{"id":83065,"date":"2026-09-15T21:20:23","date_gmt":"2026-09-15T21:20:23","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=83065"},"modified":"2026-09-15T21:20:24","modified_gmt":"2026-09-15T21:20:24","slug":"tolima-em-chamas-o-fogo-o-estado-e-a-disputa-pelo-territorio-o-fogo-nao-surgiu-de-um-dia-para-o-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/09\/15\/tolima-em-chamas-o-fogo-o-estado-e-a-disputa-pelo-territorio-o-fogo-nao-surgiu-de-um-dia-para-o-outro\/","title":{"rendered":"Tolima em chamas: o fogo, o Estado e a disputa pelo territ\u00f3rio. O fogo n\u00e3o surgiu de um dia para o outro"},"content":{"rendered":"\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><\/h6>\n\n\n\n<p>Quando, neste m\u00eas de agosto, o Tolima se tornou o epicentro de uma das maiores emerg\u00eancias florestais do pa\u00eds, o departamento j\u00e1 acumulava, havia meses, sinais de alerta: altas temperaturas, redu\u00e7\u00e3o das chuvas, munic\u00edpios em risco, inc\u00eandios recorrentes e chamados institucionais para fortalecer a capacidade de resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>A cronologia mostra que a emerg\u00eancia foi crescendo progressivamente. Entre 3 de maio e 23 de julho, haviam sido registrados 151 inc\u00eandios florestais e mais de 821 hectares afetados. No in\u00edcio de agosto, o n\u00famero acumulado chegava a 271 inc\u00eandios e, no dia 6 do mesmo m\u00eas m\u00eas, 46 dos 47 munic\u00edpios do departamento estavam em alerta vermelho ou laranja devido ao risco de inc\u00eandios.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta que essa sequ\u00eancia deixa \u00e9 inevit\u00e1vel: o que aconteceu entre os alertas e a cat\u00e1strofe? Porque um inc\u00eandio pode come\u00e7ar com uma fa\u00edsca, mas uma crise ambiental dessa magnitude n\u00e3o pode ser explicada apenas pelo instante em que surge a chama. O fogo se espalhou por um territ\u00f3rio concreto, atravessado por desigualdades sociais, diferentes capacidades institucionais, rela\u00e7\u00f5es de propriedade e disputas hist\u00f3ricas pelo controle da terra e dos recursos naturais. O fogo n\u00e3o caiu sobre um espa\u00e7o vazio. Ardeu sobre um territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os alertas antes do desastre<\/h2>\n\n\n\n<p>A amea\u00e7a foi identificada antes de alcan\u00e7ar as dimens\u00f5es de agosto. Em 28 de maio de 2026, a Cortolima (Corpora\u00e7\u00e3o Aut\u00f4noma Regional do Tolima) adotou, por meio da Resolu\u00e7\u00e3o 3426, um Plano de Conting\u00eancia diante da probabilidade e dos poss\u00edveis efeitos do fen\u00f4meno do El Ni\u00f1o. Entre as medidas estavam a preven\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios de cobertura vegetal, a prote\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos e restri\u00e7\u00f5es a fogueiras e queimadas a c\u00e9u aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 8 de julho, o Governo do Tolima informava que 28 munic\u00edpios estavam sob algum n\u00edvel de risco de inc\u00eandios. Duas semanas depois, entre 3 de maio e 23 de julho, j\u00e1 haviam sido contabilizados 151 inc\u00eandios e 821,19 hectares afetados. Em alguns munic\u00edpios, as temperaturas ultrapassavam 39 graus Celsius.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 3 de agosto, foram registrados 68 inc\u00eandios durante apenas um fim de semana. Doze inc\u00eandios permaneciam ativos e a pr\u00f3pria Secretaria de Meio Ambiente e Gest\u00e3o de Riscos alertava que a capacidade de resposta dos \u00f3rg\u00e3os de socorro poderia ficar comprometida caso a situa\u00e7\u00e3o continuasse se agravando. Tr\u00eas dias depois, 36 munic\u00edpios estavam em alerta vermelho e 10 em alerta laranja. Os alertas existiam, os inc\u00eandios tamb\u00e9m, e o risco havia sido identificado. No entanto, a emerg\u00eancia continuou crescendo at\u00e9 atingir dimens\u00f5es que obrigaram \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos extraordin\u00e1rios. Aqui aparece uma das primeiras contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da crise.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode afirmar que o Estado permaneceu completamente ausente. Houve planos de conting\u00eancia, monitoramento, reuni\u00f5es institucionais e solicita\u00e7\u00f5es de apoio. Mas a cronologia mostra que a maior capacidade de resposta foi ativada quando a emerg\u00eancia j\u00e1 havia ultrapassado os mecanismos ordin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 se as institui\u00e7\u00f5es fizeram alguma coisa. <strong>Fizeram tarde.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 por que as a\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias chegaram quando o territ\u00f3rio j\u00e1 estava em chamas e havia um problema ambiental de grande escala.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Estado entre a preven\u00e7\u00e3o e a rea\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 10 de agosto, j\u00e1 havia 15 inc\u00eandios florestais ativos. Um dia depois, 36 inc\u00eandios permaneciam ativos em 20 munic\u00edpios. Em San Luis, eram relatados mais de 2.000 hectares afetados e danos em moradias rurais. Em 13 de agosto, o Tolima enfrentava um de seus dias mais cr\u00edticos: 39 inc\u00eandios florestais ativos em 18 munic\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta envolveu bombeiros, Defesa Civil, Cruz Vermelha, Ex\u00e9rcito Nacional, Pol\u00edcia, For\u00e7a Aeroespacial, \u00f3rg\u00e3os de socorro e comunidades. Foram realizadas opera\u00e7\u00f5es terrestres e utilizadas aeronaves para atender aos focos mais graves. Mas, no dia seguinte, o Conselho Departamental de Gest\u00e3o de Riscos reconheceu que a emerg\u00eancia havia ultrapassado a capacidade ordin\u00e1ria. O Tolima declarou calamidade p\u00fablica departamental.<\/p>\n\n\n\n<p>A declara\u00e7\u00e3o permitiu agilizar recursos e fortalecer a capacidade institucional para enfrentar os inc\u00eandios ativos. As opera\u00e7\u00f5es posteriores conseguiram reduzir temporariamente o n\u00famero de focos, mas, naquele momento, os danos ao territ\u00f3rio j\u00e1 haviam alcan\u00e7ado uma dimens\u00e3o muito maior.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise deixa uma pergunta inc\u00f4moda: se o Estado podia mobilizar recursos extraordin\u00e1rios, aeronaves e mecanismos excepcionais quando a emerg\u00eancia atingiu dimens\u00f5es cr\u00edticas, por que essa capacidade n\u00e3o esteve presente com a mesma intensidade durante as etapas anteriores de preven\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 apenas uma discuss\u00e3o administrativa. \u00c9 uma discuss\u00e3o pol\u00edtica. A preven\u00e7\u00e3o exige investimento permanente em territ\u00f3rios onde, muitas vezes, a presen\u00e7a do Estado \u00e9 limitada: fortalecimento dos corpos de bombeiros, brigadas comunit\u00e1rias, prote\u00e7\u00e3o das fontes h\u00eddricas, manuten\u00e7\u00e3o das estradas rurais, sistemas de alerta precoce e monitoramento ambiental. S\u00e3o investimentos pouco vis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma brigada comunit\u00e1ria que evita um inc\u00eandio n\u00e3o produz as mesmas imagens que um helic\u00f3ptero despejando \u00e1gua sobre uma montanha em chamas. A cat\u00e1strofe, por outro lado, concentra a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica e permite demonstrar capacidade institucional quando o dano j\u00e1 se transformou em uma realidade imposs\u00edvel de ignorar. Essa contradi\u00e7\u00e3o revela uma caracter\u00edstica fundamental da rela\u00e7\u00e3o entre Estado e territ\u00f3rio: a presen\u00e7a institucional n\u00e3o \u00e9 distribu\u00edda de maneira uniforme. H\u00e1 territ\u00f3rios onde o Estado est\u00e1 presente permanentemente. E h\u00e1 outros onde aparece principalmente quando a crise j\u00e1 eclodiu.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma perspectiva marxista, o problema n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0 inefici\u00eancia administrativa ou \u00e0 falta ocasional de coordena\u00e7\u00e3o institucional. O Estado interv\u00e9m sobre territ\u00f3rios atravessados por rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder, propriedade e capacidade econ\u00f4mica. A distribui\u00e7\u00e3o dos recursos p\u00fablicos expressa prioridades pol\u00edticas: enquanto alguns investimentos voltados \u00e0 preven\u00e7\u00e3o permanecem invis\u00edveis e recebem aten\u00e7\u00e3o limitada, outras formas de interven\u00e7\u00e3o s\u00e3o ativadas rapidamente quando a crise amea\u00e7a atividades econ\u00f4micas, infraestrutura estrat\u00e9gica ou produz uma press\u00e3o p\u00fablica imposs\u00edvel de ignorar. A quest\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas por que faltaram recursos, mas como e em fun\u00e7\u00e3o de quais interesses s\u00e3o historicamente definidas as prioridades de investimento e de presen\u00e7a estatal.<\/p>\n\n\n\n<p>A cat\u00e1strofe ambiental n\u00e3o afeta todos os territ\u00f3rios da mesma maneira porque os territ\u00f3rios tamb\u00e9m n\u00e3o partem das mesmas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A cat\u00e1strofe n\u00e3o \u00e9 apenas natural<\/h2>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o mais c\u00f4moda consiste em atribuir tudo ao clima.<\/p>\n\n\n\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a variabilidade clim\u00e1tica s\u00e3o fatores fundamentais. Elas criam condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para inc\u00eandios mais intensos e dif\u00edceis de controlar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Mas o clima n\u00e3o organiza os or\u00e7amentos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O clima n\u00e3o decide onde ser\u00e1 constru\u00edda a infraestrutura.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O clima n\u00e3o determina a capacidade dos \u00f3rg\u00e3os de socorro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O clima tamb\u00e9m n\u00e3o explica, por si s\u00f3, por que determinadas comunidades rurais enfrentam maiores dificuldades para acessar mecanismos de preven\u00e7\u00e3o e resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>O fogo precisa de condi\u00e7\u00f5es materiais para se espalhar. Vegeta\u00e7\u00e3o seca, altas temperaturas e ventos fazem parte dessas condi\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria, na maioria dos casos, uma fonte de igni\u00e7\u00e3o, que pode ser acidental, resultado de neglig\u00eancia, consequ\u00eancia de determinadas pr\u00e1ticas produtivas ou resultado de a\u00e7\u00f5es intencionais. Determinar a causa espec\u00edfica de cada inc\u00eandio cabe \u00e0s autoridades competentes, e n\u00e3o podemos descartar interesses econ\u00f4micos. Mas limitar a investiga\u00e7\u00e3o \u00e0 origem imediata das chamas seria insuficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma crise ambiental tamb\u00e9m deve ser entendida como um processo social. Os inc\u00eandios ocorrem em territ\u00f3rios historicamente transformados pelas atividades humanas, pelos modelos produtivos, pelas formas de propriedade e pelas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. As florestas n\u00e3o existem fora da sociedade. A \u00e1gua n\u00e3o existe fora da economia. A terra n\u00e3o existe fora das rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma perspectiva marxista, a natureza n\u00e3o pode ser entendida como um cen\u00e1rio externo sobre o qual ocorre a hist\u00f3ria humana. Ela \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es materiais que tornam poss\u00edvel a vida e a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Sem \u00e1gua, n\u00e3o h\u00e1 agricultura.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Sem solos f\u00e9rteis, n\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Sem ecossistemas funcionais, deterioram-se as condi\u00e7\u00f5es de vida das comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a crise ambiental tamb\u00e9m deve ser entendida como uma express\u00e3o da fratura metab\u00f3lica entre a sociedade e a natureza. A produ\u00e7\u00e3o humana depende permanentemente dos solos, da \u00e1gua, das florestas e dos ciclos ecol\u00f3gicos. Entretanto, uma economia orientada prioritariamente pela acumula\u00e7\u00e3o pode extrair recursos, transformar ecossistemas e expandir atividades produtivas sem assumir plenamente os custos ecol\u00f3gicos dessa transforma\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o: enquanto a produ\u00e7\u00e3o depende da natureza para existir, determinadas formas de acumula\u00e7\u00e3o podem deteriorar as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es materiais que tornam poss\u00edvel a vida e a produ\u00e7\u00e3o futura e, inclusive, como ocorre na Amaz\u00f4nia, a destrui\u00e7\u00e3o muitas vezes \u00e9 intencional com o objetivo de ampliar a fronteira agr\u00edcola e pecu\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O territ\u00f3rio que ficou sob as cinzas<\/h2>\n\n\n\n<p>O inc\u00eandio n\u00e3o termina quando as chamas desaparecem. Em 12 de agosto, a Cortolima informava que cerca de 2.000 hectares haviam sido afetados. Dez dias depois, uma an\u00e1lise realizada por meio de imagens de sat\u00e9lite e cartografia oficial determinou que 22.319 hectares haviam sido afetados em 28 munic\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 26 de agosto, o n\u00famero subiu para 31.046 hectares. Os munic\u00edpios mais afetados eram Ortega, Armero-Guayabal, San Luis, Guamo, Coyaima e Chaparral. Mas os hectares n\u00e3o s\u00e3o apenas n\u00fameros. Dentro dessas \u00e1reas havia florestas, pastagens, planta\u00e7\u00f5es, ecossistemas seminaturais, fauna silvestre e solos produtivos. A an\u00e1lise da Cortolima revelou que uma parcela significativa das \u00e1reas afetadas correspondia a florestas e ecossistemas seminaturais. Tamb\u00e9m foram registrados impactos diretos sobre a fauna silvestre.<\/p>\n\n\n\n<p>O dano tamb\u00e9m n\u00e3o termina na superf\u00edcie. Os inc\u00eandios podem alterar a estrutura do solo, reduzir a mat\u00e9ria org\u00e2nica e deixar extensas \u00e1reas expostas a processos posteriores de eros\u00e3o. Quando as chuvas retornarem, os solos sem cobertura vegetal poder\u00e3o se transformar em fontes de sedimentos para c\u00f3rregos e rios, representando risco de deslizamentos e avalanches.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a emerg\u00eancia n\u00e3o pode ser medida apenas pelo n\u00famero de inc\u00eandios. Deve ser medida tamb\u00e9m pelo que desapareceu dentro das \u00e1reas queimadas. Quando uma floresta queima, n\u00e3o desaparece apenas uma cobertura vegetal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Um territ\u00f3rio \u00e9 transformado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Fontes de \u00e1gua s\u00e3o afetadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 A capacidade produtiva dos solos \u00e9 modificada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O habitat de esp\u00e9cies \u00e9 alterado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Ecossistemas dos quais comunidades inteiras dependem s\u00e3o enfraquecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A natureza, nessa perspectiva, n\u00e3o \u00e9 uma paisagem que deve ser protegida apenas por raz\u00f5es est\u00e9ticas ou sentimentais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o material da exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Defender uma floresta significa defender a \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Defender o solo significa defender a produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Defender os ecossistemas significa defender as condi\u00e7\u00f5es de vida das comunidades que deles dependem.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa perspectiva, surge uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental entre o valor de uso e o valor econ\u00f4mico do territ\u00f3rio. Para uma comunidade camponesa, uma floresta pode significar \u00e1gua, alimentos, prote\u00e7\u00e3o do solo e continuidade da vida. Para determinados interesses econ\u00f4micos, esse mesmo espa\u00e7o pode ser avaliado principalmente segundo sua capacidade de gerar rentabilidade. A disputa ambiental come\u00e7a precisamente quando as condi\u00e7\u00f5es materiais necess\u00e1rias \u00e0 vida s\u00e3o subordinadas \u00e0 l\u00f3gica da valoriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>A cat\u00e1strofe tamb\u00e9m n\u00e3o tem as mesmas consequ\u00eancias para todos os setores sociais. A perda de uma floresta, de uma fonte de \u00e1gua ou de uma planta\u00e7\u00e3o afeta de maneira diferente quem possui m\u00faltiplas propriedades e uma fam\u00edlia camponesa cuja reprodu\u00e7\u00e3o material depende diretamente de uma pequena parcela de terra. De uma perspectiva de classe, os desastres ambientais tendem a aprofundar desigualdades preexistentes: aqueles que possuem menos recursos t\u00eam menor capacidade de recupera\u00e7\u00e3o, enquanto os setores com maior capital podem absorver mais facilmente as perdas ou at\u00e9 adquirir novos ativos em contextos de crise.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Depois do fogo come\u00e7a a disputa<\/h2>\n\n\n\n<p>O conceito de ecoc\u00eddio permite dimensionar politicamente a magnitude de uma destrui\u00e7\u00e3o ambiental em grande escala. Entretanto, determinar se os fatos constituem juridicamente um crime ambiental espec\u00edfico ou se houve inc\u00eandios provocados intencionalmente ultrapassa nossas possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, existem investiga\u00e7\u00f5es e den\u00fancias sobre poss\u00edveis inc\u00eandios intencionais. As autoridades mencionaram ind\u00edcios relacionados ao uso de acelerantes e pessoas supostamente envolvidas na provoca\u00e7\u00e3o de alguns focos. Esses fatos devem ser investigados. Mas, mesmo que cada inc\u00eandio tivesse uma explica\u00e7\u00e3o imediata diferente, a quest\u00e3o pol\u00edtica permaneceria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que acontecer\u00e1 com o territ\u00f3rio depois das chamas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Tolima n\u00e3o \u00e9 apenas uma regi\u00e3o agr\u00edcola. Sua geografia re\u00fane ecossistemas estrat\u00e9gicos, importantes bacias hidrogr\u00e1ficas, \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria e regi\u00f5es com riqueza geol\u00f3gica e potencial minerador.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O territ\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 uma superf\u00edcie vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 \u00c9 um espa\u00e7o de disputa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali se encontram comunidades rurais, recursos naturais, atividades econ\u00f4micas, formas de propriedade e interesses relacionados ao uso da terra. Atualmente, n\u00e3o existem provas judiciais, t\u00e9cnicas ou cient\u00edficas que permitam afirmar ou descartar que os inc\u00eandios florestais de 2026 tenham sido provocados deliberadamente para facilitar projetos de minera\u00e7\u00e3o e energia, de hidrocarbonetos ou processos de expans\u00e3o da pecu\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a aus\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o direta comprovada entre um inc\u00eandio e um interesse econ\u00f4mico espec\u00edfico n\u00e3o elimina outra quest\u00e3o fundamental: <strong>quais transforma\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ocorrer posteriormente nos territ\u00f3rios afetados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma leitura marxista n\u00e3o precisa construir teorias conspirat\u00f3rias para reconhecer que a destrui\u00e7\u00e3o ambiental ocorre dentro de espa\u00e7os onde existem rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas concretas. A investiga\u00e7\u00e3o deve olhar para antes e depois do inc\u00eandio.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, para compreender quais processos estavam transformando o territ\u00f3rio: mudan\u00e7as no uso do solo, expans\u00e3o de atividades produtivas, fragmenta\u00e7\u00e3o de ecossistemas, press\u00e3o sobre os recursos naturais e concentra\u00e7\u00e3o da propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, para observar quem compra as terras, quem as ocupa, quem decide sobre sua restaura\u00e7\u00e3o e quais novas atividades econ\u00f4micas surgem nos territ\u00f3rios degradados. O inc\u00eandio n\u00e3o precisa necessariamente ser a causa original desses processos para se transformar em um acelerador de transforma\u00e7\u00f5es que j\u00e1 estavam em andamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa perspectiva, a an\u00e1lise n\u00e3o precisa demonstrar que uma atividade econ\u00f4mica provocou diretamente o inc\u00eandio para investigar suas consequ\u00eancias territoriais. Uma cat\u00e1strofe pode se transformar em um momento de reconfigura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Quando comunidades perdem capacidade econ\u00f4mica, os ecossistemas se degradam e as terras diminuem temporariamente sua capacidade produtiva, podem surgir novas condi\u00e7\u00f5es para processos de compra, concentra\u00e7\u00e3o ou transforma\u00e7\u00e3o do uso do solo. A investiga\u00e7\u00e3o deve determinar se, depois da emerg\u00eancia, os territ\u00f3rios afetados ser\u00e3o restaurados em benef\u00edcio das comunidades e dos ecossistemas ou incorporados progressivamente a novas din\u00e2micas de acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma das quest\u00f5es fundamentais deixadas pela emerg\u00eancia. O que acontecer\u00e1 com as mais de 31 mil hectares afetadas? Ser\u00e3o restauradas? Ser\u00e3o protegidas? As comunidades participar\u00e3o das decis\u00f5es? Ou a degrada\u00e7\u00e3o ambiental abrir\u00e1 caminho para novas formas de transforma\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do territ\u00f3rio?<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta sobre o futuro das terras queimadas conduz inevitavelmente \u00e0 quest\u00e3o da propriedade. Em uma sociedade profundamente desigual, a capacidade de decidir sobre o territ\u00f3rio n\u00e3o est\u00e1 distribu\u00edda democraticamente. Quem possui grandes extens\u00f5es de terra ou disp\u00f5e de capital para adquiri-las tem maiores possibilidades de intervir sobre o uso futuro do solo do que uma comunidade camponesa afetada pela perda de planta\u00e7\u00f5es, \u00e1gua ou condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Por isso, qualquer processo de reconstru\u00e7\u00e3o posterior aos inc\u00eandios deve acompanhar n\u00e3o apenas a recupera\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m poss\u00edveis processos de concentra\u00e7\u00e3o da propriedade e deslocamento econ\u00f4mico das comunidades locais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Tolima depois do fogo<\/h2>\n\n\n\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas explicam parte da crise. N\u00e3o explicam toda a hist\u00f3ria. Uma explica\u00e7\u00e3o exclusivamente clim\u00e1tica corre o risco de transformar uma cat\u00e1strofe pol\u00edtica e social em um fen\u00f4meno natural inevit\u00e1vel. E, quando uma cat\u00e1strofe parece inevit\u00e1vel, desaparecem as perguntas sobre responsabilidade. Quem deveria prevenir? Onde estavam os recursos? Por que a capacidade extraordin\u00e1ria chegou quando a emerg\u00eancia j\u00e1 havia alcan\u00e7ado dimens\u00f5es cr\u00edticas? O que acontecer\u00e1 com os territ\u00f3rios depois?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma leitura marxista da crise ambiental obriga a olhar para al\u00e9m do momento da destrui\u00e7\u00e3o. Obriga a analisar a rela\u00e7\u00e3o entre natureza e acumula\u00e7\u00e3o, entre territ\u00f3rio e propriedade, entre capacidade estatal e desigualdade social. Porque a natureza n\u00e3o est\u00e1 fora das rela\u00e7\u00f5es de poder. A terra, a \u00e1gua, as florestas e o subsolo fazem parte das condi\u00e7\u00f5es materiais sobre as quais a vida se organiza e a economia se desenvolve. Quem controla esses recursos tem poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a reconstru\u00e7\u00e3o posterior aos inc\u00eandios n\u00e3o pode se limitar a apagar os \u00faltimos focos, contabilizar hectares perdidos e declarar superada a emerg\u00eancia. A verdadeira discuss\u00e3o come\u00e7a depois. Quando for preciso decidir o que ser\u00e1 feito com as terras queimadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Se os ecossistemas ser\u00e3o restaurados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Se as fontes h\u00eddricas ser\u00e3o protegidas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Se as comunidades ter\u00e3o participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou se a destrui\u00e7\u00e3o ambiental acabar\u00e1 facilitando novas formas de concentra\u00e7\u00e3o da terra e transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 As chamas podem ser extintas em quest\u00e3o de dias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 As consequ\u00eancias podem durar d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O que acontecer no Tolima depois dos inc\u00eandios permitir\u00e1 determinar se as cinzas foram o in\u00edcio de um verdadeiro processo de restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e justi\u00e7a territorial ou se, pelo contr\u00e1rio, a destrui\u00e7\u00e3o abriu caminho para novas formas de apropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa ambiental n\u00e3o pode ser reduzida a uma pol\u00edtica t\u00e9cnica administrada exclusivamente por institui\u00e7\u00f5es ou empresas. A defesa dos ecossistemas exige participa\u00e7\u00e3o efetiva das comunidades que habitam os territ\u00f3rios. Defender um rio significa defender aqueles que dependem de suas \u00e1guas. Defender uma floresta significa defender as condi\u00e7\u00f5es materiais das comunidades rurais. Defender o solo significa defender a possibilidade de produzir alimentos. Por isso, a luta ambiental est\u00e1 inseparavelmente ligada \u00e0 luta pela democratiza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e pelo direito das comunidades de participar das decis\u00f5es sobre a terra, os recursos naturais e seu futuro coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque uma cat\u00e1strofe nunca ocorre sobre um territ\u00f3rio vazio. Ocorre sobre terras habitadas, trabalhadas, disputadas e atravessadas por rela\u00e7\u00f5es de poder. O fogo destruiu milhares de hectares. <strong>Mas a disputa pelo territ\u00f3rio est\u00e1 apenas come\u00e7ando.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Juan Castro, engenheiro agr\u00f4nomo da Universidade do Tolima<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Agosto 2026<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando, neste m\u00eas de agosto, o Tolima se tornou o epicentro de uma das maiores emerg\u00eancias florestais do pa\u00eds, o departamento j\u00e1 acumulava, havia meses, sinais de alerta: altas temperaturas, redu\u00e7\u00e3o das chuvas, munic\u00edpios em risco, inc\u00eandios recorrentes e chamados institucionais para fortalecer a capacidade de resposta. A cronologia mostra que a emerg\u00eancia foi crescendo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":83066,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Juan Castro","footnotes":""},"categories":[3766,12,3498],"tags":[],"class_list":["post-83065","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meio-ambiente","category-colombia","category-crise-climatica-e-ambiental"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/whatsapp-image-2026-08-21-at-8-26_51419135_20260821095602-1.webp","categories_names":["Col\u00f4mbia","Crise clim\u00e1tica e ambiental","Meio Ambiente"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Juan Castro","tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83065","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83065"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83065\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":83080,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83065\/revisions\/83080"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/83066"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83065"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83065"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83065"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}