{"id":82880,"date":"2026-08-05T12:27:08","date_gmt":"2026-08-05T12:27:08","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82880"},"modified":"2026-08-05T12:27:10","modified_gmt":"2026-08-05T12:27:10","slug":"revisitar-syriza-um-debate-estrategico-para-o-marxismo-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/08\/05\/revisitar-syriza-um-debate-estrategico-para-o-marxismo-hoje\/","title":{"rendered":"Revisitar SYRIZA: um debate estrat\u00e9gico para o marxismo hoje"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ofensiva do governo de Javier Milei n\u00e3o se limita a ajustar o or\u00e7amento do Estado. Ajusta tamb\u00e9m, e talvez acima de tudo, o horizonte pol\u00edtico da esquerda argentina, submetendo \u00e0 prova suas concep\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas mais arraigadas. Frente a um programa de ajuste de uma profundidade in\u00e9dita desde a crise de 2001, e com a crescente popularidade do FITU (Frente de Esquerda e os Trabalhadores \u2013 Unidade), amplos setores buscam construir uma alternativa mais ampla capaz de disputar o governo. Nesse debate reaparece uma proposta conhecida: que essa alternativa se daria mediante a reunifica\u00e7\u00e3o de toda a \u00abcentroesquerda\u00bb ou a \u00abesquerda ampla\u00bb e a conforma\u00e7\u00e3o de um partido ou movimento amplo que priorize os acordos entre as agrupa\u00e7\u00f5es de esquerda acima das delimita\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas. Aqueles que defendem essa orienta\u00e7\u00e3o sustentam que apenas uma for\u00e7a desse tipo pode romper o isolamento da esquerda e se tornar uma verdadeira alternativa de poder. Mas a hist\u00f3ria tem mostrado repetidamente que a amplitude sem programa \u00e9 um ref\u00fagio de iludidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O debate n\u00e3o \u00e9 novo. H\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada, milh\u00f5es de trabalhadores em todo o mundo depositaram expectativas semelhantes no SYRIZA, a coaliz\u00e3o de esquerda que chegou ao governo na Gr\u00e9cia prometendo p\u00f4r fim \u00e0 austeridade sem romper com o euro \u2014como se a hist\u00f3ria, em sua ironia mais fina, pudesse resolver suas contradi\u00e7\u00f5es sem passar pelo fio da ruptura. Sua ascens\u00e3o e, sobretudo, sua capitula\u00e7\u00e3o diante da Troika \u2014a Comiss\u00e3o Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, respons\u00e1veis por supervisionar os programas de ajuste e resgate da eurozona\u2014 constituem uma das experi\u00eancias estrat\u00e9gicas mais importantes da esquerda do s\u00e9culo XXI. Ao redor do SYRIZA se desenvolveu um amplo debate internacional sobre que tipo de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a classe trabalhadora precisava ap\u00f3s a crise da social-democracia, no qual surgiram propostas de formar \u00abpartidos amplos\u00bb e \u00abnovas forma\u00e7\u00f5es de esquerda\u00bb, concebidas como coaliz\u00f5es eleitorais que reunissem distintas tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sob um programa deliberadamente aberto. Retornar a essa experi\u00eancia n\u00e3o responde apenas a um interesse hist\u00f3rico, j\u00e1 que muitas das discuss\u00f5es de fundo abertas ent\u00e3o se reavivaram hoje na esquerda argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise grega n\u00e3o foi um fen\u00f4meno isolado. Fez parte da crise geral da zona do euro iniciada em 2008, na qual os Estados socializaram as perdas do sistema financeiro por meio de resgates banc\u00e1rios financiados com d\u00edvida p\u00fablica e programas posteriores de austeridade. A Gr\u00e9cia representou a express\u00e3o mais aguda dessas contradi\u00e7\u00f5es.^1<\/p>\n\n\n\n<p>A crise tamb\u00e9m transformou o sistema pol\u00edtico grego. O PASOK, o partido social-democrata que havia governado o pa\u00eds durante d\u00e9cadas, passou de 43,9% dos votos em 2009 para 13,2% em 2012. Esse colapso deu origem ao termo <em>pasokiza\u00e7\u00e3o,<\/em> utilizado para descrever o colapso eleitoral dos partidos social-democratas que implementaram pol\u00edticas de austeridade. Ao mesmo tempo, entre maio de 2010 e o final de 2015, ocorreram vinte e oito greves gerais \u2014incluindo quatro de 48 horas\u2014 junto com centenas de greves setoriais, ocupa\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es que transformaram a Gr\u00e9cia no principal epicentro da resist\u00eancia europeia \u00e0s pol\u00edticas de austeridade.^2<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o SYRIZA passou de ser uma for\u00e7a marginal a se tornar uma alternativa de governo. Obteve 4,6% dos votos em 2009; 16,8% em maio de 2012; 26,9% em junho do mesmo ano; e finalmente 36,3% em janeiro de 2015.^3<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2012 e 2015, o SYRIZA se consolidou como um referencial para amplos setores da esquerda internacional. Para milh\u00f5es de trabalhadores e jovens, representou uma alternativa frente \u00e0 crise econ\u00f4mica, os planos de ajuste e o descr\u00e9dito dos partidos tradicionais. Mas para amplos setores da popula\u00e7\u00e3o, o voto na coaliz\u00e3o de esquerda foi antes de tudo uma forma de punir os partidos respons\u00e1veis pelos memorandos de austeridade, mais do que uma ades\u00e3o plena a um projeto socialista. Como apontava ent\u00e3o a pr\u00f3pria LIT, o voto expressava fundamentalmente a rejei\u00e7\u00e3o popular aos partidos que haviam administrado a Troika durante os primeiros anos da crise.^4<\/p>\n\n\n\n<p>Diversas organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias interpretaram o crescimento e triunfo eleitoral do SYRIZA de maneiras distintas. O MST (Movimento Socialista dos Trabalhadores) apresentou o SYRIZA como o modelo de uma nova esquerda ampla capaz de superar o \u00absectarismo\u00bb da esquerda revolucion\u00e1ria tradicional. O Committee for a Workers\u2019 International (CWI), atrav\u00e9s de sua se\u00e7\u00e3o grega Xekinima, a entendeu como a express\u00e3o mais avan\u00e7ada das \u00abnovas forma\u00e7\u00f5es de esquerda\u00bb, concebidas como um passo em dire\u00e7\u00e3o a novos partidos oper\u00e1rios de massas. O Secretariado Unificado a considerou a experi\u00eancia mais promissora dos \u00abpartidos amplos\u00bb surgidos ap\u00f3s a crise da social-democracia europeia. Embora suas elabora\u00e7\u00f5es diferissem, coincidiam em um ponto fundamental: o SYRIZA abria um novo caminho para disputar o governo e enfrentar a austeridade sem romper inicialmente com os marcos institucionais existentes.^5<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT criticou desde o in\u00edcio a estrat\u00e9gia do SYRIZA porque estava determinada por uma contradi\u00e7\u00e3o de fundo: pretendia p\u00f4r fim \u00e0 austeridade sem romper com as institui\u00e7\u00f5es que a impunham. Desde essa perspectiva, o problema n\u00e3o era unicamente o programa eleitoral de Tsipras, mas a estrat\u00e9gia que o sustentava. Este artigo reconstr\u00f3i esse debate a partir dos documentos produzidos pelas distintas correntes entre 2012 e 2015. Seu prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 estabelecer um balan\u00e7o retrospectivo, mas analisar como cada uma interpretou a experi\u00eancia do SYRIZA enquanto esta se desenvolvia e que conclus\u00f5es estrat\u00e9gicas extraiu dela.^6<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que era a SYRIZA? O Programa de Tessal\u00f4nica e a aposta pela negocia\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a capitula\u00e7\u00e3o de 2015, o SYRIZA foi apresentado por muitos como um partido social-democrata a mais. No governo, pagou a d\u00edvida, manteve a Gr\u00e9cia no euro, implementou um terceiro memorando com novos ajustes e n\u00e3o expropriou os bancos. Na pr\u00e1tica, acabou gerenciando o capitalismo grego em crise, assim como havia feito o PASOK.^7<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, essa caracteriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o explica completamente o apelo que o SYRIZA teve entre 2012 e 2015. Antes de assumir o governo, n\u00e3o era percebido como um partido social-democrata a mais, mas sim como uma alternativa de uma nova &#8220;esquerda radical&#8221;, surgida de uma alian\u00e7a de for\u00e7as diversas: eurocomunistas, trotskistas, mao\u00edstas, ecosocialistas e independentes.^8<\/p>\n\n\n\n<p>Essa heterogeneidade foi apresentada como uma virtude porque parecia oferecer uma sa\u00edda para a fragmenta\u00e7\u00e3o da esquerda marxista. V\u00e1rias correntes buscaram, com uma terminologia levemente distinta, adaptar-se a essa amplitude pol\u00edtica: a unidade da \u00abcentro-esquerda\u00bb, as \u00abnovas forma\u00e7\u00f5es de esquerda\u00bb ou os \u00abpartidos amplos\u00bb anticapitalistas. Embora essas categorias n\u00e3o fossem equivalentes exatas, compartilhavam um suposto estrat\u00e9gico: era poss\u00edvel construir uma organiza\u00e7\u00e3o capaz de reunir tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas diversas em torno de um programa que combinasse ideais revolucion\u00e1rios e reformas radicais, e apontar para f\u00f3rmulas de governo em solit\u00e1rio ou em coaliz\u00e3o que n\u00e3o planteassem uma ruptura imediata com as principais institui\u00e7\u00f5es do capitalismo. Nesse marco, podiam conviver orienta\u00e7\u00f5es muito diferentes, desde aqueles que concebiam essas forma\u00e7\u00f5es como uma nova variante da esquerda reformista que oferecia uma nova via ao socialismo, at\u00e9 aqueles que as entendiam como uma media\u00e7\u00e3o para futuros partidos oper\u00e1rios de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do SYRIZA encontrava sua express\u00e3o mais acabada no <em>Programa de Tessal\u00f4nica<\/em>, apresentado por Alexis Tsipras em setembro de 2014. O programa inclu\u00eda medidas sociais ambiciosas: a restitui\u00e7\u00e3o do b\u00f4nus de Natal, a eletricidade gratuita para 300.000 lares, o sal\u00e1rio m\u00ednimo em 751 euros. Tudo isso custava 11.400 milh\u00f5es de euros. Mas a pergunta \u2014 que o programa n\u00e3o formulava, como se fosse de m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o faz\u00ea-lo \u2014 era: de onde sairia esse dinheiro se n\u00e3o se tocasse nem na d\u00edvida nem no euro? O aspecto decisivo n\u00e3o era o conte\u00fado dessas medidas, mas o mecanismo proposto para torn\u00e1-las vi\u00e1veis. O SYRIZA propunha convocar uma \u00abConfer\u00eancia Europeia sobre a D\u00edvida\u00bb, estabelecer um per\u00edodo de car\u00eancia para seu pagamento, excluir o investimento p\u00fablico das restri\u00e7\u00f5es do Pacto de Estabilidade e flexibilizar a pol\u00edtica do Banco Central Europeu. O pressuposto pol\u00edtico era claro: p\u00f4r fim \u00e0 austeridade por meio de uma renegocia\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es europeias, mantendo a Gr\u00e9cia dentro do euro e da Uni\u00e3o Europeia. Como resumiu o pr\u00f3prio Tsipras, a alternativa era \u00abnegocia\u00e7\u00e3o europeia com o SYRIZA ou aceita\u00e7\u00e3o dos termos dos credores com Samaras\u00bb.^9<\/p>\n\n\n\n<p>Tsipras pretendia navegar contra a corrente, mas sem soltar o leme do euro. Essa contradi\u00e7\u00e3o \u2014como tantas na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio\u2014 n\u00e3o era fruto da m\u00e1 f\u00e9, mas da l\u00f3gica mesma de uma posi\u00e7\u00e3o de classe vacilante, situada a cavalo entre dois mundos. Agora bem, uma an\u00e1lise marxista n\u00e3o se deixa enganar pelas inten\u00e7\u00f5es dos dirigentes. Se centra na correla\u00e7\u00e3o objetiva de for\u00e7as \u2014no terreno, n\u00e3o no discurso; na estrutura, n\u00e3o na anedota. A d\u00edvida estava nas m\u00e3os dos credores europeus; o euro era administrado pelo Banco Central Europeu, controlado pelas principais pot\u00eancias do continente; e a liquidez do sistema banc\u00e1rio grego dependia da Troika. A negocia\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o se desenvolvia entre atores de peso equivalente, mas dentro de uma estrutura profundamente assim\u00e9trica de poder, sob a l\u00f3gica subjugadora do capital alem\u00e3o e franc\u00eas.^10<\/p>\n\n\n\n<p>Em junho de 2012, Tsipras declarou \u00e0 BBC: \u00abN\u00e3o ao memorando de fal\u00eancia. Sim ao euro\u00bb. Como se o euro e a fal\u00eancia fossem irm\u00e3os inimigos, e n\u00e3o \u2014como era o caso\u2014 pai e filho do mesmo regime. Poucos dias depois, afirmou \u00e0 Reuters que \u00aba Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 blefando\u00bb e que a Gr\u00e9cia permaneceria na moeda \u00fanica. Antes das elei\u00e7\u00f5es de janeiro de 2015, resumiu seu projeto afirmando: \u00abN\u00e3o vou ser um l\u00edder da extrema esquerda. Vou ser o primeiro-ministro de todos os gregos\u00bb. Essas declara\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram concess\u00f5es conjunturais, mas a express\u00e3o coerente de uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica: terminar com a austeridade negociando melhores condi\u00e7\u00f5es dentro do euro, sem romper com ele.^11<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SYRIZA como projeto estrat\u00e9gico e o debate na esquerda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A r\u00e1pida expans\u00e3o do SYRIZA converteu uma experi\u00eancia nacional em um referencial para a esquerda internacional. A crise da social-democracia, o descr\u00e9dito dos partidos tradicionais e a irrup\u00e7\u00e3o de novas for\u00e7as pol\u00edticas pareciam anunciar uma etapa distinta. Nos anos posteriores \u00e0 crise de 2008, consolidaram-se organiza\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes, como o Bloco de Esquerda em Portugal (1999), o PSOL no Brasil (2004) e Die Linke na Alemanha (2007), enquanto surgiram novas experi\u00eancias como Podemos no Estado espanhol (2014), o crescimento dos Democratic Socialists of America (DSA) em torno das campanhas de Bernie Sanders (desde 2016) e La France insoumise na Fran\u00e7a (2016). Embora suas trajet\u00f3rias, programas e formas organizativas tenham sido diferentes, todas contribu\u00edram para uma discuss\u00e3o comum sobre as formas de reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da esquerda ap\u00f3s a crise aberta em 2008. O SYRIZA foi a primeira dessas experi\u00eancias a chegar ao governo. Por essa raz\u00e3o, o debate que provocou adquiriu de imediato uma dimens\u00e3o internacional. O que estava em jogo n\u00e3o era apenas o futuro da Gr\u00e9cia, mas a viabilidade de uma estrat\u00e9gia que come\u00e7ava a influir em boa parte da esquerda europeia, norte-americana e latino-americana.^12<\/p>\n\n\n\n<p>O MST na Argentina foi, provavelmente, a organiza\u00e7\u00e3o latino-americana que mais claramente se aderiu a essa nova experi\u00eancia. SYRIZA n\u00e3o era simplesmente uma coaliz\u00e3o eleitoral bem-sucedida, mas a confirma\u00e7\u00e3o de uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que essa organiza\u00e7\u00e3o vinha defendendo h\u00e1 anos: a necessidade de construir uma \u00abnova esquerda ampla\u00bb capaz de superar tanto a fragmenta\u00e7\u00e3o da esquerda quanto o isolamento das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. A amplitude de SYRIZA n\u00e3o era considerada uma concess\u00e3o t\u00e1tica, mas uma virtude estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 2015, Alejandro Bodart viajou a Atenas, convidado pelo SYRIZA, e declarou: \u00abOs sect\u00e1rios como Jorge Altamira deveriam aprender com o SYRIZA. \u00c9 uma coaliz\u00e3o de esquerda ampla, integrada por 13 for\u00e7as, na qual se priorizam os acordos. Desde o MST propomos esse modelo de unidade para que a esquerda argentina deixe seu papel testimonial e avance como op\u00e7\u00e3o de governo\u00bb. Ap\u00f3s a vit\u00f3ria eleitoral, insistiu na mesma orienta\u00e7\u00e3o. Em um artigo intitulado \u00abSyriza traz ventos de mudan\u00e7a\u00bb, Bodart sustentou que \u00aba vit\u00f3ria hist\u00f3rica do Syriza reafirma nosso projeto de construir na Argentina uma Nova Esquerda moderna, ampla e n\u00e3o sect\u00e1ria\u00bb.^13<\/p>\n\n\n\n<p>Para o MST, SYRIZA e Podemos expressavam uma mesma tend\u00eancia hist\u00f3rica: o surgimento de novas organiza\u00e7\u00f5es capazes de ocupar o espa\u00e7o deixado pela crise da social-democracia e de disputar o governo pela esquerda. Bodart sustentava que, ap\u00f3s o caso grego, \u00abo cont\u00e1gio mais pr\u00f3ximo que se vem \u00e9 o poss\u00edvel triunfo de outra nova esquerda, Podemos, nas elei\u00e7\u00f5es de maio na Espanha\u00bb. Mesmo ap\u00f3s a capitula\u00e7\u00e3o de Tsipras, o MST sustentou que \u00abo verdadeiro debate \u00e9 a necessidade de impulsionar grandes coaliz\u00f5es amplas e de esquerda, assumindo seus riscos\u00bb.^14 A experi\u00eancia grega modificava o balan\u00e7o sobre sua dire\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es amplas.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT, por sua vez, compartilhava a alegria do povo grego pela derrota eleitoral dos partidos da Troika, mas distinguia cuidadosamente entre compreender as expectativas populares e refor\u00e7\u00e1-las politicamente. Como afirmava poucos dias depois das elei\u00e7\u00f5es, \u00abentender as ilus\u00f5es no novo governo n\u00e3o exige apoiar as ilus\u00f5es mesmas\u00bb. Sua conclus\u00e3o era que a \u00fanica garantia de uma mudan\u00e7a real continuava sendo \u00aba luta dos trabalhadores e do povo grego\u00bb.^15 Desde o come\u00e7o sustentava que o novo governo enfrentaria uma disjuntiva inadi\u00e1vel: \u00abaplicar um plano de resgate dos trabalhadores e do povo ou pagar a d\u00edvida dos banqueiros e especuladores. Ou com os trabalhadores e o povo grego ou com a Troika. Esse \u00e9 o dilema\u00bb.^16<\/p>\n\n\n\n<p>O Comit\u00ea para uma Internacional dos Trabalhadores (CWI) entendia que a discuss\u00e3o aberta pelo SYRIZA n\u00e3o come\u00e7ava com a Gr\u00e9cia, mas sim com a crise hist\u00f3rica da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora. Desde a d\u00e9cada de 1990, a organiza\u00e7\u00e3o sustentava que o enfraquecimento da social-democracia tradicional favoreceria o surgimento de &#8220;novos partidos de trabalhadores&#8221;, ou seja, novas organiza\u00e7\u00f5es de massa que n\u00e3o reproduziriam necessariamente a estrutura nem o programa dos velhos partidos oper\u00e1rios do s\u00e9culo XX. As &#8220;novas forma\u00e7\u00f5es de esquerda&#8221; deviam ser entendidas como uma etapa transit\u00f3ria dentro desse processo mais amplo de recomposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.^17<\/p>\n\n\n\n<p>Essa perspectiva levava o CWI a assumir uma dupla tarefa: fortalecer as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias existentes e intervir ativamente na forma\u00e7\u00e3o desses novos partidos oper\u00e1rios de massas. Como resumiu Dobson, a organiza\u00e7\u00e3o deveria combinar a constru\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria com a participa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de novos partidos oper\u00e1rios.^18 A coexist\u00eancia de ambas as tarefas descansava na ideia de que a hegemonia reformista dessas novas forma\u00e7\u00f5es n\u00e3o terminaria condicionando seu desenvolvimento pol\u00edtico nem as convertendo em um obst\u00e1culo para a constru\u00e7\u00e3o de um projeto revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O CWI advertia que a condu\u00e7\u00e3o liderada por Tsipras apoiava sua pol\u00edtica em um discurso contra a austeridade, mas continuava convencido de que era poss\u00edvel negociar uma sa\u00edda dentro das institui\u00e7\u00f5es do capitalismo europeu. Sustentava que uma vit\u00f3ria eleitoral da coaliz\u00e3o seria um passo \u00e0 frente porque modificaria a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes e abriria um novo ciclo de lutas capaz de empurrar o governo para posi\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas. Como explicava Andros Payiatsos, a raz\u00e3o principal para apoiar o SYRIZA era que a classe trabalhadora esperava que algumas de suas demandas fossem atendidas, e que uma vit\u00f3ria do SYRIZA teria um efeito libertador sobre a sociedade e poderia desencadear um novo per\u00edodo de luta de classes. No mesmo sentido, afirmava que, apesar da mudan\u00e7a da dire\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o com a Troika, era poss\u00edvel que fossem empurrados para a esquerda sob a press\u00e3o do movimento de massas.^19<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a posi\u00e7\u00e3o do CWI ocupava um lugar intermedi\u00e1rio e confuso entre o entusiasmo do MST e a cr\u00edtica desenvolvida pela LIT. Compartilhava com esta a preocupa\u00e7\u00e3o pela modera\u00e7\u00e3o crescente da dire\u00e7\u00e3o do SYRIZA, mas continuava considerando que uma vit\u00f3ria eleitoral poderia desencadear um processo de radicaliza\u00e7\u00e3o de massas capaz de alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as dentro do pr\u00f3prio governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Secretariado Unificado compartilhava boa parte desse diagn\u00f3stico do CWI, embora desenvolvesse uma elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria em torno aos \u00abpartidos amplos\u00bb ou \u00abanticapitalistas\u00bb, organiza\u00e7\u00f5es suficientemente amplas para reunir tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas diferentes sem exigir uma delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica completa como condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para intervir na luta pol\u00edtica.^21 Mas aquela aposta pelos partidos amplos n\u00e3o era monol\u00edtica. Dentro do pr\u00f3prio SU, a se\u00e7\u00e3o grega OKDE-Spartakos questionou abertamente essa pol\u00edtica e sustentou que SYRIZA permanecia definitivamente dentro do marco do capitalismo e da democracia burguesa. O interc\u00e2mbio p\u00fablico entre o Bur\u00f3 Executivo internacional e sua pr\u00f3pria se\u00e7\u00e3o grega mostrou que o debate n\u00e3o era externo, mas interno ao pr\u00f3prio Secretariado Unificado. Enquanto a dire\u00e7\u00e3o internacional continuava chamando a apoiar eleitoralmente a SYRIZA, OKDE-Spartakos respondia que o partido permanecia definitivamente dentro do marco do capitalismo e da democracia burguesa, questionando tanto sua estrat\u00e9gia em rela\u00e7\u00e3o ao euro quanto a orienta\u00e7\u00e3o geral do Bur\u00f3 Internacional.^22<\/p>\n\n\n\n<p>Anos mais tarde, Kostas Skordoulis resumiu retrospectivamente essa cr\u00edtica com uma formula\u00e7\u00e3o ainda mais direta: decidiram conscientemente se tornar os administradores do capitalismo grego. Desde sua perspectiva, a capitula\u00e7\u00e3o de 2015 n\u00e3o foi o resultado de um erro t\u00e1tico, mas de uma decis\u00e3o pol\u00edtica coerente com o projeto assumido pela dire\u00e7\u00e3o de Tsipras.^23<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT chegou a uma conclus\u00e3o distinta porque partia de outro problema. A discuss\u00e3o sobre a SYRIZA era insepar\u00e1vel da discuss\u00e3o sobre sua dire\u00e7\u00e3o. Mas a quest\u00e3o de fundo n\u00e3o era simplesmente se Alexis Tsipras terminaria capitulando, mas que projeto pol\u00edtico expressava essa dire\u00e7\u00e3o e que estrat\u00e9gia propunha para enfrentar a crise grega. Desde a perspectiva da LIT, o Programa de Tessal\u00f4nica n\u00e3o representava um projeto de ruptura frustrado posteriormente pela press\u00e3o da Troika, mas uma estrat\u00e9gia baseada na possibilidade de derrotar a austeridade por meio da negocia\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es encarregadas de imp\u00f4-la. Preservar o euro, permanecer na Uni\u00e3o Europeia e renegociar a d\u00edvida n\u00e3o eram aspectos secund\u00e1rios do programa, mas suas premissas fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa convic\u00e7\u00e3o, mantida sem fissuras desde 2012, levava a LIT a concluir que as principais reivindica\u00e7\u00f5es levantadas pelo SYRIZA \u2014o fim da austeridade, a recupera\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios e aposentadorias, o n\u00e3o pagamento da d\u00edvida e a expropria\u00e7\u00e3o dos bancos\u2014 eram incompat\u00edveis com a preserva\u00e7\u00e3o do marco institucional da Uni\u00e3o Europeia, o poder dos grandes bancos e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, do pr\u00f3prio sistema capitalista. Assim colocado, o problema n\u00e3o era simplesmente a amplitude da coaliz\u00e3o, mas a estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o de classes sobre a qual essa amplitude descansava.^24<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio de 2015, a LIT aprofundou sua caracteriza\u00e7\u00e3o do governo. J\u00e1 n\u00e3o se limitou a questionar a estrat\u00e9gia negociadora de Tsipras, mas definiu o gabinete Syriza-ANEL como um \u00abgoverno burgu\u00eas at\u00edpico\u00bb ou de frente popular: um governo dirigido por organiza\u00e7\u00f5es provenientes do movimento oper\u00e1rio que administrava um Estado capitalista em alian\u00e7a com setores da burguesia. A discuss\u00e3o deixava assim de se centrar nas inten\u00e7\u00f5es subjetivas de Tsipras para se situar no car\u00e1ter de classe do governo e do Estado que administrava.^25<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Depois do referendo: o teste de fogo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Chegou o momento em que as palavras deixaram de ser palavras. Em 5 de julho de 2015, mais de seis milh\u00f5es de gregos foram \u00e0s urnas. N\u00e3o votavam por um governo nem por um partido: votavam uma pergunta, a mais elemental e ao mesmo tempo a mais radical que um povo pode se fazer em tempos de crise: sim ou n\u00e3o \u00e0 austeridade? Essa pergunta, em sua nudez, j\u00e1 era um julgamento sobre a ordem existente. 61,3% disse n\u00e3o. Naquela noite, na varanda da sede do SYRIZA, Tsipras n\u00e3o proclamou uma ruptura. Anunciou uma negocia\u00e7\u00e3o. O teste de fogo acabava de come\u00e7ar.^26<\/p>\n\n\n\n<p>O referendo n\u00e3o surgiu do nada. Era o ponto culminante de um ciclo de mobiliza\u00e7\u00e3o aberto anos antes por meio de dezenas de greves gerais \u2014muitas delas de magnitude sem precedentes desde a restaura\u00e7\u00e3o da democracia\u2014, al\u00e9m de ocupa\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es contra os memorandos impostos pela Troika. A classe trabalhadora grega era, em 2015, um vulc\u00e3o em erup\u00e7\u00e3o. Mas o SYRIZA n\u00e3o queria a lava; queria negociar com o cratera. A ascens\u00e3o eleitoral do SYRIZA foi a principal express\u00e3o pol\u00edtica desse processo de radicaliza\u00e7\u00e3o social, mas n\u00e3o o originou.^27<\/p>\n\n\n\n<p>SYRIZA n\u00e3o chegava debilitada a esse momento decisivo. Pelo contr\u00e1rio, acabava de receber o maior apoio pol\u00edtico de toda a sua trajet\u00f3ria. Milh\u00f5es de trabalhadores haviam rejeitado as condi\u00e7\u00f5es impostas pela Troika e concedido ao governo um mandato inequ\u00edvoco para enfrent\u00e1-las. A aceita\u00e7\u00e3o, apenas alguns dias depois, de um terceiro memorando ainda mais severo que o rejeitado nas urnas, transformou aquela vit\u00f3ria em um problema te\u00f3rico para toda a esquerda internacional. O resultado colocou o governo na situa\u00e7\u00e3o mais paradoxal que um pol\u00edtico pode imaginar: acabava de receber um cheque em branco de milh\u00f5es de trabalhadores, e o usou para comprar o terceiro memorando. A hist\u00f3ria, como sabia Marx, ocorre duas vezes: a primeira como trag\u00e9dia, a segunda como farsa. Na Gr\u00e9cia, a trag\u00e9dia foi das massas; a farsa, de seus representantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era se a SYRIZA poderia chegar ao governo. A pergunta se tornou mais brutal: como explicar que um governo fortalecido por uma vit\u00f3ria pol\u00edtica t\u00e3o contundente acabasse aceitando exatamente aquilo que a maioria da popula\u00e7\u00e3o acabava de rejeitar?<\/p>\n\n\n\n<p>Essa pergunta adquiria um significado diferente conforme o diagn\u00f3stico pr\u00e9vio que cada corrente havia formulado sobre o SYRIZA. At\u00e9 aquele momento, as diverg\u00eancias haviam permanecido parcialmente ocultas atr\u00e1s do apoio comum \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas da Troika. O referendo deixou n\u00edtido que essas diferen\u00e7as n\u00e3o se originavam em 5 de julho. Provinham de uma discuss\u00e3o pr\u00e9via sobre o car\u00e1ter do Programa de Tessal\u00f4nica, o significado da Uni\u00e3o Europeia e a estrat\u00e9gia que deveria seguir um eventual governo do SYRIZA.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a vit\u00f3ria do \u00abN\u00c3O\u00bb n\u00e3o resolveu o debate aberto desde 2012; deslocou-o para um terreno novo: a rela\u00e7\u00e3o entre o mandato expresso por milh\u00f5es de trabalhadores e a estrat\u00e9gia que o governo estava disposto a seguir no dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o MST, o CWI e o Secretariado Unificado \u2014embora com matizes importantes entre si\u2014, o triunfo do N\u00c3O modificava substancialmente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. O respaldo popular obtido pelo governo parecia abrir uma oportunidade in\u00e9dita para endurecer a negocia\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es europeias ou para apoiar-se na mobiliza\u00e7\u00e3o social e empurrar o processo para posi\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT, por outro lado, considerava que o referendo n\u00e3o modificava a contradi\u00e7\u00e3o fundamental que vinha apontando desde o come\u00e7o. O problema decisivo n\u00e3o era a magnitude do apoio popular nem a for\u00e7a conjuntural do governo, mas a estrat\u00e9gia sobre a qual esse governo se baseava. Enquanto a dire\u00e7\u00e3o do SYRIZA continuasse tentando preservar simultaneamente o euro, a Uni\u00e3o Europeia e a negocia\u00e7\u00e3o com os credores, o mandato expresso nas urnas terminaria inevitavelmente subordinado a esses limites pol\u00edticos. O referendo n\u00e3o anulava a contradi\u00e7\u00e3o do Programa de Tessal\u00f4nica; a levava ao seu ponto m\u00e1ximo de tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi precisamente essa tens\u00e3o que come\u00e7ou a se manifestar nas primeiras rea\u00e7\u00f5es p\u00fablicas das diferentes correntes imediatamente ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o do resultado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que significava o triunfo do N\u00c3O?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras rea\u00e7\u00f5es coincidiram em um ponto fundamental: o resultado do referendo representava uma derrota pol\u00edtica para a Troika e um triunfo extraordin\u00e1rio da mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Mas essa coincid\u00eancia inicial ocultava diferen\u00e7as profundas sobre o sujeito pol\u00edtico capaz de converter esse apoio eleitoral em uma ruptura efetiva com a austeridade.<\/p>\n\n\n\n<p>O MST interpretou o resultado como uma confirma\u00e7\u00e3o do caminho percorrido pelo SYRIZA. Sua declara\u00e7\u00e3o celebrou a vit\u00f3ria afirmando: \u00abParab\u00e9ns ao povo grego, parab\u00e9ns ao SYRIZA e parab\u00e9ns a Alexis Tsipras\u00bb.^28 A formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o era casual. O sujeito que havia derrotado a Troika se apresentava como uma unidade: o povo, SYRIZA e o governo. O enorme apoio popular recebido por Tsipras parecia confirmar que a estrat\u00e9gia seguida desde janeiro conservava plena legitimidade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O CWI compartilhava o entusiasmo pelo resultado, mas introduzia um matiz importante. Tamb\u00e9m saudou o N\u00c3O como uma derrota do imperialismo europeu. No entanto, insistia que esse mandato s\u00f3 poderia se tornar efetivo por meio de uma ruptura com o pagamento da d\u00edvida, a nacionaliza\u00e7\u00e3o da banca e a mobiliza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores, tanto dentro quanto fora do SYRIZA.^29 O problema j\u00e1 n\u00e3o era exclusivamente o governo; passava a depender da capacidade da mobiliza\u00e7\u00e3o popular para empurrar o SYRIZA al\u00e9m dos limites que sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o parecia disposta a aceitar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Secretariado Unificado desenvolveu uma expectativa similar. Durante os dias posteriores ao referendo, continuou sustentando que o governo dispunha agora de uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mais favor\u00e1vel para modificar o curso das negocia\u00e7\u00f5es. A possibilidade de que o SYRIZA se apoiasse na mobiliza\u00e7\u00e3o de massas seguia ocupando um lugar central em sua an\u00e1lise.^30<\/p>\n\n\n\n<p>Embora essas tr\u00eas interpreta\u00e7\u00f5es diferissem entre si, compartilhavam uma premissa comum. Todas entendiam que o N\u00c3O havia fortalecido politicamente o governo e que esse fortalecimento poderia modificar o desfecho da confronta\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT formulou o problema de maneira distinta. Tamb\u00e9m chamou a votar N\u00c3O e participou ativamente da campanha contra o memorando. Mas considerava que o resultado do referendo n\u00e3o modificava a contradi\u00e7\u00e3o central apontada desde 2012. A quest\u00e3o decisiva n\u00e3o era o apoio popular obtido pelo governo, mas o projeto pol\u00edtico que esse governo continuava defendendo. Enquanto a dire\u00e7\u00e3o do SYRIZA continuasse tentando preservar simultaneamente o euro, a Uni\u00e3o Europeia e a negocia\u00e7\u00e3o com os credores, o mandato expresso por milh\u00f5es de trabalhadores terminaria subordinado a essa estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a LIT n\u00e3o interpretava o referendo como uma valida\u00e7\u00e3o do caminho percorrido pelo governo, mas sim como a m\u00e1xima express\u00e3o de uma contradi\u00e7\u00e3o prestes a explodir. O apoio popular fortalecia objetivamente a possibilidade de romper com a Troika, mas n\u00e3o modificava o fato de que a dire\u00e7\u00e3o do SYRIZA continuava tentando resolver o conflito dentro do mesmo marco institucional cuja preserva\u00e7\u00e3o havia constitu\u00eddo o n\u00facleo do *Programa de Tessal\u00f4nica*.<\/p>\n\n\n\n<p>Visto retrospectivamente, esta foi a diferen\u00e7a decisiva. Para o MST, o CWI e o Secretariado Unificado, o N\u00c3O abria uma nova oportunidade pol\u00edtica. Para a LIT, havia chegado o momento de verificar se a estrat\u00e9gia de negociar com as institui\u00e7\u00f5es europeias podia se sustentar frente ao primeiro grande choque com elas. O problema j\u00e1 n\u00e3o consistia unicamente em ganhar o referendo, mas em determinar o que o governo faria com essa vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa pergunta ficou respondida apenas alguns dias depois, quando Alexis Tsipras aceitou um terceiro memorando ainda mais severo que o rejeitado nas urnas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A capitula\u00e7\u00e3o: o que realmente havia falhado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A aceita\u00e7\u00e3o do terceiro memorando n\u00e3o foi uma not\u00edcia. Foi uma senten\u00e7a. Na linguagem da hist\u00f3ria, chamam-se fatos consumados. Mas senten\u00e7a de qu\u00ea? De uma dire\u00e7\u00e3o traidora? De uma estrat\u00e9gia ing\u00eanua? De um projeto imposs\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p>As respostas divergiram precisamente porque cada corrente respondia a uma pergunta distinta. E essa diverg\u00eancia remetia a diagn\u00f3sticos formulados antes que o referendo sequer existisse. A chave residia em determinar o que havia fracassado: uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uma estrat\u00e9gia de negocia\u00e7\u00e3o ou um projeto pol\u00edtico mais amplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas correntes compartilhavam, no fundo, uma mesma orienta\u00e7\u00e3o: o problema era Tsipras. Bodart o dizia sem rodeios: \u00aba \u00fanica sa\u00edda realista para a Gr\u00e9cia \u00e9 aplicar um plano anticapitalista, n\u00e3o pagar a d\u00edvida e at\u00e9 sair do euro\u00bb.^31 O MST, fiel \u00e0 sua abordagem, localizava a derrota no abandono do programa por parte da dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era a estrat\u00e9gia da \u00abnova esquerda ampla\u00bb que havia fracassado, mas sim aqueles que a haviam conduzido. A solu\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, era encontrar uma dire\u00e7\u00e3o disposta a lev\u00e1-lo at\u00e9 o fim. Por isso a ruptura de Lafazanis e a cria\u00e7\u00e3o de Unidade Popular foram saudadas como uma segunda oportunidade \u2014com as mesmas premissas estrat\u00e9gicas, mas com outro timoneiro. Como se na hist\u00f3ria das revolu\u00e7\u00f5es bastasse mudar de capit\u00e3o para que o barco mudasse de rumo.<\/p>\n\n\n\n<p>O CWI, mais cauteloso, concordava no essencial: Tsipras havia abandonado a \u00fanica pol\u00edtica compat\u00edvel com o mandato popular. Mas seu balan\u00e7o n\u00e3o se detinha na dire\u00e7\u00e3o. A crise grega confirmava a necessidade de combinar as novas organiza\u00e7\u00f5es de massas com uma dire\u00e7\u00e3o claramente socialista, disposta a romper com a Uni\u00e3o Europeia, o euro e o capital financeiro. A experi\u00eancia questionava o rumo seguido pelo SYRIZA como caso particular, n\u00e3o a estrat\u00e9gia geral de apoiar a interven\u00e7\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o de novos partidos amplos.<\/p>\n\n\n\n<p>O SU chegou a uma conclus\u00e3o muito semelhante. A derrota era hist\u00f3rica, mas n\u00e3o implicava abandonar a perspectiva dos partidos anticapitalistas. A explica\u00e7\u00e3o voltava a se centrar nas decis\u00f5es de Tsipras e em sua negativa a se apoiar na mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Vistas em conjunto, essas tr\u00eas interpreta\u00e7\u00f5es compartilhavam um tra\u00e7o comum. A capitula\u00e7\u00e3o de Tsipras aparecia como um fato conjuntural, n\u00e3o como a consequ\u00eancia l\u00f3gica de seu projeto pol\u00edtico. Explicava-se pelas decis\u00f5es adotadas por uma dire\u00e7\u00e3o determinada e por sua negativa a apoiar-se plenamente na mobiliza\u00e7\u00e3o aberta em torno do referendo. Nenhuma questionava o suposto estrat\u00e9gico de fundo: que era poss\u00edvel frear a ofensiva contra a classe trabalhadora a partir das institui\u00e7\u00f5es do Estado burgu\u00eas sem romper com o marco da Uni\u00e3o Europeia e da economia capitalista. A derrota, nessa leitura, era revers\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a LIT, era um erro centrar a explica\u00e7\u00e3o em por que Tsipras havia capitulado, levantando a quest\u00e3o em termos morais ou psicol\u00f3gicos. N\u00e3o se tratava de explicar uma trai\u00e7\u00e3o individual, mas de estabelecer quais interesses de classe expressavam esse governo e o projeto pol\u00edtico que representava. A pergunta decisiva n\u00e3o era por que havia fracassado um dirigente, mas que estrat\u00e9gia havia chegado a seus limites hist\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a perspectiva da LIT, a aceita\u00e7\u00e3o do terceiro memorando n\u00e3o constituiu uma ruptura inesperada com a orienta\u00e7\u00e3o anterior do governo, mas sim seu desfecho l\u00f3gico. A estrat\u00e9gia do SYRIZA descansava sobre uma concilia\u00e7\u00e3o entre objetivos incompat\u00edveis: satisfazer as reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores preservando, ao mesmo tempo, o euro, a Uni\u00e3o Europeia, o Estado capitalista grego e os interesses do capital financeiro expressos no pagamento da d\u00edvida. Quando essa contradi\u00e7\u00e3o se tornou insustent\u00e1vel, n\u00e3o foi o marco institucional que cedeu, mas sim o conte\u00fado social do programa. Por essa raz\u00e3o, *Correio Internacional*, em seu balan\u00e7o da experi\u00eancia grega, formulou uma pergunta distinta da predominante nas demais correntes: **\u00bbA quais interesses de classe o SYRIZA sucumbiu?\u00bb**^32<\/p>\n\n\n\n<p>Esta conclus\u00e3o encontrava sustenta\u00e7\u00e3o na evolu\u00e7\u00e3o interna do SYRIZA. Dentro da coaliz\u00e3o coexistiam a Plataforma de Esquerda, partid\u00e1ria de romper com o euro; o denominado Grupo dos 53, que mantinha uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica; e a dire\u00e7\u00e3o pr\u00f3-europeia liderada pelo triunvirato Tsipras-Pappas-Dragasakis.^33 Este \u00faltimo havia definido sua orienta\u00e7\u00e3o j\u00e1 em novembro de 2014, antes mesmo de chegar ao governo. Os principais respons\u00e1veis pela negocia\u00e7\u00e3o com a Troika \u2014Varoufakis, Tsakalotos, Kotzias, Voutsis e Stathakis\u2014 respondiam a essa dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e n\u00e3o \u00e0 base do partido. Quando o conflito com as institui\u00e7\u00f5es europeias alcan\u00e7ou seu ponto culminante, o aparato do Estado, controlado por esse setor, imp\u00f4s sua orienta\u00e7\u00e3o, enquanto a esquerda do SYRIZA, carente de mecanismos de controle democr\u00e1tico e de uma organiza\u00e7\u00e3o independente capaz de se apoiar na mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, foi deslocada.^34<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia confirmava assim a caracteriza\u00e7\u00e3o que a LIT havia formulado desde 2012. A contradi\u00e7\u00e3o entre as reivindica\u00e7\u00f5es populares e a preserva\u00e7\u00e3o do marco institucional europeu n\u00e3o havia desaparecido com o referendo; s\u00f3 havia se agudizado at\u00e9 se tornar irresol\u00favel. Como sintetizava posteriormente a LIT: \u00abtodo governo que n\u00e3o rompa com a burguesia e o imperialismo acaba sendo (mais cedo ou mais tarde) instrumento do capital financeiro\u00bb.^35 O que antes do governo constitu\u00eda um aviso estrat\u00e9gico, depois de julho de 2015 aparecia confirmado pela experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aulas estrat\u00e9gicas: mobiliza\u00e7\u00e3o, autoorganiza\u00e7\u00e3o e programa de transi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Frente a uma estrat\u00e9gia que havia conduzido \u00e0 derrota, a LIT propunha uma alternativa de classe com tr\u00eas pilares.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro era a mobiliza\u00e7\u00e3o independente da classe trabalhadora. Desde julho de 2012, <em>Correio Internacional<\/em> havia chamado \u00e0 greve geral e \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas, advertindo que a estrat\u00e9gia de Tsipras de buscar a \u00abpaz social\u00bb era um beco sem sa\u00edda.^36 N\u00e3o se tratava de uma consigna abstrata, mas de uma aposta concreta: o \u00fanico contrapeso real a uma dire\u00e7\u00e3o que se deslocava para a direita era a organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma dos trabalhadores nos locais de trabalho e nas ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo pilar era a autoorganiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. A experi\u00eancia da Plataforma da Esquerda havia demonstrado que, sem mecanismos de controle de base, os dirigentes podiam tomar decis\u00f5es sem consultar o partido. Por isso, promoviam-se instrumentos como o mandato imperativo, a revogabilidade dos cargos, as comiss\u00f5es de base, as assembleias abertas e a rota\u00e7\u00e3o de responsabilidades.^37 Estes n\u00e3o eram detalhes organizativos menores: eram a condi\u00e7\u00e3o para que uma dire\u00e7\u00e3o respondesse \u00e0 base e n\u00e3o aos aparelhos do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro era recuperar o m\u00e9todo do programa de transi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se tratava de levantar um \u00abprograma m\u00e1ximo\u00bb (o socialismo) nem um \u00abprograma m\u00ednimo\u00bb (reformas dentro do capitalismo). Era um programa de ruptura que partia de necessidades imediatas: medidas concretas que um governo verdadeiramente anticapitalista deveria aplicar sem demora. N\u00e3o pagamento da d\u00edvida. Expropria\u00e7\u00e3o dos bancos sob controle oper\u00e1rio. Sa\u00edda planejada do euro. Ruptura com a OTAN. O programa de transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma lista de boas inten\u00e7\u00f5es, mas sim uma ponte entre as necessidades imediatas dos trabalhadores e a tarefa estrat\u00e9gica de tomar o poder.^38<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia grega mostrou at\u00e9 que ponto a amplitude organizativa, quando n\u00e3o est\u00e1 acompanhada de delimita\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas precisas, se torna o sepulcro das ilus\u00f5es reformistas. A hist\u00f3ria n\u00e3o perdoa a ambiguidade nos momentos decisivos. A clareza estrat\u00e9gica n\u00e3o \u00e9 um luxo sect\u00e1rio, mas uma condi\u00e7\u00e3o para n\u00e3o acabar administrando a derrota.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a LIT tenha chamado a apoiar o \u00abN\u00c3O\u00bb no referendo, o fez com um programa pol\u00edtico expl\u00edcito: mostrar a contradi\u00e7\u00e3o entre o conte\u00fado do referendo e o do governo de Tsipras. N\u00e3o se tratava de romper o di\u00e1logo com os trabalhadores, mas de reconhecer suas expectativas leg\u00edtimas, intervir nas mobiliza\u00e7\u00f5es reais e deixar que as massas fizessem a experi\u00eancia por si mesmas. Esse aviso n\u00e3o era \u00absetorial\u00bb; era a \u00fanica maneira de construir uma confian\u00e7a pol\u00edtica baseada em experi\u00eancias reais e de impulsionar formas de organiza\u00e7\u00e3o pela base, independentes e democr\u00e1ticas, para exercer um contrapeso real a um governo que ia trair.^39<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia do SYRIZA foi muito mais do que um epis\u00f3dio da pol\u00edtica grega. Constituiu o primeiro grande experimento de governo surgido do ciclo aberto pela crise financeira de 2008 e, por essa raz\u00e3o, se tornou uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para as distintas estrat\u00e9gias de reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda internacional. O interesse que despertou entre organiza\u00e7\u00f5es t\u00e3o diversas como o MST, o CWI, o Secretariado Unificado ou a LIT expressava uma discuss\u00e3o mais ampla sobre como reconstruir uma alternativa pol\u00edtica para a classe trabalhadora ap\u00f3s a crise da socialdemocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o sobre a amplitude organizativa remetia, na verdade, a um problema mais profundo: a natureza do projeto pol\u00edtico que essas novas organiza\u00e7\u00f5es deveriam expressar. Enquanto algumas correntes consideravam poss\u00edvel abrir um novo ciclo pol\u00edtico por meio de organiza\u00e7\u00f5es suficientemente amplas para reunir tradi\u00e7\u00f5es e programas diversos, a LIT sustentou desde o come\u00e7o que o problema decisivo n\u00e3o era a amplitude em si mesma, mas a estrat\u00e9gia que tornava poss\u00edvel essa amplitude e os limites que essa estrat\u00e9gia impunha quando uma organiza\u00e7\u00e3o chegava ao governo.<\/p>\n\n\n\n<p>O debate sobre a SYRIZA, visto em perspectiva, nunca foi apenas uma discuss\u00e3o sobre Alexis Tsipras. Foi uma discuss\u00e3o sobre o Estado, o imperialismo europeu e que tipo de governo os trabalhadores precisam. O Programa de Tessal\u00f4nica expressava um projeto pol\u00edtico que buscava acabar com a austeridade preservando o euro, a Uni\u00e3o Europeia e o Estado grego integrado na arquitetura institucional do capitalismo europeu. A controv\u00e9rsia entre as diferentes correntes da esquerda revolucion\u00e1ria girou precisamente em torno da viabilidade desse projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>O desfecho de julho de 2015 foi a derrota de um governo, mas mais ainda, a prova das distintas estrat\u00e9gias elaboradas pela esquerda internacional frente \u00e0 crise aberta em 2008. Essa prova n\u00e3o foi superada por aqueles que confiavam na amplitude organizativa como substituto da clareza program\u00e1tica. Tsipras e sua corrente, que representavam uma tend\u00eancia conservadora e burguesa apresentada como radicalismo, encontraram seu limite na mesma l\u00f3gica que hoje atravessa outros projetos de centro-esquerda contempor\u00e2neos \u2014La France Insoumise, Podemos, o PSOL\u2014 que cresceram a partir do descontentamento popular, mas que em momentos decisivos n\u00e3o propuseram a ruptura com o euro, a d\u00edvida ou os bancos, mas optaram pela concilia\u00e7\u00e3o ao participar em coaliz\u00f5es de governo.^40 A experi\u00eancia grega mostrou que a crise da social-democracia n\u00e3o conduz automaticamente a uma pol\u00edtica de ruptura com o capitalismo. Tamb\u00e9m pode abrir caminho para novas forma\u00e7\u00f5es reformistas capazes de canalizar o descontentamento popular sem romper com as estruturas fundamentais da ordem existente.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta que o SYRIZA deixou em aberto n\u00e3o perdeu validade: que tipo de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a classe trabalhadora precisa para n\u00e3o acabar administrando sua pr\u00f3pria derrota? A resposta, \u00e0 luz da Gr\u00e9cia, aponta em uma dire\u00e7\u00e3o: clareza program\u00e1tica, independ\u00eancia de classe e controle de base. Tudo o mais, como demonstrou o SYRIZA, \u00e9 um convite \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n\n\n\n<p>^1 Costas Lapavitsas et al., *Crise na Zona do Euro* (Londres: Verso, 2012); Barry Eichengreen, *Sal\u00e3o de Espelhos* (Oxford: Oxford University Press, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>^2 Minist\u00e9rio do Interior da Gr\u00e9cia, resultados eleitorais de 2009 e 2012; LIT-CI, \u00ab\u00a1Nem uma tr\u00e9gua ao governo de Samaras!\u00bb, *Correio Internacional*, julho de 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>^3 Minist\u00e9rio do Interior da Gr\u00e9cia, resultados oficiais das elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 2009, maio de 2012, junho de 2012 e janeiro de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^4 Liga Internacional dos Trabalhadores\u2013Quarta Internacional, \u00abGr\u00e9cia: Syriza canaliza um enorme rejei\u00e7\u00e3o popular aos ataques da troika europeia,\u00bb 27 de janeiro de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^5 Alejandro Bodart, \u00abSyriza traz ventos de mudan\u00e7a,\u00bb Movimento Socialista dos Trabalhadores, janeiro de 2015; Andros Payiatsos, \u00abGr\u00e9cia: Rumo a um Governo Syriza?,\u00bb *The Socialist*, 7 de janeiro de 2015; Quarta Internacional, Escrit\u00f3rio Executivo, \u00abO Futuro dos Trabalhadores da Europa Est\u00e1 Sendo Decidido na Gr\u00e9cia,\u00bb 25 de maio de 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>^6 Stathis Kouvelakis, *A Onda Syriza*; Costas Douzinas, *Syriza no Poder: Reflex\u00f5es de um Pol\u00edtico Acidental* (Cambridge: Polity, 2017); Alex Callinicos, *Decifrando o Capital* (Londres: Bookmarks, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>^7 Stathis Kouvelakis, *A Onda Syriza*, caps. 8\u201310; Costas Lapavitsas, *O Caso da Esquerda Contra a UE* (Cambridge: Polity, 2019), cap. 5.<\/p>\n\n\n\n<p>^8 Syriza, *Declara\u00e7\u00e3o Fundadora* (Atenas, 2004); Kouvelakis, *A Onda Syriza*, cap. 1.<\/p>\n\n\n\n<p>^9 Alexis Tsipras, \u00abO Programa de Tessal\u00f4nica,\u00bb discurso proferido na Feira Internacional de Tessal\u00f4nica, 13 de setembro de 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>^10 Costas Lapavitsas, *O Caso da Esquerda Contra a UE*, cap. 4.<\/p>\n\n\n\n<p>^11 BBC News, entrevista com Alexis Tsipras, junho de 2012; Reuters, entrevista com Alexis Tsipras, junho de 2012; Reuters, entrevista com Alexis Tsipras, janeiro de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^12 Matt Dobson, \u00abNovas Forma\u00e7\u00f5e da Esquerda: Escola CWI 2015\u2014Relat\u00f3rio da Discuss\u00e3o sobre Novos Partidos dos Trabalhadores, Populismo de Esquerda e as Ideias e Programa do Podemos, Syriza,\u00bb *Alternativa Socialista*, 13 de agosto de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^13 Alejandro Bodart, declara\u00e7\u00f5es em Atenas, janeiro de 2015; Movimento Socialista dos Trabalhadores, \u00abSyriza traz ventos de mudan\u00e7a,\u00bb janeiro de 2015; Alejandro Bodart, \u00abOs sect\u00e1rios deveriam aprender com a Syriza,\u00bb Movimento Socialista dos Trabalhadores, janeiro de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^14 Alejandro Bodart, \u00abA vit\u00f3ria hist\u00f3rica do Syriza reafirma nosso projeto de construir uma Nova Esquerda moderna, ampla e n\u00e3o sect\u00e1ria,\u00bb Movimento Socialista dos Trabalhadores, janeiro de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^15 Liga Internacional dos Trabalhadores\u2013Quarta Internacional, \u00abGr\u00e9cia: Syriza canaliza um enorme rejei\u00e7\u00e3o popular aos ataques da troika europeia,\u00bb 27 de janeiro de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^16 Liga Internacional dos Trabalhadores\u2013Quarta Internacional, \u00abGr\u00e9cia: Syriza canaliza um enorme rejei\u00e7\u00e3o popular aos ataques da troika europeia,\u00bb 27 de janeiro de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^17 Matt Dobson, \u00abNovas Forma\u00e7\u00f5e da Esquerda: Escola CWI 2015\u2014Relat\u00f3rio da Discuss\u00e3o sobre Novos Partidos dos Trabalhadores, Populismo de Esquerda e as Ideias e Programa do Podemos, Syriza,\u00bb *Alternativa Socialista*, 13 de agosto de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^18 Matt Dobson, \u00abNovas Forma\u00e7\u00f5e da Esquerda.\u00bb Original em ingl\u00eas: *\u00bbconstruindo a organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria enquanto participa da constru\u00e7\u00e3o de novos partidos de trabalhadores\u00bb*.<\/p>\n\n\n\n<p>^19 Andros Payiatsos, \u00abGr\u00e9cia: Rumo a um Governo Syriza?\u00bb, *The Socialist*, 7 de janeiro de 2015. Original em ingl\u00eas: *\u00bbA principal raz\u00e3o pela qual apoiamos a Syriza\u2026 \u00e9 que h\u00e1 uma expectativa da classe trabalhadora de que algumas de suas demandas ser\u00e3o atendidas\u2026 uma vit\u00f3ria da Syriza ter\u00e1 um efeito libertador sobre a sociedade\u2026 e pode desencadear um novo per\u00edodo de luta da classe trabalhadora.\u00bb \/ \u00ab\u00e9 poss\u00edvel que eles sejam empurrados para a esquerda sob a press\u00e3o do movimento de massas\u00bb*.<\/p>\n\n\n\n<p>^21 Quarta Internacional, Escrit\u00f3rio Executivo, \u00abO Futuro dos Trabalhadores da Europa Est\u00e1 Sendo Decidido na Gr\u00e9cia,\u00bb 25 de maio de 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>^22 Quarto Bureau Internacional e OKDE-Spartakos, \u00abTroca entre o Bureau da FI e OKDE-Spartakos (Se\u00e7\u00e3o Grega),\u00bb 9 de junho de 2012. Original em ingl\u00eas: *\u00bbdefinitivamente dentro do quadro do capitalismo e da democracia burguesa\u00bb*.<\/p>\n\n\n\n<p>^23 Josefina L. Mart\u00ednez, \u00abEntrevista: \u2018Tsipras est\u00e1 salvando o capitalismo grego\u2019,\u00bb *Left Voice*, 8 de outubro de 2015 (entrevista com Kostas Skordoulis). Original em ingl\u00eas: *\u00bbEles decidiram conscientemente se tornar os gestores do capitalismo grego\u00bb*.<\/p>\n\n\n\n<p>^24 \u00abUma esta\u00e7\u00e3o de passagem na crise,\u00bb *Correio Internacional*, agosto de 2012; Ricardo Ayala, \u00abPrimeiras li\u00e7\u00f5es da Gr\u00e9cia,\u00bb *Correio Internacional*, no. 13 (S\u00e3o Paulo: Editora Lorca, agosto de 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>^25 Liga Internacional dos Trabalhadores\u2013Quarta Internacional, \u00abO governo de Syriza tira dinheiro dos hospitais para pagar a d\u00edvida,\u00bb 11 de maio de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^26 Yanis Varoufakis, *Adultos na Sala: Minha Batalha com o Estabelecimento Profundo da Europa* (Londres: Bodley Head, 2017); Reuters, cobertura das negocia\u00e7\u00f5es entre o governo grego e a Troika, junho\u2013julho de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^27 LIT-CI, \u00ab\u00a1Nem uma tr\u00e9gua ao governo de Samaras!\u00bb, *Correio Internacional*, julho de 2012; Minist\u00e9rio do Interior da Gr\u00e9cia, resultados do referendo de 5 de julho de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^28 Movimento Socialista dos Trabalhadores, \u00abParab\u00e9ns ao povo grego, parab\u00e9ns \u00e0 Syriza e parab\u00e9ns a Alexis Tsipras,\u00bb 6 de julho de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^29 Comit\u00ea para uma Internacional dos Trabalhadores, \u00abDeclara\u00e7\u00e3o sobre o Referendo Grego,\u00bb 6 de julho de 2015. Original em ingl\u00eas: *\u00bbinside and outside of Syriza\u00bb*.<\/p>\n\n\n\n<p>^30 Quarta Internacional, Escrit\u00f3rio Executivo, declara\u00e7\u00e3o sobre o referendo grego, julho de 2015; Liga Internacional dos Trabalhadores\u2013Quarta Internacional, \u00abO povo grego disse N\u00c3O\u2026 mas Tsipras e o governo do Syriza disseram SIM,\u00bb julho de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^31 Alejandro Bodart, \u00abTsipras capitulou: agora a \u00fanica sa\u00edda para a Gr\u00e9cia \u00e9 um plano anticapitalista, n\u00e3o pagar a d\u00edvida e at\u00e9 sair do euro,\u00bb Movimento Socialista dos Trabalhadores, julho de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^32 Ricardo Ayala, \u00abPrimeiras li\u00e7\u00f5es da Gr\u00e9cia,\u00bb *Correio Internacional*, no. 13 (S\u00e3o Paulo: Editora Lorca, agosto de 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>^33 *The Times*, 18 de junho de 2015; Anadolu Ajans\u0131, 26 de agosto de 2015; GreekReporter, 26 de agosto de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^34 Eric Toussaint, \u00abO relato de Varoufakis: uma autocondena\u00e7\u00e3o\u00bb, Verso Books, 2017; Kouvelakis, \u00abNasce Unidade Popular\u00bb, 2015; GreekReporter, 26 de agosto de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^35 Liga Internacional dos Trabalhadores\u2013Quarta Internacional, \u00abO governo de Syriza retira dinheiro dos hospitais para pagar a d\u00edvida,\u00bb 11 de maio de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>^36 LIT-CI, \u00ab\u00a1Nem uma tr\u00e9gua ao governo de Samaras!\u00bb, *Correio Internacional*, julho de 2012; LIT-CI, *Marxismo Vivo*, n.\u00ba 6 e n.\u00ba 7, 2015-2016.<\/p>\n\n\n\n<p>^37 Sobre mecanismos de controle de base: tradi\u00e7\u00e3o do bolchevismo leninista e estatutos tipo da LIT-CI.<\/p>\n\n\n\n<p>^38 LIT-CI, *Marxismo Vivo*, N\u00ba 6, dezembro de 2015; e Trotsky, *O programa de transi\u00e7\u00e3o*, 1938.<\/p>\n\n\n\n<p>^39 LIT-CI, *Marxismo Vivo*, N\u00ba 7, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>^40 LIT-CI, *Marxismo Vivo*, N\u00ba 7 (2016); *Correo Internacional* (2015-2017, 2022-2024).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o A ofensiva do governo de Javier Milei n\u00e3o se limita a ajustar o or\u00e7amento do Estado. Ajusta tamb\u00e9m, e talvez acima de tudo, o horizonte pol\u00edtico da esquerda argentina, submetendo \u00e0 prova suas concep\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas mais arraigadas. Frente a um programa de ajuste de uma profundidade in\u00e9dita desde a crise de 2001, e com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":82881,"menu_order":12,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Florence Oppen","footnotes":""},"categories":[3477,8084,3677],"tags":[6164,9673,9674,9602,6473],"class_list":["post-82880","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-grecia","category-especial-grecia-syriza","category-europa-mundo","tag-austeridade","tag-crise-da-social-democracia","tag-esquerda-argentina","tag-mobilizacao-popular","tag-syriza"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/syriza-1-scaled-1-1.jpg","categories_names":["Especial Gr\u00e9cia-Syriza","Europa","Gr\u00e9cia"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Florence Oppen","tagline":"A experi\u00eancia do SYRIZA revela os limites da concilia\u00e7\u00e3o entre a esquerda e as institui\u00e7\u00f5es do capitalismo.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82880","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82880"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82880\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82884,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82880\/revisions\/82884"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82881"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82880"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}