{"id":83299,"date":"2026-11-04T12:50:10","date_gmt":"2026-11-04T12:50:10","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=83299"},"modified":"2026-11-04T12:50:42","modified_gmt":"2026-11-04T12:50:42","slug":"o-problema-nao-e-so-netanyahu-mas-o-estado-colonial-e-racista-de-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/11\/04\/o-problema-nao-e-so-netanyahu-mas-o-estado-colonial-e-racista-de-israel\/","title":{"rendered":"O problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Netanyahu, mas o estado colonial e racista de Israel"},"content":{"rendered":"\n<p>Enquanto os holofotes estavam voltados para o processo eleitoral em Israel e agora o impasse ap\u00f3s a contabiliza\u00e7\u00e3o dos votos, as for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o sionistas avan\u00e7avam na limpeza \u00e9tnica, no genoc\u00eddio e no apartheid contra palestinos. N\u00e3o era s\u00f3 cortina de fuma\u00e7a com os olhos voltados para as elei\u00e7\u00f5es sobre quem vai comandar um estado colonial e supremacista forjado em crimes contra a humanidade. Era tamb\u00e9m uma busca por angariar votos de colonos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 27 de outubro, dia da elei\u00e7\u00e3o, a Cisjord\u00e2nia enfrentava j\u00e1 havia quatro dias a amplia\u00e7\u00e3o do cerco ao povo palestino, com bloqueio de entradas pelas for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o sionistas em bairros, aldeias e cidades, invas\u00f5es a campos de refugiados, mais demoli\u00e7\u00e3o de casas, pris\u00f5es e expuls\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Gaza,&nbsp;sangue inclusive de crian\u00e7as tamb\u00e9m foi derramado na data, com mais mortic\u00ednio nos dias subsequentes. Aos mais de 80 mil palestinos assassinados no genoc\u00eddio em curso, outras dezenas t\u00eam se somado, dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201cEcos alarmantes\u201d<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O avan\u00e7o da limpeza \u00e9tnica na Cisjord\u00e2nia levou o diretor da Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Assist\u00eancia aos Refugiados Palestinos (UNRWA), Roland Friedrich, a expressar, em 27 de outubro, em publica\u00e7\u00e3o no X, \u201cgrave preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o em Hebron\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Al Khalil, como \u00e9 seu nome original em \u00e1rabe, \u00e9 a maior cidade da Cisjord\u00e2nia, reunindo em toda a prov\u00edncia 700 mil habitantes. Enfrentava, como denunciou ele, \u201cbloqueio quase total que restringiu severamente a liberdade de movimento dos moradores e acesso a servi\u00e7os essenciais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Friedrich acrescentou na publica\u00e7\u00e3o: \u201cEsses acontecimentos trazem ecos alarmantes do deslocamento em massa observado no norte da Cisjord\u00e2nia ocupada no in\u00edcio de 2025, onde mais de 34 mil refugiados palestinos \u2013 provenientes dos campos de Jenin, Tulkarm e Nur Shams \u2013 permanecem deslocados \u00e0 for\u00e7a mais de um ano depois. [&#8230;] Esses desdobramentos ocorrem, ainda, em um contexto marcado pelas elei\u00e7\u00f5es para o Knesset (parlamento israelense), enquanto as tens\u00f5es em toda a Cisjord\u00e2nia ocupada permanecem elevadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O severo cerco \u00e0 Cisjord\u00e2nia durou dez dias, a partir de 23 de outubro. Sob a justificativa de resposta a a\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia contra soldados da ocupa\u00e7\u00e3o sionistas, como de praxe, Israel utilizava a puni\u00e7\u00e3o coletiva \u2013 o que, como reconheceu Friedrich em sua postagem, \u00e9 ilegal conforme o Direito Internacional. Somente nos \u00faltimos dias, conforme noticiou a <em>Al Jazeera<\/em>, mais de 5 mil palestinos em Al Khalil (Hebron), foram deslocados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca \u00e9 demais lembrar que os povos sob coloniza\u00e7\u00e3o, como o palestino, t\u00eam o direito leg\u00edtimo de resistir sob todos os meios e que pot\u00eancia ocupante, no caso Israel, n\u00e3o t\u00eam direito de defesa, como reconhece a pr\u00f3pria Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de governo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Enquanto a situa\u00e7\u00e3o se agravava dia a dia, contudo, vidas palestinas n\u00e3o mereciam as mesmas manchetes. O interesse era se o genocida Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro sionista, seria ou n\u00e3o derrotado.<\/p>\n\n\n\n<p>O impasse segue, com sua coaliz\u00e3o tendo obtido 53 cadeiras, ante 48 da oposi\u00e7\u00e3o liderada pelo general da ocupa\u00e7\u00e3o Gadi Eisenkot, formulador da Doutrina Dahiya \u2013 de terra arrasada, desenvolvida no L\u00edbano, no bairro de Dahiya, em 2006, e aplicada no genoc\u00eddio em curso em Gaza.<\/p>\n\n\n\n<p>Como mostra artigo republicado pela LIT-QI de Yoav Haifawi, intitulado \u201cAs elei\u00e7\u00f5es em Israel exp\u00f5em a crise do regime de apartheid\u201d, a principal cr\u00edtica de Eisenkot a Netanyahu, assim como dos seus aliados, \u00e9 que n\u00e3o conseguiu \u201cesmagar\u201d o Hamas em Gaza. E a promessa dessa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 de mais militariza\u00e7\u00e3o, com o recrutamento obrigat\u00f3rio dos judeus ultraortodoxos haredim.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum dos dois l\u00edderes racistas \u2013 e chega a ser ir\u00f4nico que na m\u00eddia Eisenkot seja apresentado como uma alternativa \u201cde centro\u201d, que seria melhor inclusive para os palestinos \u2013 alcan\u00e7ou a maioria para formar governo. O impasse agora \u00e9 se a tal oposi\u00e7\u00e3o a Netanyahu forma ou n\u00e3o maioria aceitando alian\u00e7a com partidos \u00e1rabes, que obtiveram 19 cadeiras \u2013 os quais n\u00e3o t\u00eam \u201cnenhuma influ\u00eancia real\u201d, tamb\u00e9m conforme detalha Yoav Haifawi em outro artigo, intitulado \u201cOs palestinos de 48 e as elei\u00e7\u00f5es do apartheid israelense\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Yoav, vale observar, \u00e9 membro da organiza\u00e7\u00e3o palestina de esquerda <em>Abnaa el-Balad<\/em> (\u201cFilhos da Terra\u201d), que mant\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o de boicote \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do Estado sionista, n\u00e3o legitimando as elei\u00e7\u00f5es ao Parlamento sionista, o Knesset.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o coerente faz frente \u00e0 ret\u00f3rica constru\u00edda de que o problema seria Netanyahu, a \u201cextrema direita\u201d de Israel. Tal narrativa ignora que n\u00e3o se trata de quest\u00e3o de governo, mas de estado. Israel se apresenta ao mundo como um estado democr\u00e1tico burgu\u00eas normal, mas \u00e9 um enclave militar do imperialismo, a consolida\u00e7\u00e3o de um projeto colonial e supremacista h\u00e1 mais de 78 anos. E a democracia \u00e9 um mito. O apartheid \u00e9 institucionalizado, do rio ao mar, como evidenciado no racismo antipalestinos tamb\u00e9m durante o processo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Os chamados cidad\u00e3os \u00e1rabes-israelenses, que representam 20% no estado sionista \u2013 1,9 milh\u00e3o \u2013 e enfrentam algo como 65 leis racistas e n\u00e3o gozam dos mesmos direitos no \u201cEstado-na\u00e7\u00e3o judeu\u201d. O projeto colonial sionista era de manter uma \u201cminoria\u201d de 15% a 20%, o que serviria \u00e0 fachada de \u201cdemocracia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes palestinos s\u00e3o os poucos que puderam permanecer no enclave ap\u00f3s 1948, quando Israel foi formado em 78% da Palestina hist\u00f3rica, mediante limpeza \u00e9tnica e genoc\u00eddios que resultaram na expuls\u00e3o violenta de 800 mil palestinos de suas terras e destrui\u00e7\u00e3o de cerca de 530 aldeias. Ali se assentava a pedra fundamental da cont\u00ednua <em>Nakba<\/em> (cat\u00e1strofe).<\/p>\n\n\n\n<p>Quem estava \u00e0 frente no momento eram os chamados sionistas trabalhistas (identificados hoje como \u201cesquerda), n\u00e3o a ala revisionista de Netanyahu. Os trabalhistas estiveram no comando at\u00e9 1977, portanto, tamb\u00e9m em 1967, quando Israel ocupou violentamente os 22% remanescentes da Palestina hist\u00f3rica \u2013 Gaza, Cisjord\u00e2nia e Cidade Velha de Jerusal\u00e9m. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o espectro pol\u00edtico dentro de uma ideologia e projeto colonial racista, mas o sionismo enquanto tal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, a crise do sionismo fica evidenciada tamb\u00e9m nas elei\u00e7\u00f5es \u2013 e n\u00e3o apenas internas, mas tamb\u00e9m nas de meio de mandato nos EUA. Trump anunciou neste 3 de novembro que vai encerrar o acordo de coopera\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a com Israel de envio anual de US$ 3,8 bilh\u00f5es, o qual tem sido questionado pelos Democratas. Uma ironia e hipocrisia, j\u00e1 que quem o assinou foi Barack Obama em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas demonstra a perda de apoio a Israel inclusive dentro dos EUA. Pesquisa recente do Pew Research Center apontava que seis a cada dez estadunidenses tinham uma vis\u00e3o desfavor\u00e1vel de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o estado sionista, sacar Netanyahu do posto de primeiro-ministro seria providencial para tentar estancar a crise, recuperar a imagem do estado genocida perante a opini\u00e3o p\u00fablica e conter o crescente isolamento internacional. Esse esfor\u00e7o ganha repercuss\u00e3o nas narrativas que apresentam Netanyahu e sua extrema direita como o problema.<\/p>\n\n\n\n<p>O obst\u00e1culo s\u00e3o aqueles que se recusam a silenciar e seguem a expor a verdadeira face do estado genocida de Israel, alinhados e inspirados na resist\u00eancia, firmeza e persist\u00eancia do povo palestino, que garantiu que suas vozes fossem ecoadas em uma onda de solidariedade nunca antes vista, em todo o globo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, \u00e9 fundamental fazer frente a essa confus\u00e3o de que o problema \u00e9 o governo de plant\u00e3o e seguir atuando para acelerar o fim do projeto colonial sionista, rumo \u00e0 Palestina livre, do rio ao mar, com o retorno dos milh\u00f5es de refugiados palestinos as suas terras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto os holofotes estavam voltados para o processo eleitoral em Israel e agora o impasse ap\u00f3s a contabiliza\u00e7\u00e3o dos votos, as for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o sionistas avan\u00e7avam na limpeza \u00e9tnica, no genoc\u00eddio e no apartheid contra palestinos. 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