{"id":82781,"date":"2026-06-30T12:24:39","date_gmt":"2026-06-30T12:24:39","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82781"},"modified":"2026-06-30T12:26:59","modified_gmt":"2026-06-30T12:26:59","slug":"licoes-da-luta-e-da-rebeliao-popular-na-bolivia-em-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/06\/30\/licoes-da-luta-e-da-rebeliao-popular-na-bolivia-em-2026\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es da luta e da rebeli\u00e3o popular na Bol\u00edvia em 2026"},"content":{"rendered":"\n<p>Ap\u00f3s 54 dias do in\u00edcio das intensas mobiliza\u00e7\u00f5es, paralisa\u00e7\u00f5es e bloqueios que paralisaram o pa\u00eds por mais de 51 dias, a Bol\u00edvia vive um momento de relativo retorno \u00e0 normalidade anterior aos bloqueios. Ainda persistem alguns pontos de restri\u00e7\u00e3o ao tr\u00e2nsito de ve\u00edculos, e j\u00e1 se observam novas manifesta\u00e7\u00f5es de motoristas em raz\u00e3o da escassez de combust\u00edveis, da falta de d\u00f3lares e do aumento do custo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O que come\u00e7ou como uma revolta generalizada envolvendo trabalhadores urbanos, camponeses, ind\u00edgenas, a juventude e amplos setores populares contra o governo de Rodrigo Paz e sua pol\u00edtica econ\u00f4mica de ajuste e austeridade \u2014 alinhada aos interesses do imperialismo norte-americano e \u00e0s pol\u00edticas defendidas pelo governo Trump \u2014 sofreu um importante rev\u00e9s ap\u00f3s a mudan\u00e7a de postura da dire\u00e7\u00e3o da COB (Central Oper\u00e1ria Boliviana).<\/p>\n\n\n\n<p>A CSP-Conlutas esteve presente na Reuni\u00e3o Ampliada da COB, realizada em 31 de maio de 2026, onde teve a oportunidade de se pronunciar e entregar uma carta \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da central e aos dirigentes presentes. Na ocasi\u00e3o, destacamos a import\u00e2ncia da luta em curso, manifestamos o apoio e a solidariedade da nossa central sindical e popular, repudiamos a posi\u00e7\u00e3o do governo Lula (PT), que apoiou o governo de Rodrigo Paz, e reafirmamos que est\u00e1vamos ali para aprender com as mobiliza\u00e7\u00f5es e bloqueios organizados pelos trabalhadores e pelo povo boliviano contra a pol\u00edtica econ\u00f4mica de austeridade imposta pelo governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m estivemos nos bloqueios instalados no ped\u00e1gio da rodovia entre El Alto e La Paz e na rodovia que segue para Copacabana, na regi\u00e3o de Rio Seco. Conversamos com manifestantes, realizamos entrevistas, gravamos v\u00eddeos e expressamos nossa solidariedade aos lutadores e dirigentes de base que estavam \u00e0 frente das mobiliza\u00e7\u00f5es. Participamos ainda da grande marcha nacional de 10 de junho, que saiu do bloqueio da rodovia entre El Alto e La Paz em dire\u00e7\u00e3o ao Pal\u00e1cio do Governo, demonstrando toda a for\u00e7a do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos primeiros momentos da mobiliza\u00e7\u00e3o, dirigentes da COB defendiam a continuidade da luta, recusavam negocia\u00e7\u00f5es com o governo e levantavam a palavra de ordem: \u201c\u00a1Compa\u00f1eros, qu\u00e9 queremos? \u00a1Renuncia! \u00bfCu\u00e1ndo? \u00a1Ahora! \u00bfCu\u00e1ndo carajo? \u00a1Ahora, carajo!\u201d. A exig\u00eancia central era a ren\u00fancia de Rodrigo Paz. Posteriormente, passaram a defender a abertura de negocia\u00e7\u00f5es condicionadas \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos. Vale lembrar que, durante seus sete meses de governo, Rodrigo Paz n\u00e3o cumpriu suas principais promessas de campanha nem os acordos firmados anteriormente com diversos setores sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na noite de 19 de junho, a dire\u00e7\u00e3o da COB concluiu um processo de negocia\u00e7\u00e3o que resultou na assinatura de um acordo sem garantias concretas para a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos nem para o atendimento das reivindica\u00e7\u00f5es populares. Logo ap\u00f3s a assinatura do acordo, o governo Rodrigo Paz decretou o Estado de Emerg\u00eancia (Estado de Exce\u00e7\u00e3o), aproveitando-se do novo cen\u00e1rio pol\u00edtico criado pela negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na madrugada de 20 de junho, quando ainda existiam cerca de 50 pontos de bloqueio ativos em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds, teve in\u00edcio uma ampla opera\u00e7\u00e3o repressiva contra os manifestantes. Mesmo antes da aprecia\u00e7\u00e3o da medida pela Assembleia Legislativa Plurinacional, conforme prev\u00ea a legisla\u00e7\u00e3o boliviana, for\u00e7as policiais e militares come\u00e7aram a desocupar estradas e militarizar as \u00e1reas de conflito. Essa ofensiva contribuiu para desarticular os bloqueios e enfraquecer a coordena\u00e7\u00e3o nacional das mobiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00f5es como a Federa\u00e7\u00e3o Camponesa Tupac Katari, as Bartolinas Sisa e os Ponchos Rojos, entre outras, convocaram assembleias e reuni\u00f5es de base para avaliar a conjuntura e discutir os pr\u00f3ximos passos da luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio n\u00e3o representa o fim das causas que deram origem \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es e aos bloqueios. Pelo contr\u00e1rio, os problemas econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos que impulsionaram a rebeli\u00e3o continuam presentes e podem at\u00e9 se aprofundar. O encerramento dos bloqueios marca apenas o fim de uma etapa da luta, da qual emergem importantes li\u00e7\u00f5es sobre organiza\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e t\u00e1ticas de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o processo, alguns setores acabaram aceitando negocia\u00e7\u00f5es separadas com o governo para atender demandas espec\u00edficas de suas categorias, entre eles mineiros, transportistas, trabalhadores da ind\u00fastria e da educa\u00e7\u00e3o. Essa fragmenta\u00e7\u00e3o contribuiu para enfraquecer a unidade do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a assinatura do acordo entre a COB e o governo, diversos dirigentes dos movimentos sociais passaram a denunciar o que consideram uma trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da central sindical. Tamb\u00e9m surgiram cr\u00edticas \u00e0 t\u00e1tica adotada por algumas dire\u00e7\u00f5es do movimento campon\u00eas, especialmente da Federa\u00e7\u00e3o Tupac Katari, que concentraram suas a\u00e7\u00f5es nos bloqueios sem avan\u00e7ar suficientemente na constru\u00e7\u00e3o de uma maior unidade entre os diversos setores mobilizados, contribuindo para o desgaste e o cansa\u00e7o do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a proximidade do Solst\u00edcio de Inverno e das celebra\u00e7\u00f5es do Ano Novo Andino, Amaz\u00f4nico e Chaque\u00f1o, realizadas em 21 de junho, diversas organiza\u00e7\u00f5es orientaram seus militantes a retornarem temporariamente \u00e0s suas comunidades para participar das celebra\u00e7\u00f5es e realizar avalia\u00e7\u00f5es coletivas sobre os rumos da luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a CSP-Conlutas considera um erro grav\u00edssimo da dire\u00e7\u00e3o da COB ter iniciado negocia\u00e7\u00f5es com o governo Rodrigo Paz, n\u00e3o ter adotado uma postura mais firme perante suas entidades filiadas para impedir negocia\u00e7\u00f5es isoladas e ter assinado um acordo sem garantias de liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos, de cumprimento dos compromissos assumidos e de n\u00e3o criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais por sua participa\u00e7\u00e3o nas mobiliza\u00e7\u00f5es e bloqueios. Dessa forma, deixou de cumprir as delibera\u00e7\u00f5es aprovadas pelas bases, como ocorreu no Cabildo (Assembleia) da FEJUVE, realizado em 2 de junho de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O DESFECHO DA LUTA: DA RESIST\u00caNCIA AO RECUO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos momentos mais importantes da rebeli\u00e3o foi a instala\u00e7\u00e3o de mais de 100 pontos de bloqueio em sete departamentos do pa\u00eds. A paralisa\u00e7\u00e3o provocou graves problemas de abastecimento, especialmente nas cidades de La Paz e El Alto, al\u00e9m de significativas perdas econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto alto ocorreu na marcha nacional de 10 de junho, que reuniu entre 40 mil e 50 mil manifestantes em dire\u00e7\u00e3o ao Pal\u00e1cio do Governo para exigir a ren\u00fancia de Rodrigo Paz.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o desfecho do processo revelou importantes fragilidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise de dire\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o da c\u00fapula da COB, liderada por Mario Argollo, de negociar com o governo e defender o encerramento dos bloqueios, n\u00e3o cumprindo o votado no Cabildo (assembleia) da FEJUVE de 02\/06\/26, sem uma nova ampla consulta \u00e0s bases e sem garantias concretas para o atendimento das reivindica\u00e7\u00f5es populares \u2014 incluindo a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos \u2014 \u00e9 apontada por diversos movimentos sociais como um dos principais fatores que contribu\u00edram para a desmobiliza\u00e7\u00e3o do processo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O uso da for\u00e7a estatal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A decreta\u00e7\u00e3o do Estado de Emerg\u00eancia e a mobiliza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas para desobstruir as rodovias permitiram ao governo recuperar o controle das principais vias de circula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O enfraquecimento pol\u00edtico provocado pelo acordo com a COB facilitou a a\u00e7\u00e3o repressiva e reduziu a capacidade de resist\u00eancia organizada dos manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A fragmenta\u00e7\u00e3o da luta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora setores de El Alto e de outras regi\u00f5es tenham buscado manter a resist\u00eancia, a retirada de importantes organiza\u00e7\u00f5es sociais e a aus\u00eancia de uma coordena\u00e7\u00e3o nacional unificada fragmentaram a for\u00e7a do movimento, contribuindo para um cen\u00e1rio de refluxo das mobiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>LI\u00c7\u00d5ES E CONCLUS\u00d5ES PARA O FUTURO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O processo pol\u00edtico boliviano exp\u00f4s a profundidade da crise nacional e os desafios para sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>1. A necessidade de novas dire\u00e7\u00f5es<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia de 2026 refor\u00e7a a necessidade de renova\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es sindicais, populares, camponesas e ind\u00edgenas. Dire\u00e7\u00f5es que se afastam das bases e privilegiam negocia\u00e7\u00f5es sem resultados concretos tendem a perder legitimidade e capacidade de representar os interesses dos trabalhadores e do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Os limites das mobiliza\u00e7\u00f5es sem um plano estrat\u00e9gico<\/p>\n\n\n\n<p>Os bloqueios demonstraram grande capacidade de press\u00e3o, mas tamb\u00e9m revelaram seus limites quando n\u00e3o articulados com um plano nacional de luta, com a unidade entre trabalhadores urbanos, mineiros, camponeses, ind\u00edgenas e juventude, e com uma alternativa pol\u00edtica capaz de apontar uma sa\u00edda para a crise.<\/p>\n\n\n\n<p>3. A perman\u00eancia da crise estrutural<\/p>\n\n\n\n<p>O fim dos bloqueios n\u00e3o resolveu os problemas centrais da popula\u00e7\u00e3o boliviana. As filas por combust\u00edveis, a escassez de d\u00f3lares, a infla\u00e7\u00e3o e os debates sobre privatiza\u00e7\u00f5es continuam alimentando o descontentamento popular. O governo venceu uma batalha conjuntural, mas n\u00e3o eliminou as causas profundas da crise.<\/p>\n\n\n\n<p>4. A criminaliza\u00e7\u00e3o da luta social<\/p>\n\n\n\n<p>A tentativa de reduzir a rebeli\u00e3o popular \u00e0 influ\u00eancia de figuras pol\u00edticas como Evo Morales busca ocultar o protagonismo das bases populares e deslegitimar reivindica\u00e7\u00f5es que t\u00eam origem nas condi\u00e7\u00f5es concretas de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>AS TAREFAS DO PR\u00d3XIMO PER\u00cdODO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Bol\u00edvia atravessa uma nova etapa de reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social. A disputa pelo futuro do pa\u00eds, pela soberania sobre seus recursos naturais e pelos direitos da classe trabalhadora est\u00e1 longe de terminar.<\/p>\n\n\n\n<p>A vit\u00f3ria moment\u00e2nea do governo n\u00e3o apaga a import\u00e2ncia hist\u00f3rica da rebeli\u00e3o de 2026. Pelo contr\u00e1rio, demonstrou que amplos setores da sociedade boliviana mant\u00eam sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a CSP-Conlutas defende a reorganiza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e sindicais, o fortalecimento da democracia de base e a constru\u00e7\u00e3o da unidade entre trabalhadores urbanos, camponeses, ind\u00edgenas, juventude e demais setores populares.<\/p>\n\n\n\n<p>A principal tarefa do pr\u00f3ximo per\u00edodo \u00e9 promover reuni\u00f5es, assembleias, semin\u00e1rios e congressos democr\u00e1ticos de base, garantindo ampla participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e do povo para realizar um balan\u00e7o das mobiliza\u00e7\u00f5es, discutir os erros e acertos do processo e construir um plano de reorganiza\u00e7\u00e3o das entidades de luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa reorganiza\u00e7\u00e3o deve apontar para a constru\u00e7\u00e3o de uma ampla unidade nacional capaz de enfrentar os ataques \u00e0 soberania nacional, aos recursos naturais e aos direitos do povo boliviano, tendo como perspectiva a constru\u00e7\u00e3o de uma greve geral que unifique todos os setores em luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, \u00e9 fundamental fortalecer a solidariedade internacional entre os trabalhadores da Am\u00e9rica Latina e do mundo contra as pol\u00edticas de austeridade impostas pelos governos e pelos interesses imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazemos um chamado a todos os trabalhadores e trabalhadoras para fortalecerem suas lutas, ampliarem a solidariedade internacional e se somarem \u00e0 Rede Internacional de Solidariedade e Luta, contribuindo para a constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira alternativa da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhadores de todos os pa\u00edses, uni-vos!<\/p>\n\n\n\n<p>Aldierio Pereira, dirigente CSP Conlutas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s 54 dias do in\u00edcio das intensas mobiliza\u00e7\u00f5es, paralisa\u00e7\u00f5es e bloqueios que paralisaram o pa\u00eds por mais de 51 dias, a Bol\u00edvia vive um momento de relativo retorno \u00e0 normalidade anterior aos bloqueios. 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