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quarta-feira, agosto 10, 2022

Os marxistas e a luta em Kobane

Polêmica com o PTS – FT

A heroica resistência curda diante do cerco do Estado Islâmico (EI) à cidade de Kobane conquistou a simpatia de milhares de ativistas sociais e militantes da esquerda em geral.

 Por Daniel Sugasti
Não é para menos. A tenaz defesa de Kobane é, atualmente, a expressão mais concreta da histórica luta de toda a nação curda para fazer valer seu direito à autodeterminação nacional, uma bandeira legítima e tradicionalmente defendida não só pelos revolucionários, mas também por amplos setores democráticos.
É por isso que este fato criou, em pouco tempo, uma frente comum entre milicianos curdos das Unidades de Proteção Popular (YPG)1, que combatem em território sírio; do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que atua na Turquia; e dos combatentes peshmergas, força armada do Curdistão iraquiano, que mandaram unidades a Kobane ao mesmo tempo que continuam lutando contra o EI para proteger seu território histórico2.
Esta unidade militar, por sua vez, está sendo apoiada por um processo de importantes mobilizações protagonizadas por curdos e outros setores solidários com sua causa nacional, que aconteceram em diferentes capitais europeias, além da própria Turquia, onde a repressão de Erdogan causou a morte de dezenas de manifestantes. No dia 1o de novembro, foi realizada uma jornada internacional de solidariedade com Kobane, que se estendeu a mais de cem cidades3.
A todo esse processo progressivo somam-se, ao mesmo tempo, os primeiros passos concretos em direção à unidade militar entre esses combatentes curdos e os rebeldes antiditatoriais sírios de origem árabe, agrupados fundamentalmente no Exército Livre da Síria (ELS), que recentemente enviou mais de mil combatentes para Kobane4.
A máxima expressão desta unidade se deu a partir de um acordo com o Comando Geral do YPG para lutar “contra o terrorismo e pela construção de uma Síria livre e democrática“, confirmando, além disso, uma “coordenação entre nós [YPG] e as facções importantes do ELS no campo norte de Alepo, Afrin, Kobane e Jazia. Atualmente, há facções e vários batalhões do ELS que lutam ao nosso lado contra os terroristas ISIS5.
Este fato é transcendental, pois a resistência em Kobane é parte indissociável da revolução síria, já que enfrentam inimigos comuns e seus destinos estão intimamente ligados.
A respeito disso, cabe destacar que Kobane foi libertada do regime de Al Assad em julho de 2012 e é parte da região de Rojava (Curdistão sírio), que, mediante o processo revolucionário, conquistou uma administração autônoma, algo impensável no contexto da ditadura síria.
Nesse sentido, a unidade político-militar entre os combatentes curdos e os rebeldes sírios árabes não só é progressiva como também, em nossa opinião, uma condição para a vitória, tanto no terreno da luta para derrotar a ditadura de Al Assad como para avançar em direção a um Estado independente de toda a nação curda.
O castro-chavismo por outros meios …
Esta realidade evidencia a enorme incoerência das organizações que se dizem “de esquerda” e até “socialistas” e que dizem apoiar a resistência dos curdos em Kobane, mas que, ao mesmo tempo, estão contra a revolução síria.
Este é o caso, em primeiro lugar, da corrente castro-chavista e demais variantes “bolivarianas”, que desde o início se posicionaram ao lado do ditador Al Assad e contra o povo sírio. No entanto, agora simpatizam com os curdos de Kobane. Mas seus motivos não tem nada a ver com a luta do povo sírio ou com os direitos nacionais dos curdos.
O castro-chavismo “apoia” Kobane porque enfrenta o EI, uma luta “contra o terrorismo” na qual o próprio Al Assad quer aparecer como o defensor desta causa, a tal ponto que permitiu os bombardeios imperialistas em seu próprio país, apostando em ser “reabilitado” no cenário internacional.
Circulando em outro patamar, mas na mesma direção, existem correntes que, reivindicando-se “trotskistas ortodoxas”, estão presas nessa mesma contradição em relação a Kobane. Essa contradição deriva de uma incompreensão global do processo revolucionário que, com desigualdades, desenvolve-se na Síria e em outros países da região.
Este é o caso do PTS argentino, principal partido da chamada Fração Trotskista (FT), que tem se empenhado em negar, pelo menos desde que o conflito se transformou em guerra civil, todo o processo revolucionário na Síria, tal como se posicionou sobre a Líbia.
Atualmente, esta corrente afirma que o confronto armado entre as milícias rebeldes sírias e o regime ditatorial de Al Assad é uma “guerra civil reacionária6, reduzida a meros “confrontos religiosos e étnicos” que, para piorar, se enquadram na “derrota da primeira etapa da ‘primavera árabe’ “ e em um “retrocesso importante para os trabalhadores e as massas populares da região7.
A FT defende sua posição contrária à revolução síria com um argumento aparentemente “esquerdista”: “ainda não existe a classe trabalhadora como sujeito político independente lutando por uma derrubada revolucionária de Assad, que dê lugar a um Estado de transição ao socialismo rumo a uma Federação de Repúblicas Socialistas do Oriente Médio8.
Portanto, já que a realidade não se ajusta a suas condições (não existe uma direção revolucionária nem uma hegemonia da classe operária), a FT não apoia nem se posiciona militarmente do lado rebelde. Prisioneira deste método de “exigências à realidade”, de fato a FT não combate a ditadura síria na forma concreta (contraditória) em que esta luta se desenvolve, o que leva, objetiva e inevitavelmente, ao favorecimento da vitória militar de Al Assad.
É evidente que a ausência da classe operária como protagonista do processo e de uma direção revolucionária constitui a principal limitação da revolução, não só na Síria como em toda a região. Isso se mostra mais dramático na medida em que esses processos se desenvolvem. A tarefa dos revolucionários é, portanto, dotar-se de uma política prática (não só declamatória) para superar essa terrível contradição entre a realidade objetiva (revolucionária) e a tremenda debilidade subjetiva (inexistência de uma direção operária e marxista).
Nesse sentido, a pergunta obrigatória é: como fazemos isso? Negando e nos opondo ao processo em si (porque este não acontece em estado “puro”) ou intervindo a fundo nele, apesar de seus limites e precisamente para superar esses limites?
Os processos revolucionários atuais, como o da Síria, tornam evidente que aqueles argumentos “esquerdistas” na realidade não só são “estéreis” como também desembocam em uma posição oportunista que, em essência, quando não na “forma”, coincide com as correntes “bolivarianas”.
A questão é que esse tipo de raciocínio não tem nenhuma base no marxismo, do qual eles se reivindicam herdeiros. O marxismo sempre ensinou que nunca se pode confundir, como faz a FT, o caráter objetivo dos processos com a sua direção.
Da mesma forma que seria criminoso confundir a justeza de uma greve operária com a sua direção burocrática, não é lícito confundir a justa causa do povo sírio com as suas direções traidoras.
“Guerra reacionária”?
Por este motivo, é um erro completo caracterizar a guerra civil como “reacionária”. Para nós, ao contrário, é uma “guerra justa” e, como dizia Lenin, é dever dos revolucionários abraçá-la como “nossa guerra”, independentemente de quem a dirija.
Esse foi o critério de Lenin e Trotsky quando, em setembro de 1917, enfrentaram as tropas contrarrevolucionárias de Kornilov, posicionando-se, sem dar apoio político, no mesmo campo militar que o traidor Kerensky.
Trotsky atuou da mesma forma quando chamou a lutar ao lado de Chiang Kai-shek, assassino de comunistas, para combater a invasão japonesa em 1937, denunciando-o não por “fazer a guerra contra o Japão”, e sim pela sua desastrosa condução militar.
Aconteceu o mesmo quando, no contexto da guerra civil espanhola (1936-1939), Trotsky orientou seus partidários a serem “os melhores soldados contra Franco” dentro das trincheiras republicanas, apesar de sua direção burguesa, que os trotskistas denunciavam sistematicamente por sua inconsequência para combater o fascismo e por seus acordos com os imperialismos “democráticos” e o stalinismo.
Em todos esses casos, os mestres do marxismo atuavam dessa maneira porque consideravam esses enfrentamentos como “guerras justas”.
À luz dessas valiosas tradições, nossa posição é clara e oposta à defendida pela FT: estamos na trincheira rebelde (com todas as suas contradições), sendo os “melhores soldados” contra a ditadura síria e contra o EI, ao mesmo tempo que combatemos as direções burguesas (árabes ou curdas) e o imperialismo a partir desse posicionamento militar na guerra civil. Esta é a única política que conduz à construção de uma possível direção revolucionária.
Perdidos no labirinto de Kobane
Perdida em suas próprias incoerências teórico-políticas, a FT está à deriva em meio ao complexo processo revolucionário sírio.
A luta encarniçada em Kobane é apenas um elemento a mais que evidencia as contradições e o rumo errático das posições dessa corrente.
Por um lado, a FT reconhece a audácia dos curdos: “Se no último mês a cidade de Kobane não caiu nas mãos do EI foi pela duríssima resistência das milícias do YPG, que enfrentaram sozinhas esta força revolucionária em cada rua 9.
Ao mesmo tempo admite, mesmo que parcialmente, o sentido progressivo dessa luta: ” (…) a derrota do EI em Kobane pela ação da resistência curda na dura queda de braços atual teria o potencial de abrir, por fim, um curso progressivo entre tanta guerra reacionária10.
Contudo, essa “simpatia” da FT por Kobane está imersa em uma negação do processo global no qual o conflito desta cidade curda está inserido: a revolução síria.
Torna-se evidente seu esforço para separar a luta dos curdos da resistência síria contra o regime de Al Assad quando afirma, por exemplo, que as milícias do YPG lutam “sozinhas” em meio a “tanta guerra reacionária”.
Se os curdos lutam “sozinhos” em Kobane, como a FT explica o acordo político e os reforços militares que o ELS está enviando para ajudar a defender esta cidade?
Como a FT explica a própria história recente de Kobane e de todo o Curdistão sírio, que foi libertado e pôs em marcha uma experiência de governo autônomo a partir da irrupção do processo revolucionário contra a ditadura síria, que antes negava não só direitos nacionais como também civis? A libertação do Curdistão sírio, que agora está sendo defendido com firmeza, seria então produto de uma “guerra reacionária”?
Se a FT tivesse um mínimo de coerência, agora deveria denunciar a grosseira “capitulação” da resistência curda de Kobane (que chamou de “potencialmente” progressiva) por ter assinado um acordo com o ELS, agentes de uma “guerra reacionária” e meramente “religiosa”.
Mas, como a milhares de quilômetros de distância o papel aguenta tudo …
Mais uma vez as “tropas terrestres” do imperialismo
A FT não só nega a unidade militar tremendamente progressiva que está sendo gestada entre curdos e rebeldes sírios árabes como também abre fogo contra a unidade entre os distintos setores da própria nação curda, como a que está sendo construída entre os curdos de Kobane e seus pares iraquianos, os peshmergas.
Nesse sentido, a FT afirma que os EUA estão buscando “(…) voluntários confiáveis e eficientes para exercer o papel de tropa terrestre11.
O imperialismo, nesse sentido, finalmente teria encontrado essas “tropas terrestres” nos curdos iraquianos: “Mesmo que tenham atritos com os Estados Unidos, suas milícias, chamadas peshmergas, atuam de fato como a infantaria dos bombardeios aéreos dos Estados Unidos e seus aliados12.
Por que razão os peshmergas teriam se transformado na “tropa terrestre dos EUA”13?
A FT responde: os clãs que disputam o controle do Curdistão iraquiano, o Partido Democrático do Curdistão de Masud Barzani e a União Patriótica do Curdistão de Yalal Talabani, que comandam os peshmergas, são “aliados dos Estados Unidos, e garantiram para si o controle do território no norte do país e suas reservas de petróleo sob a sombra da ocupação norte-americana14.
A equação estaria resolvida com uma formalidade que daria inveja a qualquer matemático: milícias com direções burguesas é igual a “infantaria do imperialismo”.
No final das contas, para a FT, o imperialismo que foi derrotado no Iraque e no Afeganistão não estaria em uma situação tão ruim na hora de intervir militarmente, pois já teria encontrado uma série de “tropas terrestres” (“mercenários terroristas”, “manifestantes profissionais”, diria o castro-chavismo) dispostas a lhe ajudar: primeiro os rebeldes líbios, depois os sírios, agora os curdos iraquianos. Que alguém avise ao Obama!
Mesmo que para a FT não importe muito, o marxismo ensina que as caracterizações têm consequências políticas.
Nesse sentido, não se entende o duplo critério que a FT utiliza com os curdos de Kobane e com os iraquianos: por acaso a direção curda das YPG – ligadas ao Partido da União Democrática (YPD) – que combate em Kobane seria “menos” burguesa que as direções curdas iraquianas que comandam os peshmergas?
Desde que começou o cerco “jihadista” em Kobane, milhares de combatentes curdos do Iraque se dispuseram a cruzar a fronteira e combater ao lado de seus “irmãos” sírios. Na última semana, o governo turco, pressionado pelas mobilizações em favor dos curdos de Kobane, concordou em abrir momentaneamente suas fronteiras e permitir a passagem de um contingente de 150 peshmergas.
Diante desse fato, se as posições da FT tivessem um mínimo de coerência e rigor, esta deveria se opor a que nada menos que “a infantaria dos bombardeios aéreos dos Estados Unidos e seus aliados” intervenha em Kobane.
Suponhamos que alguém que estivesse combatendo em Kobane decidisse seguir as análises da FT. Não lhe restaria outra alternativa a não ser alertar seus camaradas: Os peshmergas não são nossos “irmãos”, são a “infantaria do imperialismo”, é nosso dever combatê-los a tiros!
Nada mais delirante.
A realidade é que os peshmergas, assim como as milícias curdas de Kobane, apesar de suas direções burguesas, estão defendendo aquilo que consideram seu território histórico das hordas do EI, o que é uma expressão concreta da luta mais geral pela autodeterminação nacional. Por acaso não consideramos esta uma causa “justa”? Por que, então, a luta dos curdos iraquianos seria menos “justa” do que aquela travada pelos curdos sírios?
Se os peshmergas finalmente conseguissem derrotar o EI e proteger suas fronteiras, este não seria um acontecimento sumamente progressivo, uma conquista valiosíssima? Para quem entende a luta dos peshmergas como uma luta democrática “justa”, em defesa da autodeterminação nacional, a resposta seria afirmativa. Para aqueles, como a FT, que negam sistematicamente a luta pelas bandeiras democráticas, isso não passaria de uma terrível derrota, produto da ação “reacionária” da “infantaria do imperialismo”.
Por outro lado, a FT começa a preparar o terreno para, eventualmente, atacar as milícias de Kobane tal como faz com os peshmergas. Recentemente, “informaram-nos” que: “(…) neste fim de semana tornou-se público que os EUA mantiveram reuniões com o YPG, a milícia curda de Kobane que resiste há semanas à ofensiva do EI (…)”15, o que abriria “a possibilidade de que os curdos do norte da Síria e de Kobane se aproximem mais do imperialismo norte-americano como fizeram seus pares iraquianos 16.
Essas posições, lamentáveis vindo de uma organização que se diz “trotskista”, não podem favorecer a causa nacional dos curdos – muito menos da revolução síria -, mas sim seus inimigos históricos e atuais: o imperialismo, o governo turco, o regime sírio e o Estado Islâmico.
Mas é impossível encontrar o caminho de volta quando alguém nem mesmo reconhece que está perdido.
Tradução: Raquel Polla.
Notas:
1 As milícias YPG estão ligadas ao Partido da União Democrática (YPD), que por sua vez está vinculado ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), com centro na Turquia e catalogado como “organização terrorista” pelos EUA, OTAN, União Europeia e, evidentemente, pelo governo turco.
2 http://internacional.elpais.com/internacional/2014/10/28/actualidad/1414516085_040338.html
3 http://www.elmundo.es/internacional/2014/11/01/5455411822601d21638b457e.html
4 http://www.milenio.com/internacional/rebeldes_sirios-rebeldes_Kobane-yihadistas_Kobane-Estado_Islamico_0_399560088.html
6 http://www.pts.org.ar/La-guerra-sin-fin-de-Estados-Unidos
7 http://www.pts.org.ar/La-guerra-sin-fin-de-Estados-Unidos
8 ISHIBASHI, Simone. A crise síria e a necessidade de uma política revolucionária (Todos os destaques são nossos). Disponível em: http://www.ler-qi.org/A-crise-Siria-e-a-necessidade-de-uma-politica-revolucionaria .
9 http://www.ft-ci.org/El-Estado-Islamico-Estados-Unidos-y-la-resistencia-kurda-en-Siria?lang=es
10 http://www.ft-ci.org/Kurdos-contra-el-Estado-Islamico?lang=es
11 http://www.ft-ci.org/El-Estado-Islamico-Estados-Unidos-y-la-resistencia-kurda-en-Siria?lang=es
12http://www.ft-ci.org/Kurdos-contra-el-Estado-Islamico?lang=es
13 http://www.ler-qi.org/As-tensoes-entre-Obama-e-Erdogan-em-meio-aos-protestos-contra-o-governo-turco
14 http://www.ft-ci.org/Kurdos-contra-el-Estado-Islamico?lang=es
15http://www.ft-ci.org/La-intervencion-norteamericana-en-Siria-e-Irak?lang=es
16 http://www.ft-ci.org/La-intervencion-norteamericana-en-Siria-e-Irak?lang=es

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