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TEORIA

Tạ Thu Thâu, Líder Trotskista Vietnamita

maio 19, 2015

O crédito da primeira tentativa na Grã-Bretanha de confrontar os stalinistas vietnamitas com a questão do assassinato de Tạ Thu Thâu é de Chris Harman(International Socialists, UK), em seu discurso ​no Encontro em ​Mem​ória a Hồ Chí Minh (morto em 2 de setembro de 1969)​, organizado pela Campanha de Solidariedade com o Vietnã, realizado em Londres em 13 de setembro de 1969. Isto resultou n​a saída do representante do regime stalinista do palco, em sinal de protesto, e num pandemônio considerável no salão.

A responsabilidade de Hồ Chí Minh é estabelecida ​em três cartas e três entrevistas publicadas em “Hồ Chí Minh e os Trotskistas”, Chroniques Vietnamennes, no.1, novembro de 1986, pags.13-18​.​ A responsabilidade pessoal de Tran Van Giau foi levantada com ele ​em uma visita à França (Peter Salmon, “Assassino Confrontado”Workers Press, 24 de fevereiro de 1990). 

O seguinte resumo foi escrito pelo veterano revolucionário vietnamita Ngô Văn Xuyết.​

Tạ Thu Thâu nasceu no dia 06 de maio de 1906 em Tân Bình (Long Xuyên, sul do Vietnã), o quarto filho de uma família grande e muito pobre: seu pai era carpinteiro. Em 1925 ele começou a trabalhar como professor em Saigon. [1] Aos 20 anos, junto com a maioria da juventude ‘educada’, Tạ Thu Thâu – em uma experiência que ele posteriormente chamou de “tolice de sua mocidade” – se juntou ao grupo nacionalista Jovem Annam, que logo foi dissolvida pelo governo colonial francês. [2.] Em 24 de março de 1926 Tạ Thu Thâu participou de uma manifestação de massas para marcar o retorno da França do líder constitucional-nacionalista Bùi Quang Chiêu, e em 4 de abril de 1926 participou de  uma manifestação para marcar o funeral do nacionalista veterano Phan Châu Trinh. [3] Em 21 de março daquele ano, ele havia participado de um encontro na Rue Lanzarotte, Saigon, organizado por Nguyễn An Ninh, por liberdades democráticas, e contra a exploração dos anamitas, tanto os naturais de Annam quanto os provenientes de Tonkin. Ele escreveu para o jornal “Annam” do advogado nacionalista Phan Văn Trường. [4]

Tạ Thu Thâu chegou à França em setembro de 1927 e se matriculou na Faculdade de Ciências da Universidade de Paris. Ele entrou para o Đảng Việt Nam Độc lập (Partido da Independência Anamita – PAI), e depois que seu fundador Nguyễn Thế Truyền retornou ao Vietnã em 1928, assumiu a responsabilidade pelo trabalho do partido. [5] O “Ressurrection”, jornal mensal anti-colonialista, que começou em dezembro do mesmo ano, mas foi de curta duração, foi publicado por Tạ Thu Thâu em colaboração com  Huỳnh Văn Phương. [6]

Em janeiro de 1929, os Jeunesse Patriotes (“Jovens Patriotas”) de Pierre Taittinger [7] entraram em confronto com anamitas sob a influência do PAI. Tạ Thu Thâu atacou o L’Humanité, jornal do Partido Comunista Francês , pela “má-fé” do seu relato sobre o acontecido, e ao Partido Comunista Francês (PCF) pela sua incapacidade de intervir em nome dos anamitas presos neste encontro. Também escreveu sobre a “retribuição a ser cobrada da Comissão Colonial do PCF” pelo seu “trabalho fracional contra-revolucionário” dentro do PAI. O grupo anamita da Comissão Colonial do PCF, liderado por Nguyễn Văn Tạo [8], pretendia com este trabalho transformar os membros do PAI em “autômatos para a realização de suas ordens”, segundo ele escreveu. Um panfleto escrito por Tạ Thu Thâu concluiu: “De nossa escravidão indescritível, clamamos a todos os oprimidos das colônias: unam-se contra o imperialismo europeu, branco ou vermelho, se querem uma parte deste mundo para vocês.” Em março de 1929, Tạ Thu Thâu tentou em vão defender o PAI de sua dissolução jurídica pelo tribunal do distrito do Sena.

Entre 20 e 30 de julho de 1929, Tạ Thu Thâu participa do II Congresso da Liga Anti-imperialista em Frankfurt. [9] Nos meios de esquerda de Paris, conheceu Felicien Challaye, Francis Jourdain e Daniel Guérin. [10] Abandonou as convicções nacionalistas de sua juventude e entrou na Oposição de Esquerda trotskista. Tinha então 23 anos.

Após a insurreição em Yên Bái, na noite de 09 para 10 de fevereiro de 1930, inspirado no Việt Nam Quốc Dân Đảng (o Kuomintang anamita) [11], Tạ Thu Thâu expôs o seu ponto de vista político sobre à revolução na Indochina no La Verité, órgão da Oposição de Esquerda em Paris (abril / maio / junho de 1930).

“A burguesia nativa artificialmente criada não é capaz de fazer nenhuma revolução … o bloco burguês nativo, incapaz de uma existência independente, soldou-se firmemente à burguesia francesa – que o segura com força, e o usa para quebrar a luta revolucionária em nome do nacionalismo anamita.

“A mal-organizada insurreição em Yên Bái (…) sem elo de ligação entre sua organização e a população (…) foi lançada sobre uma base ideológica confusa (…) uma síntese sun-yat-sen-ista de democracia, nacionalismo e socialismo [12 ] (…) uma espécie de misticismo nacionalista.

“Esta política obscureceu as relações de classe concretas, e a ligação real, orgânica, entre a burguesia nativa e o imperialismo francês (…) Os que falam de independência imediata e integral não tem nada mais do que uma concepção mecânica e formal da luta. Nenhum deles pode duvidar de que, por trás dessas palavras imponentes, há um povo dentro do qual operam mudanças moleculares perpétuas nas classes sociais, que são ainda mais imperceptíveis, porque estão encobertas pela aparência de um conflito entre raças, que aos olhos de muitos é real e eterno (…) Nem o terrorismo nem o gandhismo vai resolver o problema colonial (…) Uma revolução baseada na organização das massas proletárias e camponesas é a única capaz de libertar as colônias (…) A questão da independência deve estar vinculada com a da revolução socialista proletária.”

Tạ Thu Thâu aqui critica a Terceira Internacional e o PCF por sua negligência na formação de quadros marxistas, e pela sua abordagem empírica para a chamada “situação revolucionária contínua” na Indochina; ele denuncia a “falsa política da Internacional”, a política aventureira do Terceiro Período, que teve como resultado que “revolucionários proletários haviam capitulado a partidos nacionalistas (…)” e “a revolução chinesa foi conduzida para o cemitério.”

Condenações

Em 22 de maio de 1930 os estudantes anamitas em Paris manifestaram-se na Champs d’Elysées contra as mais de 50 condenações à morte proferidas contra participantes da insurreição em Yên Bái; Tạ Thu Thâu foi preso e deportado, em 30 de maio, de volta para o Vietnã com 18 de seus compatriotas.

Quando a Ta doi lập (Oposição de Esquerda) trotskista clandestina foi formada em Saigon, quase no fim de 1931,Tạ Thu Thâu foi um dos seus fundadores. Mas o grupo logo se dividiu em três facções: Tạ Thu Thâu organizou o grupo Đông Dương Cộng Sản (Comunismo Indochinês), que a partir de 1 de maio de 1932 publicou um noticiário em folha-dupla, o Vô San (Proletário).  Huỳnh Văn Phương e Phan Văn Chánh, que também estavam entre os deportados da França, publicaram periódicos de propaganda comunista sob o título Ta Doi Lập Tung Tho (Publicações Oposição de Esquerda). Outro deportado da França, Hồ Hữu Tường, juntamente com outros opositores do Partido Comunista da Indochina, formaram o grupo Tháng Mười (Outubro). [13]

Estes grupos clandestinos foram rapidamente atingidos por uma dura repressão. Quarenta e uma pessoas foram presas em Saigon e nas províncias de Bạc Liêu, Bà Rịa, Gia Định e Sóc_Trăng. Preso em 8 de agosto de 1932, Tạ Thu Thâu foi libertado com uma advertência em 21 de janeiro de 1933; mas 15 militantes foram condenados a entre quatro meses e cinco anos de prisão em um julgamento de 21 trotskistas em 01 de maio de 1933.

Nas eleições municipais de Saigon de 30 de abril e 7 de maio de 1933, Tạ Thu Thâu realizou agitação legal com o stalinista Nguyễn Văn Tạo, os nacionalistas Nguyễn An Ninh, Trần Văn Thạch, Le Van Thu, Trinh Hung Ngau e outros. [14] Este grupo constituiu uma ‘lista de trabalhadores’ (so lao dong) nas eleições, um acontecimento incomum na Indochina. Um jornal em língua francesa, La Lutte (A Luta), foi publicado para apoiar a campanha (jornais de língua anamita estavam sujeitos a censura); a primeira edição foi em 24 de abril de 1933 e o jornal desapareceu um dia após a eleição. Perante uma reação estupefata por parte da sociedade colonialista, dois candidatos da ‘lista dos trabalhadores’ foram eleitos para o conselho municipal.

Em 15 de novembro desse mesmo ano, depois de uma iniciativa de um grupo de estudo de ex-estudantes na França, Tạ Thu Thâu ministrou uma palestra sobre dialética, para um grande público de estudantes e trabalhadores reunidos em uma faculdade cooperativa.

Em 1934, da “Frente Única” de trotskistas, stalinistas e nacionalistas “para a defesa da classe operária”, o grupo La Lutte foi formalmente constituído; os trotskistas retiveram suas críticas à URSS e ao stalinismo, os stalinistas suas críticas ao trotskismo, e o jornal La Lutte ressurgiu em 04 de outubro de 1934.

Com sua eleições para os cargos anuladas [15], os membros do grupo apresentaram-se mais uma vez para as eleições municipais de maio de 1935. Tạ Thu Thâu foi um dos os eleitos. Procurado pelas autoridades por “atividade subversiva na imprensa”, foi condenado a dois anos de prisão em 27 de junho de 1935, castigo suspenso mas então confirmado pelo tribunal de segunda instância em 10 de setembro de 1935. Em 26 de dezembro de 1935, Tạ Thu Thâu – junto com outros três representantes eleitos do La Lutte – foi preso por fazer um discurso em apoio aos condutores de tílburi em greve; foram liberados no dia seguinte. No julgamento do jornal La Lutte, em 18 de março de 1936, Tạ Thu Thâu foi multado em 500 francos pelo tribunal de Saigon.

A chegada ao poder do governo da Frente Popular na França em junho de 1936 [16] desencadeou um vasto movimento popular que varreu a Indochina: greves nos seringais, no Arsenal, nas estradas de ferro (…) e manifestações camponesas. Numa reunião realizada em 13 de agosto de 1936, principalmente por militantes do grupo La Lutte e dirigentes do partido constitucional-nacionalista, planos foram esboçados para o movimento Congresso Indochinês. Uma comissão foi formada para preparar uma carta de reivindicações democráticas para apresentação ao governo de Frente Popular. O movimento foi proibido em 19 de setembro de 1936, e Tạ Thu Thâu, que tinha participado na Comissão de Legislação para os Trabalhadores, foi preso juntamente com Nguyễn Văn Tạo e Nguyễn An Ninh. Todos foram liberados após uma greve de fome 11 dias, em 5 de novembro.

Em 1937, greves industriais e manifestações camponesas explodiram novamente. Tạ Thu Thâu se viu de volta à prisão de 18 de maio a 7 de junho, e depois foi condenado pelo tribunal de Saigon, em 9 de julho, a dois anos de prisão, uma sentença contra a qual ele apelou. Foi nessa época que o PCF ordenou aos stalinistas que rompessem com os trotskistas (cf a carta de Gitton, 19 de maio 1937). [17] Uma greve geral dos ferroviários levou Tạ Thu Thâu de volta à prisão em 23 de julho de 1937. Depois de uma greve de fome de 12 dias, ele foi trazido de volta diante do tribunal de Saigon, em 17 de setembro, em uma maca. Estava semi-paralisado. Condenado em 11 de novembro a uma sentença adicional de dois anos para execução simultânea, ele foi libertado sob condicional três meses antes do fim da sentença, em 14 de fevereiro de 1939, às vésperas do ano novo anamita.

Trabalhando com seus camaradas trotskistas, Tạ Thu Thâu continuou a publicar o jornal Tranh đấu (anteriormente La Lutte, que aparece no idioma anamita a partir de outubro 1938), apoiando a Quarta Internacional. Nas páginas do jornal, ele empreendeu uma campanha para as eleições para o Conselho Colonial em 16 e 30 de abril de 1939 [18], nas quais foi eleito com seus dois camaradas Trần Văn Thạch e Phan Văn Hùm [19]. O programa deles incluía a oposição a um empréstimo nacional de 33 milhões de piastras que seria levantado com o dinheiro do povo “para a defesa da Indochina” – e isso entrava em conflito com a posição do Partido Comunista Indochinês, alinhada com a do PCF, de que a França tinha que deixar suas forças de segurança em um estado de preparação para o combate, como conseqüência do pacto Laval-Stalin de maio de 1935. Em 1 de outubro de 1939, Phan Văn Hùm foi condenado a cinco anos de prisão por esta propaganda anti-militarista.

Tạ Thu Thâu foi autorizado a sair de Saigon em 21 de agosto de 1939 e ir para Siam, onde pretendia buscar tratamento médico. Mas a guerra estourou, e ele foi preso e levado de volta para Saigon em 11 de outubro de 1939. O jornal Tranh đấu estava entre os afetados por uma ordem de proibição em 26 de setembro de 1939, e o grupo de Tạ Thu Thâu era um dos “grupos comunistas e associações” afetados por uma ordem de dissolução (decretada em outubro de 1939). Condenado no tribunal de Saigon, em 16 de abril de 1940, a cinco anos de cadeia, mais uma ordem de exílio de 10 anos e ainda 10 anos de perda de direitos civis, Tạ Thu Thâu foi deportado para o campo de concentração na Ilha de Poulo Condore em outubro de 1940.

O Golpe

Após o seu regresso do campo de concentração no final de 1944, Tạ Thu Thâu trabalhou para construir o Partido Socialista dos Trabalhadores (Đảng Thợ thuyền Xã hội). O golpe de Estado japonês pôs fim ao poder colonial francês em março de 1945, e substituiu-o pelo governo de Bảo Đại e Trần Trọng Kim[20]. Em meados de 1945, Tạ Thu Thâu foi para Tonkin, e fez contato com os militantes trotskistas na região de Đan Phượng , entre eles Luon Due Thiep, Khương Hữu An e outros que publicavam o jornal Chieu dau (Combate) enquanto órgão do Partido Socialista dos Trabalhadores do norte do Vietnã.

Tạ Thu Thâu participou de encontros clandestinos de trabalhadores e camponeses nas áreas de mineração de Nam Định, Hải Phòng e Hải Dương. Após a queda do Japão e a chegada ao poder de Hồ Chí Minh em agosto de 1945 [21], Tạ Thu Thâu esperava voltar ao sul do Vietnã, mas foi preso pelo Việt Minh em Quảng Ngãi e assassinado em setembro de 1945 [22].

Lamento

Sobre o tema da morte de Tạ Thu Thâu, eis as palavras de Hồ Chí Minh em 1946, como relatado por Daniel Guerin: “Ele era um grande patriota e nós o pranteamos (…) mas todos aqueles que não seguirem a linha que estabelemos será quebrado.”

No mês seguinte à insurreição de Saigon de 23 de setembro de 1945, os camaradas mais próximos de Tạ Thu Thâu lideraram o grupoTranh đấu na batalha contra a força franco-britânica que visava reconquistar o Vietnã, uma luta em que cerca de 200 homens doTranh đấu perderam suas vidas; assim como Tạ Thu Thâu, os dirigentes do Tranh đấu foram assassinados por partidários de Hồ Chí Minh.

Precisamos recordar que, em 1939, ecoando os Processos de Moscou, Hồ Chí Minh escreveu três cartas a seus “amados companheiros”, descrevendo os trotskistas como “espiões e traidores notórios”, a serviço do ” fascismo chinês, espanhol, italiano, alemão e internacional”. Exterminá-los era a conclusão implícita, mas muito clara, extraídas destas cartas.

Pessoalmente, Tạ Thu Thâu era simpático e tinha um grande domínio de si mesmo. Respondendo a uma intimação do governador Pages[23], em abril de 1937, ele declarou: “Um revolucionário eu sou e um revolucionário eu permanecerei enquanto houver sangue nas minhas veias.”

Ngô Văn Xuyết

UMA CARTA PARA TROTSKY

A seguinte carta de saudação foi enviada a Trotsky depois da vitória dos três trotskistas nas eleições para o Conselho Colonial de Saigon, e apareceu no
Socialist Appeal (EUA), Volume 3, no. 58, 11 de agosto de 1939.

Trotsky se sentiu muito encorajado por isso, e citou a edição do La Lutte que anunciava esse resultado em O Kremlin e a 
​política mundial, de 1 de julho de 1939 (​Escritos de
 León Trotsky 1938-39, Ed. Pluma, Tomo X, V. 2, p. 532), e de A Índia 
​ante a guerra i​mperialista, de 25 de julho de 1939 (​Escritos de
 León Trotsky 1939-40, Ed. Pluma,Tomo XI, V. 1, p. 32). 

———————-

Caro camarada Trotsky,

Você deve estar familiarizado com os resultados das eleições coloniais do último dia 30 de abril na Cochinchina. Apesar da coalizão vergonhosa entre a burguesia de todos os tipos e os stalinistas, nós tivemos uma vitória brilhante…

Nós fomos para a batalha, a bandeira da Quarta Internacional amplamente desfraldada. Nossa vitória é de toda a Quarta sobre a burguesia, naturalmente, mas, acima de tudo, sobre os seus agentes Social-Democratas e Stalinistas. Temos fé na vitória final da Quarta Internacional.

Esta fé foi você quem nos deu. Hoje, mais do que nunca, entendemos a importância não apenas do programa da Quarta Internacional, como também de sua luta de 1925-1928 contra a teoria e prática do “socialismo num só país”, de sua luta contra a Internacional Camponesa, a Liga Anti-Imperialista e outros comités de fachada, o Amsterdam-Pleyel e outros.

Nestes dias de esperança engendrada pela nossa recente vitória, pensamos em você, nos sofrimentos morais e físicos que você e seu companheiro suportaram. Queremos dizer-lhe que, mesmo neste canto remoto do Extremo Oriente, neste país atrasado, você tem amigos que concordam com você, camaradas que lutam para aquilo ao qual você dedicou a sua vida, para o socialismo, o comunismo!

Nossos afetuosas saudações bolchevique-leninistas.

—Phan Văn Hùm
Tran Van Thach
T Thu Thâu
e o grupo La Lutte
18 de maio de 1939

NOTAS

1-Saigon foi renomeada Cidade de Hồ Chí Minh depois da vitória, em 1975, da Frente Nacional de Libertação.

2-A França enviou missões militares para o Vietnã entre 1848 (o Vietnam central e o sul constituíam então a nação de Annam, sendo o norte do Vietnã conhecido como Tonkin). O Vietnã e o Camboja foram completamente conquistados pela França por volta da década de 1860, o que se expandiu para toda a Indochina com a conquista do Laos em 1893. O movimento de independência nacional tomou a forma de conspirações burguesas nos anos iniciais do século XX; por volta de 1920 ele surge como um movimento de massas. Um Partido Constitucionalista foi formado em 1923; organizações nacionalistas revolucionárias também proliferavam, das quais uma era a Jovem Annam (Đảng Thanh niên Việt Nam).

3. Bùi Quang Chiêu fundou o Partido Constitucionalista burguês, que suscitou um sentimento de massas contra a classe feudal e os colonialistas na década de 1920, utilizando ocasiões como o funeral de Phan Châu Trinh para esta finalidade. Conforme os movimentos de trabalhadores surgiram, começando com os levantes abortados de 1930, os constitucionalistas se tornaram extremamente hostis a eles e se aproximaram do governo colonialista e da polícia.

Phan Châu Trinh era um mandarim na corte Hue, que deixou seu cargo, desgostoso com a corrupção da corte em 1905, e juntou-se veterano nacionalista Phan Bội Châu no exílio em Hong Kong. Retornando para o Vietnã em 1906, ele foi acusado de inspirar uma revolta camponesa em 1908 e foi preso por três anos. Após ser libertado, ele continuou sua atividade política.

4. Nguyễn An Ninh estudou Direito em Paris, onde ingressou no movimento nacionalista. Retornou ao Vietnã em 1923 e fundou o jornal nacionalista “La Cloche Felée”, que entre outras coisas publicou o Manifesto Comunista no Vietnã pela primeira vez; na década de 1930 ele desempenhou um papel dirigente no movimento Congresso Indochinês e no “La Lutte”. A reunião da Rue Lanzarotte, com a presença de 3.000 pessoas, foi o primeiro comício político público na História em Saigon. “La Cloche Felée” foi sucedido pelo“Annam” em maio de 1926. Seu editor, Phan Văn Trường, tinha aderido ao movimento nacionalista como estudante na França em 1912.

5. Nguyễn Thế Truyền também se juntou ao movimento nacionalista quando estudava na França, e em 1922-1923 formou o L’Union Intercoloniale para unir anti-imperialistas de todo o império francês. Retornou ao Vietnã em 1928. De volta à França em 1936-1937, tentou estabelecer uma união de nacionalidades oprimidas em conjunto com o argelino Messali Hadj.

6.  Huỳnh Văn Phương provinha de uma família rica de Mỹ Tho; em 1927 ele foi para Paris estudar Direito, onde ingressa na Oposição de Esquerda trotskista. Deportado para o Vietnã juntamente com Tạ Thu Thâu em 1930, ele editou o jornal da Oposição de Esquerda em Saigon, e era ativo no grupo “La Lutte”. Foi assassinado pelos stalinistas em 1945.

7. Os “Jeunesses Patriotes” de Pierre Taittinger eram fascistas franceses, inspirados em Mussolini, que emergiram como força organizada após a eleição, em 1924, de uma coalizão entre Radicais e Socialistas. Eram capangas lumpen, vestidos com capas de chuva azuis e boinas para suas provocações públicas, e eram peixes pequenos em comparação com a “Croix de Feu” (predominantemente ex-militares) e a “Ação Direta” de Charles Maurras, que dirigiu a tentativa de golpe fascista de fevereiro de 1934.

8. Nguyễn Văn Tạo ingressou no Partido Comunista Francês enquanto estudava em Paris, e tornou-se um militante em tempo integral em 1927; foi deportado para o Vietnã em 1931, onde teve um papel dirigente na organização stalinista.

9. A Liga Anti-Imperialista, fundada sob influência dos líderes do Comintern stalinista em 1927 em Bruxelas, reuniu pacifistas e outros esquerdistas pequeno-burgueses. O Congresso de Frankfurt, do qual Tạ Thu Thâu participou, trouxe sua curta vida a um fim.

10. Felicien Challaye, Francis Jourdain e o historiador e escritor Daniel Guerin eram anti-colonialistas franceses, inspiradores de inúmeras ações de apoio à libertação colonial, e fundadores em 1933 de um Comitê de Anistia para prisioneiros políticos vietnamitas.

11. A Insurreição de Yên Bái começou como um motim de tropas anamitas postadas na fronteira chinesa; massacraram seus oficiais e controlaram a guarnição por uma noite, mas outras guarnições ou não se levantaram ou foram derrotadas. A vila de Co Am ergueu-se poucos dias depois, e foi reprimida por um bombardeio aéreo impiedoso. A fúria da repressão francesa na sequência do levante exterminou o Việt Nam Quốc Dân Đảng como força política.

12. Sun Yat-Sen foi o fundador do Kuomintang, partido nacionalista burguês na China; sua filosofia combinava nacionalismo anti-imperialista, democracia e idéias socialistas utópicas.

13. Phan Văn Chánh entrou para a Oposição de Esquerda em Paris, em 1929, e foi deportado junto com Tạ Thu Thâu em 1930. Ele trabalhava como professor, e foi editor do jornal da Oposição de Esquerda em Saigon. Deportado para a ilha Poulo Condore em 1940-1943, foi assassinado pelos stalinistas em outubro de 1945 em Ben Sue, Thủ Dầu Một. Para saber mais sobre  Huỳnh Văn Phương, ver a nota 6.

Hồ Hữu Tường iniciou sua vida política como um nacionalista e se juntou ao movimento trotskista enquanto estudava na França, em Aix-en-Provence e em Lyon; ele voltou para Saigon em 1931. O grupo “Outubro”, que mais tarde se tornou a Liga dos Comunistas Internacionalistas, apoiou a Quarta Internacional e publicava “Le Militant”; eles não se juntariam à frente “La Lutte” porque isso significaria retirar a críticas públicas aos stalinistas. Seus membros desempenharam um papel dirigente na formação de conselhos operários de tipo soviético na revolução de 1945. Hồ Hữu Tường também participou em 1945, apesar de ter renunciado ao trotskismo durante a guerra.

14. Trần Văn Thạch, um nacionalista, estudou em Paris e foi deportado para o Vietnã com Tạ Thu Thâu em 1930. Trabalhava como professor e, na sequência da luta no interior do “La Lutte”, tornou-se um trotskista em 1937. Foi eleito para o Conselho Colonial de Saigon em 1939, esteve preso em Poulo Condore entre 1940-1944, e assassinado pelos stalinistas em Thủ Dầu Một em 1945. Le Van Thu, outro dos deportados de Paris, manteve-se nacionalista, mas participou ativamente no “La Lutte” e no movimento operário. Trinh Hung Ngau, que havia trabalhado com Tạ Thu Thâu no jornal “Annam”, era um nacionalista com inclinações anarquistas.

15. As eleições dos conselheiros do “La Lutte” foram anuladas por motivos espúrios, como o não-pagamento de impostos.

16. As eleições de abril e maio de 1936 na França deram uma grande maioria para a Frente Popular composta pelos partidos Comunista, Socialista, Radical e outros. Um governo liderado por Leon Blum, do PS, tomou posse em 2 de junho em meio a uma onda de greves e ocupações de fábricas. Os stalinistas apoiaram este governo, apesar de não participarem dele, garantindo assim que o poder permanecesse com a burguesia.

17. Nesta altura os trotskistas defenderam intensificar as lutas grevistas contra o imperialismo francês; os stalinistas queriam uma redução das greves, alegando que a classe operária não deveria danificar o governo da Frente Popular francesa, um aliado diplomático da URSS. A carta do dirigente do PCF Marcel Gitton ao PC Indochinês declarava: “consideramos que é impossível prosseguir a colaboração do partido com os trotskistas …” e instruiu a cessá-la. Após os stalinistas se separarem do “La Lutte”, a carta foi publicada no mesmo (29 de agosto de 1937).

18. Conselhos Coloniais eram órgãos de administração com poderes limitados; era necessária uma pequena qualificação de propriedade para participar.

19. Phan Văn Hùm era um professor de direito, literatura e filosofia. Ele começou sua atividade política como um nacionalista, mas se juntou ao movimento trotskista na França no início dos anos 1930. Retornando a Saigon em julho de 1933, ele participou do “La Lutte”, foi deportado para Poulo Condore durante a guerra, e foi assassinado pelos stalinistas em outubro de 1945 em Biên Hòa. Para saber mais sobre Trần Văn Thạch, ver a nota 13. A carta conjunta dos dois dirigida a Trotsky aparece abaixo.

20. Bảo Đại, último imperador do Vietnã, sucedeu ao seu pai em 1925 com 12 anos, mas não assumiu o trono até 1932. Colaborou com os franceses, e, quando o golpe de Estado japonês ocorreu, concordou em trabalhar com eles; abdicou em 1945, se associou ao Việt Minh por um breve período, foi para o exílio, e retornou como um fantoche francês de novo de 1949 a 1955. Trần Trọng Kim, um acadêmico de modos suaves, foi seu primeiro-ministro em 1945.

21. O Japão se rendeu aos Aliados imperialistas em 14 de agosto de 1945, após o bombardeio nuclear de Hiroshima: isso provocou uma situação revolucionária no Vietnã. No norte o Việt Minh marchou a partir de suas bases na selva Hanoi adentro e declarou uma “República Democrática”, em 2 de setembro. De acordo com o pacto de Stalin com os Aliados, o sul deveria ser colocado sob controle francês novamente, e embora o Việt Minh do sul tentasse implementar essa linha, houve resistência entre os nacionalistas e especialmente entre os trotskistas, que apelaram para os conselhos operários que tinham surgido para tomar o poder. Os stalinistas prenderam os delegados a um congresso de conselhos operários e conseguiram impor um “governo provisório”, apesar da impopularidade de sua política; eles permaneceram parados quando os franceses novamente invadiram em outubro, concentrando seu fogo sobre os trotskistas, cujos líderes foram todos mortos.

22. De acordo com um relatório publicado na revista “Quatrième Internationale” em 1947, Tạ Thu Thâu foi julgado por um “tribunal popular” do Việt Minh depois de preso. Devido ao seu grande prestígio no movimento operário este tribunal não pôde ser convencido a culpá-lo por nada; em seguida ele foi fuzilado mesmo assim.

23. Pierre Pages foi governador colonial francês da Indochina durante toda a década de 1930.

Este ensaio tem por base as seguintes fontes: Archives nationales (Paris) F7-13406, 13408, 13409, 13410, 13167, 13170, Archives Outre-mer D2514; La Depeche d’Indochine, Saigon, várias edições, 1933-1940; Nguyen Van Dinh, Tạ Thu Thâu, to qudc gia toi quoc te (T Thu Thâu, do Nacionalismo para o Internacionalismo), Saigon, 1938; Phuong Lan, Nha each mang Tạ Thu Thâu (O revolucionário T Thu Thâu), Saigon, 1974; D. Hemery, Du patriotisme au marxism: l’immigration vietnamienne en France 1926 a 1930 (Do patriotismo ao marxismo: a emigração vietnamita na França 1926-1930), em Le Mouvement social, no.90, Paris, 1975; D. Hemery, Revolutionnaires vietnamiens et pouvoir colonial en Indochine (Revolucionários vietnamitas e poder colonial na Indochina), Paris, 1975; D. Hemery, Tạ Thu Thâu: l’Itineraire politique d’un révolutionnaire vietnamien pendant les annees 1930 (T Thu Thâu: o caminho político de um revolucionário vietnamita durante os anos 1930) em Histoire de l’Asie du Sud-Est.

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