “o principal inimigo em seu próprio país”. Só assim eles podem ganhar a confiança dos rebeldes, ajudar a rebelião e fortalecer sua própria posição revolucionária.

Se o anterior está correto em tempos de paz, por que deveria ser falso em tempos de guerra? Todos conhecem o postulado do famoso teórico militar alemão Clausewitz, de que a guerra é a continuação da política por outros meios. Esse pensamento profundo leva naturalmente à conclusão de que a luta contra a guerra não é outra coisa que a continuação da luta geral do proletariado em tempos de paz. Em tempos de paz o proletariado rejeita e sabota todos os atos e medidas do governo burguês? Mesmo durante uma greve que cubra toda uma cidade, os trabalhadores tomam medidas para garantir que a comida seja entregue em seus próprios distritos, garantem que tenham água, que os hospitais não sofram e assim por diante. Tais medidas não são ditadas pelo oportunismo em relação à burguesia, mas dizem respeito aos interesses da própria greve, à simpatia das massas submersas da cidade, etc. Estas regras elementares da estratégia proletária em tempos de paz mantêm também todo o seu rigor em tempos de guerra.

Uma atitude irreconciliável contra o militarismo burguês não significa nunca que o proletariado em todos os casos entre em luta contra seu próprio exército “nacional”. Pelo menos os trabalhadores não iriam interferir nos soldados que estivessem combatendo um incêndio ou resgatando pessoas afogadas durante uma inundação; pelo contrário, ajudariam ombro a ombro os soldados e confraternizariam com eles. E o problema não é exclusivo para casos de calamidades naturais. Se os fascistas franceses tentassem hoje um golpe de Estado e o governo de Daladier se visse forçado a mobilizar suas tropas contra os fascistas, os trabalhadores revolucionários, mantendo sua completa independência política, lutariam contra os fascistas ao lado dessas tropas. Assim, em muitos casos, os trabalhadores se vêm forçados não apenas a permitir e tolerar, mas também a apoiar ativamente as medidas práticas do governo burguês.

Em noventa por cento dos casos, os trabalhadores realmente colocam um sinal de menos onde a burguesia coloca um sinal de mais. No entanto, nos dez por cento, eles são obrigados a colocar o mesmo sinal que a burguesia, mas com sua própria marca, expressando assim sua desconfiança nela. A política do proletariado de modo algum deriva automaticamente da política da burguesia, colocando apenas o sinal contrário (isso faria de cada sectário um mestre estrategista). Não, o partido revolucionário deve, a cada vez, orientar-se independentemente tanto na situação interna quanto na externa, chegando às conclusões que melhor correspondam aos interesses do proletariado. Esta regra se aplica tanto ao período de guerra quanto ao período de paz.

Imaginemos que na próxima guerra europeia o proletariado belga tome o poder antes do proletariado francês. Hitler, sem dúvida, tentará esmagar o proletariado belga. Para cobrir seu próprio flanco, o governo burguês da França pode ser forçado a ajudar com armas o governo operário belga. É claro que os soviéticos belgas pegarão essas armas com as duas mãos. Mas, agindo com base no princípio do derrotismo, deveriam os trabalhadores franceses bloquear o envio de armas de seu próprio governo ao proletariado belga? Apenas traidores descarados ou idiotas completos podem raciocinar assim.

A burguesia francesa enviaria armas ao proletariado belga apenas por medo de um maior perigo militar e esperando esmagar mais tarde a revolução proletária com suas próprias armas. Para os trabalhadores franceses, ao contrário, o proletariado belga é o maior apoio na luta contra sua própria burguesia. O resultado da luta decidirá, em última análise, a correlação de forças dentro da qual as políticas corretas entram como um fator muito importante. A primeira tarefa do partido revolucionário é utilizar a contradição entre dois países imperialistas, França e Alemanha, para salvar o proletariado belga.

Os escolásticos ultraesquerdistas não pensam em termos concretos, mas em abstrações vazias. Transformaram a ideia do derrotismo em um vazio semelhante. Não podem ver claramente nem o processo de guerra nem o processo da revolução. Procuram uma fórmula hermeticamente selada que exclua o ar fresco. Mas tal fórmula desse tipo não pode oferecer nenhuma orientação à vanguarda do proletariado.

Levar a luta de classes à sua forma mais elevada – a guerra civil – é tarefa do derrotismo. Mas essa tarefa só pode ser resolvida por meio da mobilização revolucionária das massas, isto é, ampliando, aprofundando e aguçando aqueles métodos revolucionários que constituem o conteúdo da luta de classes em “tempo de paz”. O partido do proletariado não recorre a métodos artificiais como incendiar armazéns, plantar bombas, destruir comboios, etc., com o objetivo de conseguir a derrota de seu próprio governo. Mesmo que tivesse êxito nesse caminho, a derrota militar de modo algum levaria ao sucesso revolucionário, êxito que só pode ser garantido pelo movimento independente do proletariado. O derrotismo revolucionário significa apenas que na luta de classes o partido proletário não se detém diante de nenhuma consideração “patriótica”, porque a derrota de seu próprio governo imperialista, provocada ou acelerada pelo movimento revolucionário de massas, é um mal incomparavelmente menor do que a vitória alcançada com o preço da unidade nacional, isto é, pela prostração política do proletariado. Nisso reside o pleno significado do derrotismo, e esse significado é totalmente suficiente.

É claro que os métodos de luta mudam quando a luta entra abertamente na fase revolucionária. A guerra civil é uma guerra e neste aspecto tem suas leis particulares. Em uma guerra civil, bombardear armazéns, destruir comboios e todas as formas de “sabotagem” militar são inevitáveis. Sua conveniência é decidida exclusivamente por considerações militares; a guerra civil continua a política revolucionária, mas por outros meios, precisamente os militares.

No entanto, durante uma guerra imperialista, pode haver casos em que o partido revolucionário seja forçado a recorrer a métodos técnico-militares, mesmo que ainda não sejam uma continuação direta do movimento revolucionário em seu próprio país. Quando se trata de enviar armas ou tropas contra um governo operário ou uma rebelião colonial, não apenas os métodos do boicote e a greve, mas a sabotagem militar direta pode se tornar prática e obrigatória. Recorrer ou não a tais medidas dependerá das possibilidades práticas. Se os trabalhadores belgas, ao tomarem o poder em tempos de guerra, tiverem seus próprios agentes militares em solo alemão, será dever destes agentes não hesitar diante de qualquer meio técnico para deter as tropas de Hitler. É absolutamente claro que também os trabalhadores revolucionários alemães são obrigados (se puderem) a realizar tarefas para a revolução belga, independentemente do curso geral do movimento revolucionário na própria Alemanha.

A política derrotista, isto é, a política de luta irreconciliável de classes em tempos de guerra, não pode, portanto, ser a mesma em todos os países, assim como a política do proletariado não pode ser a mesma em tempos de paz. Somente a Comintern dos epígonos estabeleceu um regime em que os partidos de todos os países iniciam a marcha simultaneamente com o pé esquerdo. Na luta contra esse cretinismo burocrático tentei provar mais de uma vez que os princípios e tarefas gerais devem ser realizados em cada país de acordo com as condições internas e externas. Este princípio conserva também toda a sua força em tempos de guerra.

Aqueles ultraesquerdistas que não querem pensar como marxistas – é disso que se trata – serão surpreendidos pela guerra. Sua política em tempos de guerra será a fatal consumação de sua política em tempos de paz. O primeiro tiro de artilharia enviará os ultraesquerdistas para a inexistência política ou para o campo do social-patriotismo, exatamente como os anarquistas espanhóis, aqueles absolutos “negadores” do Estado, que pelas mesmas razões se tornaram ministros burgueses quando chegou a guerra. Para realizar uma política correta em tempos de guerra, devemos aprender a pensar corretamente em tempos de paz.

Notas:

[1] Aprendam a pensar. Nova Internacional, julho de 1938.

[2] Podemos deixar de lado aqui a questão do caráter de classe da URSS. Interessa-nos a questão de uma política em relação aos estados operários em geral ou a um país colonial que luta pela sua independência. No que diz respeito à natureza de classe da URSS, recomendamos incidentalmente aos ultraesquerdistas que se olhem no espelho do livro de A. Ciliga, In the Country of the Big Lie. [No país da grande mentira.] O autor ultraesquerdista, sem a menor escola marxista, desenvolve sua ideia até o fim, ou seja, até a abstração anarco-liberal [Nota de Leon Trotsky].

[3] A Sra. Simone Weil escreve inclusive que nossa posição é a mesma de Plekhanov em 1914-1918. Claro, Simone Weil tem o direito de não entender nada. Embora não seja necessário que abuse desse direito. [Nota de Leon Trotsky] Simone Weil (1909-1943): intelectual radical francesa que se converteu ao misticismo e ao catolicismo antes de morrer de fome voluntariamente durante a Segunda Guerra Mundial na Inglaterra. Georgi Plekhanov (1856-1918): fundador do marxismo russo, foi dirigente da facção menchevique em 1903. Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial em 1914, apoiou o governo czarista e depois se opôs à Revolução de Outubro.

Fonte: https://ceip.org.ar/Aprendan-a-pensar

Tradução: Tae Amaru

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