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quinta-feira, fevereiro 29, 2024

Pela derrota militar da Rússia. Basta de racismo aos imigrantes negros na Ucrânia.

A criminosa invasão militar russa à Ucrânia, no dia 24 de fevereiro deste ano, fez da Europa o palco de uma guerra com consequências ainda imprevisíveis. Segundo o Ministério da Saúde ucraniano, em quatro dias de conflitos 2.040 civis ficaram feridos em ataques da Rússia ao país, sendo 45 delas crianças[1]. Segundo o Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU), em seis dias de guerra, o número de refugiados da Ucrânia ultrapassa a marca de 677 mil pessoas[2].

Por Wagner Miquéias F. Damasceno – Secretaria Nacional de Negras e Negros do PSTU (Brasil)

O número de mortos, feridos e refugiados da Ucrânia prova que estamos diante de uma grande crise humanitária, e não poderia ser de outra maneira, já que a segunda potência militar mundial agrediu covardemente uma nação independente e que não possui condições materiais de fazer frente às tropas inimigas.

Por isso, nós da Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI) estamos a favor da derrota militar da Rússia de Vladimir Putin e defendemos uma Ucrânia unificada e livre da opressão russa.

Mas, como não poderia ser diferente sob o capitalismo, em meio a essa tragédia humanitária na Ucrânia, o racismo e a xenofobia atuam de forma escancarada e violenta impedindo que refugiados negros e árabes consigam deixar o país em busca de refúgio político nos países vizinhos.

Dizemos que não poderia ser diferente porque as opressões raciais e xenofóbicas não entram em suspensão quando há pandemias ou guerras, ao contrário: elas aprofundam o drama da classe trabalhadora, dividindo o proletariado em campos hostis no momento em que a união se torna ainda mais necessária.

A via crucis dos refugiados negros

            Segundo um estudante nigeriano que estava imigrado na Ucrânia, há uma espécie de “hierarquia racial” que coloca os homens e mulheres negras no fim da fila dos refugiados da guerra. Segundo reportagem da Folha de São Paulo, há inúmeros relatos como este reunidos na hashtag #AfricansinUkraine (africanos na Ucrânia), informando que africanos e outros imigrantes negros que vivem no país estão sendo vítimas de racismo ao tentarem se deslocar e deixar o país, sendo barrados em trens, ônibus e nas fronteiras por guardas ou outros cidadãos ucranianos[3].

Em sua conta no Instagram, Moreno Santiago, jogador brasileiro de futsal, relatou que ele e mais dois amigos foram expulsos pelo maquinista do trem que tomaram em Kiev ao tentarem sair da Ucrânia: “Ele tinha aceitado nos levar, mas do nada nos colocou para fora. Ele empurrou o David para fora, o David se machucou. Ele não queria mais nos levar, quando viu que a gente é moreno, que tinha preto junto, ficou falando besteira, então não deu certo”[4].

Num misto de racismo e xenofobia, forças ucranianas e dos países europeus fronteiriços, mostram que, para eles, há vidas que valem mais do que outras.

A guerra em solo europeu também fez aflorar o racismo e a xenofobia de jornalistas e repórteres que, indiferentes com as guerras imperialistas no Oriente Médio e na África, lamentam que a guerra dessa vez acometa “nações civilizadas”[5]. Um dos comentaristas europeus se mostra abalado por ver “pessoas europeias, com cabelos loiros, olhos azuis sendo mortas”, deixando transparecer o racismo e a indiferença com a vida de milhares de negros e pessoas não europeias mortas nas guerras imperialistas conduzidas há décadas pelos EUA, com o apoio de países da União Europeia, da ONU e da OTAN.

É preciso repudiar fortemente toda ação racista e xenófoba, quer parta de agentes ucranianos, quer parta de agentes dos países fronteiriços. E exigir o direito inalienável de todos os imigrantes que viviam na Ucrânia de se refugiarem em segurança, recebendo tratamento igualitário no que diz respeito à comida, transporte, atendimento médico, acesso à direitos e o direito à dupla cidadania no país em que decidam viver.

A mentira de uma Ucrânia nazista

O racismo e a xenofobia com imigrantes negros na Ucrânia, por outro lado, não confirmam o discurso vendido pela Rússia – e reproduzido por organizações stalinistas – de que a Ucrânia é um país nazista. Afinal, o racismo e a xenofobia não são monopólios de um ou outro país, mas ideologias e práticas presentes em todos os países sob o capitalismo. Basta lembrar o tratamento dispensado aos imigrantes africanos em solo brasileiro, como vimos no brutal assassinato do jovem congolês Moïse Kabagambe[6].

Há setores de extrema-direita de caráter nazi-fascista na Ucrânia, como o batalhão Azov. Mas representam uma ínfima minoria política no país. As milícias nacionalistas ucranianas não são de ultradireita, mas grupos amorfos ideologicamente, que se organizaram para combater o agressor.

As correntes de ultradireita ucranianas tentaram aproveitar o espaço depois da Revolução na Praça Maidan, em 2014, e receberam menos de 1% dos votos nas eleições gerais, numa mostra de que ideologias de extrema-direita têm um peso minúsculo nas massas ucranianas, tanto eleitoralmente, como enquanto organizações.

Mas há setores de extrema-direita na Ucrânia, como há no Brasil, e mais ainda, na Rússia. Segundo informes, a Rússia é o país com a maior quantidade de formações paramilitares de ultradireita. Grupos como o Rusich, que combatem no Donbass.

Até 2014, Moscou era conhecida pela grande quantidade de skinheads fascistas nas ruas, era perigoso para imigrantes e não-brancos de qualquer nacionalidade andarem pelas ruas a noite. Este perigo desapareceu. Não existem mais skinheads e grupos fascistas atuantes em Moscou porque todos foram combater no Donbass, constituindo a base das tais “repúblicas de Donetsk e Lugansk”.

Estes grupos de extrema-direita paramilitares russos são diretamente ligados e financiados por setores do governo russo, como Ragozin, chefe da Roskosmos. É também sabido que Putin financia grupos da extrema-direita europeia, usa seus instrumentos de comunicação para divulgar fakenews, campanhas antivacina etc.

Os tártaros da Crimeia, expulsos de sua terra por Stalin e hoje novamente oprimidos por se negarem a reconhecer a anexação russa da Crimeia, são alvos de perseguição étnica da parte da Rússia. Estes tártaros, de origem muçulmana e peles escuras, são defendidos pelos nacionalistas ucranianos, que Putin acusa de fascistas. Suas lideranças estão mortas ou presas, com a onda de repressão desencadeada após a anexação da Crimeia.

Por fim, não é algo menor a posição de Bolsonaro diante deste conflito. Pressionado internacionalmente, seu governo votou a favor de sanções à Rússia. Porém, se dirigindo diretamente – e privadamente – a sua base de apoio, Bolsonaro disse que “O comunismo se transmutou, voltou para o seu berço europeu, agora não prega mais lutas de classes e sim, pautas, como as do preconceito, minorias, sexuais, machismo (…) O comunismo tem outro nome, se chama Progressismo e seu berço é a Europa”. Assim, segundo Bolsonaro, Putin seria “gente nossa”[7].

O nacionalismo russo: racismo e xenofobia

Para entender a perenidade do racismo e da xenofobia numa Ucrânia acoada e agredida pela guerra é preciso falar do papel desempenhado pelo stalinismo no fomento dos preconceitos raciais e étnicos contra os povos e países oprimidos pela Rússia ao longo do século XX. Uma clara afronta à defesa de Lenin do direito à autodeterminação das nações oprimidas e da necessidade de se combater os preconceitos nacionais e chauvinistas.

Lenin tinha a nítida compreensão de que a Rússia exercia um papel opressivo sobre os diferentes povos que a circundavam e que mesmo após a tomada do poder essa opressão nacional não desaparecia por mágica, cabendo aos revolucionários russos defenderem o direito à autodeterminação das nações oprimidas. Em O proletariado e o direito à autodeterminação, escrito em 1915, assim dizia:

A Rússia é uma prisão de povos não apenas em consequência do caráter militar-feudal do tsarismo, não apenas porque a burguesia grã-russa apoia o tsarismo, mas também porque a burguesia polaca, etc., sacrificou aos interesses da expansão capitalista a liberdade das nações, do mesmo modo que a democracia em geral. O proletariado da Rússia não pode nem marchar à frente do povo para a revolução democrática vitoriosa (esta é a sua tarefa mais imediata) nem lutar juntamente com os seus irmãos proletários da Europa pela revolução socialista sem reivindicar desde já completa, e sem reservas, a liberdade para todas as nações oprimidas pelo tsarismo, de se separarem da Rússia (1981, p. 277-278).

De forma semelhante também pensava Trotsky, como vemos nesta instrutiva comparação com o direito das mulheres ao aborto:

A burocracia do Kremlin diz à mulher soviética: como no nosso país há socialismo você deve ser feliz e não abortar (ou sofrer o castigo consequente). Aos ucranianos lhes diz: como a revolução socialista resolveu a questão nacional é seu dever ser feliz na URSS e renunciar à toda ideia de separação (ou aceitar o esquadrão de fuzilamento)

O que diz o revolucionário à mulher? “Deve ser você a decidir se quer um filho; eu defenderei o seu direito ao aborto contra polícia do Kremlin”. Ao povo ucraniano lhe diz: “O que a mim me importa é a sua atitude sobre o seu destino nacional e não os sofismas ‘socialistas’ da polícia do Kremlin; apoiarei a sua luta pela independência com todas as minhas forças!”. (1939).

Observem que o direito à autodeterminação – tal qual o direito ao aborto – não significa uma exigência à “separação”, mas sim o reconhecimento e o apoio ao direito de uma nação oprimida se independentizar.

Por isso Putin chamou de loucura essa política defendida por Lenin: demos a eles o direito de deixar a URSS sem termos ou condições. Isso é uma loucura”. E enalteceu Stalin, que suprimiu com sangue todas as aspirações nacionais dos povos soviéticos e impôs uma opressão brutal do nacionalismo grão russo, em continuidade direta com a política czarista que Lenin combateu frontalmente.

Os preconceitos grão russos contra chechenos, georgianos e cazaquistaneses, alimentados por décadas pela burocracia stalinista, são partes do preconceito racial e xenofóbico fomentado dentro da própria Rússia contra imigrantes negros, árabes, asiáticos e latinos. Como dissemos em texto anterior[8], a Rússia chegou a ser o terceiro país que mais recebia imigrantes no mundo, utilizando amplamente da força de trabalho barata de imigrantes vindos das ex-repúblicas soviéticas, em especial da Ásia Central e do Cáucaso.

Para termos uma ideia, segundo dados do Comitê Organizador da Copa do Mundo da Rússia, em 2018, cerca de 50% dos operários que trabalharam na construção das obras do Mundial eram imigrantes, majoritariamente vindos das nações que constituíam a URSS.

Imigrantes que ocupam os piores postos de trabalho e recebem os piores salários:

Boa parte dos taxistas, garçonetes, faxineiras, operários da construção civil, entre outros, tem algo em comum em Moscou – são imigrantes de países que compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). São homens e mulheres que deixaram Casaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Usbequistão, países da Ásia Central para tentar uma vida melhor em Moscou e em outras grandes cidades do país, mas se sentem discriminados por parte da sociedade russa[9].

Por seu turno, esse preconceito racial e xenofóbico fomentado pelo stalinismo contra as nações oprimidas que compunham à força a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) reproduziu-se e ganhou forma também em cada um desses países, como a Ucrânia, especialmente com negros e árabes.

Lutar contra o racismo e a xenofobia para unir o proletariado

            Os odiosos casos de racismo e xenofobia contra refugiados negros têm sido usados por setores pró-Rússia como justificativa para a agressão militar contra a Ucrânia. Com justiça, organizações e ativistas do movimento negro têm denunciado o racismo contra refugiados, porém chegando a conclusões de que a Ucrânia é um país irrecuperavelmente racista (ou até mesmo nazista) e que por isso deveríamos apoiar as tropas russas.

Há também aqueles que concluem que – diante da comoção desigual com refugiados brancos europeus e refugiados negros vindos da África, de árabes da Síria, e de latino americanos – já temos problemas internos demais no Brasil para se preocupar com o que acontece no Leste Europeu, num conflito que, supostamente, só envolveria brancos.

Para nós, toda essa postura de desconfiança e até indiferença é compreensível pois tem uma base na realidade: os abundantes casos de racismo contra negros refugiados e, por outro lado, o racismo deslavado que não dá a mínima quando a guerra e seus horrores acometem países da periferia do capitalismo e sua população não branca.

No entanto, o racismo contra nossos irmãos imigrantes negros não pode nos fazer perder de vista por nenhum instante que a resistência do povo ucraniano é a resistência contra a opressão de uma nação muitíssimo mais poderosa, a Rússia. É a luta de um povo oprimido pelo direito à sua própria existência. Para nós, socialistas, é preciso lutar contra todas as opressões para unirmos a classe trabalhadora, condição fundamental para que ela consiga vencer seus grandes inimigos: os governos burgueses, a burguesia e o imperialismo.

Por isso, devemos exigir o direito inalienável e em iguais condições dos imigrantes negros e árabes que viviam na Ucrânia de se refugiarem e com direito à dupla cidadania no país em que decidam viver. E denunciaremos implacavelmente qualquer forma de racismo e xenofobia.

Por último, acreditamos que é tarefa de todo o movimento negro e proletário, em nível internacional, se posicionar firmemente contra a invasão militar russa e em defesa do povo ucraniano.

Referências

LÉNINE, V.I. O proletariado e o direito à autodeterminação. In: Obras Escolhidas em Seis Tomos 2. Lisboa: Avante!; Moscou: Progresso, 1984.

TROTSKY, Leon. A Independência da Ucrânia e a Confusão Sectária. Arquivo Marxista na Internet, México, 30 jul. 1939. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1939/07/30.htm>. Acesso em: 30 abr. 2020.

Notas:

[1]Ver: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2022/02/28/guerra-ucrania-russia-feridos-mortos.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 01 mar. 2022.

[2]Ver: https://news.un.org/en/story/2022/03/1113052. Acesso em 01 mar. 2022.

[3]Ver: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/02/pessoas-negras-na-ucrania-dizem-ser-alvo-de-racismo-e-barradas-em-trens-ao-tentar-fugir.shtml. Acesso 01 mar. 2022.

[4]Ver: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/02/pessoas-negras-na-ucrania-dizem-ser-alvo-de-racismo-e-barradas-em-trens-ao-tentar-fugir.shtml. Acesso 01 mar. 2022.

[5]Ver: https://twitter.com/verapstu/status/1498674320658288652. Acesso em 01 mar. 2022; ver também: https://twitter.com/redfishstream/status/1497969331484909570. Acesso em 01 mar. 2022.

[6]Ver: https://litci.org/pt/declaracao-conjunta-justica-para-moise-kabagambe-basta-de-violencia-racista-e-xenofoba/. Acesso em 03 mar. 2022.

[7]Ver: https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2022/03/02/whatsapp-mostra-que-apego-de-bolsonaro-a-putin-vai-alem-dos-negocios.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 03 mar. 2022.

[8]Ver: https://litci.org/pt/a-russia-sob-putin/. Acesso em 02 mar. 2022.

[9]Ver: https://www.terra.com.br/amp/esportes/futebol/copa-do-mundo/ta-russo-50-dos-operarios-sao-da-ex-urss-e-o-preconceito-e-grande,330cc22bc12e704ddca06b82582c65cbmxhybt67.html. Acesso em 03 mar. 2022.

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