{"id":82998,"date":"2026-09-07T12:40:16","date_gmt":"2026-09-07T12:40:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82998"},"modified":"2026-09-07T12:57:17","modified_gmt":"2026-09-07T12:57:17","slug":"el-nino-2026-impactos-de-um-planeta-mais-quente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/09\/07\/el-nino-2026-impactos-de-um-planeta-mais-quente\/","title":{"rendered":"El Ni\u00f1o 2026: impactos de um planeta mais quente"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><\/h1>\n\n\n\n<p>O El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno clim\u00e1tico caracterizado, entre outros fatores, pelo enfraquecimento dos ventos al\u00edsios e pela altera\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica conhecida como c\u00e9lula de Walker. Essa mudan\u00e7a na circula\u00e7\u00e3o redistribui o calor e a umidade na atmosfera e pode provocar altera\u00e7\u00f5es significativas nos padr\u00f5es de chuva e temperatura em diferentes regi\u00f5es do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>O El Ni\u00f1o de 2026 vem sendo apontado como potencialmente um dos mais intensos j\u00e1 registrados desde o in\u00edcio das medi\u00e7\u00f5es modernas, na d\u00e9cada de 1950. Por sua intensidade prevista e por seus poss\u00edveis impactos, o fen\u00f4meno vem sendo comparado ao El Ni\u00f1o de 1877\u20131878, cujas consequ\u00eancias foram brutais em diversas partes do mundo, particularmente na China, na \u00cdndia e no Nordeste brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa do historiador Mike Davis, apresentada no livro Holocaustos Coloniais, demonstra que o El Ni\u00f1o de 1877\u20131878 ocorreu simultaneamente \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de uma nova fase do imperialismo colonial. Davis argumenta que o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico se aproveitou das consequ\u00eancias sociais e econ\u00f4micas provocadas pelas crises clim\u00e1ticas para aprofundar rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas, privatizar terras comunais, desapropriar popula\u00e7\u00f5es tradicionais, ampliar o trabalho assalariado, aumentar o endividamento externo dos pa\u00edses coloniais e criar um mercado mundial de gr\u00e3os enquanto mais de 50 milh\u00f5es sucumbiram a fome devido \u00e0s secas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, Davis ressalta que as grandes crises de fome e as transforma\u00e7\u00f5es provocadas por esse processo tamb\u00e9m contribu\u00edram para o surgimento e o fortalecimento de revoltas e movimentos de resist\u00eancia. Entre eles, destacam-se a Rebeli\u00e3o dos Boxers na China e o fortalecimento do movimento nacionalista indiano, al\u00e9m de processos de revolta e resist\u00eancia que ocorreram em outras partes do mundo, inclusive no Brasil, como em Canudos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender a dimens\u00e3o do fen\u00f4meno atual, \u00e9 importante estabelecer uma compara\u00e7\u00e3o com os eventos anteriores. Um El Ni\u00f1o muito forte, ou \u201csuper El Ni\u00f1o\u201d, ocorre quando as \u00e1guas da regi\u00e3o equatorial do Oceano Pac\u00edfico apresentam uma anomalia de temperatura superior \u00e0 de 2 \u00b0C acima da m\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>O El Ni\u00f1o de 2023\u20132024, embora tenha sido muito forte, n\u00e3o foi o maior j\u00e1 registrado. A anomalia chegou a aproximadamente 2 \u00b0C acima da m\u00e9dia. Nos eventos de 1997\u20131998 e 2015\u20132016, considerados entre os mais intensos do per\u00edodo moderno, os valores ultrapassaram 2 \u00b0C. Portanto, a ocorr\u00eancia de um novo super El Ni\u00f1o n\u00e3o seria in\u00e9dita. A quest\u00e3o \u00e9 saber qual ser\u00e1 a intensidade do fen\u00f4meno de 2026 e em que condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e sociais ele ocorrer\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>El Ni\u00f1o&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Classifica\u00e7\u00e3o Pico aproximado da anomalia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>1982\u20131983&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muito forte \/ Super El Ni\u00f1o&nbsp;&nbsp; 2,2 \u00b0C acima da m\u00e9dia<\/p>\n\n\n\n<p>1997\u20131998&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muito forte \/ Super El Ni\u00f1o&nbsp;&nbsp; 2,4 \u00b0C acima da m\u00e9dia<\/p>\n\n\n\n<p>2015\u20132016&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muito forte \/ Super El Ni\u00f1o&nbsp;&nbsp; 2,6 \u00b0C acima da m\u00e9dia<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se j\u00e1 ocorreram El Ni\u00f1os muito fortes, por que o fen\u00f4meno de 2026 preocupa? A resposta n\u00e3o est\u00e1 apenas na intensidade do aquecimento do Pac\u00edfico. O problema \u00e9 que um poss\u00edvel El Ni\u00f1o excepcional ocorrer\u00e1 em um planeta que j\u00e1 apresenta temperaturas m\u00e9dias muito mais elevadas em raz\u00e3o do aquecimento global provocado pela emiss\u00e3o de gases de efeito estufa. Assim, o aquecimento associado ao fen\u00f4meno poder\u00e1 se somar a uma linha de base clim\u00e1tica j\u00e1 elevada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, como se pode observar no gr\u00e1fico abaixo, nas \u00faltimas d\u00e9cadas o fen\u00f4meno El Ni\u00f1o tem se tornado cada vez mais frequentes (com ciclos mais curtos) e intensos (cada vez mais fortes) devido ao pr\u00f3prio aquecimento da Terra. \u00c9 por isso que os alertas cient\u00edficos indicam que os efeitos do El Ni\u00f1o atual poder\u00e3o ser muito mais catastr\u00f3ficos dos os registrados no passado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"407\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-1-1024x407.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-83010\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-1-1024x407.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-1-300x119.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-1-768x305.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-1-1536x611.jpg 1536w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-1.jpg 1886w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Os efeitos do El Ni\u00f1o de 2023-2024<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, as consequ\u00eancias do El Ni\u00f1o de 2023\u20132024 ainda est\u00e3o frescas na mem\u00f3ria e mostrou de maneira concreta como uma altera\u00e7\u00e3o na circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica pode produzir efeitos extremos e muito diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 2023, no auge do El Ni\u00f1o, o Rio Grande do Sul registrou, em apenas 19 dias, uma quantidade de chuva equivalente ao triplo da m\u00e9dia mensal. Ao mesmo tempo, milhares de quil\u00f4metros ao norte, o Rio Negro atingiu em Manaus o n\u00edvel mais baixo j\u00e1 registrado.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o voltou a se agravar meses depois. Em maio de 2024, ainda sob influ\u00eancia do mesmo evento clim\u00e1tico, as chuvas extremas atingiram novamente o Rio Grande do Sul. O rio Gua\u00edba chegou a 5,37 metros, ultrapassando o recorde registrado desde 1941. O estado sofreu uma das maiores cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas de sua hist\u00f3ria, com enormes preju\u00edzos econ\u00f4micos e sociais. Cerca de 90% das f\u00e1bricas do estado foram afetadas, e 184 pessoas morreram em consequ\u00eancia das enchentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os impactos do El Ni\u00f1o, entretanto, n\u00e3o se limitaram \u00e0s enchentes. O evento tamb\u00e9m agravou as condi\u00e7\u00f5es de seca em outras regi\u00f5es do pa\u00eds, particularmente na Amaz\u00f4nia, contribuindo para o aumento da vulnerabilidade da floresta \u00e0s queimadas. No per\u00edodo, o Brasil enfrentou a seca mais severa j\u00e1 registradas, cujos impactos atingiram inclusive importantes regi\u00f5es do agroneg\u00f3cio brasileiro. A redu\u00e7\u00e3o das chuvas comprometeram o desenvolvimento das lavouras de soja, obrigando os fazendeiros a realizar o replantio.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre seca, queimadas e sa\u00fade p\u00fablica tamb\u00e9m ficou evidente. No pico das queimadas, foram registrados 3,7 milh\u00f5es de atendimentos de sa\u00fade relacionados \u00e0 seca e \u00e0 fuma\u00e7a em apenas um m\u00eas, sendo quase um ter\u00e7o deles envolvendo crian\u00e7as. Em setembro daquele ano, uma enorme quantidade de fuma\u00e7a das queimadas se deslocou por centenas de quil\u00f4metros e atingiu diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds. S\u00e3o Paulo chegou a registrar n\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica entre os piores do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A seca tamb\u00e9m afetou profundamente as popula\u00e7\u00f5es que dependem dos rios para sobreviver. Em 2024, comunidades ribeirinhas do Amazonas enfrentaram enormes dificuldades de deslocamento e acesso \u00e0 \u00e1gua e aos alimentos. Com a redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos rios, trajetos que normalmente eram realizados de barco precisaram ser percorridos a p\u00e9 sobre leitos de areia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos epis\u00f3dios mais dram\u00e1ticos ocorreu em setembro de 2023, quando um lago na regi\u00e3o amaz\u00f4nica secou de maneira extrema. Com a redu\u00e7\u00e3o do volume de \u00e1gua, sua temperatura subiu de aproximadamente 32 \u00b0C para 40 \u00b0C. A eleva\u00e7\u00e3o da temperatura da \u00e1gua teve consequ\u00eancias fatais para a fauna local: 70 botos morreram no lago em um \u00fanico dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nova seca poder\u00e1 atingir uma floresta que ainda n\u00e3o se recuperou dos impactos de 2024. O que \u00e9 preocupante: quanto mais degradada a floresta, menor sua capacidade de reter umidade e contribuir para a forma\u00e7\u00e3o das chuvas. Uma nova estiagem, portanto, poder\u00e1 encontrar a Amaz\u00f4nia mais vulner\u00e1vel e agravar ainda mais seus impactos.<\/p>\n\n\n\n<p>No caos da Amaz\u00f4nia, o El Ni\u00f1o n\u00e3o provoca diretamente os inc\u00eandios florestais, mas cria condi\u00e7\u00f5es para a expans\u00e3o das queimadas que s\u00e3o usadas pelos fazendeiros e grileiros de terras como arma para se apropriar de terras p\u00fablicas ou pressionar as Terras Ind\u00edgenas. Em 2023 e 2024, os grandes focos de inc\u00eandios se concentraram, sobretudo, nas regi\u00f5es das novas fronteiras do agroneg\u00f3cio (Matopiba, no entorno da BR 163 e no Amacro) e nas fronteiras das Terras Ind\u00edgenas e Parques Nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>El Ni\u00f1o no contexto da emerg\u00eancia clim\u00e1tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas a preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 apenas na intensidade do El Ni\u00f1o. O fen\u00f4meno poder\u00e1 ocorrer em um planeta que j\u00e1 est\u00e1 mais aquecido pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Esse aquecimento pode potencializar os efeitos do El Ni\u00f1o, elevando o risco de temperaturas extremas, secas, inc\u00eandios, chuvas intensas e outros eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n\n\n\n<p>O recente colapso de uma geleira no Himalaia ilustra muito bem essa quest\u00e3o. A avalanche de rochas, lama e \u00e1gua que devastou aldeias e povoados foi provavelmente desencadeada pelo derretimento do permafrost ocasionado pelo aumento das temperaturas na regi\u00e3o. Estudos cient\u00edficos j\u00e1 apontavam para essa possibilidade, e outros indicam que mais da metade das geleiras localizadas em cordilheiras poder\u00e3o desaparecer at\u00e9 o final do s\u00e9culo XXI, devido ao aquecimento global.<\/p>\n\n\n\n<p>A gravidade da situa\u00e7\u00e3o e incapacidade dos governos capitalistas em combater o aquecimento ficou evidente ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) durante a COP 30, realizada em Bel\u00e9m. Segundo o documento, mesmo que todos os compromissos assumidos desde o Acordo de Paris sejam cumpridos, a temperatura m\u00e9dia do planeta dever\u00e1 aumentar perigosamente at\u00e9 o fim do s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p>O gr\u00e1fico abaixo apresenta quatro cen\u00e1rios poss\u00edveis para a evolu\u00e7\u00e3o do aquecimento global ao longo do s\u00e9culo XXI. No primeiro cen\u00e1rio, de continuidade das pol\u00edticas atuais, existe 80% de probabilidade de o aquecimento permanecer abaixo de 3 \u00b0C, mas apenas 8% de possibilidade de ficar abaixo de 2 \u00b0C e nenhuma possibilidade de limitar o aquecimento a 1,5 \u00b0C. A estimativa aponta para um aquecimento de aproximadamente 2,6 \u00b0C.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo cen\u00e1rio considera o cumprimento das NDCs incondicionais, isto \u00e9, das metas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es que os pa\u00edses assumiram independentemente da obten\u00e7\u00e3o de apoio externo. Nesse caso, a possibilidade de permanecer abaixo de 2 \u00b0C sobe para 25%, enquanto a probabilidade de ficar abaixo de 3 \u00b0C chega a 92%. Entretanto, a possibilidade de limitar o aquecimento a 1,5 \u00b0C \u00e9 de apenas 1%. A estimativa de aquecimento \u00e9 de aproximadamente 2,3 \u00b0C.<\/p>\n\n\n\n<p>No terceiro cen\u00e1rio, s\u00e3o consideradas tamb\u00e9m as NDCs condicionais, que dependem de financiamento, transfer\u00eancia de tecnologia e coopera\u00e7\u00e3o internacional para serem plenamente implementadas. Nesse caso, h\u00e1 37% de probabilidade de permanecer abaixo de 2 \u00b0C e 95% abaixo de 3 \u00b0C. A chance de limitar o aquecimento a 1,5 \u00b0C \u00e9 de apenas 3%. A estimativa central chega a aproximadamente 2,1 \u00b0C.<\/p>\n\n\n\n<p>O quarto cen\u00e1rio \u00e9 o mais otimista, mas tamb\u00e9m o mais improv\u00e1vel. Ele pressup\u00f5e o cumprimento das NDCs condicionais e de todos os compromissos de neutralidade clim\u00e1tica (net zero) anunciados pelos pa\u00edses. Nesse caso, a probabilidade de permanecer abaixo de 2 \u00b0C sobe para 78%, enquanto a de ficar abaixo de 1,5 \u00b0C chega a 21%. A estimativa central de aquecimento seria de aproximadamente 1,8 \u00b0C. Ou seja, esse \u00e9 o \u00fanico cen\u00e1rio em que n\u00e3o se prev\u00ea a supera\u00e7\u00e3o dos 2\u00b0C.<\/p>\n\n\n\n<p>A compara\u00e7\u00e3o entre os quatro cen\u00e1rios revela uma quest\u00e3o fundamental: a inevitabilidade de ultrapassarmos os 2\u00b0C at\u00e9 o final do s\u00e9culo XXI, o que ter\u00e1 consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas dif\u00edceis de prever com rigor, uma vez que os pontos de retorno do sistema Terra ter\u00e3o sido cruzados, retroalimentando o aquecimento e jogando a humanidade em um cen\u00e1rio de caos clim\u00e1tico absoluto.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"956\" height=\"460\" data-id=\"83011\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-83011\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-4.jpg 956w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-4-300x144.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/El-nino-4-768x370.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 956px) 100vw, 956px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><strong>El Ni\u00f1o e capitalismo imperialista decadente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O super El Ni\u00f1o n\u00e3o ser\u00e1 uma repeti\u00e7\u00e3o de 1877. O mundo que enfrentar\u00e1 um eventual El Ni\u00f1o em 2026 \u00e9 profundamente diferente daquele marcado pelo grande El Ni\u00f1o de 1877\u20131878. Naquele momento, o capitalismo encontrava-se em uma fase de expans\u00e3o imperialista e de consolida\u00e7\u00e3o do mercado mundial e os sistemas naturais se encontravam muito longe da degrada\u00e7\u00e3o atual. Hoje, por\u00e9m, estamos diante de um capitalismo monopolista altamente integrado e atravessado por uma crise estrutural, no qual praticamente todos os territ\u00f3rios est\u00e3o conectados por complexas cadeias globais (dependente de energia f\u00f3ssil!) de produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e financiamento. Uma perturba\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica em determinada regi\u00e3o pode, portanto, rapidamente produzir consequ\u00eancias sobre pre\u00e7os de alimentos, energia, transportes, com\u00e9rcio internacional e condi\u00e7\u00f5es de vida em outras partes do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>O El Ni\u00f1o de 1877 ocorreu em um mundo em que as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas internacionais estavam ainda sendo integradas. Atualmente, a produ\u00e7\u00e3o capitalista funciona como uma esp\u00e9cie de organismo econ\u00f4mico mundial, no qual empresas transnacionais distribuem suas etapas produtivas por diferentes pa\u00edses em busca de menores custos, maior rentabilidade e acesso a mat\u00e9rias-primas. Essa integra\u00e7\u00e3o, entretanto, n\u00e3o significa maior capacidade de enfrentar a crise. Ao contr\u00e1rio, ela deixa a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel aos efeitos em cadeia produzidos por crises econ\u00f4micas, guerras, pandemias e eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, haver\u00e1 quebras de safras, destrui\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas e impactos sobre as <em>condi\u00e7\u00f5es gerais da produ\u00e7\u00e3o<\/em>, que n\u00e3o se restringir\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno permitir\u00e1 observar a rela\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel entre natureza e capital: embora o capital procure tratar a natureza como recurso externo e subordinado \u00e0s necessidades da valoriza\u00e7\u00e3o, sua reprodu\u00e7\u00e3o depende permanentemente das condi\u00e7\u00f5es naturais que sustentam a produ\u00e7\u00e3o. Quando essas condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o alteradas ou degradadas, seus efeitos alcan\u00e7am as pr\u00f3prias bases materiais da acumula\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, o El Ni\u00f1o poder\u00e1 revelar como as condi\u00e7\u00f5es naturais da produ\u00e7\u00e3o interferem nas condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas da produ\u00e7\u00e3o e, consequentemente, na reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo monopolista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, esse processo se manifestar\u00e1 de forma tipicamente capitalista, e seus impactos poder\u00e3o se expressar por meio de press\u00f5es inflacion\u00e1rias, aumento do desemprego, redu\u00e7\u00e3o da renda, agravamento da fome e da mis\u00e9ria, deslocamentos de refugiados clim\u00e1ticos e aprofundamento das desigualdades sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vulnerabilidade \u00e9 aprofundada pelas consequ\u00eancias crise econ\u00f4mica de 2008, que inaugurou um longo per\u00edodo de baixo crescimento. A resposta predominante dos governos foi o neoliberalismo com a ado\u00e7\u00e3o ou manuten\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de austeridade fiscal, privatiza\u00e7\u00f5es, redu\u00e7\u00e3o de investimentos p\u00fablicos e flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho. Em muitos pa\u00edses, essas pol\u00edticas atingiram justamente os servi\u00e7os respons\u00e1veis por prevenir e responder \u00e0s emerg\u00eancias: sistemas de sa\u00fade, defesa civil, infraestrutura urbana, habita\u00e7\u00e3o, saneamento, monitoramento ambiental e servi\u00e7os de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O poss\u00edvel El Ni\u00f1o de 2026 tamb\u00e9m se insere em um cen\u00e1rio internacional marcado pela disputa por recursos naturais e fontes de energia \u2013 terras raras, reserva e novas fronteiras de petr\u00f3leo \u2013 no marco de uma disputa interimperialista entre EUA e China. A corrida por esses recursos envolve controle de territ\u00f3rios, cadeias produtivas e tecnologias estrat\u00e9gicas. Nesse contexto, o agravamento da crise clim\u00e1tica pode torn\u00e1-la ainda mais intensa, aumentando as press\u00f5es sobre territ\u00f3rios ricos em minerais, \u00e1gua, terras e fontes de energia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a crise ecol\u00f3gica ocorre em meio \u00e0 expans\u00e3o de guerras, militariza\u00e7\u00e3o e genoc\u00eddios. O genoc\u00eddio em Gaza contra o povo palestino deve ser compreendido tamb\u00e9m como um alerta sobre as formas de viol\u00eancia que podem se ampliar em um mundo atravessado pelo agravamento da crise clim\u00e1tica. Gaza deve ser vista como um laborat\u00f3rio extremo de uma experi\u00eancia global futura. Afinal, no processo de aprofundamento da cat\u00e1strofe clim\u00e1tica com deslocamento de mais de 3 bilh\u00f5es de refugiados clim\u00e1ticos, segundo previs\u00f5es da ONU para este s\u00e9culo, cabe perguntar: quem ser\u00e3o os palestinos de amanh\u00e3?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a extrema direita pode encontrar condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para ampliar sua influ\u00eancia. A combina\u00e7\u00e3o entre precariza\u00e7\u00e3o social, aumento do custo de vida, inseguran\u00e7a alimentar, migra\u00e7\u00f5es e desastres ambientais pode ser mobilizada politicamente para responsabilizar imigrantes, popula\u00e7\u00f5es pobres e outros grupos socialmente vulner\u00e1veis pelos efeitos dessas crises. Nesse processo, setores da burguesia podem recorrer a alternativas pol\u00edticas mais autorit\u00e1rias e reacion\u00e1rias para preservar seus interesses diante do agravamento das desigualdades e dos conflitos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O quer fazer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O El Ni\u00f1o de 2026 \u00e9 uma trag\u00e9dia mais do que anunciada, cujos efeitos, ainda que diferenciados, ser\u00e3o sentidos em todos os continentes. Suas consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas s\u00e3o amplamente previs\u00edveis pela ci\u00eancia, mas, apesar dos sucessivos alertas, os Estados nacionais n\u00e3o est\u00e3o atuando para se precaver contra o pior.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise clim\u00e1tica exige a necessidade de ampliar o planejamento p\u00fablico, fortalecer as pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o, investir em infraestrutura e garantir a capacidade do Estado de responder aos impactos dos eventos extremos. No entanto, essas necessidades entram em contradi\u00e7\u00e3o com a l\u00f3gica neoliberal, que pressiona pela redu\u00e7\u00e3o dos gastos sociais, pela privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos e pela submiss\u00e3o de \u00e1reas essenciais, como sa\u00fade, energia, saneamento e transporte, \u00e0 l\u00f3gica do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, neste momento, \u00e9 imprescind\u00edvel que os trabalhadores se mobilizem e comecem a se preparar. A partir de suas organiza\u00e7\u00f5es (sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de moradores, movimentos sociais etc), \u00e9 necess\u00e1rio discutir quais poder\u00e3o ser os impactos locais do fen\u00f4meno no pr\u00f3ximo per\u00edodo e quais popula\u00e7\u00f5es estar\u00e3o mais expostas aos seus efeitos. Essa prepara\u00e7\u00e3o deve incluir a cobran\u00e7a dos governos por medidas efetivas de preven\u00e7\u00e3o, como o fortalecimento dos sistemas de alerta, a elabora\u00e7\u00e3o de planos de emerg\u00eancia, investimentos em infraestrutura urbana, a prote\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es pobres que vivem em \u00e1reas de risco e o refor\u00e7o dos servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade, assist\u00eancia e defesa civil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 fundamental que as pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores construam formas coletivas de enfrentamento e solidariedade. Diante da possibilidade de enchentes, secas severas, ondas de calor e outros eventos extremos, a organiza\u00e7\u00e3o popular pode ser decisiva para identificar situa\u00e7\u00f5es de risco, pressionar o poder p\u00fablico e garantir apoio \u00e0s comunidades mais atingidas. A prepara\u00e7\u00e3o para uma crise dessa dimens\u00e3o n\u00e3o pode ficar restrita \u00e0s autoridades e as promessas oficiais: ela precisa envolver diretamente as popula\u00e7\u00f5es que estar\u00e3o na linha de frente dos impactos. Quanto maior for a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, maiores ser\u00e3o tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es de enfrentar os efeitos sociais das cat\u00e1strofes anunciadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o agravamento da crise clim\u00e1tica coloca a necessidade de superar o capitalismo, respons\u00e1vel por uma l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o que aprofunda a cat\u00e1strofe ambiental. A humanidade estar\u00e1 diante de uma escolha cada vez mais decisiva: ou avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie clim\u00e1tica, marcada pelo aprofundamento das desigualdades, conflitos, poss\u00edveis genoc\u00eddios e pelo fortalecimento de governos autorit\u00e1rios, racistas e repressores, ou caminha na dire\u00e7\u00e3o do socialismo, baseado no controle social da produ\u00e7\u00e3o para que a humanidade tenha melhores condi\u00e7\u00f5es de enfrentar as consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, preservar as condi\u00e7\u00f5es de vida e reorganizar sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva, a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista pressup\u00f5e o controle social dos meios de produ\u00e7\u00e3o e um planejamento democr\u00e1tico da economia, orientado pelas necessidades humanas e pelos limites ecol\u00f3gicos do planeta. Trata-se de promover uma revolu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas e das rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, criando condi\u00e7\u00f5es para reorganizar a rela\u00e7\u00e3o entre sociedade e natureza e buscar a recomposi\u00e7\u00e3o de um metabolismo equilibrado com a Terra, devastado pelo capitalismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno clim\u00e1tico caracterizado, entre outros fatores, pelo enfraquecimento dos ventos al\u00edsios e pela altera\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica conhecida como c\u00e9lula de Walker. Essa mudan\u00e7a na circula\u00e7\u00e3o redistribui o calor e a umidade na atmosfera e pode provocar altera\u00e7\u00f5es significativas nos padr\u00f5es de chuva e temperatura em diferentes regi\u00f5es do planeta. 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