{"id":82797,"date":"2026-07-07T17:52:04","date_gmt":"2026-07-07T17:52:04","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82797"},"modified":"2026-07-07T17:52:05","modified_gmt":"2026-07-07T17:52:05","slug":"cuba-a-encruzilhada-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/07\/07\/cuba-a-encruzilhada-da-esquerda\/","title":{"rendered":"Cuba, a encruzilhada da esquerda"},"content":{"rendered":"\n<p>As tend\u00eancias e contra tend\u00eancias na situa\u00e7\u00e3o mundial est\u00e3o colocando em quest\u00e3o as an\u00e1lises (ou a falta delas) de toda a Esquerda mundial no que diz respeito \u00e0 sua compreens\u00e3o da realidade. E a quest\u00e3o de Cuba se destaca como um fator qualitativo, um novo momento decisivo, para o per\u00edodo que se aproxima.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump, ap\u00f3s o acordo que p\u00f4s fim \u00e0 guerra com o Ir\u00e3 &#8211; pelo menos temporariamente -, provavelmente centrar\u00e1 sua aten\u00e7\u00e3o em Cuba. O imperialismo estadunidense est\u00e1 lan\u00e7ando um ataque brutal contra a ilha, com um bloqueio energ\u00e9tico vigente desde o in\u00edcio deste ano, que agrava o bloqueio imposto desde 1962. Trump chegou a declarar, em mar\u00e7o, que teria \u00aba honra\u00bb de \u00abconquistar\u00bb Cuba e que poderia fazer \u00abo que quisesse\u00bb com o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta realidade significa que qualquer an\u00e1lise marxista deve partir necessariamente de uma postura anti-imperialista contra a ofensiva de Trump. Isso implica desafiar as expectativas de quem acredita que a interven\u00e7\u00e3o imperialista pode trazer democracia e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida ao povo cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>O imperialismo estadunidense n\u00e3o tem o menor interesse nas liberdades democr\u00e1ticas nem em elevar o n\u00edvel de vida dos trabalhadores. Nem mesmo nos Estados Unidos, onde Trump ataca sistematicamente as liberdades, buscando sufocar as cr\u00edticas ao seu governo e evitar uma poss\u00edvel derrota eleitoral nas elei\u00e7\u00f5es de fim de ano. A vida dos trabalhadores s\u00f3 piorou desde que Trump chegou ao poder, e essa \u00e9 uma das raz\u00f5es por tr\u00e1s da queda recorde de sua popularidade durante seu segundo mandato.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 ainda mais verdadeiro no exterior. Trump \u00e9 aliado de ditaduras sanguin\u00e1rias, como a Ar\u00e1bia Saudita, assim como do Estado sionista genocida de Israel. O povo venezuelano, cuja maioria depositava grandes esperan\u00e7as em Trump, sofre sob a cont\u00ednua ditadura chavista &#8211; agora aliada de Trump -, sem que tenha melhorado seu n\u00edvel de vida. Nem mesmo foi oferecido um apoio efetivo dos Estados Unidos durante esse terr\u00edvel per\u00edodo posterior ao terremoto.<\/p>\n\n\n\n<p>O interesse de Trump por Cuba deriva do que est\u00e1 estabelecido em seu documento de Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional, publicado em novembro de 2025. Diante do decl\u00ednio do imperialismo estadunidense e da competi\u00e7\u00e3o do imperialismo chin\u00eas em ascens\u00e3o, Trump est\u00e1 reagindo ao tentar impor, por meio da viol\u00eancia e sem disfarces, uma atualiza\u00e7\u00e3o da Doutrina Monroe, convertendo mais uma vez a Am\u00e9rica Latina em seu quintal. Ele quer retroceder no tempo e transformar Cuba, mais uma vez, em uma ditadura subordinada aos Estados Unidos, um para\u00edso tur\u00edstico para os estadunidenses, como era na \u00e9poca de Batista, antes da revolu\u00e7\u00e3o de 1959.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O significado das medidas do governo cubano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 um fato pol\u00edtico fundamental que deve ser explicado. O parlamento cubano aprovou, em junho deste ano, um plano econ\u00f4mico de 176 pontos.<\/p>\n\n\n\n<p>As principais medidas deste plano incluem a participa\u00e7\u00e3o sem restri\u00e7\u00f5es de empresas estrangeiras no setor privado, incluindo a possibilidade de que bancos privados estrangeiros operem no pa\u00eds; a abertura de todo o setor tur\u00edstico do pa\u00eds ao capital estrangeiro; e a transforma\u00e7\u00e3o das empresas estatais em empresas de capital aberto &#8211; em outras palavras, a privatiza\u00e7\u00e3o das empresas estatais. Foi eliminada toda a regulamenta\u00e7\u00e3o salarial, e agora os sal\u00e1rios simplesmente s\u00e3o negociados com as empresas. Al\u00e9m disso, o plano permite a exist\u00eancia de empresas privadas com mais de cem funcion\u00e1rios e permite que as pessoas abram contas em moeda estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, o turismo, o setor banc\u00e1rio, o mercado de c\u00e2mbio e a agricultura se abriram para o investimento privado, tanto nacional quanto estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Anteriormente, o investimento nesses setores era administrado por empresas estatais vinculadas ao capital estrangeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, trata-se de um plano neoliberal extremamente severo que, em qualquer outro pa\u00eds governado pela direita ou pela extrema direita, seria combatido com raz\u00e3o pelos movimentos de esquerda. Um plano menos radical havia desencadeado recentemente uma revolta revolucion\u00e1ria na Bol\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A explica\u00e7\u00e3o dada pelos defensores do regime cubano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o an\u00fancio dessas medidas, instalou-se a confus\u00e3o entre grande parte da vanguarda latino-americana e em todo o mundo. Como explicar este plano, proveniente do governo cubano, o \u00abbasti\u00e3o do socialismo\u00bb?<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o oficial, repetida imediatamente por grande parte do aparato stalinista e reformista em todo o mundo, \u00e9 que \u00abN\u00e3o estamos buscando uma restaura\u00e7\u00e3o capitalista do pa\u00eds. Buscamos melhorar a constru\u00e7\u00e3o do socialismo nas condi\u00e7\u00f5es extremamente adversas em que vivemos hoje\u00bb (D\u00edas Canel, entrevista ao <em>Grupo Corripio<\/em><strong>).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma entrevista, D\u00edas Canel enfatizou que as medidas se inspiraram em \u00abtransforma\u00e7\u00f5es na <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/06\/23\/enviado-especial-do-vietna-conclui-visita-a-cuba-e-reforca-cooperacao-bilateral\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">constru\u00e7\u00e3o do socialismo, como as ocorridas no Vietn\u00e3<\/a> e na China\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es repercutiram essas mesmas posi\u00e7\u00f5es. A revista <em>Brasil de Fato<\/em> afirma em um artigo que \u00abDesde a d\u00e9cada de 1990, os estudiosos cubanos t\u00eam analisado a experi\u00eancia chinesa em busca de li\u00e7\u00f5es sobre como integrar os mercados e o capital privado a uma economia planejada sem perder o controle pol\u00edtico\u00bb (<em>Carlos Mart\u00ednez \u00e9 coeditor de Friends of Socialist China<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Este tipo de postura se baseia na confian\u00e7a que grande parte da vanguarda deposita no Partido Comunista de Cuba, sem se dar ao trabalho de argumentar seriamente o tema. A identidade por si s\u00f3 basta: o controle pol\u00edtico por parte do Partido Comunista da China equivale \u00e0 continuidade do socialismo; o controle pol\u00edtico por parte do Partido Comunista de Cuba equivale \u00e0 continuidade do socialismo em Cuba. A isso se soma o qualificativo \u00absocialismo de mercado\u00bb, para que a \u00abexplica\u00e7\u00e3o\u00bb possa tentar algum tipo de alinhamento com a realidade. E isso \u00e9 tudo, nada mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para este tipo de narrativa, para esta ideologia, a realidade n\u00e3o importa. Nem os fundamentos do marxismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade na China n\u00e3o tem nada a ver com o socialismo. O capitalismo foi restaurado sob a ditadura do Partido Comunista Chin\u00eas em um processo que se iniciou em 1978, com Deng Xiao Ping e foi acelerado ap\u00f3s o massacre da Pra\u00e7a da Paz Celestial. Esse tipo de reformismo n\u00e3o leva em conta a realidade dos trabalhadores chineses, submetidos a uma ditadura brutal que imp\u00f4s sal\u00e1rios extremamente baixos, o que permitiu o crescimento da \u00abf\u00e1brica do mundo\u00bb em associa\u00e7\u00e3o com empresas imperialistas. Os sal\u00e1rios dos trabalhadores de todo o mundo foram reduzidos como resultado do \u00abparadigma chin\u00eas\u00bb: um novo n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o global vinculado ao imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 como justificar o \u00absocialismo de mercado chin\u00eas\u00bb com base nos fundamentos do marxismo. O \u00abmercado\u00bb \u00e9, na verdade, o termo que designa a lei da oferta e da demanda, a express\u00e3o da lei do valor, presente nas sociedades capitalistas, que n\u00e3o tem nada a ver com o socialismo. E, de fato, \u00e9 a lei do valor que prevalece na China.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale a pena recordar o debate nos primeiros anos da URSS sobre a evolu\u00e7\u00e3o da economia. Preobrazhensky, um dos te\u00f3ricos bolcheviques mais respeitados, afirmou que a evolu\u00e7\u00e3o da economia no novo Estado oper\u00e1rio se daria atrav\u00e9s de uma luta entre duas leis. Por um lado, a lei do valor, como express\u00e3o do capitalismo passado, da economia camponesa predominante na maior parte do pa\u00eds e da press\u00e3o do mercado mundial (\u00abA nova economia\u00bb, 1926)<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, Preobrazhensky esbo\u00e7ava um processo de transforma\u00e7\u00e3o de uma economia capitalista, dominada pela lei do valor, e as mudan\u00e7as provocadas pelo que ele denominava a \u00ablei da acumula\u00e7\u00e3o socialista\u00bb, sustentada pelo planejamento estatal, as empresas nacionalizadas e o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o deste conflito entre as duas leis poderia marcar o fortalecimento da economia n\u00e3o capitalista \u2014um produto do novo Estado oper\u00e1rio\u2014 em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 lei do valor herdada do passado capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>A formula\u00e7\u00e3o de Preobrazhensky apresenta limita\u00e7\u00f5es. Trotsky identificou essas limita\u00e7\u00f5es em seu momento: \u00abA an\u00e1lise de nossa economia sob o ponto de vista da intera\u00e7\u00e3o (tanto em seus conflitos quanto em suas harmonias) entre a lei do valor e a lei da acumula\u00e7\u00e3o socialista \u00e9, em princ\u00edpio, uma abordagem extremamente frut\u00edfera; mais precisamente, a \u00fanica correta (\u2026) Mas agora existe um perigo crescente: que essa abordagem metodol\u00f3gica se torne uma perspectiva econ\u00f4mica definitiva que contemple o \u201cdesenvolvimento do socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d. A intera\u00e7\u00e3o entre a lei do valor e a lei da acumula\u00e7\u00e3o socialista deve ser situada no contexto da economia mundial\u00bb. (\u00abNotas sobre quest\u00f5es econ\u00f4micas\u00bb, 1926)<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, Stalin utilizou posteriormente esse enfoque para desmerecer a economia mundial em sua formula\u00e7\u00e3o do \u00absocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra limita\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise de Preobrazhensky \u00e9 o que ele denomina a \u00ablei da acumula\u00e7\u00e3o socialista\u00bb. N\u00e3o se trata de uma acumula\u00e7\u00e3o \u00absocialista\u00bb, mas de uma acumula\u00e7\u00e3o planejada e controlada pela burocracia. Falar dessa maneira ignora a burocratiza\u00e7\u00e3o da URSS e suas implica\u00e7\u00f5es para a pol\u00edtica econ\u00f4mica concreta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum processo hist\u00f3rico \u00e9 id\u00eantico; nenhum processo \u00e9 &#8220;puro&#8221;. Mas, dentro desses limites, esse conflito entre as duas leis tamb\u00e9m pode ser aplicado em sentido contr\u00e1rio, na transi\u00e7\u00e3o da economia n\u00e3o capitalista presente no Estado oper\u00e1rio para a economia capitalista resultante da restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O fim do planejamento econ\u00f4mico, do monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior e da influ\u00eancia decisiva das empresas estatais da China levou a uma nova totalidade, uma nova ess\u00eancia: a economia como um todo passou a ser regida pela lei do valor. J\u00e1 n\u00e3o existia um conflito entre as duas leis descritas por Preobrazhensky, mas, mais uma vez, unicamente a lei do valor.<\/p>\n\n\n\n<p>A planejamento econ\u00f4mico ainda existe na China, mas n\u00e3o tem nada a ver com o planejamento do antigo Estado oper\u00e1rio. O Estado chin\u00eas, a servi\u00e7o dos monop\u00f3lios privados, oferece apoio por meio de incentivos, pesquisa e cr\u00e9dito para impulsionar os lucros dos monop\u00f3lios, sem decidir o que, nem quanto, se produz. Essas decis\u00f5es fundamentais s\u00e3o tomadas pelo &#8220;mercado&#8221;, ou seja, a lei do valor, a oferta e a demanda. Ou, mais precisamente, as decis\u00f5es dos propriet\u00e1rios das grandes empresas oligopol\u00edsticas privadas chinesas, como Huawei, BYD, GWM, Alibaba, Tencent, etc. As empresas estatais chinesas, sejam bancos ou produtoras de meios de produ\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m operam a servi\u00e7o dos principais oligop\u00f3lios chineses.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado da restaura\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 definido pelo n\u00famero de empresas privatizadas, mas pelo fato de que a economia como um todo \u00e9 regida pela lei do valor. A lei do valor opera na China, uma economia capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>A China n\u00e3o \u00e9 apenas capitalista, mas tamb\u00e9m imperialista. Neste s\u00e9culo, ao capitalizar o crescimento de seus monop\u00f3lios impulsionado por seu gigantesco mercado interno, a China experimentou uma mudan\u00e7a qualitativa e se tornou imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>A China atual cumpre com todos os crit\u00e9rios definidos por Lenin em \u00abO imperialismo, fase superior do capitalismo\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>a) a concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o do capital nos monop\u00f3lios: a China atual apresenta um grau de monopoliza\u00e7\u00e3o superior ao de outros pa\u00edses imperialistas<\/p>\n\n\n\n<p>b) a fus\u00e3o do capital banc\u00e1rio com o capital industrial (capital financeiro): os principais monop\u00f3lios chineses contam diretamente com os grandes bancos estatais em sua luta pelo mercado mundial<\/p>\n\n\n\n<p>c) a exporta\u00e7\u00e3o de capital: desde o ano passado, a China \u00e9 o maior exportador mundial de capital, superando at\u00e9 mesmo os Estados Unidos<\/p>\n\n\n\n<p>d) a divis\u00e3o econ\u00f4mica do mundo por parte dos trusts internacionais: a China, uma pot\u00eancia imperialista em ascens\u00e3o, compete com os Estados Unidos \u2014ainda hegem\u00f4nicos, mas em decl\u00ednio\u2014 pelos mercados internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>e) divis\u00e3o territorial do mundo entre as grandes pot\u00eancias: o conflito entre os Estados Unidos e a China \u00e9 um dos fatores mais importantes na crise da atual ordem mundial imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, aqueles que defendem a China como \u00absocialismo de mercado\u00bb s\u00e3o, na verdade, defensores de um pa\u00eds imperialista. N\u00e3o existe um \u00abimperialismo bom\u00bb nem um \u00abimperialismo mau\u00bb. Os trabalhadores devem manter sua independ\u00eancia frente a todas as formas de imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o \u00abmodelo chin\u00eas\u00bb \u00e9 invi\u00e1vel na Cuba atual. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade de que Cuba se torne uma \u00abf\u00e1brica mundial\u00bb, como foi a China. O papel que o imperialismo reserva a Cuba na divis\u00e3o global do trabalho \u00e9 exatamente o que o regime cubano vem tentando h\u00e1 trinta anos: o de um polo tur\u00edstico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As medidas adotadas pelo regime cubano visam \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p> Muitos setores da esquerda n\u00e3o concordam com essa avalia\u00e7\u00e3o do estalinismo. Esses setores criticam abertamente esses planos e afirmam que visam \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em Cuba. <\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o concordamos com esta avalia\u00e7\u00e3o, por uma raz\u00e3o simples. A restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em Cuba j\u00e1 ocorreu na d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na China e na URSS, o pr\u00f3prio Partido Comunista Cubano liderou a restaura\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, seguiu o modelo chin\u00eas, mantendo o controle pol\u00edtico por meio da continuidade da ditadura, mas com um conte\u00fado social diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi abolido o planejamento estatal e dissolvido diretamente o Conselho Central de Planejamento. O monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior deixou de existir. Em setembro de 1995, com a Lei de Investimento Estrangeiro, come\u00e7ou-se a privatizar as empresas estatais.<\/p>\n\n\n\n<p>As empresas estatais foram gradualmente transferidas para o capital estrangeiro, principalmente do imperialismo europeu, sobretudo atrav\u00e9s de empresas mistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A empresa estatal cubana de telecomunica\u00e7\u00f5es (Etecsa) foi privatizada at\u00e9 mesmo antes de outras empresas estatais de telecomunica\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina. Foi transferida para o grupo mexicano Domus e, posteriormente, para uma filial da empresa italiana Telecom.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o m\u00eas passado, as empresas europeias dominavam o principal setor da economia cubana \u2014o turismo\u2014, com multinacionais espanholas como Meli\u00e1 e Iberostar controlando os principais hot\u00e9is e complexos tur\u00edsticos que atendiam a turistas de classe m\u00e9dia da Europa, Am\u00e9rica do Norte e Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>GAESA, empresa administrada pela c\u00fapula cubana \u2014especificamente pela fam\u00edlia de Ra\u00fal Castro\u2014, tem sido a for\u00e7a motriz e o \u00f3rg\u00e3o reitor por tr\u00e1s de todo o processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista em Cuba at\u00e9 o momento. Segundo fontes independentes, esta empresa controla entre 40% e 70% da economia cubana. Foi atrav\u00e9s de Gaviota, uma filial da GAESA, que se estabeleceram alian\u00e7as com empresas espanholas do setor tur\u00edstico.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, as empresas mistas controlam a extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, ferro, n\u00edquel e cimento; a produ\u00e7\u00e3o de sab\u00e3o e perfumaria; a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de telecomunica\u00e7\u00f5es; e a maior parte da agroind\u00fastria. O rum cubano \u00e9 controlado pela empresa francesa <em>Pernod<\/em>. Os charutos cubanos s\u00e3o comercializados por uma <em>joint venture<\/em> entre a empresa estatal cubana e <em>Altadis<\/em>, parte do grupo brit\u00e2nico <em>Imperial Tobacco Group PLC<\/em>. O Aeroporto Internacional de Havana foi privatizado e vendido \u00e0 empresa francesa <em>A\u00e9roports<\/em> <em>de Paris<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Se aplicarmos os crit\u00e9rios marxistas utilizados para definir a situa\u00e7\u00e3o na China, chegaremos \u00e0s mesmas conclus\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o a Cuba. O fim do monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior, do planejamento estatal e do papel central que desempenhavam as empresas estatais na economia levou a uma nova realidade na ilha: o reinado da lei do valor e do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a lei do valor que provocou a mudan\u00e7a mais significativa na economia cubana: a virada para o turismo. Esta estrat\u00e9gia, adotada pelo regime cubano, buscava se adaptar \u00e0 mesma realidade de mercado presente em todo o Caribe: o objetivo de transformar Cuba em um destino tur\u00edstico t\u00e3o importante quanto Canc\u00fan (M\u00e9xico) ou Punta Cana (Rep\u00fablica Dominicana).<\/p>\n\n\n\n<p>E esta estrat\u00e9gia teve um sucesso relativo nos primeiros anos, sob uma perspectiva capitalista. O n\u00famero de turistas chegou a quase 5 milh\u00f5es em 2019. A pandemia mudou tudo, e o n\u00famero de visitantes despencou a partir desse momento. Em 2025, havia apenas 1,8 milh\u00f5es de turistas. E em 2026, com o bloqueio energ\u00e9tico e a escassez de energia, o fracasso \u00e9 absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o foi liderada por altos oficiais militares, com a fam\u00edlia de Ra\u00fal Castro no comando. Isso levou a uma desigualdade crescente, com o povo cubano vivendo na pobreza, enquanto a nova burguesia cubana, que cresceu \u00e0 sombra do aparato estatal, desfruta de privil\u00e9gios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O impacto do bloqueio dos EUA.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O bloqueio dos EUA contra Cuba foi uma rea\u00e7\u00e3o imperialista \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o de 1959. Come\u00e7ou em 1960 e foi formalizado por Kennedy em 1962. Esta brutal medida imperialista causou, e continua causando, graves preju\u00edzos ao povo cubano. Constitui um ataque do pa\u00eds imperialista mais poderoso do mundo contra uma pequena ilha a 150 km de sua costa.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei Helms-Burton, de 1996, agravou severamente o bloqueio ao penalizar as empresas que mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es comerciais com Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que a burguesia imperialista dos EUA n\u00e3o faz o mesmo que sua contraparte europeia, que foi e continua sendo parte da restaura\u00e7\u00e3o capitalista na ilha? A explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na burguesia cubana radicada em Miami, que foi expropriada pela revolu\u00e7\u00e3o em 1959. Esses elementos burgueses se integraram \u00e0 burguesia imperialista dos EUA e exercem uma influ\u00eancia consider\u00e1vel nos partidos Republicano e Democrata.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump endureceu severamente o bloqueio desde o in\u00edcio de 2026, ap\u00f3s a invas\u00e3o da Venezuela e a apreens\u00e3o de seu petr\u00f3leo. Bloqueou o envio de petr\u00f3leo venezuelano a Cuba e amea\u00e7ou qualquer pa\u00eds disposto a vender petr\u00f3leo \u00e0 ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao fazer isso, imp\u00f4s um bloqueio energ\u00e9tico que paralisou o fornecimento el\u00e9trico de Cuba. O pa\u00eds conta com uma infraestrutura obsoleta e deteriorada que continua dependendo de usinas termel\u00e9tricas a petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um setor da burguesia imperialista dos EUA que se op\u00f5e ao bloqueio. No entanto, a fac\u00e7\u00e3o a favor do bloqueio continua sendo a maioria, pelo menos por enquanto, e busca derrubar a ditadura de Castro e recuperar suas empresas expropriadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essas raz\u00f5es, lutamos contra esse bloqueio h\u00e1 mais de cinquenta anos. Da mesma forma, apoiamos Cuba contra todas as tentativas de interven\u00e7\u00e3o militar imperialista, como a fracassada invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos. Por essa mesma raz\u00e3o, denunciamos o atual bloqueio energ\u00e9tico de Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>A propaganda estalinista atribuiu todos os problemas da ilha ao bloqueio imperialista. N\u00e3o concordamos com isso. Existem os efeitos da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em Cuba, assim como os resultados desastrosos dos planos econ\u00f4micos do governo sobre o n\u00edvel de vida dos cubanos. Mas n\u00e3o ignoramos os graves efeitos do bloqueio sobre Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A realidade pol\u00edtica em Cuba hoje<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estivemos em Havana em mar\u00e7o deste ano. Nosso objetivo principal era mostrar solidariedade com o povo cubano frente ao bloqueio genocida de Trump. Levamos antibi\u00f3ticos para os hospitais e alimentos para a popula\u00e7\u00e3o, na medida em que nossos recursos permitiram.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso segundo objetivo era compreender o que estava acontecendo com o povo cubano. A crise era evidente em todos os lugares. Nas ruas de Havana hoje em dia, v\u00ea-se pessoas desempregadas com o olhar vazio de desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante toda a nossa estadia em Havana, houve mais per\u00edodos sem eletricidade do que com ela. As pilhas de lixo nas ruas refletem um panorama de decad\u00eancia. No entanto, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel ver carros de luxo, como Porsches e BMW, que pertencem \u00e0 nova burguesia cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>O PIB de Cuba caiu cerca de 15% entre 2020 e 2025. Prev\u00ea-se uma queda de 6,5% no PIB para 2026 (dados da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe, CEPAL).<\/p>\n\n\n\n<p>O povo cubano odeia a ditadura, tanto pela pobreza quanto pela repress\u00e3o constante. At\u00e9 a data, h\u00e1 cerca de 600 presos pol\u00edticos dos protestos de 11 de julho, muitos deles adolescentes condenados a penas de entre 15 e 20 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A ditadura impede qualquer vida pol\u00edtica ativa em Cuba. N\u00e3o h\u00e1 sindicatos livres em Cuba. A CSP Conlutas, um sindicato e organiza\u00e7\u00e3o popular apoiada pelo PSTU, seria ilegal em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00abcacerolazos\u00bb (protestos com batidas de panelas) em Cuba contra os cortes de energia ocorrem quase diariamente e s\u00e3o reprimidos com frequ\u00eancia pela pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>O sal\u00e1rio m\u00ednimo em Cuba hoje equivale a 5 d\u00f3lares americanos. Os alimentos, quando podem ser conseguidos, t\u00eam pre\u00e7os similares aos do Brasil. Uma d\u00fazia de ovos custa 2,40 d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p>A mis\u00e9ria do povo cubano hoje \u00e9 o oposto da realidade que existia quando o Estado oper\u00e1rio cubano ainda estava em vigor. Naquela \u00e9poca, o bloqueio imperialista tamb\u00e9m estava em vigor. Mas, apesar da ditadura cubana, ainda existia um Estado oper\u00e1rio. As conquistas sociais, como a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade para o povo, eram motivo de orgulho para a popula\u00e7\u00e3o e para a esquerda mundial. Isso j\u00e1 n\u00e3o existe. Hoje em dia, nem mesmo existe mais a sa\u00fade p\u00fablica. Um ativista nos disse que \u00e9 imposs\u00edvel consultar um m\u00e9dico em Cuba sem pagar um suborno a algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Conversamos longamente com ativistas cubanos do grupo <em>Socialistas en Lucha<\/em>, um grupo de esquerda cr\u00edtico com o regime e anti-imperialista. Eles nos disseram que as massas cubanas romperam definitivamente com a ditadura. E, contra a tradi\u00e7\u00e3o anti-imperialista de Cuba, depositam grandes esperan\u00e7as em Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo similar ao que ocorreu com as massas venezuelanas est\u00e1 acontecendo em Cuba. Durante a invas\u00e3o dos EUA, o povo n\u00e3o saiu \u00e0s ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficaram em suas casas. N\u00e3o apoiaram a ditadura de Maduro de maneira nenhuma. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se sentiram seguros o suficiente para protestar, por medo da repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns ativistas da esquerda cubana cr\u00edtica estimam que o apoio a Trump entre a popula\u00e7\u00e3o cubana oscila entre 60 % e 80 %. A culpa desse retrocesso na consci\u00eancia das massas cubanas recai inteiramente sobre a ditadura cubana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O verdadeiro significado das reformas aprovadas pelo regime cubano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Qual \u00e9 o significado mais profundo do plano aprovado pelo regime cubano? J\u00e1 vimos que n\u00e3o se trata de um \u00abcaminho para a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo\u00bb, que j\u00e1 ocorreu.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, o plano \u00e9 um passo gigantesco em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 recoloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds por parte do imperialismo estadunidense. \u00c9 uma porta aberta para que a burguesia cubana de Miami recolonize Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aproximadamente um m\u00eas, a rede espanhola Meli\u00e1 anunciou o fechamento de 15 de seus 34 hot\u00e9is na ilha. Outra empresa espanhola, Iberostar, retirou-se de 12 de seus 16 hot\u00e9is na ilha. A empresa canadense Blue Diamond abandonou todas as suas opera\u00e7\u00f5es no pa\u00eds. A maior rede hoteleira do sudeste asi\u00e1tico, Archipelago International, retirou sua filial Aston de v\u00e1rios hot\u00e9is em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, com o plano aprovado pelo regime cubano, surgiu a possibilidade de transferir o controle deste complexo hoteleiro para as m\u00e3os dos EUA. E com as novas medidas aprovadas, as cadeias hoteleiras dos EUA nem mesmo precisar\u00e3o estar diretamente associadas com a GAESA.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, agora se abre a porta para que os bancos americanos operem diretamente em Cuba, assim como em outros setores da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump n\u00e3o s\u00f3 quer expulsar a China da Am\u00e9rica Latina, mas tamb\u00e9m est\u00e1 aproveitando a oportunidade para anular a vantagem que o imperialismo europeu tinha em Cuba, tendo desempenhado um papel destacado durante aqueles anos de restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um fato evidente que essas negocia\u00e7\u00f5es entre a ditadura cubana e o imperialismo estadunidense est\u00e3o ocorrendo, fato que o governo cubano reconheceu explicitamente desde o m\u00eas passado de mar\u00e7o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEstas negocia\u00e7\u00f5es t\u00eam como objetivo encontrar solu\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s do di\u00e1logo, para as diverg\u00eancias bilaterais entre ambas as na\u00e7\u00f5es\u201d, disse D\u00edaz-Canel em um v\u00eddeo transmitido pela televis\u00e3o estatal pouco antes de seu discurso \u00e0 imprensa cubana. (G1, 13 de mar\u00e7o de 2026)<\/p>\n\n\n\n<p>O plano atual, aprovado pelo regime cubano, \u00e9, portanto, resultado de negocia\u00e7\u00f5es com Trump desde o m\u00eas passado de mar\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns setores da imprensa informam que est\u00e3o sendo realizadas negocia\u00e7\u00f5es diretas entre o setor da burguesia cubana em Miami que defende a recoloniza\u00e7\u00e3o \u2014mantendo a ditadura cubana\u2014 e a fam\u00edlia de Ra\u00fal Castro, em particular \u00abEl Cangrejo\u00bb, apelido do neto de Ra\u00fal.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses setores afirmam que o plano desse setor da burguesia para Cuba inclui os portos de Mariel e Havana como parte do sistema portu\u00e1rio dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>O plano aprovado pelo Congresso cubano tem, portanto, um significado espec\u00edfico: o regime cubano pretende replicar o processo venezuelano e adotar uma postura similar \u00e0 de Delcy Rodr\u00edguez. E isso sem,, sequer exigir uma invas\u00e3o militar dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Se essa hip\u00f3tese se confirmar, vai ocorrer uma crise pol\u00edtica e ideol\u00f3gica muito importante na esquerda latino-americana. Cuba tem uma import\u00e2ncia hist\u00f3rica e pol\u00edtica gigantesca por ter sido a \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o socialista vitoriosa na Am\u00e9rica Latina. Vai ser dif\u00edcil conseguir manter a narrativa de \u201cuma adequa\u00e7\u00e3o t\u00e1tica\u201d tendo Raul Castro como uma nova vers\u00e3o de Delcy Rodriguez.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, essas negocia\u00e7\u00f5es ainda continuam. A outra fac\u00e7\u00e3o da burguesia cubana em Miami, que se op\u00f5e a este acordo e defende uma invas\u00e3o de Cuba para governar diretamente o pa\u00eds, tem um peso consider\u00e1vel e, at\u00e9 o momento, ostenta a maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia cubana em Miami, com todas as suas fac\u00e7\u00f5es, exerce muito mais influ\u00eancia sobre Trump do que a oposi\u00e7\u00e3o burguesa venezuelana de Mar\u00eda Corina Machado na Venezuela, porque faz parte da mesma burguesia imperialista norte-americana.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump e seu secret\u00e1rio, Marcos Rubio, est\u00e3o avaliando as melhores op\u00e7\u00f5es para o imperialismo norte-americano. Se optarem pelo setor da burguesia cubana que defende a invas\u00e3o, n\u00e3o aceitar\u00e3o esta capitula\u00e7\u00e3o do regime cubano e exigir\u00e3o o desmantelamento do regime e da GAESA para assumir o controle direto do governo cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esse fim, Trump continua preparando uma invas\u00e3o militar. O porta-avi\u00f5es nuclear americano USS Nimitz e seu grupo de ataque permanecem na regi\u00e3o do Caribe. O processo judicial americano contra Ra\u00fal Castro segue em andamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as possibilidades continuam abertas em Cuba. Nenhuma dessas duas alternativas oferece alguma vantagem \u00e0s massas cubanas. A \u00fanica possibilidade real que poderia beneficiar o povo cubano seria o surgimento de um movimento de massas, revivendo as mobiliza\u00e7\u00f5es de 11 de julho de 2021, o que poderia inaugurar um novo cap\u00edtulo na hist\u00f3ria de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel lutar contra Trump?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, \u00e9 poss\u00edvel. Mas isso exigiria fazer o contr\u00e1rio do que est\u00e1 fazendo o regime cubano. A \u00fanica maneira de impedir a recoloniza\u00e7\u00e3o de Cuba e de enfrentar Trump \u00e9 contar com o movimento de massas, tanto dentro de Cuba quanto no exterior. Em particular, nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo cubano, at\u00e9 agora, seguiu a estrat\u00e9gia oposta: negocia com o imperialismo, reprime seu pr\u00f3prio povo e n\u00e3o recorre \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de massas contra Trump. Seu racioc\u00ednio se baseia quase sempre no mesmo argumento: o desequil\u00edbrio de for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>O desequil\u00edbrio de for\u00e7as \u00e9, de fato, desfavor\u00e1vel para Cuba. Mas a hist\u00f3ria cubana j\u00e1 demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel derrotar o imperialismo estadunidense. Em 1961, Cuba repeliu a invas\u00e3o estadunidense na Ba\u00eda dos Porcos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela, uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular derrotou a tentativa de golpe de Estado perpetrada pelas For\u00e7as Armadas venezuelanas contra Ch\u00e1vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma combina\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia militar contra a invas\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o massiva em Cuba e uma alian\u00e7a ativa com as lutas dos trabalhadores norte-americanos contra Trump seria a \u00fanica alternativa real para mudar o equil\u00edbrio de for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, o regime cubano teria que libertar os presos pol\u00edticos, convocar uma mobiliza\u00e7\u00e3o massiva e entregar armas aos trabalhadores. A ditadura cubana, pelo menos at\u00e9 agora, est\u00e1 fazendo o contr\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 mobiliza\u00e7\u00e3o de massas dentro de Cuba, nem qualquer conex\u00e3o com as mobiliza\u00e7\u00f5es de massas nos EUA. Mant\u00e9m uma postura repressiva em rela\u00e7\u00e3o ao povo cubano, enquanto negocia com Trump e a burguesia de Miami. Defendemos que as massas retomem seu papel de lideran\u00e7a em Cuba, com um novo e mais forte 11 de julho. Defendemos amplas liberdades democr\u00e1ticas na ilha, come\u00e7ando pela liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos. Esse \u00e9 o \u00fanico caminho, n\u00e3o apenas para tentar impedir a recoloniza\u00e7\u00e3o de Cuba, mas tamb\u00e9m para retomar o caminho em dire\u00e7\u00e3o a uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista na ilha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As tend\u00eancias e contra tend\u00eancias na situa\u00e7\u00e3o mundial est\u00e3o colocando em quest\u00e3o as an\u00e1lises (ou a falta delas) de toda a Esquerda mundial no que diz respeito \u00e0 sua compreens\u00e3o da realidade. E a quest\u00e3o de Cuba se destaca como um fator qualitativo, um novo momento decisivo, para o per\u00edodo que se aproxima. 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