{"id":83294,"date":"2026-10-29T22:55:13","date_gmt":"2026-10-29T22:55:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=83294"},"modified":"2026-10-29T22:56:02","modified_gmt":"2026-10-29T22:56:02","slug":"quem-tem-medo-da-acampada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/10\/29\/quem-tem-medo-da-acampada\/","title":{"rendered":"Portugal | Quem tem medo da acampada?"},"content":{"rendered":"\n<p>Viver em Portugal est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil. S\u00f3 para se ter uma ideia, 27% da popula\u00e7\u00e3o fica em risco de pobreza depois de pagar o aluguel ou a presta\u00e7\u00e3o de uma casa. \u201cHoje eu n\u00e3o poderia comprar o meu apartamento\u201d, conta Albertina. Em 1998, ela comprou um T1 (quarto e sala) por 60.250 euros num pr\u00e9dio com 25 anos, sem qualquer remodela\u00e7\u00e3o, com cr\u00e9dito de 100% em 30 anos. Naquela \u00e9poca, a presta\u00e7\u00e3o representava \u2153 do seu ordenado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2020, o mesmo apartamento adquiriu o valor de mercado de 80.000 euros; em 2026 o seu valor duplicou: 160.000 euros. \u201cEst\u00e1 tudo doido?\u201d, pergunta ela. \u201cUm T1 num pr\u00e9dio velho de um sub\u00farbio que n\u00e3o tem nada de especial?! \u00c9 o mercado funcionando? Para quem? Para os bancos, que emprestam o dobro, para cobrarem juros durante 50 anos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Est\u00e1 tudo doido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nem por isso. Al\u00e9m dos bancos, h\u00e1 os \u201cfundos abutres\u201d (fundos de investimento), as plataformas de hospedagem local (Airbnb) e os grandes propriet\u00e1rios lucrando como nunca especulando com o pre\u00e7o dos im\u00f3veis. Os fundos de investimento chegam a comprar bairros inteiros de habita\u00e7\u00e3o residencial para vender ou arrendar im\u00f3veis a pre\u00e7os incomport\u00e1veis aos sal\u00e1rios portugueses, cujo sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 de 920 euros.<\/p>\n\n\n\n<p>A habita\u00e7\u00e3o deixa de ser vista como um bem social \u2013 a habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica em Portugal representa apenas 2% do parque habitacional \u2013 para transformar-se num ativo financeiro. Ficam de fora dessa aritm\u00e9tica a maior parte da juventude e das fam\u00edlias trabalhadoras. \u00c9 vis\u00edvel hoje nas grandes cidades, como Porto e Lisboa, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de moradores de sem-teto dormindo em barracas ou diretamente no ch\u00e3o debaixo de viadutos e marquises. Algo raro h\u00e1 at\u00e9 bem pouco tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As acampadas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A luta por moradia come\u00e7ou em Madri, em setembro, quando um verdadeiro levantamento popular op\u00f4s-se ao despejo de Maricarmen Abascal, uma mulher de 87 anos, que acabou por morrer, fragilizada devido \u00e0 press\u00e3o judicial e policial para obrig\u00e1-la a deixar a sua casa. Menos de um m\u00eas depois, o movimento no pa\u00eds vizinho contagiou Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como em Madri, na Puerta del Sol, montaram-se acampadas na Pra\u00e7a D. Jo\u00e3o I, no Porto, e no Rossio, em Lisboa. O objetivo \u00e9 exigir do governo medidas que possam resolver o problema da moradia, a come\u00e7ar pela retirada da nova lei das rendas, limite aos valores dos alugu\u00e9is e \u00e0 hospedagem local; aumento do investimento do Estado no parque habitacional p\u00fablico e na recupera\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis devolutos para gerar habita\u00e7\u00e3o com pre\u00e7os acess\u00edveis; e o fim dos benef\u00edcios fiscais para fundos de investimento, imobili\u00e1rias, construtoras e senhorios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas acampadas realizam-se diariamente assembleias populares para debater e deliberar os rumos do movimento. S\u00e3o os pr\u00f3prios participantes que confecionam as suas refei\u00e7\u00f5es, mant\u00eam a limpeza da \u00e1rea ocupada e organizam atividades culturais, \u00e0s quais comparecem artistas solid\u00e1rios com o movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>As atuais acampadas assemelham-se a uma outra realizada em maio de 2011, no Rossio, em protesto contra a pol\u00edtica de austeridade executada pelo governo de Pedro Passos Coelho, da direita (PSD\/CDS), em obedi\u00eancia \u00e0s ordens da Troika (Comiss\u00e3o Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monet\u00e1rio Internacional). Liderado pela juventude, como agora, o movimento de 2011 chamou-se \u201cGera\u00e7\u00e3o \u00e0 Rasca\u201d e organizou gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es de protesto. A ele seguiu-se outro igualmente poderoso, \u201cQue se lixe a troika\u201d, respons\u00e1vel por levar \u00e0s ruas do pa\u00eds 1 milh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta em Portugal enquadra-se na onda de mobiliza\u00e7\u00f5es que percorrem toda a Europa, com reivindica\u00e7\u00f5es semelhantes e solid\u00e1rias com o povo palestino e do Oriente M\u00e9dio e contra o governo Trump e os seus parceiros imperialistas europeus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A resposta do governo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda antes da mobiliza\u00e7\u00e3o por moradia ter come\u00e7ado em Portugal, o governo de direita do primeiro-ministro Lu\u00eds Montenegro (PSD) apresentou ao Parlamento uma proposta de altera\u00e7\u00f5es da lei do arrendamento que, em vez de solucionar o problema da habita\u00e7\u00e3o, s\u00f3 faz agrav\u00e1-lo: acaba com o limite de 2% ao aumento das rendas nos novos contratos, permite cau\u00e7\u00f5es mais elevadas, pode levar ao descongelamento de rendas antigas e facilita os despejos. Para o governo e o primeiro-ministro, ele pr\u00f3prio propriet\u00e1rio de 55 im\u00f3veis, o valor de 2.300 euros de aluguel \u00e9 considerado um \u201caluguel acess\u00edvel\u201d, que d\u00e1 ao propriet\u00e1rio direito a isen\u00e7\u00f5es fiscais, num pa\u00eds cujo o sal\u00e1rio da maioria dos trabalhadores fica abaixo de 1000 euros.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o in\u00edcio das manifesta\u00e7\u00f5es e das acampadas, o governo Montenegro percebeu que poderia ser derrotado. Para tentar impedi-lo apelou para a for\u00e7a bruta contra manifestantes pac\u00edficos e desarmados. \u00c0s tr\u00eas da manh\u00e3 do dia 15 de outubro, depois que os jornalistas sa\u00edram, a pol\u00edcia obrigou os jovens a desmontarem as tendas na Pra\u00e7a D. Jo\u00e3o I, no Porto, e os atacou com bastonadas. O saldo foram 37 feridos, dois em estado grave com fraturas, e barracas, cartazes e mochilas apreendidos. Na v\u00e9spera o presidente da C\u00e2mara do Porto, do mesmo partido do primeiro-ministro, tinha prometido ser \u201cabsolutamente implac\u00e1vel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois dias depois da repress\u00e3o no Porto, ergue-se a acampada de Lisboa. Mais uma vez a pol\u00edcia investe sobre os manifestantes das duas cidades. Uma semana depois, em 25 de outubro, milhares de pessoas caminham pela Avenida da Liberdade, em Lisboa, em apoio \u00e0 luta e, mais uma vez durante a madrugada, a pol\u00edcia investe sobre as acampadas. Fotos e v\u00eddeos comprovam a viol\u00eancia policial contra os manifestantes: bastonadas na cabe\u00e7a, no rosto, nas pernas e nos bra\u00e7os de pessoas indefesas, j\u00e1 ca\u00eddas no ch\u00e3o. Houve mais de 50 feridos, muitos deles atendidos em hospitais, e dezenas de detidos, defendidos por advogados que n\u00e3o cobravam honor\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA cada bastonada, responderemos com mais organiza\u00e7\u00e3o! A cada amea\u00e7a, responderemos com mais solidariedade!\u201d, escreviam os ativistas nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Greve geral<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando escrev\u00edamos este artigo, a luta continuava cada vez mais forte e cercada pela solidariedade da sociedade. Mobiliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas em pra\u00e7as, em frente aos f\u00f3runs de justi\u00e7a onde os ativistas apresentam-se para prestar depoimento, diante da Assembleia da Rep\u00fablica, onde seria debatido e votado o or\u00e7amento do pa\u00eds para o pr\u00f3ximo ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta est\u00e1 enfrentando um governo fragilizado e em crise em consequ\u00eancia de v\u00e1rias derrotas, entre as quais a mais importante foi a derrubada, no Parlamento, do pacote laboral, um projeto que apresentava mais de 100 altera\u00e7\u00f5es ao C\u00f3digo do Trabalho, representando um grande retrocesso nas condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>O chumbo do pacote foi o resultado de duas greves gerais em menos de um ano, em 11 de dezembro de 2025 e 3 de junho deste ano. Um governo minorit\u00e1rio que depende da extrema-direita para aprovar os seus projetos e da in\u00e9rcia do Partido Socialista (PS). Por isso, em vez dar uma resposta pol\u00edtica \u00e0 luta social, reprime o movimento com viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta ainda est\u00e1 em curso, mas j\u00e1 obteve vit\u00f3rias importantes: obrigar o governo a retomar o debate sobre habita\u00e7\u00e3o no Parlamento, sob a amea\u00e7a de que as suas propostas de altera\u00e7\u00e3o \u00e0 lei do arrendamento ser\u00e3o derrotadas; e a uni\u00e3o da juventude trabalhadora e estudantil n\u00e3o s\u00f3 por moradia, mas tamb\u00e9m por aumento do investimento em educa\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o das propinas (taxas impostas aos estudantes nas universidades p\u00fablicas) e pela transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que a luta possa ser vitoriosa \u00e9 preciso uma nova greve geral, desta vez centrada na quest\u00e3o da moradia, como j\u00e1 est\u00e3o organizando os trabalhadores do Estado Espanhol, para o dia 11 de novembro. Como disse o nosso camarada Ant\u00f3nio Tonga na assembleia da acampada em Chelas, uma grande zona de habita\u00e7\u00e3o social de Lisboa: \u201cQuando n\u00f3s falamos dos problemas do acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, muitas vezes esquecemos que este problema tem cor, que este problema tem classe social, que este problema tamb\u00e9m tem g\u00eanero\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viver em Portugal est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil. S\u00f3 para se ter uma ideia, 27% da popula\u00e7\u00e3o fica em risco de pobreza depois de pagar o aluguel ou a presta\u00e7\u00e3o de uma casa. \u201cHoje eu n\u00e3o poderia comprar o meu apartamento\u201d, conta Albertina. 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Enquanto os jovens montavam as suas barracas em pra\u00e7as de Lisboa e do Porto para reivindicar casa para morar, o executivo da direita (PSD) enviava um violento aparato policial para reprimir os manifestantes. 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