{"id":83268,"date":"2026-10-27T12:17:59","date_gmt":"2026-10-27T12:17:59","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=83268"},"modified":"2026-10-27T13:45:21","modified_gmt":"2026-10-27T13:45:21","slug":"os-palestinos-de-48-e-as-eleicoes-do-apartheid-israelense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/10\/27\/os-palestinos-de-48-e-as-eleicoes-do-apartheid-israelense\/","title":{"rendered":"Os palestinos de &#8217;48 e as elei\u00e7\u00f5es do apartheid israelense"},"content":{"rendered":"\n<p>Publicamos o segundo artigo de Yoav Haifawi, integrante da organiza\u00e7\u00e3o de esquerda palestina Abnaa el-Balad (\u201cFilhos da terra\u201d) que mant\u00e9m a coerente posi\u00e7\u00e3o de boicote \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do Estado sionista como \u00e9 o caso da Knesset, o parlamento israelense. Esse artigo foi publicado originalmente no site \u00abRevista Em Defesa do Marxismo\u00bb da Argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro de dois artigos sobre as elei\u00e7\u00f5es israelenses, previstas para 27 de outubro, expliquei como os partidos sionistas compartilham o apoio ao genoc\u00eddio, \u00e0 limpeza \u00e9tnica, \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o e \u00e0 guerra em todas as frentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, propagandistas internacionais do sionismo, como Reuters, The Economist e The New York Times, destacaram o papel dos partidos que representam a sociedade \u00e1rabe palestina, para criar a ilus\u00e3o de que h\u00e1 alguma mudan\u00e7a real no horizonte. Ignoram intencionalmente a din\u00e2mica racista que controla por completo a pol\u00edtica israelense.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O apartheid come\u00e7a pela demografia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Israel se define como um \u201cEstado judeu e democr\u00e1tico\u201d. Para se constituir como tal, precisava de uma maioria judaica. Em 1948, mesmo antes de ser declarado oficialmente, Israel realizou uma campanha de massacres e terror para criar essa maioria judaica, expulsando cerca de 80% da popula\u00e7\u00e3o nativa nos 78% do pa\u00eds que conseguiu ocupar. Uma vez terminada a guerra, os refugiados que tentavam retornar para suas casas eram alvejados na fronteira sem aviso pr\u00e9vio. O que restou da popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe palestina nativa foi submetido a um r\u00edgido regime militar que durou 18 anos. Os imperialistas ocidentais celebraram o Estado resultante como um farol de democracia no atrasado Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas se complicaram mais em 1967, quando Israel ocupou o resto da Palestina (a Faixa de Gaza e a Cisjord\u00e2nia), al\u00e9m do Sinai eg\u00edpcio e os Montes Gol\u00e3 s\u00edrios. Em seu af\u00e3 por perpetuar suas novas ocupa\u00e7\u00f5es, Israel empreendeu esfor\u00e7os sistem\u00e1ticos de limpeza \u00e9tnica e de constru\u00e7\u00e3o de assentamentos judeus em terras roubadas aos palestinos e a outros \u00e1rabes. Em 1948, os palestinos que ficaram sob dom\u00ednio israelense eram uma pequena minoria, e \u00e0 maioria deles foi concedida a cidadania formal, incluindo o direito ao voto. Depois de &#8217;67, a popula\u00e7\u00e3o palestina sob dom\u00ednio israelense era muito maior. Segundo estimativas dos \u00faltimos anos, os palestinos s\u00e3o maioria entre o rio Jord\u00e3o e o mar Mediterr\u00e2neo. Para manter a condi\u00e7\u00e3o do regime como \u201cdemocracia judaica\u201d, Israel evitou conceder a seus novos s\u00faditos qualquer status civil ou direitos nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns defensores de Israel tentam promover a ilus\u00e3o de que existe um Israel democr\u00e1tico e \u201cnatural\u201d dentro de suas fronteiras de 1949-1966 (Israel tamb\u00e9m havia se expandido significativamente em 1949), em contraste com as ocupa\u00e7\u00f5es \u201cproblem\u00e1ticas\u201d de 1967. Em sua l\u00f3gica distorcida, a limpeza \u00e9tnica mais exaustiva de 1948 tornou leg\u00edtima aquela ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 1967, Israel governa sobre um \u00fanico Estado de apartheid, desde o rio at\u00e9 o mar. Para seus cidad\u00e3os judeus h\u00e1 um \u00fanico regime legal, de car\u00e1ter civil, decidido pelos partidos que elegem para a Knesset. Somente os palestinos est\u00e3o divididos entre uma pequena minoria com cidadania formal dentro da Linha Verde e distintos sistemas de regime militar direto na Cisjord\u00e2nia e Gaza. Os palestinos foram divididos ainda mais pelos Acordos de Oslo nas \u00e1reas \u201cA\u201d, \u201cB\u201d e \u201cC\u201d, com regras diferentes para cada uma, e novamente em 2005, com a retirada da ocupa\u00e7\u00e3o da Faixa de Gaza e sua convers\u00e3o em uma pris\u00e3o a c\u00e9u aberto sob um bloqueio assassino e bombardeios peri\u00f3dicos. Os colonos judeus de al-Jalil (Hebron), como em toda a Cisjord\u00e2nia, participam das elei\u00e7\u00f5es para decidir \u201cdemocraticamente\u201d (junto com seus irm\u00e3os \u201cliberais\u201d de Tel Aviv) como roubar e torturar seus vizinhos \u00e1rabes, a quem n\u00e3o \u00e9 permitida nenhuma express\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O apartheid como ferramenta de limpeza \u00e9tnica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O apartheid israelense \u00e9 pior que seu g\u00eameo sul-africano. Na pr\u00e1tica cotidiana, s\u00e3o muito similares: aplicam leis distintas a diferentes setores da popula\u00e7\u00e3o. Mas, enquanto na \u00c1frica do Sul o apartheid se baseava na explora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nativa, o objetivo \u00faltimo do sionismo, desde o primeiro dia, foi se livrar dos palestinos e herdar sua terra, como expressa o velho lema sionista: \u201cUma terra sem povo para um povo sem terra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Este desejo de fazer desaparecer os palestinos \u00e9 a for\u00e7a motriz por tr\u00e1s de todas as atividades do Estado israelense. Est\u00e1 consagrado na defini\u00e7\u00e3o do Estado como express\u00e3o da autodetermina\u00e7\u00e3o judaica em sua declara\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia. Foi refor\u00e7ado ainda mais pela \u201cLei do Estado-Na\u00e7\u00e3o\u201d de 2018, ao declarar que o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o no Estado est\u00e1 reservado exclusivamente aos judeus. Existem muitas outras leis e pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias, mas o aparato estatal &#8211; os munic\u00edpios locais controlados por judeus, a pol\u00edcia, o ex\u00e9rcito, os servi\u00e7os de seguran\u00e7a, os escrit\u00f3rios governamentais e os tribunais &#8211; todos entendem qual \u00e9 seu objetivo primordial, mesmo onde nenhuma lei espec\u00edfica o exige explicitamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta mesma tend\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 evidente na composi\u00e7\u00e3o da economia israelense. A maioria das institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, privadas, p\u00fablicas ou governamentais, favorecem os empregados judeus e tentam evitar contratar palestinos ou, se n\u00e3o, mant\u00ea-los marginalizados. Os trabalhadores palestinos, marginalizados e \u201cindesejados\u201d, n\u00e3o t\u00eam um poder de negocia\u00e7\u00e3o efetivo, nem mesmo para a defesa de seus direitos cotidianos. Qualquer sinal de luta ou qualquer tens\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 usado para marginaliz\u00e1-los e persegui-los ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Como em todos os demais aspectos da vida, a persegui\u00e7\u00e3o dos trabalhadores palestinos alcan\u00e7ou n\u00edveis atrozes ap\u00f3s 7 de outubro de 2023. Milhares de trabalhadores de Gaza que, ap\u00f3s um rigoroso controle de seguran\u00e7a, tinham permiss\u00e3o para trabalhar dentro da Linha Verde foram detidos pelo \u00fanico \u201ccrime\u201d de estar dentro da Linha Verde. Todos eles foram torturados sistematicamente, alguns at\u00e9 a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Cisjord\u00e2nia, como a atividade econ\u00f4mica independente \u00e9 sistematicamente sufocada pela ocupa\u00e7\u00e3o, cerca de 200.000 trabalhadores dependiam do trabalho dentro da Linha Verde &#8211; um pilar para cobrir as necessidades b\u00e1sicas da popula\u00e7\u00e3o. Todas as permiss\u00f5es de trabalho para os trabalhadores da Cisjord\u00e2nia foram anuladas ap\u00f3s 7 de outubro, junto com um endurecimento das restri\u00e7\u00f5es de movimento dentro do territ\u00f3rio e ataques sistem\u00e1ticos contra os camponeses palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>A persegui\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u201cilegais\u201d da Cisjord\u00e2nia \u00e9 uma prioridade m\u00e1xima para a pol\u00edcia racista de Israel e para os grupos paramilitares que atuam sob supervis\u00e3o estatal. Muitos s\u00e3o baleados, feridos ou detidos a caminho do trabalho. Quase todos os dias, dezenas de trabalhadores da Cisjord\u00e2nia s\u00e3o detidos em seus locais de trabalho ou em abrigos improvisados. A pena m\u00ednima por trabalhar sem permiss\u00e3o foi elevada para dois meses de pris\u00e3o. Milhares de trabalhadores encarcerados nem mesmo aparecem nos relat\u00f3rios das organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos sobre o sofrimento de cerca de dez mil prisioneiros pol\u00edticos palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua \u00e2nsia por se livrar dos trabalhadores palestinos, e com um saldo migrat\u00f3rio judeu negativo desde 2023, a solu\u00e7\u00e3o preferida de Israel \u00e9 importar trabalhadores estrangeiros com vistos tempor\u00e1rios. Seu n\u00famero disparou de cerca de 100.000 para cerca de 300.000 nos \u00faltimos tr\u00eas anos. Ao contr\u00e1rio de outros pa\u00edses que importam m\u00e3o de obra estrangeira, Israel n\u00e3o oferece nenhum caminho para obter a resid\u00eancia permanente, j\u00e1 que o santo graal continua sendo manter o Estado exclusivamente judeu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Apartheid tamb\u00e9m para os palestinos com cidadania israelense<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 Palestina de &#8217;48, encontramos essencialmente as mesmas pol\u00edticas discriminat\u00f3rias, embora os detalhes e o marco legal possam diferir. Como em outros lugares, a luta principal \u00e9 pela terra. Utilizam-se todo tipo de leis para confiscar a terra de seus propriet\u00e1rios palestinos, inclusive aqueles que permaneceram em terras de sua propriedade ap\u00f3s a Nakba e receberam a cidadania israelense formal.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do roubo de terras, as racistas \u201cautoridades de planejamento\u201d tornam quase imposs\u00edvel que os palestinos obtenham permiss\u00f5es de constru\u00e7\u00e3o dentro de suas pr\u00f3prias aldeias e cidades. Como resultado, dezenas de milhares de habita\u00e7\u00f5es est\u00e3o classificadas como \u201cilegais\u201d e sob amea\u00e7a de demoli\u00e7\u00e3o. A demoli\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00f5es \u00e1rabes continua sendo uma das principais prioridades da pol\u00edcia israelense e \u00e9 realizada com um despliegue de for\u00e7a desmedido -como se fossem opera\u00e7\u00f5es militares- em todas as zonas \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p>A pior situa\u00e7\u00e3o ocorre no deserto do Naqab, no sul do pa\u00eds, onde cerca de 100.000 bedu\u00ednos palestinos vivem em \u201caldeias n\u00e3o reconhecidas\u201d e s\u00e3o privados sistematicamente de servi\u00e7os b\u00e1sicos como \u00e1gua pot\u00e1vel, eletricidade, estradas, educa\u00e7\u00e3o e atendimento \u00e0 sa\u00fade. No Naqab, aldeias inteiras s\u00e3o destru\u00eddas sistematicamente em opera\u00e7\u00f5es policiais. Os tribunais israelenses costumam validar o deslocamento de aldeias de suas terras hist\u00f3ricas com o claro prop\u00f3sito de construir assentamentos exclusivamente judeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos ataques diretos contra as terras e habita\u00e7\u00f5es \u00e1rabes, existe uma discrimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica contra a popula\u00e7\u00e3o palestina dentro da Linha Verde em todos os aspectos da vida: a economia, a infraestrutura, a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, o emprego, os servi\u00e7os sociais e mais. Sob a press\u00e3o da OCDE, Israel anuncia periodicamente grandes \u201cprogramas\u201d para reduzir as lacunas sociais e econ\u00f4micas que afligem seus cidad\u00e3os \u00e1rabes. Pouco depois dos an\u00fancios, ficamos sabendo que esses or\u00e7amentos foram congelados ou transferidos para a pol\u00edcia ou para o ex\u00e9rcito, e que os fundos alocados eram insuficientes at\u00e9 mesmo para manter o miser\u00e1vel n\u00edvel atual dos servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, a economia israelense se tornou cada vez mais militarizada. Enquanto todos os outros setores da economia perdem for\u00e7a, os servi\u00e7os de seguran\u00e7a e a ind\u00fastria armamentista de Israel obt\u00eam reconhecimento internacional e lucros extraordin\u00e1rios. Seus sistemas de vigil\u00e2ncia e de ciberseguran\u00e7a s\u00e3o aperfei\u00e7oados em unidades especiais do ex\u00e9rcito que mant\u00eam um controle total sobre a vida de milh\u00f5es de palestinos, sem necessidade de se preocupar com a privacidade dos dados. Seus sistemas de armas demonstram diariamente suas capacidades devastando Gaza e semeando destrui\u00e7\u00e3o no L\u00edbano, S\u00edria e Ir\u00e3. A intelig\u00eancia artificial israelense, desenvolvida em coopera\u00e7\u00e3o com os maiores nomes da tecnologia americana, demonstrou sua capacidade de justificar o assassinato de qualquer pessoa em Gaza, sem exce\u00e7\u00e3o. Felizmente, os palestinos est\u00e3o quase totalmente exclu\u00eddos deste ramo principal e assassino da economia israelense.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde aos palestinos \u00e9 permitido trabalhar, geralmente em empregos marginais, s\u00e3o perseguidos sistematicamente, \u00e0s vezes simplesmente por falar \u00e1rabe entre eles ou com clientes \u00e1rabes. Mas a persegui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita aos trabalhadores marginalizados. Boa parte dos servi\u00e7os de sa\u00fade de Israel depende em grande medida de profissionais \u00e1rabes: os palestinos representam 25% dos m\u00e9dicos, 27% do pessoal de enfermagem e 50% dos farmac\u00eauticos. Diversos relat\u00f3rios denunciam um ass\u00e9dio sistem\u00e1tico contra as equipes m\u00e9dicas que prestam servi\u00e7os vitais &#8211; um ass\u00e9dio que j\u00e1 era frequente antes de 7 de outubro de 2023, mas que se intensificou significativamente desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A atitude da turba racista israelense em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores palestinos pode ser ilustrada com o caso de Dia Saba, uma das figuras do Maccabi Haifa, clube da primeira divis\u00e3o de Israel. Em outubro de 2023, sua esposa publicou em sua conta no Instagram a inocente frase: \u201ctamb\u00e9m h\u00e1 crian\u00e7as em Gaza\u201d. Houve uma rea\u00e7\u00e3o racista maci\u00e7a contra Saba, que n\u00e3o parou nem mesmo depois que a publica\u00e7\u00e3o foi rapidamente apagada e que ele e sua esposa pediram desculpas. Foi suspenso do time e teve que ir jogar no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de toda a discrimina\u00e7\u00e3o e o ass\u00e9dio racista, a amea\u00e7a mais urgente e disseminada atualmente, que torna a vida insuport\u00e1vel para os palestinos de &#8217;48, \u00e9 a liberdade que \u00e9 dada \u00e0s gangues criminosas para aterrorizar a popula\u00e7\u00e3o. A extors\u00e3o, os tiroteios e os assassinatos ocorrem de maneira habitual em quase todas as cidades, vilarejos e bairros palestinos. A pol\u00edcia quase n\u00e3o faz nada para conter as gangues, e as pessoas est\u00e3o convencidas de que essa ina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica deliberada vinda de cima. Quando os palestinos comuns sentem que a pol\u00edcia n\u00e3o far\u00e1 nada para defend\u00ea-los, alguns recorrem \u00e0s gangues em busca de prote\u00e7\u00e3o, pagando um alto pre\u00e7o e se colocando em um perigo ainda maior. Quando ativistas isl\u00e2micos organizaram uma rede de comit\u00eas para resolver pacificamente os conflitos sociais, essa organiza\u00e7\u00e3o foi ilegalizada pelo Estado. Os resultados j\u00e1 s\u00e3o amplamente sentidos no deterioro da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, na inseguran\u00e7a pessoal e social e no aumento da emigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma s\u00f3 ocupa\u00e7\u00e3o: divida e reinar\u00e1<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora as mesmas pol\u00edticas de apartheid e limpeza \u00e9tnica se apliquem a todos os palestinos, Israel coloca cada grupo de palestinos sob um marco legal e pol\u00edtico distinto, e os direciona por caminhos separados em sua luta por seus direitos. Esta estrat\u00e9gia mant\u00e9m os palestinos divididos e fracos, e permite a Israel garantir vit\u00f3rias em frentes separadas, j\u00e1 que \u00e9 Israel quem dita as regras do confronto.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esta divis\u00e3o, a vasta di\u00e1spora palestina fica exclu\u00edda e o direito ao retorno de milh\u00f5es de refugiados n\u00e3o faz parte das negocia\u00e7\u00f5es. De fato, Yasser Arafat, o l\u00edder hist\u00f3rico do movimento de liberta\u00e7\u00e3o palestino, foi assassinado precisamente porque se recusou a renunciar ao direito ao retorno.<\/p>\n\n\n\n<p>A Gaza foi destinada ser tratada mediante a for\u00e7a militar bruta, muito antes dos ataques de outubro de 2023. O genoc\u00eddio atual foi uma cat\u00e1strofe planejada com muita anteced\u00eancia. Na Cisjord\u00e2nia, \u00e0 Autoridade Palestina \u00e9 exigido que demonstre sua lealdade \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o para poder continuar sonhando com um futuro semi-Estado palestino. Seus \u201cdoadores\u201d ocidentais lhe cobram continuamente que implemente \u201creformas\u201d ao gosto dos ocupantes e que defenda o ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o e os colonos enquanto estes aterrorizam e roubam a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos palestinos de &#8217;48, Israel lhes oferece participar em sua \u201cmagn\u00edfica\u201d democracia, mas sem nenhuma influ\u00eancia real. Imediatamente ap\u00f3s a Nakba de &#8217;48, os palestinos que conseguiram permanecer em sua terra, ou que ficaram deslocados internamente dentro dos territ\u00f3rios rec\u00e9m-ocupados, eram uma pequena minoria, profundamente traumatizada pelos massacres e pela expuls\u00e3o da maioria da popula\u00e7\u00e3o, e foram mantidos sob um estrito regime militar. No in\u00edcio, o Partido Comunista israelense era o \u00fanico partido n\u00e3o sionista ativo dentro desta comunidade, e operava sob severas restri\u00e7\u00f5es e um ass\u00e9dio constante. Desempenhou um papel importante na recupera\u00e7\u00e3o da sociedade palestina ap\u00f3s a Nakba, mas sua perspectiva era a integra\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade e \u00e0 pol\u00edtica israelenses.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a sociedade palestina come\u00e7ou a se organizar e a lutar por seus direitos, Israel tomou medidas adicionais para estreitar os limites de seu arenero \u201cdemocr\u00e1tico\u201d. O primeiro partido palestino ap\u00f3s a Nakba, o movimento Al-Ard (\u201cA Terra\u201d), foi proscrito em 1964 e reprimido por meio de hostigamento e deten\u00e7\u00f5es. Em 1985, a lei foi modificada para exigir explicitamente que todo partido que quisesse se apresentar \u00e0s elei\u00e7\u00f5es da Knesset reconhecesse o car\u00e1ter judaico do Estado. N\u00e3o \u00e9 que o Estado fosse democr\u00e1tico antes, mas desde 1985 at\u00e9 mesmo propor torn\u00e1-lo democr\u00e1tico est\u00e1 proibido por lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Abnaa el-Balad (\u201cFilhos da terra\u201d) se formou a partir da conflu\u00eancia de clubes locais e movimentos estudantis no final dos anos sessenta e ao longo dos setenta. Foi o eco local da ascens\u00e3o do movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional palestino. Como movimento de base, conseguiu manter presen\u00e7a no territ\u00f3rio apesar da persegui\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1984, Abnaa el-Balad prop\u00f4s um caminho pol\u00edtico alternativo ao chamar, pela primeira vez, para o boicote \u00e0s elei\u00e7\u00f5es da Knesset. Sublinhou que os palestinos de &#8217;48 s\u00e3o parte da luta palestina e de um futuro compartilhado. Com essa posi\u00e7\u00e3o, o movimento rompeu com os setores mais direitistas que formaram a \u201cLista Progressista pela Paz\u201d, que participou das elei\u00e7\u00f5es junto com o general israelense aposentado Mati Peled. Esse foi o momento em que o movimento definiu sua orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica de esquerda, e o boicote \u00e0 Knesset continuou sendo desde ent\u00e3o uma pedra angular de sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p> Muitos dirigentes de Abnaa el-Balad foram submetidos a deten\u00e7\u00e3o administrativa (sem acusa\u00e7\u00f5es ou julgamento) depois que o movimento liderou manifesta\u00e7\u00f5es massivas em solidariedade com a primeira Intifada palestina em 1987. O movimento tem enfrentado de forma constante deten\u00e7\u00f5es e ass\u00e9dio, incluindo, recentemente, a deten\u00e7\u00e3o administrativa de v\u00e1rios de seus membros. V\u00e1rias de suas publica\u00e7\u00f5es foram proibidas. <\/p>\n\n\n\n<p>Assim como os movimentos isl\u00e2micos tiveram um forte crescimento em todo o Oriente M\u00e9dio na d\u00e9cada de 1990, o Movimento Isl\u00e2mico se tornou o movimento mais influente da Palestina de &#8217;48. Concentrou-se em mobilizar um amplo apoio por meio da prega\u00e7\u00e3o e da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os sociais muito necess\u00e1rios. Desenvolveu uma estrat\u00e9gia integral de autossufici\u00eancia para fortalecer a sociedade frente a um governo hostil. Mais uma vez, a quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es da Knesset se mostrou polarizadora e provocou uma divis\u00e3o, quando os setores radicais que rejeitavam a Knesset formaram a Rama Norte.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2015, a Rama Norte do Movimento Isl\u00e2mico foi proscrita. \u00c9 desnecess\u00e1rio dizer que n\u00e3o estava envolvida em nenhum tipo de luta violenta. Juntamente com ela, muitas organiza\u00e7\u00f5es civis foram proscritas, entre elas meios de comunica\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es educativas, ONGs de benefic\u00eancia e outras similares. Como parte dessa repress\u00e3o, houve ativistas que foram encarcerados por atividades pac\u00edficas, como organizar micros para que os fi\u00e9is fossem rezar na mesquita de Al-Aqsa, com o pretexto de que faz\u00ea-lo constitui \u201cum servi\u00e7o a uma organiza\u00e7\u00e3o ilegal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesar de toda a opress\u00e3o e as persegui\u00e7\u00f5es, os pontos mais altos do legado pol\u00edtico dos palestinos de &#8217;48 s\u00e3o aqueles momentos hist\u00f3ricos em que os palestinos se uniram atrav\u00e9s de fronteiras artificiais em uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica comum. O Dia da Terra, em 30 de mar\u00e7o de 1976, foi cen\u00e1rio da primeira greve geral da popula\u00e7\u00e3o palestina de &#8217;48 ap\u00f3s a Nakba. Nesse mesmo dia, se juntaram \u00e0 greve geral os palestinos da Cisjord\u00e2nia e Gaza, assim como os palestinos dos campos de refugiados nos pa\u00edses vizinhos. Com um saldo de seis m\u00e1rtires e centenas de feridos, a jornada \u00e9 lembrada como um momento de renascimento nacional e de recupera\u00e7\u00e3o da identidade nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro e outubro de 2000, nos primeiros dez dias da segunda Intifada, os palestinos de &#8217;48 se juntaram \u00e0 greve geral e participaram plenamente do levante nacional. A pol\u00edcia israelense adotou uma nova pol\u00edtica: desplegar atiradores de elite para disparar e matar os \u201cagitadores\u201d nas manifesta\u00e7\u00f5es. As mortes apenas aumentaram a f\u00faria popular. Outro dia nacional foi adicionado ao calend\u00e1rio e outra gera\u00e7\u00e3o recebeu sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>As elei\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias para primeiro-ministro de Israel que se seguiram, em fevereiro de 2001, foram o primeiro (e at\u00e9 agora \u00fanico) exemplo de boicote massivo por parte da popula\u00e7\u00e3o palestina. Como resultado, o general Ehud Barak, do Partido Trabalhista, o primeiro-ministro que inicialmente havia sido eleito com votos \u00e1rabes e que depois enviou os franco-atiradores, sofreu uma derrota esmagadora. Ajudou que nessa ocasi\u00e3o n\u00e3o houvesse elei\u00e7\u00f5es para a Knesset, mas apenas uma vota\u00e7\u00e3o para primeiro-ministro, o que significou que os partidos \u00e1rabes carecessem de sua habitual motiva\u00e7\u00e3o institucional para mobilizar o voto.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo ponto alto da unidade palestina foi em maio de 2021, no que chamamos de \u201ca Revolta da Dignidade\u201d. Come\u00e7ou com a luta contra a limpeza \u00e9tnica em bairros palestinos de Al-Quds (Jerusal\u00e9m) e como resposta \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es dos colonos na mesquita de Al-Aqsa. Rapidamente desencadeou manifesta\u00e7\u00f5es massivas em toda a Palestina de &#8217;48. Ao mesmo tempo, eclodiu um confronto armado entre o ex\u00e9rcito israelense e o Ham\u00e1s e outras mil\u00edcias de Gaza. Embora a pol\u00edcia tenha organizado turbas de colonos para atacar bairros \u00e1rabes, a mobiliza\u00e7\u00e3o defensiva da popula\u00e7\u00e3o palestina se mostrou mais forte, e o confronto terminou com uma poderosa sensa\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o genoc\u00eddio em Gaza foi acompanhado por uma onda de terror sem precedentes dirigida contra a popula\u00e7\u00e3o palestina, tanto na Cisjord\u00e2nia quanto no \u201948. Centenas de detidos pol\u00edticos das \u00e1reas do \u201948 &#8211; muitos deles por simples publica\u00e7\u00f5es em redes sociais, muitos outros em deten\u00e7\u00e3o administrativa sem acusa\u00e7\u00e3o formal &#8211; est\u00e3o nas pris\u00f5es da ocupa\u00e7\u00e3o. Compartilham as mesmas celas e as mesmas experi\u00eancias atrozes com milhares de presos pol\u00edticos da Cisjord\u00e2nia, j\u00e1 que todas as \u201cpris\u00f5es de seguran\u00e7a\u201d se tornaram centros de tortura s\u00e1dicos para seus reclusos, famintos e doentes. A unidade no sofrimento nas m\u00e3os do regime criminoso deixar\u00e1 inevitavelmente uma marca duradoura na forma\u00e7\u00e3o das futuras gera\u00e7\u00f5es palestinas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O espectro cada vez mais estreito da pol\u00edtica israelense<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A principal linha divis\u00f3ria na pol\u00edtica dos palestinos de &#8217;48 passa entre uma orienta\u00e7\u00e3o palestina, que se organiza como parte integral do povo palestino sob a ocupa\u00e7\u00e3o, e uma tentativa de participar na pol\u00edtica israelense, que busca sobretudo ganhar alguma influ\u00eancia atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o na Knesset.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto mais alto da influ\u00eancia palestina atrav\u00e9s da pol\u00edtica israelense ocorreu durante o segundo governo de Rabin (1992-1995). Na verdade, foi a Intifada palestina que obrigou Israel a reconhecer a Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP) e a negociar com ela. Mas Rabin precisava do voto dos partidos \u00e1rabes na Knesset para formar e sustentar seu governo e para aprovar os Acordos de Oslo. Mesmo nesse pico de sua influ\u00eancia pol\u00edtica, Rabin fez uma quest\u00e3o de princ\u00edpios manter os partidos \u00e1rabes fora de seu governo e fora das negocia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sobre a orienta\u00e7\u00e3o de seu governo. Mesmo assim, apoiar-se em votos \u00e1rabes foi uma das principais raz\u00f5es pelas quais a extrema direita israelense considerou ileg\u00edtimo o governo de Rabin e um dos motivos da incita\u00e7\u00e3o contra ele que levou ao seu assassinato.<\/p>\n\n\n\n<p>Os governos israelenses posteriores, liderados por Netanyahu, Barak e Sharon, desmantelaram na pr\u00e1tica os Acordos de Oslo, continuaram a pol\u00edtica de assentamentos e limpeza \u00e9tnica, e forjaram um velho-novo consenso sionista de que n\u00e3o deve haver um Estado palestino independente. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, at\u00e9 mesmo a palavra \u201cpaz\u201d ficou completamente exclu\u00edda do l\u00e9xico pol\u00edtico israelense. A principal raz\u00e3o que justificava a participa\u00e7\u00e3o palestina nas elei\u00e7\u00f5es israelenses desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um argumento propagand\u00edstico muito utilizado, os pol\u00edticos sionistas acusam os partidos \u00e1rabes da Knesset de se preocuparem mais com os palestinos \u201cestranhos\u201d da Cisjord\u00e2nia e Gaza do que com os direitos econ\u00f4micos e civis cotidianos dos cidad\u00e3os \u00e1rabes de Israel. Os dirigentes sionistas costumam at\u00e9 culpar esse \u201cfracasso\u201d da lideran\u00e7a \u00e1rabe pela discrimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica contra os palestinos de &#8217;48. Os deputados \u00e1rabes da Knesset usam estat\u00edsticas e registros para demonstrar que dedicam 90% do seu tempo a tentar melhorar a vida cotidiana de seus eleitores, mas na maioria dos casos seus apelos \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do Estado caem em ouvidos surdos ou hostis.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, competem duas listas &#8220;\u00e1rabes&#8221;. S\u00e3o os \u00fanicos partidos participantes que n\u00e3o apoiam o genoc\u00eddio em Gaza, a ocupa\u00e7\u00e3o e os assentamentos na Cisjord\u00e2nia, nem a guerra contra o Ir\u00e3. Em ambas as listas h\u00e1 tamb\u00e9m candidatos judeus, mas espera-se que muito poucos judeus votem em uma lista sob dire\u00e7\u00e3o \u00e1rabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 perspectiva de influ\u00eancia pol\u00edtica, e tudo o que os partidos \u00e1rabes podem esperar \u00e9 usar a representa\u00e7\u00e3o que obtiverem para defender os direitos cotidianos da popula\u00e7\u00e3o, existe um consenso de que as marcadas diferen\u00e7as pol\u00edticas entre os partidos s\u00e3o irrelevantes. Ningu\u00e9m vai \u00e0 Knesset para promover o islamismo, nem para alcan\u00e7ar o comunismo ou o socialismo, nem para impulsionar uma agenda \u00e1rabe ou palestina. \u00c9 at\u00e9 mesmo dif\u00edcil sustentar que se possa defender a democracia na Knesset. A agenda comum que os eleitores esperam de todos os partidos \u00e1rabes \u00e9 frear (ou desacelerar) as demoli\u00e7\u00f5es de moradias e a confiscac\u00e3o de terras, reduzir a discrimina\u00e7\u00e3o, conseguir or\u00e7amentos para os munic\u00edpios e, acima de tudo, obrigar a pol\u00edcia a enfrentar as gangues criminosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Este forte desejo popular de unidade na luta pelos direitos cotidianos estourou em Sajn\u00edn em janeiro deste ano. Sajn\u00edn, no cora\u00e7\u00e3o da Galileia, tem uma longa hist\u00f3ria como centro da luta palestina. Em janeiro, o povo de Sajn\u00edn liderou uma onda nacional de greves e protestos contra a viol\u00eancia, o dom\u00ednio das gangues criminosas e a cumplicidade do governo. No dia 22 de janeiro de 2026, culminou com a manifesta\u00e7\u00e3o palestina mais grande dos \u00faltimos anos. Ao final da manifesta\u00e7\u00e3o, as massas \u201csequestraram\u201d a lideran\u00e7a dos quatro partidos que planejam participar das elei\u00e7\u00f5es e os fizeram assinar o compromisso de formar uma lista comum. Muitos dos que chamam ao boicote das elei\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m apoiam a unidade entre os \u201cpartidos da Knesset\u201d, para reduzir os conflitos internos e ajudar a formar uma frente \u00fanica nas lutas contra as pol\u00edticas racistas do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo visto, os pr\u00f3prios dirigentes dos partidos estavam menos convencidos da necessidade da unidade. Mantiveram uma longa e delicada disputa por posi\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias e pessoais dentro da lista comum quase at\u00e9 os \u00faltimos dias. Para os pr\u00f3prios partidos, a representa\u00e7\u00e3o na Knesset lhes assegura o acesso a or\u00e7amentos estatais, que s\u00e3o o principal suporte do funcionamento cotidiano do aparato partid\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Convencer os eleitores a irem votar \u00e9 o mais dif\u00edcil para os partidos. Para isso, eles t\u00eam que demonstrar que participar serve para algo. O problema \u00e9 que, para ter influ\u00eancia na pol\u00edtica israelense, \u00e9 preciso apoiar um dos grandes blocos sionistas que competem para formar o pr\u00f3ximo governo. Isso significa que, de acordo com o mapa pol\u00edtico atual, a maior esperan\u00e7a dos partidos \u00e1rabes \u00e9 apoiar o general Eisenkot. A armadilha, no entanto, \u00e9 que Eisenkot declara dia e noite que n\u00e3o depender\u00e1 do apoio \u00e1rabe. Para ele, apenas uma maioria judaica sionista pode formar um governo israelense leg\u00edtimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essas sombrias perspectivas, nossos partidos \u00e1rabes conseguiram se dividir por quest\u00f5es de princ\u00edpios e n\u00e3o pela divis\u00e3o do botim das cadeiras na Knesset. A Lista \u00c1rabe Unida (Ra\u2019am), liderada por Mansour Abbas -a cis\u00e3o do Movimento Isl\u00e2mico favor\u00e1vel a participar na Knesset-, continua explorando o caminho das concess\u00f5es ilimitadas para fazer parte do pr\u00f3ximo governo israelense. At\u00e9 agora, sua principal conquista \u00e9 ocupar o centro dos cartazes de campanha do Likud de Netanyahu, como o bicho-pap\u00e3o que leva a oposi\u00e7\u00e3o sionista \u00e0 trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Abbas aceitou as condi\u00e7\u00f5es extorsivas de Eisenkot, incluindo o \u201cservi\u00e7o nacional\u201d para a juventude palestina como compensa\u00e7\u00e3o por n\u00e3o servir no ex\u00e9rcito, Eisenkot adicionou uma nova condi\u00e7\u00e3o: que todo integrante de seu governo deveria apoiar a elimina\u00e7\u00e3o do Ham\u00e1s. Abbas continua dizendo que a \u00fanica raz\u00e3o para estar na Knesset \u00e9 fazer parte do governo. Em uma demonstra\u00e7\u00e3o de desespero, chamou seus seguidores a se manifestarem em frente \u00e0s casas de quem pede o boicote. Ningu\u00e9m apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros tr\u00eas partidos, unidos na \u201cLista Conjunta\u201d, s\u00e3o a \u201cFrente Democr\u00e1tica pela Paz e Igualdade\u201d, liderada pelo Partido Comunista e conhecido pela sua sigla em hebraico, Hadash; a \u201cAlian\u00e7a Nacional Democr\u00e1tica\u201d, tamb\u00e9m conhecida pela sua sigla em hebraico, \u201cBalad\u201d, uma forma\u00e7\u00e3o progressista-liberal dirigida inicialmente por Azmi Bishara; e o \u201cMovimento \u00c1rabe pela Mudan\u00e7a\u201d, o partido unipessoal do pol\u00edtico multifacetado Ahmad Tibi. Os dirigentes da Lista Conjunta est\u00e3o muito conscientes da contradi\u00e7\u00e3o entre manter-se fiel aos seus princ\u00edpios e participar ativamente na pol\u00edtica israelense. J\u00e1 passaram por isso. Depois que as elei\u00e7\u00f5es de setembro de 2019 terminaram em um empate entre o general Benny Gantz, um arquivilan de guerra que liderou as massacres de Gaza de 2014, e o ent\u00e3o e atual primeiro-ministro Netanyahu, a Lista Conjunta (que ent\u00e3o tamb\u00e9m inclu\u00eda Abbas) recomendou Gantz, com a inten\u00e7\u00e3o de mudar algo. O valente general teve tanto medo de receber apoio \u00e1rabe que renunciou a formar governo e, ap\u00f3s outras elei\u00e7\u00f5es, passou a servir sob Netanyahu. Agora a Lista Conjunta tenta evitar um compromisso expl\u00edcito, mas diz claramente que seu objetivo final \u00e9 acabar com o governo de Netanyahu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro precedente significativo dessas elei\u00e7\u00f5es, a Suprema Corte de Israel aprovou a decis\u00e3o do comit\u00ea eleitoral politizado de proibir Sami Abu Shehadeh, dirigente da Alian\u00e7a Nacional Democr\u00e1tica, de participar das elei\u00e7\u00f5es. Para ser mais exato, o presidente da Corte \u201caconselhou\u201d Abu Shehadeh a retirar voluntariamente seu nome da Lista Conjunta, uma vez que a maioria do tribunal estava a favor de sua proibi\u00e7\u00e3o. Abu Shehadeh, por conselho de seus advogados, aceitou, para evitar uma decis\u00e3o infame que estabeleceria um precedente vinculante para casos futuros. Sua decis\u00e3o poupou \u00e0 Corte a ignom\u00ednia formal de restringir ainda mais os limites da falsa democracia de Israel, mas o efeito intimidat\u00f3rio sobre a liberdade de express\u00e3o dos palestinos n\u00e3o foi menor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicamos o segundo artigo de Yoav Haifawi, integrante da organiza\u00e7\u00e3o de esquerda palestina Abnaa el-Balad (\u201cFilhos da terra\u201d) que mant\u00e9m a coerente posi\u00e7\u00e3o de boicote \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do Estado sionista como \u00e9 o caso da Knesset, o parlamento israelense. 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