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A Revolução Russa de Outubro de 1917, o acontecimento histórico que mais marcou o mundo contemporâneo, estará completando 100 anos. Mas reacionários tentam cobrir a história com um manto de distorções. Afirmam que a revolução foi utópica, inútil e que apenas mostrou que o comunismo fracassou. Buscam por todos os meios mostrar que a repugnante ditadura stalinista que substituiu o governo de Lenin na ex-União Soviética (URSS) foi a continuidade da revolução, quando na verdade foi a sua derrota.

Por: Bernardo Cerdeira

Essa verdadeira campanha tenta enlamear a ação mais importante da classe operária mundial para que as novas gerações não sigam o seu exemplo.

Milhões de jovens que lutam todos os dias contra as mazelas do capitalismo imperialista não conhecem as lições de Outubro. Mais que nunca, é preciso relembrar e difundir os ensinamentos daquela que foi a mais importante experiência da classe operária. A estas novas gerações dedicamos este suplemento especial do Opinião Socialista.

Época revolucionária: um século de guerras, crises e revoluções

A Primeira Guerra Mundial, deflagrada em 1914, e a Revolução Russa foram dois acontecimentos intimamente ligados. A guerra foi a culminação das contradições entre os diversos países imperialistas da Europa que disputavam entre si a posse e exploração das colônias em todo o mundo.

A Primeira Guerra Mundial abriu definitivamente a época imperialista do capitalismo, marcada por guerras permanentes, crises econômicas brutais e destruição do meio ambiente, ou seja, pela decadência do sistema capitalista.

Mas, ao mesmo tempo, a Revolução Russa abriu uma época revolucionária. O enfrentamento contra a brutal exploração e a contrarrevolução imperialista, de um lado, e a luta revolucionária dos trabalhadores e dos povos oprimidos de todo o mundo, de outro, marcou o século 20.

Vanguarda mundial: a primeira revolução socialista vitoriosa do mundo

Quando os Soviets (Conselhos) de Deputados Operários e Soldados dirigidos pelo Partido Bolchevique tomaram o poder na Rússia, a revolução foi a primeira que conseguiu derrotar a burguesia e assegurar sua vitória.

O Estado soviético nascente enfrentou terríveis dificuldades. Em 1918, os exércitos contrarrevolucionários (brancos) deflagraram uma guerra civil. Vinte e um países estrangeiros invadiram a Rússia para apoiá-los. A guerra e a desorganização da economia, principalmente da agricultura, provocaram a fome e a morte de milhões de pessoas.

Mas o Partido Bolchevique, liderado por Lenin e Trotsky, conseguiu organizar o Exército Vermelho e, depois de três anos de guerra civil, derrotar a contrarrevolução e consolidar o primeiro Estado operário da história.

A Revolução Socialista é internacional

Desde o primeiro momento, os líderes do Partido Bolchevique declararam que a Revolução Russa não devia limitar-se às fronteiras de seu próprio país, mas ser o estopim e o ponto de apoio para deflagrar a Revolução na Europa e no mundo.

Lenin e Trotsky davam tanta importância ao caráter internacional da revolução que em 1919, enquanto o Exército Vermelho lutava desesperadamente para a URSS, em plena Guerra Civil fundaram a Internacional Comunista para fazer a revolução mundial.

Outubro mostrou o caminho

Muita coisa mudou nestes quase cem anos: a derrota da Revolução na Europa entre 1919 e 1923, o isolamento e o atraso da Rússia provocaram a degeneração da revolução. Uma burocracia de funcionários privilegiados liderados por Stalin assumiu o poder e transformou o Estado soviético em um regime de terror. A 3° Internacional também se degenerou e foi dissolvida por Stalin em 1943.

Nos anos 1980, sob a direção de Gorbachev, a burocracia restaurou o capitalismo e vários dos seus funcionários se transformaram nos milionários de uma nova burguesia.

Mas nem o destino trágico da primeira revolução socialista, nem todas as mentiras da burguesia conseguiram apagar seu exemplo. A Revolução de Outubro mostrou que os trabalhadores podem tomar o poder, derrotar a burguesia, assumir a condução da economia e construir um Estado democrático para a maioria.

98 anos depois, o capitalismo empurra o mundo ao abismo da barbárie e os trabalhadores lutam desesperadamente para não serem arrastados por ele. O exemplo de Outubro, ainda que breve, mostrou o caminho.

Nas palavras da grande revolucionária Rosa Luxemburgo: “o problema mais importante do socialismo, a questão candente da atualidade era, e é, a (…)capacidade de ação do proletariado, a energia revolucionária das massas, a vontade do socialismo de chegar ao poder. Nesse sentido, Lenin, Trotsky e seus amigos foram os primeiros a dar o exemplo ao proletariado mundial, e até agora continuam sendo os únicos que podem exclamar: ‘Eu ousei!'”

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Outubro Vermelho

No começo do século 20, a Rússia era o maior e mais populoso país da Europa, com 150 milhões de habitantes, mais de três milhões em Moscou e Petrogrado. No entanto, era um país atrasado onde 80% da população vivia no campo e 90% era analfabeta. A Rússia era um Estado absolutista autocrático, governado pela monarquia dos czares. O regime se baseava na repressão aos opositores. Milhares foram presos, torturados, executados ou deportados para a Sibéria. As liberdades de reunião e manifestação e a legalidade de partidos e sindicatos foram ocasionais e sempre conquistadas por mobilizações revolucionárias, como a Revolução de 1905.

Revolução de 1905: o grande ensaio

A Revolução de 1905 concentrou todas as contradições do czarismo: a derrota na guerra entre Rússia e Japão, a repressão e uma crise econômica desencadeada pelo conflito. Em janeiro, começou uma greve dos 12 mil operários da fábrica Pútilov em Petrogrado pela reintegração de quatro companheiros demitidos. Outras fábricas aderiram e a greve alcançou 150 mil trabalhadores.

A organização dos operários era dirigida por um padre de nome Gapón, que teve a ideia de levar ao czar as reivindicações de readmissão dos quatro e outras, como a jornada de oito horas e aumento de salário.

Mais de 200 mil trabalhadores se dirigiram ao Palácio de Inverno. O czar ordenou que as tropas atirassem contra a multidão. Morreram mais de 1.500 pessoas e houve 2.000 feridos. Este dia ficou conhecido como o “Domingo Sangrento”. Tinha começado a Revolução.

A Revolução durou um ano e finalmente foi derrotada. Mas deixou importantes ensinamentos. Um deles foi a organização do Soviet de deputados operários de Petrogrado, cujo presidente foi um socialdemocrata de 25 anos: Leon Trotsky.

A Rússia e a guerra

Em 1914, a Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial ao lado da Inglaterra e da França. No entanto, os sofrimentos do povo russo foram superiores aos dos outros países. Mal armado e equipado, o exército russo de mais de 10 milhões de soldados sofreu grandes derrotas e já contava 1 milhão e 700 mil mortos e 6 milhões de feridos.

A guerra significou terríveis sofrimentos para a população em geral, que sofria os efeitos da crise de abastecimento e da fome, e especialmente para os camponeses, que eram a maioria do exército.

A Revolução de Fevereiro

Em Fevereiro de 1917, durante as manifestações pelo Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, milhares de manifestantes saíram às ruas, invadiram o Palácio Tauride, onde se reunia a Duma (o parlamento), exigindo a renúncia do czar. Nicolau II foi forçado a abdicar. Trotsky descreveu assim a Revolução de Fevereiro:

Começa a revolução mais violenta de todos os tempos. Em uma semana, a sociedade se desfaz de todos os seus mandatários: o monarca e seus homens da lei, a polícia e os sacerdotes; os proprietários e os gerentes, os oficiais e os amos. (…) no exército, os soldados deixam de obedecer aos seus superiores. Ninguém jamais havia sonhado com uma revolução assim. Agora esse sonho circula pelas veias de todas as almas desesperadas e desamparadas deste planeta.” (Trotsky, O grande sonho)

O Governo Provisório e Kerensky

Os Soviets se reorganizaram durante as manifestações contra o regime e poderiam ter tomado o poder. No entanto, os partidos oportunistas, mencheviques e socialistas-revolucionários, que eram maioria, resolveram entregar o poder a um Governo Provisório burguês encabeçado pelo príncipe Lvov, no qual participava Kerensky, um ex-trudovique (trabalhista). Entre fevereiro e outubro se sucederam diferentes gabinetes do Governo Provisório que contaram com ministros burgueses e mencheviques e socialistas-revolucionários.

Os bolcheviques, liderados naquele momento por Stalin e Kamenev, apoiaram inicialmente o Governo Provisório. Quando Lenin chega a Petrogrado, vindo do exílio, apresenta as “Teses de Abril”, que defendem a necessidade de um giro total nesta política. As teses de Lenin são aprovadas pelo Partido Bolchevique, que passa a fazer oposição ao Governo Provisório e a defender que os Soviets de trabalhadores e soldados tomem o poder.

Os Soviets e o duplo poder

Os Soviets estavam na memória recente da classe operária pela Revolução de 1905. A partir de Fevereiro se reorganiza o Soviet de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado. Os trabalhadores votavam em seus representantes por fábrica ou por distrito elegendo um delegado a cada mil operários. Os soldados da capital também participavam com um representante por cada companhia.

A partir de Petrogrado a organização soviética foi se estendendo para todo o país. Os Soviets representaram um poder paralelo, ou poder dual, ao Governo Provisório.O Governo Provisório na verdade dependia do apoio dos Soviets, dominados pelos mencheviques e socialistas-revolucionários. Em junho de 1917 se reuniu o I Congresso Panrusso dos Soviets, ainda com maioria desses partidos oportunistas.

Pão, Paz e Terra

O Governo Provisório não conseguia resolver os principais problemas das massas. O primeiro era a necessidade de acabar com a guerra que trazia enormes sofrimentos para operários e camponeses. O Governo Provisório cedia às pressões da Inglaterra e da França para que a Rússia mantivesse seus compromissos militares e continuasse em guerra, mas o povo exigia a paz.

Isso levava ao grave problema de manter e alimentar um exército de dez milhões de soldados. O abastecimento das cidades era prejudicado e a fome rondava permanentemente seus habitantes. Por outro lado, o Governo Provisório conciliava com os latifundiários e atrasava a distribuição de terras exigida pelos camponeses.

Por isso, o Partido Bolchevique levantava como principal reivindicação a de Pão, Paz e Terra, além da autodeterminação para as dezenas de nacionalidades oprimidas pelo antigo regime czarista.

As jornadas de julho e o golpe de Kornilov

Em julho, as massas de trabalhadores e soldados de Petrogrado, exasperadas com a derrota da ofensiva militar ordenada pelo Governo Provisório e pelos sacrifícios causados pelo desabastecimento, iniciaram um levante contra o governo. Os bolcheviques se opuseram em princípio, porque viam que o resto do país ainda apoiava os socialistas-revolucionários e os mencheviques e temiam que a capital se isolasse.

Mesmo assim, estiveram do lado dos manifestantes e procuraram dirigi-los. Por isso, foram reprimidos pelo Governo Provisório e centenas de seus militantes, inclusive dirigentes como Kamenev e Trotsky, foram presos. Foi decretada ordem de prisão contra Lenin e Zinoviev, que foram obrigados a passar à clandestinidade.

Em agosto, o general Kornilov, comandante em chefe do exército, tenta um golpe militar contrarrevolucionário, enviando tropas da frente de guerra à Petrogrado para derrubar o governo de Kerensky, que pede apoio.

Os bolcheviques chamaram à luta contra Kornilov e se colocaram na vanguarda da organização militar para derrotá-lo. Foi formada a Guarda Vermelha com os operários de Petrogrado. Delegados dos Soviets e dos soldados da capital conseguiram convencer as tropas sobre o caráter do golpe e a abandonar a marcha sobre a capital. Kornilov foi derrotado e preso sem que se disparasse um tiro.

A Revolução de Outubro

A resistência de massas ao golpe de Kornilov inclinou a balança para a esquerda. As massas voltaram a confiar nos bolcheviques, que ganharam a maioria nas eleições para o Soviet de Petrogrado em setembro. Trotsky, libertado da prisão, foi eleito presidente do Soviet.

O Governo Provisório estava cada vez mais débil, mas ainda tentou algumas manobras. Em meados de setembro realizou a chamada “Conferência Democrática”. Critérios de representação distorcidos davam maioria aos partidos burgueses e oportunistas. Os bolcheviques participaram para denunciá-la. Ao final, a Conferência se declarou “pré-Parlamento”, um órgão legislativo que tinha o objetivo de esvaziar o Soviet, subordinando-o a esta instituição.

Entre os bolcheviques se abriu uma polêmica que refletia uma diferença estratégica. Lenin e Trotsky defendiam que o Partido Bolchevique boicotasse o pré-Parlamento e preparasse a insurreição para tomar o poder. Mas a maioria do Comitê Central rejeitou o boicote, refletindo uma vacilação sobre a tomada do poder.

A partir da Finlândia, onde estava exilado, Lenin abriu uma luta interna e finalmente conseguiu que a maioria do CC aprovasse o boicote. Na abertura dos trabalhos do pré-Parlamento, Trotsky leu uma declaração de ruptura e os deputados bolcheviques abandonaram o salão.

No começo de outubro, Lenin voltou a insistir que os bolcheviques desencadeassem a insurreição sem demora, com receio que o momento mais favorável se perdesse. No entanto, no Comitê Central, Zinoviev e Kamenev se opuseram. Quando o CC finalmente aprovou a insurreição, os dois dirigentes expuseram sua posição contrária na imprensa dos Soviets, rompendo a disciplina do partido.

O 2° Congresso Panrusso dos Soviets estava convocado para o dia 25 de Outubro. O Governo Provisório, temendo a insurreição bolchevique, tentou enviar as tropas de Petrogrado para a frente de batalha, o que deixaria a capital desguarnecida diante das tropas alemãs.

O Soviet de Petrogrado formou então o Comitê Militar Revolucionário, presidido pelo próprio Trotsky, que passou a controlar todas as ordens militares do Governo Provisório. De fato, o poder já estava na mão dos Soviets e dos bolcheviques que os dirigiam.

No dia 25, sob o argumento de defender a capital dos alemães e de garantir a segurança do 2° Congresso dos Soviets, as tropas do Comitê Militar Revolucionário ocuparam os pontos estratégicos da cidade. Na noite deste mesmo dia, as tropas revolucionárias dirigidas pelo bolchevique Antonov-Ovseenko tomaram o Palácio de Inverno e prenderam os últimos ministros do Governo Provisório. Kerensky já havia fugido.

No 2° Congresso dos Soviets, os delegados apoiaram por aclamação a destituição do Governo Provisório e a passagem do poder para os Soviets. Os mencheviques e socialistas-revolucionários de direita abandonaram o Congresso. Os bolcheviques chegaram a um acordo para compor um governo soviético com os socialistas-revolucionários de esquerda.

Lenin assumiu o governo com um discurso que termina sob aplausos com as célebres palavras: “Passemos agora à edificação da ordem socialista”. O  2° Congresso ratificou então os primeiros decretos do governo soviético sobre a paz e a distribuição de terras aos camponeses. A Revolução de Outubro havia triunfado.

Encarte Especial do jornal Opinião Socialista nº 507

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