{"id":82827,"date":"2026-07-22T22:58:47","date_gmt":"2026-07-22T22:58:47","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82827"},"modified":"2026-07-22T22:58:48","modified_gmt":"2026-07-22T22:58:48","slug":"argentina-combater-o-racismo-unir-a-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/07\/22\/argentina-combater-o-racismo-unir-a-classe\/","title":{"rendered":"Argentina: Combater o racismo, unir a classe"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos tempos, a partir de publica\u00e7\u00f5es em redes sociais e de um artigo publicado pelo <em>The Washington Post<\/em> que afirmava que na sele\u00e7\u00e3o argentina n\u00e3o h\u00e1 jogadores negros, somado a diferentes epis\u00f3dios de racismo nos est\u00e1dios de futebol, come\u00e7ou a se instalar a ideia de que todos os argentinos s\u00e3o racistas porque \u00abn\u00e3o t\u00eam negros\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira coisa a dizer \u00e9 que na Argentina o racismo existe e tem uma presen\u00e7a importante.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo \u00e9 que sim existem pessoas afrodescendentes e ind\u00edgenas no pa\u00eds, que h\u00e1 muitos anos v\u00eam travando uma batalha contra o racismo, a invisibiliza\u00e7\u00e3o e as pol\u00edticas de Estado que promoveram uma suposta europeiza\u00e7\u00e3o da Argentina.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta que tenta responder este texto \u00e9 a seguinte: <strong>\u00bfa campanha que sustenta que na Argentina s\u00e3o todos brancos e racistas contribui realmente para combater o racismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contexto hist\u00f3rico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para responder a essa pergunta, \u00e9 importante ter em conta o contexto hist\u00f3rico e o processo que atravessaram a Argentina e a Am\u00e9rica do Sul (com exce\u00e7\u00e3o do Brasil, que estava sob dom\u00ednio portugu\u00eas).<\/p>\n\n\n\n<p>Os escravos africanos chegavam principalmente aos portos de Buenos Aires e Montevid\u00e9u, de onde eram trasladados para o resto dos territ\u00f3rios. Tamb\u00e9m ingressavam atrav\u00e9s da Am\u00e9rica Central entre 1777 e 1812. Embora os registros oficiais indiquem que por ambos os portos ingressaram cerca de 140.000 escravos, diferentes estimativas sustentam que, considerando o tr\u00e1fico ilegal, esse n\u00famero poderia ter alcan\u00e7ado os 300.000.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora esse n\u00famero pare\u00e7a reduzido em compara\u00e7\u00e3o com os milh\u00f5es de escravos que chegaram ao Brasil ou aos Estados Unidos, para a \u00e9poca foi muito significativo. A diferen\u00e7a n\u00e3o reside no fato de que o Vice-Reinado espanhol tenha sido menos escravocrata, mas sim que grande parte da Am\u00e9rica do Sul conseguiu sua independ\u00eancia relativamente cedo, apenas antecedida pela revolu\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia do Haiti.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo independentista contou com uma participa\u00e7\u00e3o decisiva de escravos e ind\u00edgenas, que estiveram na linha de frente de combate. Como apontaria o libertador da Argentina, Chile e Peru, Jos\u00e9 de San Mart\u00edn:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abOs ricos e os propriet\u00e1rios de terras se negam a lutar (\u2026). Um dia se saber\u00e1 que esta p\u00e1tria foi liberada pelos pobres e pelos filhos dos pobres, nossos \u00edndios e os negros que n\u00e3o voltar\u00e3o a ser escravos de ningu\u00e9m.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a derrota do poder colonial espanhol, em 1812 foi decretada a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos e, em 1813, a denominada <strong>Lei da Liberdade dos Ventres<\/strong>, que estabelecia que todo filho de uma mulher escravizada nasceria livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m foi impulsionada a chamada <strong>Lei de Resgate<\/strong>, que obrigava os propriet\u00e1rios de escravos a entregar 40% deles ao Ex\u00e9rcito, garantindo assim que a burguesia n\u00e3o tivesse que enviar seus pr\u00f3prios filhos para combater. Outra disposi\u00e7\u00e3o estabelecia que todo escravo que prestasse cinco anos de servi\u00e7o militar obteria a liberdade, algo que, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, nunca chegou a ser cumprido.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em 1801, haviam sido regulamentadas as forma\u00e7\u00f5es milicianas integradas por afrodescendentes, conhecidas como <strong>Companhias de Granadeiros de Pardos e Morenos<\/strong>. Quando em 1806 ocorreu a Primeira Invas\u00e3o Inglesa, a participa\u00e7\u00e3o de soldados negros foi fundamental na defesa de Buenos Aires.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1806 e 1870, a comunidade afrodescendente participou em praticamente todos os conflitos b\u00e9licos desenvolvidos no territ\u00f3rio. Essa foi uma das principais raz\u00f5es da forte diminui\u00e7\u00e3o de sua popula\u00e7\u00e3o, embora de nenhum modo permita falar de um \u00abdesaparecimento\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Somente para citar um exemplo, entre 1816 e 1823, dos 2.500 soldados negros que iniciaram a Travessia dos Andes, apenas 143 retornaram com vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois viriam a guerra contra o Brasil, as guerras civis entre unit\u00e1rios e federais, as batalhas de Caseros, Cepeda e Pav\u00f3n e, finalmente, a Guerra da Tr\u00edplice Alian\u00e7a contra o Paraguai, que significou um enorme custo humano para a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente.<\/p>\n\n\n\n<p>Era habitual encontrar nas ruas de Buenos Aires sobreviventes dessas guerras mendigando com membros mutilados.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o primeiro levantamento realizado em 1778 para todo o territ\u00f3rio do Vice-Reinado do Rio da Prata, a popula\u00e7\u00e3o classificada como \u00abnegros, mulatos, pardos e zambos\u00bb, tanto livres quanto escravizados, representava 37 % do total.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse mesmo censo registrava porcentagens muito elevadas em distintas jurisdi\u00e7\u00f5es: Santiago del Estero (54 %), Catamarca (52 %), Salta (46 %), C\u00f3rdoba (44 %), Mendoza (24 %), La Rioja (20 %), San Juan (16 %), Jujuy (13 %) e San Luis (8 %). Na cidade de Buenos Aires, 28 % da popula\u00e7\u00e3o era de ascend\u00eancia africana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A invisibiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o afrodescendente como pol\u00edtica de Estado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Parte da pol\u00edtica de branqueamento impulsionada pelo Estado argentino consistiu em promover os casamentos mistos, principalmente entre afrodescendentes e ind\u00edgenas, como um mecanismo para diluir essas identidades dentro da popula\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n\n\n\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de uma Argentina branca, europeia e civilizada, diferenciada do resto da Am\u00e9rica Latina, foi uma pol\u00edtica de Estado que pode ser observada at\u00e9 mesmo na Constitui\u00e7\u00e3o Nacional. O artigo 25 estabelece:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abO Governo federal fomentar\u00e1 a imigra\u00e7\u00e3o europeia; e n\u00e3o poder\u00e1 restringir, limitar nem cobrar imposto algum sobre a entrada no territ\u00f3rio argentino dos estrangeiros que tenham como objetivo cultivar a terra, melhorar as ind\u00fastrias e introduzir e ensinar as ci\u00eancias e as artes.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Esta orienta\u00e7\u00e3o foi aprofundada durante os governos de Mitre e, especialmente, de Sarmiento. Este \u00faltimo sustentou posi\u00e7\u00f5es abertamente racistas e promoveu a elimina\u00e7\u00e3o ou marginaliza\u00e7\u00e3o de ga\u00fachos, ind\u00edgenas e afrodescendentes como parte de seu projeto de construir uma sociedade euroc\u00eantrica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, as popula\u00e7\u00f5es afrodescendentes e ind\u00edgenas foram eliminadas dos censos nacionais durante d\u00e9cadas. Somente no censo de 2010 voltaram a ser incorporadas perguntas destinadas a identificar essas comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O problema de universalizar o racismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para combater o racismo \u00e9 necess\u00e1rio compreender as particularidades hist\u00f3ricas e sociais tanto de quem o exerce quanto de quem o padece.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o presentes em diferentes conflitos nacionais ou \u00e9tnicos do que sistemas hist\u00f3ricos de segrega\u00e7\u00e3o racial como o apartheid sul-africano ou a segrega\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos. Reduzir o racismo unicamente a uma quest\u00e3o de apar\u00eancia f\u00edsica ou transferir mecanicamente uma experi\u00eancia hist\u00f3rica para outra leva a an\u00e1lises simplificadas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 precisamente a partir dessas simplifica\u00e7\u00f5es que se chega a conclus\u00f5es como que \u00abna Argentina n\u00e3o h\u00e1 negros\u00bb ou que toda a sociedade argentina pode ser definida simplesmente como racista pela composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica vis\u00edvel de sua sele\u00e7\u00e3o de futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecer a exist\u00eancia do racismo na Argentina implica tamb\u00e9m reconhecer a hist\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o afrodescendente e ind\u00edgena, as pol\u00edticas de invisibiliza\u00e7\u00e3o impulsionadas pelo Estado e as particularidades que adotou esse processo hist\u00f3rico. Somente a partir dessa compreens\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter uma discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre o racismo e combat\u00ea-lo de maneira efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Combater o racismo, unir a classe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio combater o racismo em todas as suas express\u00f5es e em todos os espa\u00e7os onde se manifesta, como ocorre de maneira massiva nos est\u00e1dios de futebol todos os finais de semana. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o se deve deixar de denunciar que, ano ap\u00f3s ano, a possibilidade de ir a um est\u00e1dio de futebol est\u00e1 se tornando um privil\u00e9gio que est\u00e3o tirando da classe trabalhadora para que fique reservado unicamente aos setores mais abastados da sociedade. Tamb\u00e9m \u00e9 importante ressaltar que esses setores costumam constituir uma parte importante da base eleitoral da ultradireita, representada por dirigentes como Milei, Bolsonaro ou Abelardo de la Espriella, entre outros. A Argentina, assim como todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, \u00e9 um pa\u00eds oprimido pelo imperialismo. N\u00e3o temos nenhuma possibilidade de derrotar o racismo se a pr\u00f3pria classe trabalhadora e os setores populares argentinos n\u00e3o tomarem em suas m\u00e3os essa luta. J\u00e1 deram provas disso, sendo vanguarda em processos como <strong>Ni Una Menos<\/strong>, a Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, assim como na conquista do casamento igualit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sustentar que n\u00e3o existe popula\u00e7\u00e3o afrodescendente ou ind\u00edgena na Argentina porque assim afirma um artigo de um meio estadunidense ou uma publica\u00e7\u00e3o em uma rede social propriedade de Elon Musk s\u00f3 contribui para retroceder a luta desses povos e fortalecer um discurso reacion\u00e1rio e de ultradireita, como o que representam Milei e Trump.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos tempos, a partir de publica\u00e7\u00f5es em redes sociais e de um artigo publicado pelo The Washington Post que afirmava que na sele\u00e7\u00e3o argentina n\u00e3o h\u00e1 jogadores negros, somado a diferentes epis\u00f3dios de racismo nos est\u00e1dios de futebol, come\u00e7ou a se instalar a ideia de que todos os argentinos s\u00e3o racistas porque \u00abn\u00e3o t\u00eam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":82828,"menu_order":10,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Cristian Verite","footnotes":""},"categories":[94,5620],"tags":[9653,9655,9654,9652,9651],"class_list":["post-82827","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-argentina","category-america-latina","tag-invisibilizacao-historica","tag-luta-contra-a-discriminacao","tag-politicas-de-branqueamento","tag-populacao-afrodescendente","tag-racismo-na-argentina"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/28434_Portada-WEB-_62_.webp","categories_names":["Am\u00e9rica Latina","Argentina"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Cristian Verite","tagline":"A luta contra o racismo na Argentina exige reconhecer a hist\u00f3ria e a resist\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es afrodescendentes e ind\u00edgenas.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82827","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82827"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82827\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82830,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82827\/revisions\/82830"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}