{"id":83074,"date":"2026-09-15T20:46:07","date_gmt":"2026-09-15T20:46:07","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=83074"},"modified":"2026-09-15T20:46:08","modified_gmt":"2026-09-15T20:46:08","slug":"bolivia-a-crise-se-mantem-e-se-aprofunda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/09\/15\/bolivia-a-crise-se-mantem-e-se-aprofunda\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: a crise se mant\u00e9m e se aprofunda"},"content":{"rendered":"\n<p>Os bloqueios que durante 54 dias paralisaram as principais estradas do pa\u00eds foram levantados, mas a crise que os provocou n\u00e3o desapareceu. O governo de Rodrigo Paz conseguiu, por meio do desgaste da mobiliza\u00e7\u00e3o, o acordo com a COB e a utiliza\u00e7\u00e3o do estado de exce\u00e7\u00e3o, recuperar temporariamente o controle. No entanto, n\u00e3o conseguiu resolver nenhum dos problemas fundamentais que levaram milhares de trabalhadores, camponeses, ind\u00edgenas e setores populares \u00e0s ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo contr\u00e1rio, durante os \u00faltimos meses a crise se aprofundou e adquiriu novas dimens\u00f5es. \u00c0 escassez e ao aumento do pre\u00e7o dos combust\u00edveis se somam o deterioro do poder aquisitivo, o aumento do d\u00f3lar, a press\u00e3o do FMI, a interven\u00e7\u00e3o da YPFB e uma crescente instabilidade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo isso confirma o que apont\u00e1vamos nos artigos anteriores: p\u00f4r fim \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s de acordos e repress\u00e3o, n\u00e3o significou uma sa\u00edda para a crise. O governo de Paz continua sendo um governo fraco, sustentado pela repress\u00e3o e por um programa econ\u00f4mico que descarrega o peso da crise sobre os trabalhadores e os setores populares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Continua as medidas econ\u00f4micas em favor da burguesia e do imperialismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Rodrigo Paz chegou ao governo prometendo tirar a Bol\u00edvia da crise. No entanto, sua resposta tem sido aprofundar um programa de ajuste e abertura econ\u00f4mica. A elimina\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios aos combust\u00edveis, a redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado na economia e a aproxima\u00e7\u00e3o ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional fazem parte de uma mesma orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta semana foi tornado p\u00fablico o acordo alcan\u00e7ado com o FMI por aproximadamente 1.900 milh\u00f5es de d\u00f3lares, depois que seus principais conte\u00fados foram apresentados oficialmente no dia 10 de setembro. O programa, que ter\u00e1 uma dura\u00e7\u00e3o de 36 meses, compromete o Governo com um forte ajuste fiscal orientado a reduzir o d\u00e9ficit, mediante a conten\u00e7\u00e3o do gasto p\u00fablico, a redu\u00e7\u00e3o da investimento estatal e a reestrutura\u00e7\u00e3o de empresas p\u00fablicas consideradas n\u00e3o vi\u00e1veis. Entre as medidas mais importantes est\u00e1 a elimina\u00e7\u00e3o completa da subs\u00eddio aos combust\u00edveis a partir de janeiro de 2027, quando seus pre\u00e7os dever\u00e3o alcan\u00e7ar n\u00edveis de recupera\u00e7\u00e3o de custos, al\u00e9m de uma pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o de outros subs\u00eddios. Consolida o regime de tipo de c\u00e2mbio flex\u00edvel que o Governo j\u00e1 havia come\u00e7ado a aplicar desde junho e estabelece que se dever\u00e1 avan\u00e7ar para um regime de flutua\u00e7\u00e3o determinado pelo mercado. Limita o financiamento do Estado por parte do Banco Central e promove reformas destinadas a facilitar o investimento privado, particularmente em setores como hidrocarbonetos e minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o custo da chamada estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica vai recair principalmente sobre os trabalhadores e os setores mais pobres, enquanto se criam melhores condi\u00e7\u00f5es para os grandes empres\u00e1rios e o capital privado. Paz sustenta que os subs\u00eddios s\u00e3o insustent\u00e1veis e que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cordenar\u201d a economia. Mas a pergunta que devemos nos fazer \u00e9 outra: ordenar a economia para quem?<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de combust\u00edveis \u00e9 um exemplo evidente. A elimina\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios encarece o transporte e aumenta os custos de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. O impacto acaba sendo repassado ao conjunto da popula\u00e7\u00e3o por meio do aumento do pre\u00e7o dos alimentos e de outros produtos b\u00e1sicos.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o cambial n\u00e3o \u00e9 um problema abstrato para a popula\u00e7\u00e3o. A desvaloriza\u00e7\u00e3o e a perda do poder aquisitivo significam aumento. O d\u00f3lar paralelo estava em torno de Bs 11,16 no in\u00edcio de agosto. Para os primeiros dias de setembro, j\u00e1 estava em torno de Bs 12,4, o que representa um aumento pr\u00f3ximo a 10% em aproximadamente um m\u00eas e o Banco Central estabeleceu desde 7 de setembro uma taxa de c\u00e2mbio oficial de Bs 12,58 por d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo apresenta essas medidas como parte de uma moderniza\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel. Mas por tr\u00e1s desse discurso existe uma pol\u00edtica clara: fazer com que os trabalhadores e setores populares paguem pela crise enquanto se garante um novo espa\u00e7o para o capital privado e para os organismos financeiros internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>E quem sofre as consequ\u00eancias s\u00e3o os trabalhadores, camponeses, pequenos comerciantes e setores populares. A crise que provocou os bloqueios, portanto, continua presente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O desgaste pol\u00edtico do governo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O desgaste do governo se deve \u00e0s medidas econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtico. O esc\u00e2ndalo em torno de Fernando Cerimedo, que estourou em 18 de Agosto, abriu uma profunda crise pol\u00edtica no governo. Embora Rodrigo Paz tenha tentado ocultar ou minimizar seus v\u00ednculos com Fernando Cerimedo, os fatos evidenciam e revelam a rela\u00e7\u00e3o de setores do novo governo com operadores de uma direita internacional \u00e0 qual Paz tenta se apresentar como alheio.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto a isso e como consequ\u00eancias, come\u00e7aram os rompimentos entre os aliados do governo Paz. O Partido Democrata Crist\u00e3o (PDC) est\u00e1 dividido, com um setor que mant\u00e9m seu apoio e outro que rompe com o Governo, denunciando falta de coordena\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o e perda de confian\u00e7a. A isso se soma o distanciamento de outros aliados, como Unidade Nacional, que come\u00e7a a condicionar seu apoio.<\/p>\n\n\n\n<p>Rodrigo Paz perde apoio tamb\u00e9m nas ruas. Segundo Ipsos Ciesmori, em uma pesquisa realizada entre 19 e 31 de agosto, sua aprova\u00e7\u00e3o caiu de 65% em janeiro para 21% em agosto, enquanto a desaprova\u00e7\u00e3o chegou a 65%. Al\u00e9m disso, 81% dos entrevistados considera que a Bol\u00edvia est\u00e1 indo na dire\u00e7\u00e3o errada. Entre as principais raz\u00f5es para a rejei\u00e7\u00e3o aparecem a percep\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o, a m\u00e1 gest\u00e3o e a crise de combust\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso Cerimedo, que aprofunda a percep\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o e m\u00e1 gest\u00e3o, tamb\u00e9m permite observar as conex\u00f5es internacionais da nova direita latino-americana. Cerimedo \u00e9 conhecido por sua participa\u00e7\u00e3o em estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica digital e por sua rela\u00e7\u00e3o com setores da direita radical da regi\u00e3o. As den\u00fancias que vinculam Cerimedo a um tentativa de feminic\u00eddio e com a\u00e7\u00f5es de intimida\u00e7\u00e3o contra testemunhas expressam m\u00e9todos de uma direita que, em diferentes pa\u00edses, combina pr\u00e1ticas de persegui\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e intimida\u00e7\u00e3o para defender seus interesses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paz se sustenta \u00e0 custa do estado de exce\u00e7\u00e3o e da persegui\u00e7\u00e3o aos movimentos sociais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Frente \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es, o Governo respondeu com o estado de exce\u00e7\u00e3o e a persegui\u00e7\u00e3o judicial de dirigentes sociais. Das 365 pessoas presas durante as opera\u00e7\u00f5es contra os bloqueios registrados pela Defensoria do Povo, 118 permaneciam em distintas situa\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, enquanto a Promotoria de La Paz informou que 26 pessoas estavam com deten\u00e7\u00e3o preventiva pelos processos derivados dos 53 dias de conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, o esc\u00e2ndalo de Fernando Cerimedo adquire uma dimens\u00e3o pol\u00edtica maior: al\u00e9m das graves den\u00fancias que pesam sobre ele, existem acusa\u00e7\u00f5es sobre sua participa\u00e7\u00e3o na estrat\u00e9gia do estado de exce\u00e7\u00e3o e em um suposto operativo para capturar Evo Morales. O caso exp\u00f5e assim os v\u00ednculos de Paz com setores da direita internacional e mostra que, diante da perda acelerada de apoio popular, o Governo combina ajuste econ\u00f4mico, estado de exce\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais para se sustentar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Perspectivas da luta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os 53 dias de mobiliza\u00e7\u00e3o deixaram uma experi\u00eancia que continua viva entre os trabalhadores, camponeses, ind\u00edgenas e setores populares. A suspens\u00e3o dos bloqueios significou um recuo, mas n\u00e3o uma derrota definitiva: as causas que levaram milhares de pessoas \u00e0s ruas \u2014o aumento do custo de vida, a crise de combust\u00edveis, a perda do poder aquisitivo e a rejei\u00e7\u00e3o ao ajuste\u2014 continuam presentes. Paz precisa de tempo e tranquilidade social para aplicar o acordo com o FMI, aprofundar o ajuste e avan\u00e7ar na abertura da economia e na entrega dos recursos naturais ao capital privado e estrangeiro. Mas o Governo sabe que o conflito n\u00e3o est\u00e1 resolvido. Por isso, diante dos an\u00fancios de novas mobiliza\u00e7\u00f5es para outubro, setores do oficialismo j\u00e1 impulsionam a amplia\u00e7\u00e3o do estado de exce\u00e7\u00e3o, cuja vig\u00eancia termina em 18 de setembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, outubro pode se tornar um novo momento de lutas. As organiza\u00e7\u00f5es sociais e sindicais preparam novas medidas de press\u00e3o e alguns setores anunciaram que esperar\u00e3o o fim do estado de exce\u00e7\u00e3o para retomar as mobiliza\u00e7\u00f5es. O pr\u00f3prio Governo reconhece que existe essa prepara\u00e7\u00e3o e utiliza essa amea\u00e7a como argumento para tentar prolongar o regime de exce\u00e7\u00e3o. O desafio ser\u00e1 transformar o descontentamento que permanece nas bases em uma nova mobiliza\u00e7\u00e3o,\u00a0 buscando unificar as lutas. Outubro pode abrir uma nova etapa de mobiliza\u00e7\u00e3o e permitir que os trabalhadores e setores populares retomem a iniciativa nas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 preciso aprender com a experi\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o dos 53 dias deixou uma li\u00e7\u00e3o fundamental: n\u00e3o basta com a for\u00e7a do movimento social se suas dire\u00e7\u00f5es terminam negociando separadamente, traindo e freando a luta. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 suficiente conquistar a revoga\u00e7\u00e3o de uma medida pontual se permanece intacto o programa econ\u00f4mico que descarrega a crise sobre o povo. As bases precisam romper com as dire\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es que, uma e outra vez, demonstraram que n\u00e3o est\u00e3o dispostas a romper com o sistema e terminam freando ou negociando as lutas de cima para baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio construir uma alternativa pr\u00f3pria, independente e baseada na organiza\u00e7\u00e3o e nas decis\u00f5es democr\u00e1ticas de trabalhadores urbanos e rurais, camponeses, povos ind\u00edgenas, estudantes e demais setores populares. Uma alternativa na qual os representantes sejam eleitos e possam ser revogados pelas pr\u00f3prias bases, e na qual as decis\u00f5es sobre a luta n\u00e3o sejam tomadas em negocia\u00e7\u00f5es de c\u00fapula.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema de fundo continua sendo quem pagar\u00e1 a crise: Paz, o FMI, os empres\u00e1rios e as transnacionais pretendem que sejam os trabalhadores e o povo. Nossa alternativa n\u00e3o pode ser aceitar nem administrar esse ajuste, mas lutar para que a crise seja paga por aqueles que se enriqueceram \u00e0s custas do pa\u00eds. A pr\u00f3xima etapa da luta deve servir n\u00e3o apenas para defender nossas conquistas, mas tamb\u00e9m para construir uma dire\u00e7\u00e3o e uma alternativa pol\u00edtica pr\u00f3pria, democr\u00e1tica e independente, sob o controle das bases e dispostas a romper com o sistema que sustenta o poder da burguesia e das transnacionais.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os bloqueios que durante 54 dias paralisaram as principais estradas do pa\u00eds foram levantados, mas a crise que os provocou n\u00e3o desapareceu. O governo de Rodrigo Paz conseguiu, por meio do desgaste da mobiliza\u00e7\u00e3o, o acordo com a COB e a utiliza\u00e7\u00e3o do estado de exce\u00e7\u00e3o, recuperar temporariamente o controle. 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