sáb fev 24, 2024
sábado, fevereiro 24, 2024

Sobre a ditadura capitalista de Cuba. Polêmica com SCR-IMT, ou a importância de se autodenominar trotskistas

Como era de se esperar, ante as manifestações populares em Cuba contra o regime castrista de Díaz-Canel que começaram há alguns meses, a maioria das organizações reformistas e estalinistas falaram de uma “conspiração da CIA” e tomaram partido em defesa do regime. Entretanto, deveria ser menos normal que organizações que se autodefinem como “trotskistas” também tenham se colocado do lado do regime. Entre estas se encontra a SCR (Sinistra Classe Rivoluzione) e sua internacional, IMT (International Marxist Tendency).

Por: Francesco Ricci

Consideramos útil desenvolver uma polêmica política com esta posição. Esta é uma maneira de esclarecer as diferenças programáticas básicas entre os dois únicos partidos que, na Itália, ao mesmo tempo em que reivindicam o trotskismo, são parte de organizações internacionais. Devido à que ambas possuem referência no “trotskismo”, acontece de alguns companheiros nos perguntarem quais são as diferenças entre PdAC-LIT e ​​SCR-IMT. Fiéis a um método (lamentavelmente pouco praticado) que é polemizar sobre bases políticas e não caluniosas, e respeitando o compromisso dos companheiros que militam em outras organizações, tentamos responder a esta pergunta partindo da questão de Cuba.

O mito de Cuba

Antes de chegar a SCR, no entanto, é bom nos deter nas posições sobre Cuba da maioria das forças de esquerda.

As organizações pertencentes à esquerda reformista e estalinista continuam apresentando Cuba como um Estado operário ou inclusive “socialista”. Para alimentar este equívoco, usam o fato de que Cuba foi, com a revolução que derrubou o podre regime de Batista em 1959, a primeira revolução vitoriosa na América Latina. A pequena ilha que desafiou o gigante imperialista a poucos quilômetros de sua costa.

Uma história heroica, que demonstrou a possibilidade de vencer o imperialismo e resistir aos seus ataques durante muitos anos.

A heroica figura de Che Guevara (1); os avanços gigantescos das massas graças à expropriação da burguesia e das grandes empresas norte-americanas na ilha: tudo é verdade, apesar de que este Estado operário nasceu já deformado, desprovido de organismos de massas de tipo “soviético”, liderado por uma direção pequeno burguesa (o Movimento 26 de Julho, que só depois se converteu em “comunista”) orientado por uma estratégia não marxista (o “foco guerrilheiro” guevarista). Uma direção que, após um contraditório primeiro período “internacionalista” (o de Che), aderiu à política estalinista de “coexistência pacífica” com o imperialismo, chegando assim a aconselhar as revoluções posteriores que não “seguissem nosso caminho”, ou seja, que não expropriassem a burguesia: como Fidel Castro sugeriu à revolução sandinista de 1979.

Apesar dos limites burocráticos e da adoção do programa de “socialismo em um só país”, as conquistas da revolução e o heroísmo do proletariado cubano foram inegáveis.

Mas esta história é, há muito tempo, coisa do passado.

A realidade da restauração do capitalismo

Depois da restauração do capitalismo na China (meados da década de 1970), na URSS (meados da década de 1980) e em todos os Estados operários onde a burguesia foi expropriada, o capitalismo também foi restaurado em Cuba a partir da metade da década de 1990, nas mãos da burocracia estalinista (castrista), convertida de parasita do Estado operário em agente direto da restauração e em uma nova burguesia.

Aqueles que defendem uma Cuba “socialista” inexistente, não se interessam em demonstrar sua definição com fatos: é mais cômodo recorrer a um mito, o do último socialismo remanescente e definir como um “amigo do imperialismo” aquele que não está disposto a aceitar esta definição.

Mas esta distorção da realidade também é creditada por organizações que se reivindicam do trotskismo. É estranho, porque inclusive em Cuba se confirmou o prognóstico de Trotsky no Programa de Transição: ou o proletariado consegue derrubar a burocracia ou a burocracia, cedo ou tarde, será o agente da restauração do capitalismo.

Em nome do “socialismo” e com o prestígio da revolução, a burocracia castrista de fato desmantelou, peça por peça, o Estado operário.

Em numerosos artigos da LIT-Quarta Internacional, analisamos este processo com dados e números. Por razões de espaço, não voltaremos a essa questão aqui. Basta destacar que a conclusão deste processo levou à destruição dos três pilares sobre os quais, segundo a análise marxista, desenvolvida por Trotsky, um Estado operário é conduzido: uma economia centralmente planificada, o monopólio estatal do comércio exterior, propriedade estatal dos principais meios de produção e de troca.

Foi dissolvida a “Junta Central de Planificação”, que definia o quê e quanto produzir. O Estado já não tem o monopólio do comércio exterior, ou seja, as importações e exportações são negociadas livremente pelas empresas. E o regime defende e promove relações de propriedade capitalistas.

Os dados mostram que todos os setores chave da economia cubana (turismo, cana de açúcar, tabaco) estão agora nas mãos de multinacionais, em particular europeias e canadenses, e estão subordinados às leis do lucro.

A burocracia castrista, a alta hierarquia das Forças Armadas, é sócia menor das multinacionais, tendo se convertido em uma nova burguesia nacional e acumulado sua parte de lucros, em particular através do conglomerado econômico Gaesa (2). Segundo estimativas da revista Forbes, por exemplo, na época de sua morte Fidel Castro possuía uma fortuna de mais de 900 milhões de dólares.

A dupla revisão dos centristas

Trotsky, retomando um conceito já empregado por Lenin, definiu como “centristas” aquelas organizações que oscilam entre reformas e revolução: ou melhor, que tem posições predominantemente reformistas, mas cobertas por uma fraseologia revolucionária.

Neste campo provavelmente a principal força que se refere (só formalmente) ao trotskismo seja hoje a FT (Fração Trotskista) e o partido em torno ao qual se agrupa, o PTS argentino, que se encaminha para uma deriva parlamentarista (que analisamos em outros artigos) (3).

O PTS é o líder entre quem, contra toda evidência, sem avançar nenhuma análise, continuam definindo Cuba como um “Estado operário burocratizado”, que está levando a cabo uma restauração do capitalismo que…ainda não teria concluído, em trinta anos desde o início do processo.

Nesta caracterização de Cuba nos encontramos com uma primeira revisão do trotskismo: os três critérios enumerados anteriormente, utilizados por Trotsky, não são utilizados para definir a natureza do Estado cubano.

Mas o revisionismo não se manifesta só no nível da análise: a análise (errônea) se combina com conclusões programáticas opostas às que Trotsky indicava para os Estados operários burocratizados.

Para Trotsky, diante de um Estado operário burocratizado, o programa é o de uma revolução política: ou seja, de uma revolução que derrube o regime burocrático para preservar os alicerces sociais da revolução.

Pelo contrário, vemos que os centristas, partindo de uma definição que é, repetimos, sem fundamento, não pretendem desenvolver as lutas reais e atuais contra o regime em revolução política, esperando uma revolução “pura” (este é caso da FT-PTS); ou inclusive não mencionam a revolução política (este é o caso da IMT-SCR). Em ambos os casos, acabam apoiando o regime castrista. Isso é o que têm feito frente às mobilizações populares que sacodem Cuba desde julho passado: a IMT de forma mais marcante.

Manifestações populares em Cuba

O regime de Díaz-Canel (presidente cubano e atual líder do autodenominado Partido Comunista cubano) reagiu com dura repressão às manifestações iniciadas em julho. Fez com que cortassem a luz nos bairros mais combativos; enviou esquadrões; prendeu centenas de manifestantes, acusando-os de ser “agentes do imperialismo”, sendo que entre eles há militantes e intelectuais que sempre lutaram contra o imperialismo.

A verdadeira causa das manifestações- como documentamos em outros artigos – não é um complô do imperialismo, mas o grau de miséria insuportável a que está reduzida a população cubana. Uma miséria, sem dúvida, acentuada pelo odioso bloqueo (embargo) imposto pelos Estados Unidos, mas que é provocado principalmente pelas duríssimas medidas que o regime adotou para restaurar o capitalismo: um processo que começou nos anos noventa e já terminou.

Os manifestantes exigem comida, remédios, trabalho, em um país onde o salário mínimo equivale a cerca de 2 dólares por dia, a inflação superou 400% e todas as conquistas da revolução, já limitadas pela direção burocrática, foram agora desmanteladas.

Os trabalhadores nem sequer têm direito à greve contra as multinacionais que, em aliança com o regime, os exploram. Assim como não existem direitos de nenhum tipo para os trabalhadores e a exploração capitalista acentuou ainda mais a dupla opressão das mulheres e LGBT que já existia nos dias do Estado operário deformado. Por exemplo, as pessoas trans são definidas pelo Código Penal como portadoras de “comportamentos antissociais” e suas manifestações são regularmente reprimidas. A prostituição (incluída a prostituição infantil) voltou a florescer na ilha.

A intervenção do imperialismo e o papel dos revolucionários

Claramente, o imperialismo tenta intervir para usar as manifestações de forma instrumental. Isto ocorre em particular pela competência entre o imperialismo europeu e o imperialismo estadunidense, este último movido pela necessidade de competir com os países europeus no processo de recolonização da ilha e pelas pressões políticas da burguesia cubana exilada em Miami (os «Gusanos»).

Os diversos atores em campo: o imperialismo europeu, o imperialismo estadunidense (com a disputa interna entre republicanos, próximos aos “gusanos”, e democratas) e a nova burguesia nascida da burocracia castrista, não pressionam para restaurar o capitalismo por uma simples razão: porque o capitalismo já foi restaurado há décadas.

Além disso, aplicando o critério de que os revolucionários só intervêm em processos nos quais este ou aquele setor imperialista está ausente, teríamos que esperar o dia do juízo final. Em todas as revoluções do século XX, o imperialismo tentou intervir: começando com a revolução russa de 1917, quando os anglo-franceses tentaram tirar vantagem da derrubada do czar em fevereiro.

Em Cuba, o setor vinculado à burguesia cubana de Miami e os republicanos dos Estados Unidos dirigiram a formação do CTDC (Conselho para uma Transição Democrática em Cuba), que interveio nas manifestações exigindo a devolução de suas propriedades expropriadas pela revolução. Propriedades que estavam nas mãos do Estado operário e que, após a restauração do capitalismo, foram privatizadas em benefício do imperialismo europeu, do qual a burocracia é hoje sócia menor através da Gaesa (que é encabeçada pelos militares).

O que os revolucionários deveriam fazer nesta situação? Como LIT, apoiamos em primeiro lugar as mobilizações populares contra o regime capitalista de Cuba, e, ao mesmo tempo, reivindicamos a necessidade de uma batalha pela plena independência frente a todos os setores pró-imperialistas.

Mas o caso é que esta batalha só pode ser travada apoiando e participando das lutas populares: não criticando de fora em nome de sua suposta “contaminação”.

Para os marxistas trata-se, com efeito, de incorporar o socialismo às lutas que realmente existem. Em Cuba, isto significa lutar por uma nova revolução socialista que derrube o regime, quebre o Estado burguês, arme o proletariado, exproprie as multinacionais e a nova burguesia cubana, dê nascimento a um novo Estado operário (desta vez sobre bases sadias) que atue como um estímulo para outras revoluções no mundo. Nitidamente, não se trata de destacar este objetivo em abstrato, mas de utilizar um programa transitório que contemple a luta contra as demissões em massa, por reivindicações salariais, nacionalizações sob controle operário, etc.

A IMT-SCR e a reforma do Estado cubano

A IMT (isto é, na Itália SCR) apresenta outra análise e outro programa.

Às vésperas das novas manifestações de 15 de novembro, sufocadas pela repressão do regime, em um significativo artigo intitulado “Cuba e a provocação reacionária de 15 de novembro: como defender a revolução?” (4), a IMT escreve: “a manifestação (…) é claramente uma provocação reacionária que serve aos interesses do imperialismo.(…) Os organizadores da manifestação [querem] colocar em andamento um processo que, esperam, conduzirá à derrocada da Revolução Cubana, à restauração do capitalismo (…).Diante dessa situação, devemos defender de maneira clara e inequívoca a Revolução Cubana” [tradução nossa].

A declaração cita uma série de organizações (inclusive o CTDC que já mencionamos) para demonstrar o caráter reacionário das manifestações. Para confirmar um complô imperialista, citam inclusive o uso instrumental que se faria “do ativismo feminista e LGBT”. Invertendo assim causa e efeito e sem dizer uma palavra sobre a opressão que as mulheres e as pessoas LGBT sofrem em Cuba.

Com certeza, a IMT reconhece que há um “rechaço à burocracia”, mas a presença de setores pró-imperialistas nas manifestações os leva à conclusão de que o lado a tomar partido é o dos “revolucionários (…) que foram às ruas (…) a convite do presidente Díaz-Canel, em defesa da revolução”.

Na realidade, as notícias não falam de nenhuma mobilização popular em defesa do regime: mas de esquadrões e setores subproletários armados pelo regime para serem lançados contra as manifestações.

Nada de novo: é a mesma teoria que os estalinistas repetiram durante décadas na época em que a URSS ainda era um Estado operário (deformado): “as lutas das massas contra o regime ajudam o inimigo da classe”. Um absurdo para os trotskistas que é mais grotesco se levarmos em conta que o inimigo da classe já está no poder em Cuba.

Porém o pior, como dissemos, não está em uma análise infundada. O pior está no programa: se a análise da IMT-SCR fosse justa (ou seja, que o capitalismo não foi restaurado em Cuba) e a nossa estivesse equivocada, enquanto propomos uma revolução socialista para Cuba, eles deveriam propor uma revolução política. E ambos os tipos de revolução não podiam partir de se colocar do lado dos “revolucionários”…chamados às ruas pelo regime. Em vez disso, a IMT escreve: “Os Comitês de Defesa da Revolução” (ou seja, os instrumentos do regime), “as organizações já existentes devem reabastecer seu conteúdo” e lutar contra “a incompetência da burocracia”.

Para a IMT-SCR esta burocracia seria o quarto e último dos problemas de Cuba (o primeiro é o embargo, o segundo o isolamento da “economia planificada”, o terceiro a pandemia).

Em resumo, o programa da IMT-SCR nem sequer inclui o objetivo de uma “revolução política”, como deveria ser deduzido de sua análise (em nossa opinião incorreta) de Cuba: mas parecem aludir a uma reforma do Estado que conduza ao estabelecimento de uma “verdadeira democracia operária” e “mais socialismo”.

No artigo “Protestos em Cuba: defendamos a revolução” (5) reconhecendo que os protestos tem um fundamento real, se retoma a mesma análise que o regime faz: o “componente dominante” seria “contrarrevolucionário” e teriam respondido acertadamente “os revolucionários (…) convidados para sair às ruas para defender a revolução” pelo presidente Díaz-Canel. Que esta resposta “correta” consistiu em uma brutal repressão dos manifestantes não se incluiu nesta análise.

Com certeza, se admite que há mal estar e “muitos também tem críticas à gestão do governo (…) mas na hora da verdade sabem que devem ir às ruas para defender a revolução”.

O papel do que para nós é a nova burguesia nascida da burocracia estalinista, e que na análise da IMT continua sendo a burocracia de um Estado operário, se reduz ao uso de “métodos burocráticos de gestão”, “desperdício, ineficiência, negligência”. A burocracia defenderia a revolução, porém com métodos que “não são adequados e em muitos casos são contraproducentes” (6).

A IMT-SCR apoia uma reforma da burocracia

Esta mesma atitude de pressão crítica sobre o regime é expressa pela IMT em um artigo que analisa o recente congresso do Partido Comunista Cubano (7).

Este artigo descreve uma tensão imaginária entre a velha guarda do regime e os novos dirigentes. Escreve-se que “o informe de Raúl Castro refletiu (…) uma dura crítica à Comissão de Implementação e Desenvolvimento” que levou à destituição de Murillo do Comitê Central, “considerado pela imprensa burguesa internacional como o “czar das reformas”. Isto é, teria prevalecido uma oposição a um suposto setor restauracionista. Oposição representada por Raúl Castro que “vinculou acertadamente a restauração capitalista com a destruição das conquistas da revolução”.

O artigo é todo um aplauso de Raúl Castro (ou seja, o líder da restauração capitalista), quem supostamente “defendeu claramente o monopólio do comércio exterior”. E, em um arrebatamento de imaginação, se compara Raúl Castro com Lenin, que durante o debate sobre a NEP defendeu a importância do monopólio do comércio exterior…

Lemos: “O discurso de Raúl Castro no VIII Congresso foi claramente dirigido contra aqueles que queriam um rápido avanço à restauração do capitalismo, o que só podemos aplaudir”.

Certamente, se admite que as “reformas econômicas aplicadas até agora” vão na direção da restauração: mas, parece entender-se, graças à ala que Raúl Castro dirige “não tão rápido como alguns queriam”. Chega-se a adiantar, após os aplausos, uma crítica ao regime: “a discussão sobre a participação efetiva dos trabalhadores na gestão da economia (…) esteve totalmente ausente das discussões oficiais do Congresso do PCC”.

Mas, sem deixar-se tocar pela dúvida que isto ocorre justamente porque os dirigentes desse autodenominado partido comunista coincidem com os dirigentes da nova burguesia cubana.

E novamente “o fortalecimento do mercado a expensas da planificação” avança: porém com uma “dinâmica independente da vontade subjetiva daqueles que aplicam as reformas”.

A IMT-SCR e o castro-chavismo

A posição da IMT-SCR sobre Cuba não surpreende a ninguém que conheça o apoio que esta corrente deu durante anos ao regime bonapartista de Chávez no Estado burguês venezuelano. De fato, a IMT se distinguiu como uma das organizações no mundo que mais acriticamente apoiou o regime do ex coronel Chávez (8), inclusive jurando, na sua morte, continuar pelo caminho que ele indicou: “Choramos por Hugo Chávez mas não devemos deixar que as lágrimas nos ceguem.(…) Quando o duelo terminar, a luta terá que continuar. Chávez não esperaria menos.(…) Nos comprometemos a continuar e a intensificar a luta para defender a revolução bolivariana.(…) Hugo Chávez morreu antes de completar o grande projeto que ele mesmo havia se proposto: a culminação da revolução socialista na Venezuela ”(9).

Também se estendeu um compromisso solene de “continuar a luta pela construção desta Internacional revolucionária”: ou seja, a chamada “Quinta Internacional” da qual Chávez “proclamou a necessidade urgente”.

Depois da morte de Chávez, a IMT continuou apoiando o regime, agora encabeçado por Maduro, embora, diante das atrocidades do “socialismo do século XXI”, adotou uma atitude de crítica ao governo: mas apenas na medida em que Maduro renega o “grande espírito de confrontação, abertura e liberdade de crítica do movimento bolivariano que foi uma das características fundamentais do método de Hugo Chávez”. (10).

Por isso continuam a se reconhecer em um “núcleo duro chavista” que se manteria “fiel à revolução bolivariana e à luta pelo socialismo que Chávez representa” (11).

Uma concepção revisionista do Estado (e mais além)

É importante sublinhar que com a IMT-SCR não estamos enfrentando erros de análise da realidade atual de Cuba e da Venezuela. Existe isso, mas há muito mais. Sua análise se baseia em uma profunda revisão dos principais eixos da concepção marxista do Estado.

Sobre o Estado, a IMT e a SCR na realidade mistificam a concepção de Marx que Lenin resumiu em O Estado e a Revolução e que os bolcheviques praticaram em 1917. Os Estados, que para Marx são órgãos de opressão de uma classe sobre outra, na teoria da IMT, em alguns casos, seriam neutros; os governos, que para Marx são os comitês que administram os negócios da burguesia, na teoria da IMT, tornam-se, em certos casos, em governos “em disputa”.

Para Lenin, os comunistas não podem apoiar de forma alguma, nem sequer criticamente, os governos capitalistas, sejam nacionais ou locais. Foi graças a esta posição de princípio (que Marx havia indicado como a principal lição da Comuna de Paris de 1871) que os bolcheviques obtiveram a maioria nos sovietes em 1917, na necessidade de derrotar o governo “das esquerdas”.

Esta mesma posição programática foi depois codificada pela Terceira Internacional nas teses de seus primeiros congressos: antes da vitória de Stalin, que trouxe de volta ao movimento operário à colaboração com os governos burgueses, sob o termo “governos de frente popular”.

A SCR e a IMT retomam a velha concepção antimarxista de “governos que podem ser condicionados pelas massas”. Isto é, enquanto se opõem aos governos burgueses “ordinários”, apoiam a possibilidade de que, sob a pressão das massas, os governos burgueses de “esquerda” (ou seja, integrados por partidos reformistas ou que se considerem reformistas em todo caso) possam evoluir em uma direção progressiva.

Só à luz desta teoria se pode explicar porque a seção inglesa da IMT lutou até há pouco tempo por um governo do Partido Trabalhista (na época liderado por Corbyn “com um programa socialista” (12). Chegando a proclamar isto como “a luta de nossa vida: mobilizemo-nos pela vitória de Corbyn” (13).

Esta mesma teoria revisionista se aplica na análise dos Estados burgueses de países dependentes como Cuba ou Venezuela, tema deste artigo; e levou a SCR na Itália a teorizar um “apoio crítico” para a junta napolitana de De Magistris (14).

Não se pode dizer que estas posições da IMT e da SCR sejam novas no movimento operário. Pelo contrário: é precisamente contra estas posições que surge e se desenvolve o marxismo, a partir da feroz crítica de Marx e Engels à primeira entrada de expoentes reformistas em um governo burguês, em fevereiro de 1848 na França. A Internacional Comunista, por sua vez, foi fundada sobre o princípio cardinal da independência de classe da burguesia e de seus governos.

Para o marxismo, no capitalismo só podem existir governos e conselhos burgueses; os governos neutros ou “condicionáveis” pela dinâmica ou pelas massas são pura fantasia. Por isso o princípio de oposição a qualquer governo no capitalismo não é um princípio abstrato (não existem no marxismo), mas é premissa indispensável para não semear ilusões e poder ganhar os trabalhadores para a luta por um governo operário, que só pode ser construído depois de ter derrotado o capitalismo pela via revolucionária.

Esta posição revisionista sobre o Estado se combina na IMT-SCR com uma rejeição ao partido de vanguarda tal como o entendiam Marx e Lenin. Já tratamos desta questão em um artigo alguns anos atrás, ao qual nos remetemos: “Nossas diferenças com a SCR (e as diferenças da SCR com o marxismo)” (15).

Basta dizer aqui que a IMT e a SCR têm, nesta questão, uma concepção que vê os trotskistas como um estímulo para a evolução dos supostos setores dirigentes progressistas dos partidos reformistas e os partidos reformistas são vistos como organizações “naturais” da classe. Daí a norma de se construir com um entrismo permanente nelas (inclusive quando já se transformaram há décadas em organizações puramente liberais, como é o caso do Partido Trabalhista britânico, que agora os está expulsando). A única exceção permitida é quando (como na Itália) não há nenhum partido no qual fazer entrismo, por isso passaram à construção externa à espera de que surja um partido no qual fazer entrismo (até há alguns anos a SCR estava esperando a construção de um “partido trabalhista” da mão…de Landini).

A revisão da teoria marxista de Estado é o primeiro elo desta apertada corrente em torno do pescoço do marxismo. O segundo elo é a revisão da teoria marxista do partido de vanguarda. O terceiro elo é uma leitura mecanicista e fatalista da concepção materialista da história (16). Mas já nos estendemos demasiado e este poderia ser tema de outro artigo comparando as posições da SCR e as nossas.

Em conclusão, resta uma pergunta: pode-se chamar de “trotskismo” o conjunto de posições que descrevemos aqui? Duvidamos e, parafraseando Oscar Wilde (17), a importância de ser trotskista não deve ser ignorada se alguém quiser chamar-se trotskista.

Notas:

(1) Sobre Che Guevara e a crítica trotskista à estratégia guerrilheira, nos referimos em nosso «Il Che: un rivoluzionario incorruttibile» www.partitodialternativacomunista.org/articoli/progetto-comunista/progetto-comunista-11/il-che-un-rivoluzionario-incorruttibile

(2) Gaesa (Grupo de Administração Empresarial SA) é o consórcio empresarial formado pelos dirigentes das Forças Armadas de Cuba. Aí se concentra a nova burguesia cubana, dependente do imperialismo, formada a partir da conversão da burocracia castrista, que controla o regime. Usando a Lei de Investimentos Estrangeiros, dos anos noventa, o imperialismo, em particular o europeu e o canadense, realizou grandes investimentos em Cuba e controla em particular o setor do turismo, tendo a Gaesa como sócia menor. O presidente deste consórcio de empresários cubanos é Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, parente de Raúl Castro e membro do Burô Político do Partido “comunista” cubano.

(3) Na Itália não há seção da FT: suas posições, entretanto, são retomadas pelo blog La Voce delle Lotte

(4) O artigo pode ser lido em tradução italiana neste link: www.rivoluzione.red/cuba-e-la-provocazione-reazionaria-del-15-novembre-come-difendere-la-rivoluzione/

(5) O artigo completo está neste link: www.rivoluzione.red/proteste-a-cuba-difendiamo-la-rivoluzione/

(6) Idem.

(7) O artigo completo está neste link: www.rivoluzione.red/cuba-lottavo-congresso-del-pcc-e-le-sfide-di-fronte-alla-rivoluzione/

(8). O regime de Chávez, para além da retórica “anti-imperialista” e dos atritos periódicos com o imperialismo, que também fez tentativas de golpe (2002) para substituir o regime por um ainda mais dócil, continuou pagando rigorosamente a dívida externa, descarregando o custo na população faminta. A própria tão apregoada “nacionalização do petróleo” nunca implicou nenhuma expropriação das multinacionais, mas apenas uma barganha da chamada “boliburguesia”, como sócia menor da Exxon Mobil, Chevron, Repsol, etc. Graças a isto, Chávez, sua família e seus companheiros de partido arrecadaram uma imensa fortuna.

(9) Ver a declaração de 2013 da IMT: «Hugo Chávez está morto: a luta pelo socialismo está viva!», escrita por ocasião da morte de Chávez, disponível em tradução italiana neste link: old.marxismo.net/venezuela/america-latina/venezuela/la-dichiarazione-della-tendenza-marxista-internazionale-sulla-morte-di-hugo-chavez

(10) O artigo completo está neste link: www.rivoluzione.red/fermare-le-minacce-del-presidente-maduro-contro-lapr-e-la-sinistra-rivoluzionaria/

(11) O artigo completo está neste link: www.rivoluzione.red/venezuela-maduro-vince-le-elezioni-presidenziali-nonostante-lingerenza-imperialista-cosa-succedera-ora/

(12) A reivindicação de um governo de Corbyn está contido em dezenas de artigos e textos, ver por exemplo «Por que estamos lutando», disponível em www.socialist.net/socialist-appeal-stands-for.htm

(13) O artigo está disponível neste link : www.socialist.net/we-face-the-fight-of-our-lives-mobilise-for-a-corbyn-victory.htm

(14) Esta posição da SCR pode ser encontrada, entre outros, no artigo » La candidatura di De Magistris a Napoli: la nostra posizione» disponível no link: www.rivoluzione.red/la-candidatura-di-de-magistris-a-napoli-la-nostra-posizione/

(15) No artigo «Nossas diferenças com SCR (e as diferenças de SCR com o marxismo)» analisamos o conjunto de posições da IMT e de sua seção italiana, SCR. O artigo pode ser lido neste link na tradução ao espanhol: https://litci.org/es/nuestras-diferencias-con-scr-imt-de-alan-woods-y-las-diferencias-de-scr-con-el-marxismo/

(16) A título de exemplo pode se ler este artigo www.marxismo.net/index.php/teoria-e-prassi/filosofia-e-scienza/535-marxismo-contro-postmodernismo no qual uma correta crítica ao pós -modernismo é investida em uma defesa de um marxismo em que a dialética desapareceu. O mesmo materialismo de corte quase naturalista que emerge de algumas páginas da suma filosófica escrita por Alan Woods e Ted Grant (guia teórico da IMT): Reason in revolt: marxist philosophy and modern science [Razão em rebelião: filosofia marxista e ciência moderna], que lembra em muitas partes o evolucionismo de certos manuais do diamat da época estalinista, com um retorno ao que Marx chamava de o «velho materialismo» que ele tinha superado.

(17) Oscar Wilde, The Importance of Being Earnest [A importância de chamar-se Ernesto, título em espanhol].  O título desta comédia em três atos, de 1895, se baseia no jogo intraduzível de duas palavras, o adjetivo «sério» (honesto) e o nome próprio «Ernesto» (Ernesto), que tem a mesma pronúncia em inglês.

Tradução espanhol-português: Lilian Enck

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