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sexta-feira, agosto 12, 2022

Stalinismo e Pan-Africanismo  – Parte II

Este é o segundo texto da série de artigos que estamos publicando para combater a ideologia que busca colocar um sinal de igual entre stalinismo, marxismo e pan-africanismo, como estão tentando fazer os neo stalinistas.

Neste segundo artigo retomaremos o que levou à ruptura de George Padmore com o stalinismo, a realização do V Congresso Pan-Africano, os pontos de acordo entre o pan-africanismo e o marxismo, suas diferenças e o que consideramos seus maiores erros.

Por: Asdrubal Barboza

Stalin leva a Comintern a abandonar a luta pela independência colonial

Ao romper com o stalinismo, George Padmore se transformou no mais importante representante de todo um setor da vanguarda negra mundial que rompeu com esta corrente em virtude de suas traições, fruto do abandono da “Questão Negra”, na perspectiva que haviam sido construídas por Marx, Engels e Lenin.

Infelizmente ao realizar esta ruptura progressiva, Padmore se aproximou das ideias e propostas pan-africanistas que não faziam uma delimitação categórica de classe e que mantinham expectativas na política imperialista. Em seu livro “Pan-Africanism or Communism?”, publicado em 1954, Padmore explicita estas posições.

Por um lado, seu objetivo foi demostrar a política criminosa da Comintern, que, nesta época, tinha como principal dirigente Georgi Dimitrov, fiel discípulo de Stalin. Assumiu uma posição diferente de alguns escritores como Hakim Adi, que consideram que a diferenças eram somente circunstanciais, particularmente com as organizações que sofriam mais pressão do imperialismo, como os PCs francês e britânico, e que foram criticados por inatividade e por não exigir abertamente a independência das colônias[1]. Para Padmore a posição destes partidos se enquadrava na política geral stalinista de abandonar a luta colonial.

Em seu livro Padmore começa reivindicando as posições leninistas aprovadas nos primeiros congressos da IIIa Internacional, inclusive cita como exemplo positivo as 21 condições para a admissão dos partidos na Internacional, assim como a obra de Lenin: “Imperialismo, fase superior do capitalismo[2]”. Principalmente com respeito às caracterizações sobre: a internacionalização e exportação de capitais; a formação dos monopólios; e a transformação de países e continentes em economias dependentes dos países imperialistas;[3] entre outros conceitos. Para ele, o marxismo era um aliado na “Questão Nacional e Colonial”, sendo esta uma “arma tática[4]” fundamental para o crescimento do comunismo nos países “atrasados e pouco desenvolvidos, povoados em grande parte por raças de cor[5].

A partir daí, criticou o giro feito pela Internacional e os partidos na década de 1930, que configurou o abandono da luta pela independência colonial, em virtude da subordinação à política stalinista de “socialismo em um só pais”, e de “coexistência pacífica”. Concretamente denunciou a deserção dos comunistas britânicos e indianos da luta pela libertação nacional da Índia, que passou a ser liderada pelo Partido do Congresso, assim como não cumpriram um papel relevante na luta do Paquistão e Ceilão. Bem como a atitude dos comunistas franceses de enfraquecer a “Liga Contra o Imperialismo”, que tinham uma penetração e uma organização muito maior que a britânica[6], o que teve como consequência a pouca atuação nos movimentos nacionalistas da: Argélia, Tunísia e Marrocos, que de maneira geral se desenvolveram de maneira autônoma e entraram em conflito com a política comunista subordinada ao partido francês.[7] Na África negra, isso se refletiu na pouca atuação nos processos independentistas do Sudão, Costa do Ouro e Nigéria. Na África do Sul, Padmore acreditava que se o Comitern “tivesse permitido ao partido sul-africano mais liberdade, afirmasse sua iniciativa e se desenvolvesse de acordo com as condições locais, teria se tornado uma verdadeira força entre os Bantus”.

Padmore concluiu que a política stalinista “que, até a liquidação da internacional comunista em 1943, ditava as políticas dos partidos estrangeiros” colocando seus interesses “em primeiro lugar e em último lugar os do próprio país (coloniais)”.[8]

Uma visão bastante distinta apresentada no livro de Hakim Adi de que “a perspectiva pan-africanista do Comintern criou condições para o novo pan-africanismo de influência marxista durante a década de 1930 e talvez tenha atingido seu apogeu com a convocação do Congresso Pan-Africano de Manchester em 1945 (…) Mais importante, talvez, o Comintern reforçou poderosamente a visão internacionalista e a perspectiva revolucionária no movimento Pan-Africano (…)”.[9]

Por outro lado, ao estabelecer esta ruptura, Padmore passou a propagar a ideia de que se os movimentos de independência africanos não estivessem vinculados à URSS e também não tivessem uma estratégia comunista, ele poderia arregimentar apoio e aliados para a causa independentista negra entre os setores “progressistas” dos países imperialistas.

Ao final, Padmore passou a defender que a política stalinista só poderia ser combatida pelo pan-africanismo, assim como tribalismo, apesar de considerar que o comunismo não era uma ameaça imediata:

A única força que pode combater este perigo de forma eficaz é o pan-africanismo que defende a formação de partidos políticos nacionais de base democrática com bases não tribais e não regionais. O melhor exemplo de uma organização não regional e não tribal na África hoje é a Convenção do Povo em Costa do Ouro (…) em nossa luta pela liberdade nacional, pela dignidade humana e pela redenção social, o pan-africanismo oferece uma alternativa ideológica ao comunismo de um lado e ao tribalismo do outro. Rejeita tanto o racismo branco quanto o chauvinismo negro. Ela defende a coexistência racial, com base na igualdade absoluta e respeito pela personalidade humana. O pan-africanismo olha acima dos estreitos limites de classe, raça, tribo e religião. Em outras palavras, ele quer oportunidades iguais para todos. (…) A sua perspectiva abrange a federação de países autónomos regionais e o seu amálgama final em um Estado Unido da África”.[10]

O Vº Congresso Pan-Africano

Ao entender que “os negros foram jogados aos lobos[11], Padmore evoluiu em direção às posições policlassistas do pan-africanismo, abandonando o critério de classe, que ele mesmo havia defendido até a década de 1930[12]. O centro de sua política passou a ser a luta pela construção de uma “frente anti-imperialista dos povos”, com nacionalistas e reformistas[13]. Participou da fundação da Pan Afric Federation (PAF) em 1944, em Manchester e organizou o Vº Congresso Pan Africano, em 1945.

Este Congresso representou uma mudança política profunda no movimento Pan-Africano, considerado o mais significativo de todos os congressos desde a Conferência de Londres em 1900. Diferente tanto pela composição social, como pelas resoluções adotadas.

Pela primeira vez os delegados eram representantes de organizações sindicais internacionais, como a Federação Sindical Mundial, e dirigentes sindicais do Caribe e África. Além da presença de quadros africanos como: Azikiwe Nandi[14], Jomo Kenyatta e Kwame Nkrumah, DuBois era o único afro-americano presente.

Podemos dizer que o Congresso estabeleceu um “novo tipo” de Pan-Africanismo, anti-imperialista e internacionalista, com uma perspectiva anticapitalista, mas de conteúdo com posições social-democratas e reformistas. Buscando basear-se nas massas populares das colônias, vendo-as como a principal força na luta anticolonial, apesar de não dar uma delimitação de classe, e adotando um entendimento policlassista na perspectiva da tomada do poder. Antes primavam as posições políticas de Garvey e DuBois, que davam mais peso ao conteúdo racial do que ao caráter político e anti-imperialista das reivindicações. Os elementos progressivos das deliberações do Vº Congresso foram adotados a partir das intervenções de Padmore e Nkrumah.

O manifesto final saiu com a determinação dos povos africanos lutarem por sua independência e liberdade, denunciando os monopólios capitalistas. Concretamente reclamando a imediata independência das colônias francesas e britânicas do Oeste da África, Sudão, Norte da África (Argélia, Tunísia e Marrocos) e da Líbia com relação à Itália. Defendia ainda reformas constitucionais em todos os países, direitos civis para todos os indígenas, abolição das discriminações raciais.

Assim como se pronunciou pela retirada das tropas britânicas do Egito e pelo fim da discriminação racista na África do Sule e também apoiou a luta pelos direitos civis dos afrodescendentes norte-americanos nos Estados Unidos. Exigindo o cumprimento da “Carta do Atlântico” para a África. Também incorporou a luta pelo sufrágio universal e a conquista da democracia com: pluripartidarismo e a liberdade de imprensa e o fim da repressão contra os movimentos sociais.

O Vº Congresso também rompe com o pacifismo e admite a utilização da força e da autodefesa para a conquista da independência colonial. Finalmente transferindo o foco para a atuação da luta anticolonial para o continente africano e não somente no continente europeu.

Após o Congresso, Nkrumah lança seu livro “Towards Colonial Freedom” que rechaça a “missão civilizadora” do imperialismo britânico” e retoma a Costa do Ouro (Gana), em 1947, onde foi preso. Em 1957, o pais conquista sua independência com Nkrumah sendo seu primeiro-ministro, Padmore junta-se novamente a ele neste ano para desde Acra organizar a luta panafricanista.

Erros e diferenças do Pan-Africanismo

Alguns autores consideram difícil fornecer uma definição clara e precisa do Pan-africanismo. Mas isso pode servir para todas as correntes de pensamento, inclusive o “marxismo”, por todas as diferenças de abordagem e interpretações que vários autores e correntes políticas apresentam.

Mas podemos estabelecer que a essência deste pensamento político começa com a luta pela unidade e libertação da África, contra o colonialismo, contra a escravização e a luta pela necessidade de unidade africana. Ai também reside sua grande debilidade, pois considera que todos os africanos, do continente ou da diáspora, estão unidos na luta ao lado de todos os povos oprimidos e explorados. Este, a bem da verdade é o ponto de encontro entre o pan-africanismo e stalinismo, que por caminhos diferentes concluíram pelo abandono da política de independência da classe trabalhadora frente a setores da burguesia e descartaram a centralidade da classe operária como sujeito social da revolução, acreditando numa comunidade “pan-negra”, sintetizada na formulação “uma raça, um povo”.

Seu outro equívoco é criar expectativas que as potências imperialistas podem ter algum tipo de atitude progressiva frente à luta independentista, quando é justamente o contrário, são seus maiores e mais perigosos inimigos, pois sobrevivem graças a esta exploração colonial.

Certamente há pontos de contato e confluências entre o marxismo e o pan-africanismo, como a condenação ao racismo e à escravidão negra; a necessidade de libertar a África do colonialismo imperialista e de construir autogovernos africanos nas nações africanas. Mas, para os marxistas revolucionários estes governos deveriam ser constituídos por membros da classe trabalhadora negra independente dos setores burgueses africanos negros e de qualquer aliança ou expectativa de concessões dos países imperialistas.

Do ponto de vista prático, a crença na possibilidade destas alianças policlassistas e a subestimação da possibilidade de uma intervenção imperialista[15] na defesa de seus interesses levaram Nkrumah[16] a ser derrubado do governo em 1966, pelas mesmas forças sociais que promoveram os assassinatos de Patrice Lumumba em 1961 e Thomas Sankara em 1987.

Enquanto isso, a atuação do stalinismo e do governo de Moscou, foi fundamental para impulsionar a degeneração, e transformação de organizações que de início cumpriram um papel progressivo ou revolucionário, e se transformaram em organizações burguesas pró-imperialistas, associadas a tudo que a de pior há em política mundial. É o caso do MPLA em Angola, a Frelimo em Moçambique, o PC e o CNA na África do Sul, o PAIGC na Guiné, a SWAPO na Namíbia e o Zanu-PF no Zimbábue. Que tocaremos mais adiante.

BOX

No próximo artigo abordaremos os zig zags stalinistas em sua política nos Estados Unidos.

[1]Pan-Africanism, a History, capítulo 4.

[2] Global Editor a

[3] Pan-Africanism or Communism ?

[4]“As a tactical weapon of capital importance”

[5]“This neo-marxism was allied with the National and Colonial Question as a tatical weapon of capital importance in the advancement of Communism in backward and undeveloped countries populated largely by coloured race” (p. 301)

[6]George Padmore, “Pan-Africanism or Communisn ?

[7] George Padmore, “Pan-Africanism or Communisn ?

[8]George Padmore, “Pan-Africanism or Communisn ?

[9]Pan-Africanism, a history.

[10]George Padmore, “Pan-Africanism or Communisn ?

[11]  Hakim Adi, Pan-africanism and Communism : The Communist International, Africa and the Diaspora, 1919-1939

[12] Vide, George Padmore, A vida e a luta dos trabalhadores negros.

[13] Berber Jin, George Padmore’s african revolution: reviving marxist-leninism in the pan-african tradition.

[14]Primeiro presidente da Nigéria, entre 1963 e 1966

[15]  Os países imperialistas não poderiam sobreviver sem a exploração colonial e para isso precisavam de governos fantoches e corruptos, seus aliados, nestes países e assim atuaram no Zaire (antigo Congo Belga) para derrubar Patrice Lumumba.

[16] Antes havia implantado uma ditadura em Gana em 1964 que passou a atacar os direitos dos trabalhadores e perdeu totalmente sua base popular

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