{"id":83017,"date":"2026-09-07T13:54:16","date_gmt":"2026-09-07T13:54:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=83017"},"modified":"2026-09-07T13:54:16","modified_gmt":"2026-09-07T13:54:16","slug":"o-plano-de-ajuste-de-abelardo-e-a-tragedia-humanitaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/09\/07\/o-plano-de-ajuste-de-abelardo-e-a-tragedia-humanitaria\/","title":{"rendered":"O plano de ajuste de Abelardo e a trag\u00e9dia humanit\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Durante a campanha, Abelardo de la Espriella anunciou que assinaria 90 decretos em seu primeiro dia de mandato. Esses decretos deveriam abordar quest\u00f5es de \u201cseguran\u00e7a, economia, redu\u00e7\u00e3o do tamanho do Estado, sa\u00fade e gera\u00e7\u00e3o de empregos\u201d. No entanto, na realidade, ele passou seus primeiros dias nomeando seu gabinete, preparando seus escrit\u00f3rios presidenciais e comemorando em Medell\u00edn com o prefeito Fico Guti\u00e9rrez.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi assim que ele foi pego de surpresa pelo terremoto no oeste da Col\u00f4mbia, uma trag\u00e9dia de causas naturais agravada pela inefic\u00e1cia de um governo que n\u00e3o s\u00f3 estava no poder h\u00e1 poucos dias, como tamb\u00e9m n\u00e3o havia conduzido um processo de transi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o havia nomeado o chefe da Unidade Nacional de Gest\u00e3o de Riscos. Al\u00e9m disso, o governo pretendia eliminar essa entidade como parte de seu anunciado plano de redu\u00e7\u00e3o de tamanho.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 uma trag\u00e9dia humanit\u00e1ria em meio a uma situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica que teve de ser enfrentada pelas comunidades e pela classe trabalhadora nas primeiras 72 horas. A situa\u00e7\u00e3o se agravou com a chegada de organiza\u00e7\u00f5es de resgate aprovadas por Abelardo, vindas de pa\u00edses alinhados aos Estados Unidos e a Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a esse caos, \u00e9 dif\u00edcil entender o plano de Abelardo, se suas propostas de implementar cortes fiscais que reduziriam o tamanho do Estado em at\u00e9 um quarto, eliminar o imposto de renda para empresas e injetar 10 trilh\u00f5es de pesos nas EPS (Entidades Promotoras de Sa\u00fade) ainda est\u00e3o em vigor, quando s\u00e3o necess\u00e1rios pelo menos 30 trilh\u00f5es de pesos para lidar com a trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Declara\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Abelardo emitiu tr\u00eas decretos em resposta \u00e0 trag\u00e9dia. O Decreto 1171 declarou Emerg\u00eancia Econ\u00f4mica, Social e Ecol\u00f3gica, permitindo-lhe emitir decretos com for\u00e7a de lei, autorizando a contrata\u00e7\u00e3o direta e o uso de recursos p\u00fablicos sem as exig\u00eancias usuais. Os outros dois decretos declararam tr\u00eas dias de luto nacional e designaram doze departamentos como zonas de desastre. O Decreto de Emerg\u00eancia identifica como potenciais fontes de financiamento o Sistema Geral de Royalties, a Sociedade de Ativos Especiais e modifica\u00e7\u00f5es no regime de Obras por Impostos \u2014 que permite \u00e0s empresas reduzir sua carga tribut\u00e1ria em at\u00e9 50%. Al\u00e9m disso, o decreto anuncia linhas de cr\u00e9dito, prazos de car\u00eancia e subs\u00eddios para as \u00e1reas afetadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Anunciou tamb\u00e9m um Plano Marshall para Choc\u00f3, aludindo ao plano dos Estados Unidos para a Europa Ocidental ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de reconstru\u00e7\u00e3o e conten\u00e7\u00e3o do comunismo. At\u00e9 o momento, Abelardo n\u00e3o ofereceu detalhes al\u00e9m de mencionar a reconstru\u00e7\u00e3o de um departamento onde o candidato progressista obteve 81% dos votos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Do FOREC ao Fundo Milagre<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde o primeiro dia, a m\u00eddia invocou o modelo de reconstru\u00e7\u00e3o do terremoto de 1999 na Regi\u00e3o Cafeeira, que criou o FOREC, um fundo misto administrado pelo setor privado durante o governo Pastrana e que Abelardo agora chamar\u00e1 de Fundo Milagre.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse modelo entrega a gest\u00e3o dos recursos p\u00fablicos \u00e0s empresas e elimina a capacidade das autoridades locais de participarem do processo de reconstru\u00e7\u00e3o. No caso da FOREC, foram 1,6 trilh\u00e3o de pesos, dos quais 61% vieram do or\u00e7amento nacional, 38% de empr\u00e9stimos do BID e do Banco Mundial e apenas 1% do setor privado. Contudo, as despesas operacionais da pr\u00f3pria FOREC representaram 5,4% desses recursos.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia da FOREC mostrou que os esfor\u00e7os de reconstru\u00e7\u00e3o careciam de sistemas de controle interno de recursos e que as despesas administrativas eram excessivas para o tamanho do fundo. Al\u00e9m disso, por desconsiderar as comunidades e as autoridades locais e ser gerido segundo crit\u00e9rios privados, surgiram dificuldades legais em alguns projetos habitacionais, os bairros sofreram com problemas de planejamento urbano, houve abandono de moradias e a pobreza persistiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o Fundo Milagre, o empres\u00e1rio antioque\u00f1o Jaime Uribe foi nomeado gestor, anunciando que a ajuda internacional e as contribui\u00e7\u00f5es de grupos econ\u00f4micos totalizariam dois trilh\u00f5es de pesos, um valor muito aqu\u00e9m do necess\u00e1rio. Como em experi\u00eancias anteriores, os recursos vir\u00e3o do or\u00e7amento nacional \u2014 ou seja, dos impostos da classe trabalhadora \u2014 e ser\u00e3o administrados por esse fundo privado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os planos continuam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da trag\u00e9dia, que lan\u00e7a uma sombra sobre o plano de Abelardo de reduzir o Estado, diminuir os impostos para os ricos e reduzir a renda da classe trabalhadora e dos setores populares, as medidas avan\u00e7aram. Em meio ao caos nas \u00e1reas afetadas, Abelardo reconheceu a soberania do Estado genocida de Israel sobre as Colinas de Gol\u00e3 s\u00edrias, e os Estados Unidos anunciaram acordos para interven\u00e7\u00e3o militar em territ\u00f3rio colombiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, al\u00e9m de se alinhar com Trump e Netanyahu, Abelardo assinou decretos revogando a restri\u00e7\u00e3o \u00e0 venda de carv\u00e3o para Israel e se reuniu com um setor da lideran\u00e7a da Uni\u00e3o Sindical Oper\u00e1ria (USO) para apoiar o fracking na extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Ao mesmo tempo, revogou uma s\u00e9rie de circulares do Minist\u00e9rio do Trabalho que serviam como ferramentas para os trabalhadores reivindicarem as poucas melhorias trabalhistas conquistadas durante o governo de Petro.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, em meio \u00e0 trag\u00e9dia e sem nitidez sobre a origem dos 30 trilh\u00f5es de pesos necess\u00e1rios para a reconstru\u00e7\u00e3o, Abelardo segue em frente com seus planos de restringir os direitos dos trabalhadores, favorecendo os interesses empresariais, que agora det\u00eam o controle direto dos minist\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, enquanto as comunidades, sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es sociais que lideraram os esfor\u00e7os de resgate e agora formam redes de solidariedade buscam v\u00edtimas e come\u00e7am a sentir os efeitos devastadores do terremoto em suas vidas di\u00e1rias, a burguesia se concentra em se apropriar dos fundos para a reconstru\u00e7\u00e3o. Enquanto o Fundo Milagre Abelardo est\u00e1 sendo criado, a Primeira-Dama arrecada fundos por meio de sua Funda\u00e7\u00e3o Col\u00f4mbia Luz e Sorrisos, criada no meio do ano, que agora coleta recursos por canais oficiais, supostamente para fins de solidariedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a campanha, Abelardo de la Espriella anunciou que assinaria 90 decretos em seu primeiro dia de mandato. Esses decretos deveriam abordar quest\u00f5es de \u201cseguran\u00e7a, economia, redu\u00e7\u00e3o do tamanho do Estado, sa\u00fade e gera\u00e7\u00e3o de empregos\u201d. 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