{"id":83032,"date":"2026-09-07T21:48:14","date_gmt":"2026-09-07T21:48:14","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=83032"},"modified":"2026-09-07T21:49:17","modified_gmt":"2026-09-07T21:49:17","slug":"burkina-faso-o-imperio-contra-ataca-traore-para-se-defender-mais-bonapartismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/09\/07\/burkina-faso-o-imperio-contra-ataca-traore-para-se-defender-mais-bonapartismo\/","title":{"rendered":"Burkina Faso: O imp\u00e9rio contra-ataca. Traor\u00e9 para se defender, mais bonapartismo"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As importantes mobiliza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e da juventude levaram \u00e0 queda do governo de Roch Kabor\u00e9, em janeiro de 2022, por meio de um golpe de Estado liderado pelo tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba. O governo de Damiba durou oito meses, e no final de setembro do mesmo ano um novo golpe de Estado colocou no poder o Capit\u00e3o Ibrahim Traor\u00e9. A justificativa para o segundo golpe foi a incapacidade de Damiba para enfrentar a insurg\u00eancia jihadista no pa\u00eds. Traor\u00e9 chegou ao governo propondo controlar os grupos jihadistas, convocar elei\u00e7\u00f5es em dois anos e seguir o legado de Thomas Sankara<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem foi Thomas Sankara, tamb\u00e9m conhecido como Che Guevara da \u00c1frica?\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todo l\u00edder das lutas contra a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o que tenha sido assassinado deve ser tratado com respeito. Esse respeito n\u00e3o nos exime de uma an\u00e1lise minuciosa de seu programa, de sua origem social e acima de tudo de seus m\u00e9todos de luta. Nesse sentido, queremos analisar a proposta de Governo Democr\u00e1tico e Popular (GDP) defendida por Thomas Sankara.<\/p>\n\n\n\n<p>O simp\u00e1tico nome GDP esconde seus objetivos e seu conte\u00fado de classe. O GDP prioriza a democracia burguesa em detrimento do poder oper\u00e1rio e seus m\u00e9todos. Quanto ao conte\u00fado popular, n\u00e3o diz se \u00e9 um governo dos trabalhadores, da pequena burguesia, dos camponeses ou da pr\u00f3pria burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>A bem da verdade, Sankara n\u00e3o propunha a participa\u00e7\u00e3o da burguesia no governo, mesmo porque o pa\u00eds era eminentemente agr\u00e1rio e de desenvolvimento bastante rudimentar nos anos 80 do s\u00e9culo passado. Havia uma burguesia comercial que mantinha estreitas rela\u00e7\u00f5es de interc\u00e2mbio com o imperialismo, vendia caro as mercadorias no mercado interno, e por esse motivo era recha\u00e7ada pela popula\u00e7\u00e3o, bem como pelo pr\u00f3prio Sankara.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O&nbsp; GDP era um governo policlassista. De forma diversa, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, de Lenin e Trotski, foi dirigida pelos trabalhadores (empregados ou n\u00e3o) e tinha os camponeses como aliados. Esta \u00e9 a nossa primeira diferen\u00e7a com o GDP de Sankara.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra diferen\u00e7a est\u00e1 relacionada com o internacionalismo e a expans\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio. A maior conquista da Revolu\u00e7\u00e3o Russa foi a cria\u00e7\u00e3o da III Internacional, com o objetivo de expandir a revolu\u00e7\u00e3o. Muitos na \u00c1frica dizem que Sankara \u00e9 o Che Africano, por\u00e9m, Che Guevara, \u00e9 bom lembrar, defendia a cria\u00e7\u00e3o de um, dois, tr\u00eas ou mais Vietn\u00e3s pelo mundo, lutou em Cuba, no Congo e foi assassinado na Bol\u00edvia. Sankara, por sua vez, n\u00e3o prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de uma nova Internacional, tamb\u00e9m n\u00e3o teve a postura de Che. Pelo contr\u00e1rio, seu governo participava do Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados, que foi, em seu auge, um movimento burgu\u00eas que se opunha tanto aos EUA como \u00e0 URSS, por palavras defendia as lutas da classe trabalhadora, por\u00e9m colocando em pr\u00e1tica um programa alinhado \u00e0 perspectiva de seus dirigentes burgueses.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa do GDP foi explicado em uma confer\u00eancia, no dia 02 de outubro de 1983. Seu objetivo seria construir uma nova sociedade, livre da injusti\u00e7a social e da domina\u00e7\u00e3o imperialista. Nessa confer\u00eancia, Sankara explicou que \u201cA filosofia da transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria j\u00e1 est\u00e1 atuando nos seguintes setores: 1. ex\u00e9rcito nacional; 2. pol\u00edticas relativas \u00e0s mulheres; 3. desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel do Ex\u00e9rcito Nacional, de acordo com Sankara, seria \u201cTreinar cada soldado como um militante revolucion\u00e1rio. Acabou-se o tempo em que o ex\u00e9rcito era declarado neutro e apol\u00edtico, quando na verdade servia como basti\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o e guardi\u00e3o dos interesses imperialistas\u201d. A ideia seria boa se houvesse uma organiza\u00e7\u00e3o dos soldados por fora da hierarquia militar e esses se subordinassem a alguma forma independente dos trabalhadores e do povo pobre, como foram os soviets na Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Por\u00e9m, os CDRs (Comit\u00eas de Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o), criados pelo GDP, atuariam junto com o ex\u00e9rcito e respeitariam a hierarquia militar. Ou seja, n\u00e3o haveria, e n\u00e3o houve, independ\u00eancia dos soldados e cabos, como ocorreu na experi\u00eancia dos sovietes na Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito ao segundo eixo, ou seja, pol\u00edticas relativas \u00e0s mulheres, um setor extremamente marginalizado na sociedade \u2013 e reivindicamos que tenha sido um dos eixos program\u00e1ticos \u2013, o GDP tinha algumas pol\u00edticas que buscavam reduzir a enorme subjuga\u00e7\u00e3o das mulheres no pa\u00eds. Entre essas medidas estava o fim das pr\u00e1ticas de mutila\u00e7\u00f5es genitais, recorrentes no Sahel. Tamb\u00e9m proibiu a poligamia e a prostitui\u00e7\u00e3o, embora a proibi\u00e7\u00e3o \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o penalizasse as mulheres e eximisse os homens. As mulheres foram convocadas a exercer importantes cargos, inclusive ministeriais. Havia guarni\u00e7\u00f5es militares s\u00f3 de mulheres. Essas pr\u00e1ticas foram sim bastante progressivas, mas se restringiam ao campo da democracia burguesa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro eixo program\u00e1tico estava relacionado com a economia nacional, a qual Sankara defendia que deveria ser: independente, autossuficiente e planejada a servi\u00e7o do GDP. As principais medidas econ\u00f4micas foram: a) reforma agr\u00e1ria; b) reforma administrativa; c) reforma educacional; d) reforma das estruturas de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A reforma agr\u00e1ria, ponto fundamental do programa, tinha como eixo: a) aumento da produtividade a partir da melhor organiza\u00e7\u00e3o dos camponeses e introdu\u00e7\u00e3o de modernas t\u00e9cnicas agr\u00edcolas; b) desenvolvimento da diversifica\u00e7\u00e3o da agricultura; c) aboli\u00e7\u00e3o dos grilh\u00f5es que atavam os camponeses a estruturas opressivas; d) finalmente, fazer da agricultura a base do desenvolvimento da economia. Um programa burgu\u00eas, muito longe do programa para o campo expresso por Lenin nas Teses de Abril e em v\u00e1rios outros documentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dos elementos acima expostos e das pr\u00f3prias palavras de Sankara \u2013 apesar de ser reivindicado como o Che Guevara Africano \u2013, pode-se afirmar que o GDP desenvolvido em Burkina Faso foi eminentemente um governo burgu\u00eas. Diferente dos padr\u00f5es africanos da \u00e9poca, mas um governo burgu\u00eas. Sankara disse: \u201cNossa Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 anti-imperialista, mas \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o que tem que ser feita dentro da estrutura econ\u00f4mica e social burguesa j\u00e1 delineada\u201d. E mais, para n\u00e3o deixar d\u00favidas: \u201cEstas s\u00e3o as caracter\u00edsticas e as limita\u00e7\u00f5es da Revolu\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou aqui em 4 de agosto de 1983. Entendendo-a claramente e definindo-a exatamente, podemos nos precaver contra os perigos de desvios e excessos que poderiam dificultar o sucesso da revolu\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As promessas de Ibrahim Traor\u00e9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No dia 30 de setembro de 2022, Ibrahim Traor\u00e9 foi um ativo participante do Golpe de Estado contra o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba. Alguns dias depois (6 de outubro), foi empossado como novo presidente de Burkina Faso.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo presidente, segundo suas declara\u00e7\u00f5es, tinha dois objetivos pol\u00edticos. O primeiro seria o de enfrentar e derrotar a crescente viol\u00eancia instalada no pa\u00eds por meio das mil\u00edcias jihadistas. Para que se tenha ideia da presen\u00e7a dessas mil\u00edcias jihadistas em Burkina Faso, o primeiro-ministro burquinense, Jean Emmanuel Ou\u00e9draogo<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, em audi\u00eancia na Assembleia Nacional, deu um informe bastante questionado de que as mil\u00edcias ainda controlam 25% do territ\u00f3rio do pa\u00eds. J\u00e1 o segundo objetivo seria o de restaurar o governo civil por meio da convoca\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es em dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a das mil\u00edcias jihadistas e a incapacidade dos governos em derrot\u00e1-las foram fator fundamental a provocar as mobiliza\u00e7\u00f5es juvenis e populares que protestavam contra a viol\u00eancia e a usurpa\u00e7\u00e3o de suas terras por parte dos milicianos. As mobiliza\u00e7\u00f5es j\u00e1 haviam derrubado o governo de Damiba e de seu antecessor. Traor\u00e9 sabia dessas dificuldades e, al\u00e9m de se comprometer a derrotar as mil\u00edcias, tentou demonstrar uma cara progressista, associando-se \u00e0 imagem de Thomas Sankara, que, sem d\u00favidas, ainda \u00e9 reivindicado pelas massas de Burkina Faso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ibrahim Traor\u00e9 e o bonapartismo<\/p>\n\n\n\n<p>Ibrahim Traor\u00e9 ganhou muita visibilidade mais por suas falas do que por suas atitudes. Essa visibilidade, aliada a uma boa campanha (deepfake nas m\u00eddias sociais, com apoio russo), esconde seu real rosto, de um governo bonapartista. H\u00e1 v\u00e1rios exemplos das atitudes bonapartistas de seu governo, e vamos demonstrar alguns.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Repress\u00e3o contra os estudantes da Universit\u00e9 Joseph Ki Zerbo\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2023, os estudantes se mobilizaram contra uma Lei que regula suas promo\u00e7\u00f5es e qualifica\u00e7\u00f5es. Essa Lei enquadra as normativas universit\u00e1rias do pa\u00eds aos padr\u00f5es europeus. Promulgada em 2009, ainda durante a ditadura de Blaise Compaor\u00e9, ela nunca foi totalmente aplicada e, no governo de Ibrahim Traor\u00e9, os estudantes se organizaram para impedir sua aplica\u00e7\u00e3o total. Para se ter uma ideia da nocividade dessa Lei, dos 1.180 alunos matriculados no primeiro semestre do referido ano de 2023, 523 foram obrigados a abandonar os estudos. A ordem de aplicar a Lei veio diretamente do Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, que, vendo a mobiliza\u00e7\u00e3o crescer, autorizou a invas\u00e3o do campus universit\u00e1rio pela Companhia Republicana de Seguran\u00e7a (CRS), que dispersou com g\u00e1s lacrimog\u00eaneo alunos do Mestrado da Unidade de Forma\u00e7\u00e3o e Investiga\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Vida e da Terra (UFR\/SVT) que estavam em greve<a id=\"_ftnref4\" href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Burkina Faso tornou-seindependente da Fran\u00e7a no dia 5 de agosto de 1960. Dentre os acordos assinados entre Fran\u00e7a e as ex-col\u00f4nias, inclusive Burkina Faso, havia acordos militares. Assim, dois meses ap\u00f3s a independ\u00eancia, em 17 de outubro, foi criada a Compagnie R\u00e9publicaine de S\u00e9curit\u00e9. Seu primeiro diretor foi um policial franc\u00eas \u2013 mesmo ap\u00f3s a independ\u00eancia \u2013, e somente depois de estruturados e criados os m\u00e9todos repressivos a serem utilizados pela Companhia \u00e9 que sua dire\u00e7\u00e3o foi assumida por um burquinab\u00ea. A Fran\u00e7a perdeu seu controle sobre Burkina Faso, mas suas ra\u00edzes repressivas contra os trabalhadores e os jovens do pa\u00eds permanecem com as atividades da Compagnie R\u00e9publicaine de S\u00e9curit\u00e9<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Emissora de r\u00e1dio \u00e9 suspensa por tr\u00eas meses por chamar o governo militar de junta militar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma postagem na p\u00e1gina do Facebook da R\u00e1dio Omega, em 30 de julho de 2025, \u201cfoi considerada como contendo coment\u00e1rios maliciosos e descorteses contra as autoridades de Burkina Faso\u201d. A postagem se referia a uma manifesta\u00e7\u00e3o na capital de Burkina Faso, Ouagadougou, sobre um influenciador digital burquinense que morreu sob cust\u00f3dia na Costa do Marfim. Nessa postagem, afirmava-se que \u201ca Costa do Marfim \u00e9 regularmente acusada pela junta militar de Burkina Faso de abrigar opositores e fomentar conspira\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Jornalistas que escreveram materiais que desagradaram o governo foram presos e obrigados a se alistarem no ex\u00e9rcito para serem \u201creeducados\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Den\u00fancia da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Jornalistas relata que quatro jornalistas foram sequestrados entre junho e julho de 2024 e reapareceram na condi\u00e7\u00e3o de alistados no ex\u00e9rcito. Em mar\u00e7o de 2025, tr\u00eas outros reconhecidos jornalistas, que escreveram contra a restri\u00e7\u00e3o da liberdade de imprensa, foram presos e reapareceram dez dias depois com uniformes militares e incorporados compulsoriamente \u00e0s frentes de batalha contra os jihadistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A ruptura com o imperialismo franc\u00eas e a nova submiss\u00e3o, agora ao imperialismo russo<\/p>\n\n\n\n<p>Passados mais de sessenta anos da independ\u00eancia, Burkina Faso e outros treze estados africanos seguiam estreitamente vinculados economicamente ao imperialismo franc\u00eas. A pr\u00f3pria din\u00e2mica decadente do capitalismo em sua fase imperialista levou a Fran\u00e7a a aumentar suas imposi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas \u00e0s ex-col\u00f4nias. Assim, o n\u00edvel de vida que j\u00e1 era ruim foi piorando cada vez mais, e paralelamente a isso aumentava o sentimento antifranc\u00eas na regi\u00e3o. A queda de Kabor\u00e9 em janeiro de 2022 foi comemorada nas ruas com palavras de ordem&nbsp; como \u201cFora Fran\u00e7a\u201d e com bandeiras da R\u00fassia sendo agitadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O sucessor de Kabor\u00e9, Damiba, que ficou no poder por apenas oito meses, estabeleceu rela\u00e7\u00f5es mais estreitas com a R\u00fassia. Ibrahim Traor\u00e9, que liderou o golpe de Estado respons\u00e1vel pela queda de Damiba, intensificou ainda mais as rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia, primeiro por meio do Grupo Wagner, e depois ganhando um salto de qualidade na Confer\u00eancia R\u00fassia-\u00c1frica, em 2023. Essa confer\u00eancia ficou marcada pelo inflamado discurso anti-imperialista de Traor\u00e9, um discurso bastante limitado, na medida em que nomeia a Europa em geral como imperialista e se prop\u00f5e a construir novas rela\u00e7\u00f5es com o imperialismo russo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O incremento da insurg\u00eancia jihadista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando o coronel Assimi Goita, em agosto de 2020, liderou o golpe de Estado contra Ibrahim Boubacar Ke\u00efta, o Mali inaugurou um processo pol\u00edtico que mistura nacionaliza\u00e7\u00e3o de parte da produ\u00e7\u00e3o mineral do pa\u00eds, expuls\u00e3o das tropas francesas, restri\u00e7\u00e3o aos direitos democr\u00e1ticos e expans\u00e3o desses m\u00e9todos para Burkina Faso e N\u00edger.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resposta a esse processo, os jihadistas do autodenominado JNIM (Jam\u0101\u02bfat nu\u1e63rat al-isl\u0101m wal-muslim\u012bn, Grupo de Apoio ao Isl\u00e3 e aos Mu\u00e7ulmanos), afiliado da Al-Qaeda, e as tropas do Estado Isl\u00e2mico do Grande Saara (ISGS), com o apoio do imperialismo europeu, em especial do franc\u00eas, n\u00e3o pararam de avan\u00e7ar. O general nigerino Abdourahamane Tiani, que tomou o poder em um golpe de Estado em 2023, acusou o presidente franc\u00eas Emmanuel Macron e os presidentes de Benin e Costa do Marfim, Patrice Talon e Alassane Ouattara, respectivamente, de envolvimento no ataque ao aeroporto de Niamei no \u00faltimo m\u00eas de janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os tr\u00eas pa\u00edses do Sahel (Mali, Burkina Faso e N\u00edger) t\u00eam dois ter\u00e7os de suas 135 unidades administrativas controlados pelas for\u00e7as isl\u00e2micas. Como consequ\u00eancia, o n\u00famero de mortos na regi\u00e3o, em fins de junho de 2024, estava em 11.200 pessoas, um n\u00famero tr\u00eas vezes maior que o de 2021. A restri\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade de imprensa nos tr\u00eas pa\u00edses dificulta maiores informa\u00e7\u00f5es e acesso a dados mais confi\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos tr\u00eas pa\u00edses, h\u00e1 cinco milh\u00f5es de pessoas deslocadas de suas \u00e1rea de viv\u00eancia. Em Burkina Faso, 20% das unidades de sa\u00fade e 5.300 escolas est\u00e3o fechadas; como resultado, 40% das crian\u00e7as do pa\u00eds est\u00e3o fora da escola. A fome se alastra pelos tr\u00eas pa\u00edses, sendo que em Burkina Faso 2,3 milh\u00f5es de pessoas passam fome.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pressionado pela insurg\u00eancia jihadista, Traor\u00e9 n\u00e3o apela \u00e0 classe trabalhadora. Apela ao bonapartismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A press\u00e3o do movimento jihadista vem encurralando o governo de Ibrahim Traor\u00e9. Os jihadistas, hoje, s\u00e3o muito diferentes dos jihadistas da \u00e9poca da queda de IBK no Mali, em 2020. Hoje, est\u00e3o muito bem equipados, inclusive utilizando-se de drones, que, segundo o general Abdourahamane Tiani, s\u00e3o financiados pela Fran\u00e7a e pelo imperialismo europeu, com apoio log\u00edstico do Benin e da Costa do Marfim.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos jihadistas, Traor\u00e9 tem que lidar com a crise do capitalismo e seus efeitos para os pa\u00edses semicoloniais, em especial, com a redu\u00e7\u00e3o de gastos do Programa Mundial de Alimentos da ONU, que servia para minorar a fome da imensa massa de famintos e deslocados pelas mil\u00edcias na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelo a esses dois problemas \u2013 avan\u00e7o dos jihadistas e crise mundial do capitalismo \u2013, a classe trabalhadora, os estudantes e setores populares de Burkina Faso, nos \u00faltimos cinco anos, derrubaram dois presidentes, seus problemas n\u00e3o foram resolvidos e, para piorar a situa\u00e7\u00e3o do atual governo, n\u00e3o h\u00e1 um clima de derrota entre as massas. Desse modo, Ibrahim Traor\u00e9 deve estar enfrentando noites mal dormidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse curto espa\u00e7o de tempo, para defender seu governo, Ibrahim Traor\u00e9 atacou o movimento de oposi\u00e7\u00e3o, conforme demonstramos (repress\u00e3o aos estudantes, fechamento de r\u00e1dios, pris\u00e3o de jornalistas, etc.), e mais: nomeou para os principais cargos do governo seus irm\u00e3os, tios, primos, cunhados e militares muito pr\u00f3ximos<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a insurrei\u00e7\u00e3o militar que derrubou o governo do tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, o novo governo, encabe\u00e7ado por Ibrahim Traor\u00e9, se comprometeu a convocar elei\u00e7\u00f5es em dois anos, al\u00e9m de devolver o governo aos civis.&nbsp; Por\u00e9m, em maio de 2024, quando j\u00e1 estava para vencer o prazo de dois anos, foi realizado um \u201cdialogo nacional\u201d, do qual \u201cparticiparam&nbsp; representantes da sociedade civil, das for\u00e7as de seguran\u00e7a e defesa e parlamentares da assembleia nacional de transi\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a maioria dos partidos pol\u00edticos boicotou as conversas\u201d<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na reuni\u00e3o de di\u00e1logo nacional foi aprovado que a dura\u00e7\u00e3o do mandato seria estendida por mais sessenta meses, segundo o presidente do Comit\u00ea Organizador do Di\u00e1logo Nacional, coronel Moussa Diallo. Al\u00e9m de estender o prazo em mais cinco anos, Traor\u00e9 poder\u00e1 concorrer nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. Ou seja, ser\u00e3o dois anos de mandato j\u00e1 cumpridos, mais cinco anos da extens\u00e3o e mais cinco anos de um poss\u00edvel novo mandato, resultando em pelo menos 12 anos no poder. Na mesma reuni\u00e3o foi aprovado tamb\u00e9m que os assentos da assembleia de transi\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e3o divididos entre os partidos tradicionais. Doravante os cargos ser\u00e3o definidos pelo \u201cpatriotismo\u201d, que ser\u00e1 o \u00fanico crit\u00e9rio para a escolha de deputados.<\/p>\n\n\n\n<p>O coronel Moussa Diallo faz parte do c\u00edrculo \u00edntimo de Ibrahim Traor\u00e9 e, segundo o Africa Report, \u201cMoussa Diallo \u00e9 o segundo dos \u2018padrinhos da seguran\u00e7a\u2019 de Traor\u00e9. Instrutor na academia militar, este oficial de artilharia do regimento Kaya ensinou a Traor\u00e9 e a v\u00e1rios de seus camaradas a arte da artilharia. Foi, portanto, a essa figura paterna que o capit\u00e3o naturalmente recorreu ap\u00f3s seu golpe. Al\u00e7ado ao comando das for\u00e7as armadas em dezembro de 2024, o chefe do Estado-Maior recebeu a miss\u00e3o de reestruturar o ex\u00e9rcito, contando com o recrutamento em massa de milicianos para formar os Volunt\u00e1rios para a Defesa da P\u00e1tria\u201d<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima grande cartada do governo bonapartista de Traor\u00e9 foi a dissolu\u00e7\u00e3o de todos os partidos pol\u00edticos, que j\u00e1 estavam proibidos de realizar eventos p\u00fablicos. Para o atual governo, \u201ca prolifera\u00e7\u00e3o de partidos levou a abusos, alimentou divis\u00f5es entre os cidad\u00e3os e enfraqueceu o tecido social\u201d<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. \u201cAntes do golpe, o pa\u00eds tinha mais de cem partidos pol\u00edticos registrados, dos quais quinze estavam representados no Parlamento ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es gerais de 2020\u201d<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por um programa anticapistalista e anti-imperialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida das massas \u00e9 necess\u00e1rio nacionalizar a produ\u00e7\u00e3o mineral. Os minerais t\u00eam que ser 100% nacionais e explorados por empresas estatais, sem burocratas, sem militares, mas controladas pelos trabalhadores. Traor\u00e9, em um arroubo de nacionalismo, prop\u00f4s \u201ca cria\u00e7\u00e3o de uma empresa estatal de minera\u00e7\u00e3o, que passou a exigir de empresas estrangeiras uma participa\u00e7\u00e3o de 15% em suas opera\u00e7\u00f5es. Mesmo mineradoras russas, como a Nordgold, t\u00eam de cumprir essas regras\u201d<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O jornal Brasil de Fato comemorou a decis\u00e3o do governo de Burkina Faso pela cria\u00e7\u00e3o de uma empresa estatal e sua exig\u00eancia de 15% nas opera\u00e7\u00f5es de empresas estrangeiras no seu territ\u00f3rio. Por\u00e9m, isso \u00e9 muito pouco, abaixo da participa\u00e7\u00e3o exigida por Mali, que subiu de 20% para 30%, e bem mais abaixo do que recebiam as empresas mistas de Hugo Ch\u00e1vez, que exigiam 50%. Para piorar, o Brasil de Fato diz que as empresas russas \u201ct\u00eam que cumprir a regra\u201d. Na verdade, essa defesa envergonhada da R\u00fassia tem a ver com a caracteriza\u00e7\u00e3o que fazem os setores reformistas, que at\u00e9 hoje n\u00e3o reconheceram que a R\u00fassia e a China j\u00e1 se transformaram em imperialistas. Ali\u00e1s, essa n\u00e3o caracteriza\u00e7\u00e3o da R\u00fassia como imperialista leva o governo de Ibrahim Traor\u00e9 a um erro grav\u00edssimo, na medida em que simplesmente troca o imperialismo franc\u00eas pelo russo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um programa imposs\u00edvel sem uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As massas de Burkina Faso j\u00e1 mostraram sua valentia. Desde 2020 derrubaram dois governos. Ao mesmo tempo, com poucas armas \u2013 e, diga-se de passagem, armas obsoletas, nestes tempos de uso de drones \u2013 resistem aos grupos jihadistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A disposi\u00e7\u00e3o de luta existe, o problema \u00e9 que o governo de Ibrahim Traor\u00e9, ao contr\u00e1rio do que dizem os reformistas, \u00e9 um governo autorit\u00e1rio, que atropela seus opositores e, por esse motivo, n\u00e3o desperta a confian\u00e7a das massas. De fato, o atual governo de Burkina Faso, n\u00e3o temos d\u00favidas, n\u00e3o ser\u00e1 consequente na luta anti-imperialista, tendo inclusive encontrado um imperialismo \u201cprogressista\u201d para chamar de seu..<\/p>\n\n\n\n<p>Somente com a constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria programaticamente s\u00f3lida, que reivindique os postulados da III Internacional antes da burocratiza\u00e7\u00e3o estalinista e que atualize o marxismo a partir da IV Internacional de Trotsky, haver\u00e1 a possibilidade de avan\u00e7ar na expropria\u00e7\u00e3o da burguesia nacional e estrangeira e avan\u00e7ar rumo ao socialismo com democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Burkina Faso: Three Years of Broken Promises. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/2025\/11\/burkina-faso-three-years-of-broken-promises\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ipsnews.net\/2025\/11\/burkina-faso-three-years-of-broken-promises\/<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a>Thomas Sankara. The \u201cPolitical Orientation\u201d of Burkina Faso. <strong>Review of African Political Economy<\/strong>, No. 32 (Apr., 1985), pp. 48-55. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.jstor.org\/stable\/4005706.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Burkina: \u00abpr\u00e8s de 74% du territoire reconquis\u00bb. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.wakatsera.com\/burkina-pres-de-74-du-territoire-reconquis\/.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Universit\u00e9 Joseph Ki Zerbo: courses-poursuites entre policiers et \u00e9tudiants en gr\u00e8ve. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.wakatsera.com\/universite-joseph-ki-zerbo-courses-poursuites-entre-policiers-et-etudiants-en-greve\/.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Burkina Faso: Students Mobilize and Police Storm University. Dispon\u00edvel em: https:\/\/litci.org\/en\/burkina-faso-students-mobilize-and-police-storm-university\/?utm_source=copylink&amp;utm_medium=browser.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> How Ibrahim Traor\u00e9 has built his fiefdom in Burkina Faso. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.theafricareport.com\/406559\/how-ibrahim-traore-has-built-his-fiefdom-in-burkina-faso\/#group_1.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Burkina Faso extends military regime by five years after national consultations. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.france24.com\/en\/africa\/20240525-burkina-faso-s-military-rule-extended-for-five-years.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a>&nbsp; How Ibrahim Traor\u00e9 has built his fiefdom in Burkina Faso. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.theafricareport.com\/406559\/how-ibrahim-traore-has-built-his-fiefdom-in-burkina-faso\/#group_1.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Burkina Faso junta dissolves all political parties &#8211; https:\/\/www.dw.com\/en\/burkina-faso-junta-dissolves-all-political-parties\/a-75720851<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> AES : le Burkina Faso annonce la dissolution des partis politiques &#8211; https:\/\/fr.africanews.com\/2026\/01\/30\/burkina-faso-le-gouvernement-militaire-annonce-la-dissolution-des-partis-politiques\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> BRASIL DE FATO &#8211; A revolu\u00e7\u00e3o de Ibrahim Traor\u00e9: o que est\u00e1 acontecendo em Burkina Faso? &#8211; https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/08\/17\/a-revolucao-de-ibrahim-traore-o-que-esta-acontecendo-em-burkina-faso\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o As importantes mobiliza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e da juventude levaram \u00e0 queda do governo de Roch Kabor\u00e9, em janeiro de 2022, por meio de um golpe de Estado liderado pelo tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba. 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