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segunda-feira, maio 20, 2024

O jornal e as novas mídias

Não há dúvidas sobre a importância do uso das novas mídias difundidas na internet para a luta dos trabalhadores e para a divulgação das propostas do partido revolucionário. Um exemplo bastante contundente ocorreu no início deste ano, com o processo revolucionário egípcio que derrubou o governo corrupto e ditatorial de Mubarak.

O assassinato do jovem Khaled Said, preso, torturado e morto pelos agentes da repressão do regime, em junho do ano passado, comoveu todo o Egito. Seu rosto ensanguentado, seu nariz, maxilar e dentes estraçalhados se tornam uma imagem chocante que expôs toda a brutalidade da polícia de Mubarak. Após o brutal assassinato, outro jovem, Wael Ghonim, cria no Facebook uma página de protesto chamada “We Are All Khaled Said” (“Somos todos Khaled Said”), cuja versão em árabe reuniria mais de um milhão de pessoas. Wael Ghonim talvez não imaginasse o que estaria por vir…

Em janeiro de 2011, os ventos do levante na Tunísia finalmente permitem o começo da revolução egípcia em 25 de janeiro, quando se inicia a jornada de protestos que culminariam na derrubada de Mubarak. Todos os protestos foram articulados a partir das redes sociais e do micro blog Twitter.  Mundo afora, #25jan ou #tahir, na liguagem das tags, tornam-se um símbolo das jornadas revolucionárias.

A revolução do Egito foi a primeira na qual a internet ocupou um papel de suma importância. A tal ponto de, como nos contou na época Luiz Gustavo, enviado do Opinião Socialista ao Cairo, a multidão na Praça Tahrir se espremer para poder tocar e beijar o jovem Wael Ghonim.

Evidentemente que a revolução ocorreu a partir de toda uma base real sobre a qual a tecnologia e as redes puderam contribuir para a revolta. “As mídias sociais desempenharam um papel importante, mas não foi a raiz. Dizer 'uma página de Facebook começou a revolução’ é uma narrativa que não tem nenhuma verdade”, revela Aalam Wassef, um dos jovens ativistas que convocaram os protestos, em entrevista ao pesquisador Howard Rheingold. “O sentimento revolucionário e a raiva começaram nas fábricas e nas casas, ou melhor, na favela. Com uma pressão econômica enorme”, sentencia Wassef.

Qualquer mudança na estrutura social não acontece a partir da vontade e do desejo, mas apoiada em uma situação concreta, na realidade de um povo e de seu tempo. Obedece a uma aritmética própria, com fatores como a situação da economia, as contradições sociais, a forma como o poder é exercido etc. E também, do nosso lado, como os trabalhadores e a classe operária se organizam, não só em sindicatos, DCEs, mas principalmente em suas direções políticas, suas organizações e partidos, que almejam o poder político da sociedade.

Mas as novas mídias foram habilmente articuladas com a realidade política que se apresentava no Egito. E o ditador Mubarak ficou tão assombrado com o poder de comunicação dos meios digitais que foi obrigado a “derrubar” a internet de todo o país por vários dias.
 
Usar novas mídias é uma necessidade

Utilizada como ferramenta integrada à luta real dos trabalhadores, confrontada com as condições existentes, a tecnologia e as redes podem proporcionar episódios fantásticos como o do Egito. Ou ainda, podem revelar a superexploração às quais os trabalhadores são submetidos e divulgar as suas lutas. Foi o que aconteceu com o vídeo da professora e militante do PSTU Amanda Gurgel no Youtube. O vídeo com o desabafo da professora causou uma comoção nacional. Milhares de professores, pais, alunos e a população em geral se identificaram com as palavras de Amanda. Todos sentem na pele a precariedade da educação, as salas superlotadas, a falta de infraestrutura, os salários baixos etc. Por meio do repentino sucesso do vídeo, a professora Amanda está divulgando as greves e lutas dos professores do país, além de defender a bandeira da categoria de aplicação imediata de 10% do PIB na educação, ou como se diz no universo do Twitter #dezporcentodopibja.

Portanto, a utilização das novas mídias se tornou uma necessidade para a luta dos trabalhadores, para divulgá-las e furar o bloqueio imposto pela grande mídia burguesa.

Lenin também se preocupou em alertar os bolcheviques sobre o advento das novas mídias e a importância de utilizá-las. Na sua época, o rádio proporcionava uma revolução na comunicação comparável à internet de nossos dias.

Depois que os bolcheviques tinham tomado o poder, Lenin escreveu uma carta para Mikhail Alexandrovich Bonch-Bruyevich, inventor na área de radiodifusão. Nela, o revolucionário russo afirma que com esse “jornal sem papel e sem distâncias [o rádio], com os alto-falantes e receptores feitos por B. Bruyevich, poderemos conseguir centenas de ouvintes e toda a Rússia escutará o jornal lido em Moscou”.Em outra carta, Lenin chega a dar uma “bronca” em Dovgalevsky, comissário do povo para os correios e telégrafos, que não estaria tratando a difusão do “jornal sem papel” com toda a atenção que merecia.
 
Superação do jornal impresso?

É bem comum escutar que o advento da internet está suplantando os veículos convencionais, como o jornal impresso, por exemplo, que estaria às vésperas de se tornar obsoleto. Mas seria possível que apenas a internet realizasse, ao mesmo tempo, o papel de agitador, propagandista e organizador coletivo como propunha Lenin sobre o papel do jornal? Mas como seria feito com os trabalhadores que não têm acesso à internet?

A internet, o Facebook, o Twiter e o Youtube são muito importantes e devem, sim, ser utilizados por um partido que queira atingir as grandes massas. Mas eles não substituem o jornal impresso por um motivo muito simples: a política revolucionária e a militância socialista são atividades essencialmente humanas, é uma relação entre trabalhadores feitos de carne e osso. É algo pra ser dito olho no olho. Disputar a consciência das pessoas não significa apenas divulgar ideias, coisa que pode e deve ser feita também pela internet, mas, em primeiro lugar, significa participar da vida e das lutas de nossa classe. Isso não se faz em casa, diante de um computador, e sim em cada local de trabalho, estudo e moradia. Em todas essas frentes de batalha, está presente o militante revolucionário, armado com seu jornal.

Além disso, é importante lembrar que o uso de novas mídias encontra uma barreira, que é a exclusão digital de aproximadamente 100 milhões de brasileiros (65 % da população, segundo o IBGE). Essa é uma barreira concreta que não pode ser ignorada por todos aqueles que almejam alcançar os setores mais explorados da classe operária. Como é impossível distribuir Tablets e Notebooks nas assembleias, escolas e fábricas, o jornal continua sendo para esses trabalhadores a principal forma de acesso às propostas do partido revolucionário.

A internet cumpre um papel de extrema importância e devemos dedicar todos os esforços para dominar a tecnologia e a linguagem que surge, tendo, porém, consciência de suas limitações. O jornal, por sua vez, continua sendo o centro de toda uma rede de comunicação, da atividade de propaganda, da agitação e organização do partido. É o centro de uma rede, de um sistema de comunicação cujo objetivo é aproximar os trabalhadores das posições revolucionárias. No entanto, tal objetivo não pode ser plenamente realizado sem o apoio do “jornal sem papel” dos nossos tempos.

Fonte: Opinião Socialista nº 425, de 08 a 29 de junho de 2011.

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