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quarta-feira, maio 22, 2024

Síria | bombardeios em Idlib completam três meses sob cumplicidade internacional

Em 28 de abril a aviação russa e síria iniciaram bombardeios pesados contra a província de Idlib e áreas rurais contíguas nas províncias de Hama e Homs no norte da Síria.

Por Fábio Bosco

Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos entre 30 de abril e 20 de junho de 2019 ocorreram 8610 ataques aéreos: 1436 ataques feitos pela aviação russa, 3982 pela aviação síria e 3192 bombas barril lançadas por helicópteros sírios. Há ainda 29160 foguetes e bombas lançados por forças terrestres do regime sírio.

Cerca de 300 mil pessoas se refugiaram junto à fronteira com a Turquia.

Além dos bombardeios aéreos e terrestres há ainda a utilização de armas químicas contra a população. Ainda segundo o Observatório Sírio foram 221 ataques com armas químicas desde 2012.

Idlib foi definida como zona de redução de combates pelos governos russo, turco e iraniano nos acordos de Astana.
A Turquia ficou responsável pela província mas nada fez nestes três meses para impedir os bombardeios pesados.

Aparentemente trata-se de uma retribuição pelo sinal verde dado pelos governos russo e americano para a tomada da província de Afrin, então sob controle de milícias curdas do partido PYD e hoje sob controle de milícias ligadas à Turquia que, a exemplo das milícias ligadas ao regime sírio como o Hezbollah e iranianos, se dedicam a atrocidades diárias contra a população local.

Mas as atrocidades do regime sírio e seus aliados não param por aí.O campo de refugiados sírios de Al-Rukban, na fronteira entre Síria, Jordânia e Iraque, está sob sítio de forças do regime sírio desde fevereiro.

Representantes da ONU denunciaram que falta água, alimentos e medicamentos.

Ele foi formado em 2014 e tinha 60 mil habitantes. Nos últimos três meses, 17 mil refugiados foram obrigados a partir para áreas sob o controle do regime sírio.

Nos países vizinhos, a situação dos refugiados também é dramática.

No Líbano, o ministro de relações exteriores Gebran Bassil, aliado político do presidente Michel Aoun, faz uma campanha sórdida de incitação da população contra os refugiados sírios, que lembra os discursos racistas de Bashir Gemayel contra os palestinos durante a guerra civil libanesa.

O exército libanês já expulsou refugiados de volta para a Síria.
Para além de colaborar com a ditadura síria, seu objetivo é receber mais fundos para refugiados dos organismos internacionais e países ricos.

Na Turquia, o partido de direita CHP venceu as eleições em Istambul. Seus líderes apoiam o ditador Bashar el-Assad. Eles também se opõem à presença de refugiados sírios no país.
Mas o que aguarda os 12 milhões de refugiados sírios em casa?
Repressão e confisco de bens é a resposta.

Há milhares de relatos de refugiados que, recém-chegados, são presos, torturados ou executados.

O Grupo de Ação pelos Palestinos na Síria (AGPS) denunciou que 21 palestinos foram torturados até a morte nas prisões do regime sírio apenas em 2019.

Para os que não são presos, há o confisco de bens e propriedades.

O regime sírio promulgou leis de confisco de propriedades de refugiados para entregá-las a aliados do regime.

O caso mais famoso é o do empresário Samer Foz, dono da Aman Holding Company e da ASM International General Trading. Ele construiu uma unidade da rede “Four Seasons Luxury Hotel” em terras confiscadas pelo regime no centro de Damasco.

Um país sob ocupação

O regime sírio é apenas uma sombra do que era no passado.
O país vive sob ocupação.

Além do Estado de Israel nas colinas do Golã desde 1973, milícias iranianas como a guarda revolucionária, o exército russo e o Hezbollah dominam a maior parte do país. As milícias curdas do PYD, apoiadas pelos Estados Unidos dominam toda a região ao norte do rio Eufrates, o que equivale a 27% do território nacional, onde estão as reservas de petróleo e gás do país. Por fim a Turquia controla a província de Afrin totalmente, e Idlib parcialmente.

A economia está destruída. O que prevalece é uma economia de guerra.

Em escala nacional, os principais aliados do regime, Rússia e Irã, disputam o espólio de guerra.

Em escala menor, as várias milícias sírias e estrangeiras brigam pelo controle de checkpoints para cobrar pedágio de pessoas e bens. É o caso de al-Mayadin, no corredor que vai de Homs até Al-Bukamal na fronteira com o Iraque, onde as milícias iranianas lutam entre si.

Em resumo, o destino do regime sírio está nas mãos de potências regionais e internacionais.

A luta continua

Neste cenário trágico, há alguns sinais alentadores.
A população de Deraa fez uma passeata com as bandeiras da revolução síria na última sexta-feira, dia 21 de junho, saindo da mesquita al-Omari para exigir a libertação das presas políticas. Eles cantavam “não queremos promessas. Queremos a libertação das presas!”

Em Idlib e nas zonas rurais de Hama e Homs, há resistência armada contra a agressão do regime.

Segundo o site arab48, a população síria nas colinas do Golã ocupadas pelo Estado de Israel fez uma greve geral e uma manifestação na praça Al-Yaafouri próximo à vila de Majdal Shams no último dia 18 de junho contra o plano israelense de implantar 52 torres para captar energia eólica.

Em Beirute, no Líbano, ativistas e intelectuais fizeram ações de solidariedade aos refugiados sírios no parque Samir Qsir. Eles portavam faixas em amarelo escrito “Não ao Racismo” e “Contra o discurso de ódio”.

Em Ancara, na Turquia, ativistas fizeram uma manifestação do dia internacional da mulher exigindo a libertação dos presos políticos na Síria no dia 8 de março.

Recentemente houve manifestações pelo fim dos bombardeios sobre Idlib em várias cidades na Europa, Estados Unidos e no Brasil nos dias 22 e 23 de junho.

Para além da questão síria, as revoluções árabes estão voltando.
A falta de condições de vida – emprego, salário, educação, saúde e moradia – e a falta de liberdades democráticas estão empurrando a população trabalhadora de volta às lutas contra os regimes árabes.

Esse é o caso da Argélia e do Sudão com o potencial de se espalhar novamente em toda a região.

Os regimes árabes por sua vez, recorrem à repressão brutal e aos países imperialistas.

Um exemplo foi o Bahrein que aceitou sediar uma vergonhosa reunião para impulsionar o chamado “acordo do século” através do qual os Estados Unidos e o Estado de Israel buscam a rendição final da causa palestina, e que é apoiada pela maioria dos regimes árabes.

Outro exemplo é a venda maciça de armas americanas e europeias para o governo saudita que as utiliza para promover um massacre no Iêmen e para patrocinar as milícias assassinas Janjaweed no Sudão.

Futuro indefinido

Se por um lado o povo trabalhador árabe enfrenta uma repressão brutal, de outro os regimes árabes se enfraquecem devido à decadência econômica e a perda de qualquer legitimidade popular.

O cenário mais provável é de eclosão de mais lutas, revoluções e guerras. Nesse cenário faz falta um partido revolucionário que possa conduzir esses levantes ao poder e sua expansão internacional.

Fim dos bombardeios! Fim do sítio à al-Rubkan! Liberdade para todos os presos políticos!

Saída imediata de todas as forças estrangeiras de território sírio!
Fora Bashar el-Assad e seu regime! Por um governo dos trabalhadores que garanta condições de vida, liberdades democráticas e soberania nacional frente às potências imperialistas e regionais!

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