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quinta-feira, fevereiro 29, 2024

A luta das mulheres Curdas

No início de 2013, três guerrilheiras curdas foram mortas no Centro de Informações do Curdistão em Paris, o que levou a uma importante mobilização denunciando a colaboração entre os serviços secretos dos governos turco e francês, demonstrando novamente a discriminação sofrida pelas mulheres, seja por razões políticas, por pertencerem a uma organização, ou até mesmo por se manifestarem.

 

Da mesma forma, fica evidente o machismo que impera em organizações como a Al Qaeda ou o Estado Islâmico (EI) no Iraque, onde as mulheres são sequestradas e estupradas para satisfazer os caprichos sexuais dos "senhores da guerra”.
Além disso, regras rígidas lhes são impostas, através da aplicação indevida da Sharia (lei islâmica), que lhes obrigam a se cobrirem totalmente, da cabeça aos pés. E como a mulher é considerada um ente fraco e decorativo, recorrem a elas para o único propósito de fazer sexo, mesmo durante as batalhas.

Como se isso não bastasse, as mulheres estupradas, muitas vezes crianças, são repudiadas por suas famílias. Por isso, muitas nem sequer se atrevem a denunciar a violação, e aquelas que o fazem são condenadas a se tornarem vítimas desse estigma social, que ainda hoje é muito forte na sociedade em que vivem.

As duas revoluções das mulheres curdas
 
Essa situação toda no Iraque, juntamente com a ofensiva dos grupos jihadistas na região do norte da Síria, cuja população é de maioria curda, criou uma revolução na consciência das mulheres, que se manifesta em seu alistamento, tanto na polícia e nas Unidades de Proteção Curdas (YPG). Ambas as divisões têm seções femininas que realizam trabalho ao lado dos homens, mas são livres para lidar com casos envolvendo mulheres.

Desde 2013, é notável a inclusão das mulheres na milícia curda (YPJ). Elas são, em sua maioria, jovens, de não mais de 20 anos, ocupando trincheiras e bunkers, a algumas centenas de metros das posições inimigas.

"Os emires do ISIS [EI] nos imploraram para retirarmos as mulheres da frente, porque para eles é uma vergonha morrerem em suas mãos"[1],diz Abdullrahman, membro da comissão de negociação das milícias curdas com os jihadistas, para a gestão de tréguas e troca de prisioneiros.
 
É que esses "cavalheiros" têm mais medo de mulheres que de homens, pois de acordo com suas crenças, "ser morto em combate por uma mulher não lhes permite entrar no paraíso", nas palavras da miliciana Zilan.

Desde que, em 2011, começaram os combates na Síria, as mulheres curdas estão realizando uma luta incansável para o reconhecimento de seu povo e pelos direitos das mulheres em uma sociedade extremamente patriarcal.

Uma das tarefas que levaram a cabo é a criação de um Centro de Treinamento e Capacitação de Mulheres em Qamishli, uma cidade a nordeste de Damasco. No Centro organizam desde oficinas de alfabetização em língua curda até aulas de informática e de costura, etc. Um dos cursos mais procurados é o de "mulheres e direitos", porque de acordo com o que diz Brahim, um membro ativo do centro: "A emancipação da mulher começa porque esta entende que tem o direito de ser um indivíduo, capaz de dirigir sua própria vida. ".[2]

As razões pelas quais as mulheres curdas na Síria se organizam e participam em ambos os centros, de formação e ajuda às mulheres, como combatem nas trincheiras, mostram essa "dupla revolução" que acontece não só na frente de combate, mas também nas mentes do povo curdo, o qual por décadas, foi oprimido e dividido entre a Turquia, a Síria, o Irã e o Iraque, e onde as mulheres têm sido sempre as mais discriminadas, maltratadas e subjugadas da sociedade.

Apesar de não terem "experiência de montanha" muitas mulheres, tanto na Síria como em outros países que conformam o Curdistão, se alistam para se defenderem dos grupos extremistas, se organizam para ajudar os seus pares na luta contra a discriminação, e se atrevem a enfrentar os "senhores da guerra", de armas em punho.

Fica, portanto, a esperança que se desenvolva um movimento de solidariedade entre as organizações curdas em cada país, em que a premissa da emancipação das mulheres possa ser um primeiro passo no caminho para se derrubar, por um lado, os métodos machistas utilizados em nome do Islã. E por outro, as fronteiras que o Ocidente e os vários governos regionais impuseram um dia ao Curdistão.



[1] David Meseguer, “As milicianas kurdas enfrentam o Jihadismo” na Siria.

[2]Nota de Karlos Zurutza (IPS), publicada no Resumen Latinoamericano, Diario de Urgencia, especial Kurdistán.

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