{"id":82770,"date":"2026-06-27T22:59:59","date_gmt":"2026-06-27T22:59:59","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82770"},"modified":"2026-06-27T23:00:37","modified_gmt":"2026-06-27T23:00:37","slug":"clima-fome-e-imperialismo-as-licoes-esquecidas-do-super-el-nino-que-matou-30-milhoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/06\/27\/clima-fome-e-imperialismo-as-licoes-esquecidas-do-super-el-nino-que-matou-30-milhoes\/","title":{"rendered":"Clima, fome e imperialismo: as li\u00e7\u00f5es esquecidas do super El Ni\u00f1o que matou 30 milh\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>As principais ag\u00eancias meteorol\u00f3gicas j\u00e1 confirmaram a chegada de um super El Ni\u00f1o\u00a0 em 2026, e cientistas de todo o mundo alertam para consequ\u00eancias devastadoras. Muitos temem que o fen\u00f4meno possa virar a chave do sistema clim\u00e1tico da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho muito a dizer sobre o super El Ni\u00f1o de 2026 e sobre os impactos que ele pode provocar. Mas neste artigo vou expor as consequ\u00eancias de um outro super El Ni\u00f1o, o de 1877, que muitos apontam como o melhor paralelo hist\u00f3rico para o que pode estar por vir.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele evento clim\u00e1tico desencadeou uma das maiores cat\u00e1strofes humanas da hist\u00f3ria. Estima-se que mais de 30 milh\u00f5es de pessoas morreram em consequ\u00eancia das grandes fomes que atingiram a \u00c1sia, a \u00c1frica e partes da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, h\u00e1 um detalhe fundamental: n\u00e3o foi o El Ni\u00f1o que matou essas pessoas. O que transformou uma seca numa trag\u00e9dia de propor\u00e7\u00f5es gigantescas foi o nascimento e a expans\u00e3o do imperialismo colonial \u2014 que destruiu economias camponesas, subordinou povos inteiros ao mercado mundial e condenou milh\u00f5es \u00e0 fome. \u00c9 essa hist\u00f3ria que vamos contar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A paisagem da fome<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender a dimens\u00e3o do que se passou, comecemos por uma hist\u00f3ria peculiar: a viagem de f\u00e9rias de Ulisses Grant, presidente dos Estados Unidos nos anos 1870. Grant \u00e9 mais conhecido por ter liderado as tropas da Uni\u00e3o na Guerra Civil Americana, mas sua presid\u00eancia tamb\u00e9m ficou marcada por in\u00fameros casos de corrup\u00e7\u00e3o. Ao fim do mandato, ele simplesmente pegou a fam\u00edlia e partiu para uma longa viagem de dois anos ao redor do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Viajou pelo Oriente, esteve no Egito, na China e na \u00cdndia. Em todos os lugares por onde passou, por\u00e9m, uma coisa o assombrava: a paisagem da fome que devastava a popula\u00e7\u00e3o daqueles pa\u00edses. Era o ano de 1877, e al\u00e9m dessas regi\u00f5es, a fome tamb\u00e9m assolava a Coreia, a R\u00fassia, a \u00c1frica do Sul, as Filipinas e o Nordeste do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, as pessoas ainda n\u00e3o sabiam, mas a fome era resultado de grandes secas que provocaram enormes quebras de safras agr\u00edcolas \u2014 efeito de um poderoso El Ni\u00f1o, que hoje lembramos como um super El Ni\u00f1o. O fen\u00f4meno clim\u00e1tico, que modifica o clima em todo o mundo, \u00e9 causado pelo aquecimento anormal das \u00e1guas equatoriais do Oceano Pac\u00edfico. No entanto, no final do s\u00e9culo XIX, a ci\u00eancia meteorol\u00f3gica era muito rudimentar: sequer existia uma rede global de meteorologia e ningu\u00e9m conhecia direito o funcionamento desse fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1896 e 1902, outra grande onda de fome atingiu novamente essas na\u00e7\u00f5es e outros pa\u00edses \u2014 foi outro ciclo do El Ni\u00f1o, que tamb\u00e9m devastou a Eti\u00f3pia e o Sud\u00e3o. Estima-se que mais de 31 milh\u00f5es de pessoas sucumbiram \u00e0 fome em todo esse per\u00edodo; h\u00e1 quem fale at\u00e9 em mais de 50 milh\u00f5es de v\u00edtimas. Al\u00e9m da fome, centenas de milhares pereceram em epidemias de c\u00f3lera, mal\u00e1ria, peste bub\u00f4nica e outras doen\u00e7as que sempre eclodem com intensidade ap\u00f3s um grande El Ni\u00f1o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Clima e nova ordem imperialista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esses dados foram levantados por Mike Davis e est\u00e3o no livro Holocaustos Coloniais: clima, fome e imperialismo na forma\u00e7\u00e3o do Terceiro Mundo. Davis mostra que essa grande trag\u00e9dia n\u00e3o foi causada apenas por um fen\u00f4meno natural. Sua tese \u00e9 que as na\u00e7\u00f5es imperialistas da Europa, al\u00e9m do Jap\u00e3o e dos Estados Unidos, se aproveitaram da oportunidade para ampliar suas possess\u00f5es coloniais, desapropriar terras comunais e controlar novas fontes de mat\u00e9rias-primas. Era o nascimento da nova ordem imperialista, inaugurada sob o cad\u00e1ver de milh\u00f5es de pessoas que morreram de fome por causa de sua violenta incorpora\u00e7\u00e3o ao sistema mundial moderno. E aqui o uso da for\u00e7a deu o tom.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa interpreta\u00e7\u00e3o encontra eco na an\u00e1lise cl\u00e1ssica de Rosa Luxemburgo sobre a acumula\u00e7\u00e3o imperialista nos pa\u00edses perif\u00e9ricos:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCada nova expans\u00e3o colonial \u00e9 acompanhada, como de praxe, por uma inexor\u00e1vel luta do capital contra as liga\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas dos nativos, que tamb\u00e9m s\u00e3o for\u00e7osamente espoliados dos seus meios de produ\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de m\u00e3o de obra. (\u2026) A acumula\u00e7\u00e3o, com sua expans\u00e3o espasm\u00f3dica, n\u00e3o pode mais esperar nem se satisfazer com uma desintegra\u00e7\u00e3o interna natural das forma\u00e7\u00f5es n\u00e3o capitalistas e sua transi\u00e7\u00e3o para a economia de mercado (&#8230;). A for\u00e7a \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel para o capital; a acumula\u00e7\u00e3o de capital, vista como um processo hist\u00f3rico, emprega a for\u00e7a como uma arma permanente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa an\u00e1lise \u00e9 espantosa e guarda uma incr\u00edvel atualidade para analisarmos, inclusive, o avan\u00e7o contempor\u00e2neo do capitalismo sobre os territ\u00f3rios de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, camponeses e quilombolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Mike Davis, as v\u00edtimas da fome foram trituradas por tr\u00eas grandes engrenagens:<\/p>\n\n\n\n<p>1)Eventos clim\u00e1ticos extremos em escala global, ent\u00e3o mal compreendidos 2) A cria\u00e7\u00e3o de um mercado mundial de gr\u00e3os, cujo pre\u00e7o come\u00e7ava a ser definido no cora\u00e7\u00e3o do capitalismo da \u00e9poca,&nbsp; a Inglaterra vitoriana 3) O imperialismo, que combinou expans\u00e3o colonial com a din\u00e2mica dos desastres naturais, aproveitando-se da situa\u00e7\u00e3o para criar um mercado mundial e vulnerabilizar camponeses e economias tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros fatores tamb\u00e9m colaboraram para aumentar ainda mais essa vulnerabilidade, como veremos adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante destacar que o El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno que existe h\u00e1 milhares de anos, muito antes do pr\u00f3prio surgimento da humanidade. As antigas civiliza\u00e7\u00f5es orientais \u2014 na China e na \u00cdndia \u2014 sempre souberam que havia per\u00edodos de grandes secas e se preparavam para enfrent\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Na China, por exemplo, o imperador mantinha os chamados dep\u00f3sitos de tributos: estoques de gr\u00e3os armazenados em celeiros fora das regi\u00f5es atingidas pela seca, que eram acionados em socorro \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em per\u00edodos de quebra de safra. Quando grandes secas afetavam a agricultura, os imperadores socorriam o povo \u2014 como ocorreu nos ciclos de El Ni\u00f1o do s\u00e9culo XVIII, em 1720, 1742 e 1778. Havia inclusive uma burocracia estatal treinada e com um \u201cprotocolo\u201d sobre como agir diante de severas secas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio foi muito diferente do que ocorreu no final do s\u00e9culo XIX. Se tivessem sido mantidos os estoques de tributos, seria improv\u00e1vel que o holocausto da fome consumisse tantas vidas. Mas por que esse sistema n\u00e3o foi mantido? A resposta tem a ver com a domina\u00e7\u00e3o colonial brit\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Holocaustos coloniais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A China foi submetida \u00e0 chamada Diplomacia das Canhoneiras do imperialismo. Basta lembrar das duas Guerras do \u00d3pio, nas quais o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico obrigou a China, pela for\u00e7a militar, a permitir o tr\u00e1fico de \u00f3pio em seu territ\u00f3rio. Os brit\u00e2nicos chegaram a vender 87 mil caixas aos chineses em 1879,&nbsp; naquilo que foi a \u201cmaior transa\u00e7\u00e3o de drogas da hist\u00f3ria mundial\u201d, como destaca Davis. Com isso, a China perdeu a soberania sobre seu com\u00e9rcio externo. O Estado chin\u00eas, desmoralizado e enfraquecido pelo dom\u00ednio colonial, foi incapaz de manter o armazenamento de gr\u00e3os para enfrentar as secas e impedir a fome. Quando o El Ni\u00f1o chegou no final do s\u00e9culo XIX, ainda havia alguns dep\u00f3sitos de gr\u00e3os. No entanto, enquanto a popula\u00e7\u00e3o morria de fome,&nbsp; muitas vezes ao lado desses dep\u00f3sitos, os gr\u00e3os estocados foram simplesmente enviados \u00e0 Inglaterra, exportados para o mercado mundial em vez de serem destinados ao socorro da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se na China o desmonte se deu pela via diplom\u00e1tico-militar, na \u00cdndia ele ocorreu pela via econ\u00f4mica e infraestrutural. Tamb\u00e9m havia dep\u00f3sitos de alimentos nas aldeias indianas. A antiga civiliza\u00e7\u00e3o hindu, conhecida como uma \u201csociedade hidr\u00e1ulica\u201d, desenvolvera-se \u00e0s margens de grandes rios e criara complexos sistemas de irriga\u00e7\u00e3o para se precaver de grandes secas. Mas com o dom\u00ednio colonial brit\u00e2nico, isso acabou: os antigos sistemas de irriga\u00e7\u00e3o foram desmantelados \u2014 fato registrado em relat\u00f3rios coloniais.<\/p>\n\n\n\n<p>As ferrovias constru\u00eddas pelos brit\u00e2nicos, que eram louvadas como uma salvaguarda contra a fome por poderem transportar estoques de alimentos para as \u00e1reas afetadas, serviram, na verdade, para transportar os gr\u00e3os estocados nas aldeias para dep\u00f3sitos mais seguros, livres da amea\u00e7a de saques pela popula\u00e7\u00e3o faminta. Como na China, os estoques de alimentos foram exportados para o mercado mundial, em vez de seguir em socorro \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros s\u00e3o reveladores: entre 1875 e 1877, as exporta\u00e7\u00f5es de gr\u00e3os da \u00cdndia multiplicaram-se por cinco, \u00e0s v\u00e9speras da grande fome. Entre 1875 e 1900, quando ocorreram as piores fomes da hist\u00f3ria indiana, as exporta\u00e7\u00f5es anuais de gr\u00e3os saltaram de 3 milh\u00f5es para 10 milh\u00f5es de toneladas. Na virada do s\u00e9culo XX, a \u00cdndia fornecia quase um quinto do consumo de trigo da Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n\n\n\n<p>A isso somava-se um quadro econ\u00f4mico ainda mais devastador. O imperialismo incorporou pequenos agricultores dos pa\u00edses coloniais e semicoloniais no com\u00e9rcio mundial de mercadorias. Muitos passaram a produzir algod\u00e3o para a ind\u00fastria t\u00eaxtil brit\u00e2nica. Esse surto do algod\u00e3o tinha a ver com a Guerra Civil dos EUA, que paralisara a produ\u00e7\u00e3o no sul do pa\u00eds. Quando a produ\u00e7\u00e3o foi retomada, o pre\u00e7o baixou, levando os pequenos agricultores \u00e0 ru\u00edna. Pior: o cultivo de algod\u00e3o diminuiu a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, deixando a popula\u00e7\u00e3o em inseguran\u00e7a alimentar na v\u00e9spera do grande El Ni\u00f1o de 1877 \u2014 o que ampliou ainda mais a cat\u00e1strofe.<\/p>\n\n\n\n<p>A ru\u00edna combinou-se com o primeiro ciclo de recess\u00e3o do capitalismo, iniciado em 1873 e estendido at\u00e9 1897, que provocou a desvaloriza\u00e7\u00e3o dos produtos agr\u00edcolas tropicais. Para agravar o quadro, a ado\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o-ouro pelos Estados Unidos, Europa e Jap\u00e3o desvalorizou as moedas da China e da \u00cdndia (cujos padr\u00f5es eram a prata), ampliando a crise fiscal desses pa\u00edses. Para completar o estrangulamento das economias perif\u00e9ricas, boa parte dos or\u00e7amentos estava comprometida com despesas militares coloniais; na \u00cdndia, esse comprometimento chegava a 34% do or\u00e7amento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Relatos estarrecedores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos maiores m\u00e9ritos de Davis \u00e9 resgatar os relatos e hist\u00f3rias dessa imensa trag\u00e9dia. Com base em relat\u00f3rios do imp\u00e9rio brit\u00e2nico e not\u00edcias da imprensa da \u00e9poca, ele coloca o leitor diante de fatos aterradores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mission\u00e1rios religiosos relatavam que, em muitas regi\u00f5es da \u00cdndia, as \u00fanicas criaturas vivas e bem alimentadas eram os c\u00e3es que comiam os cad\u00e1veres das pessoas nas ruas. Um viajante ingl\u00eas contou que, numa prov\u00edncia chinesa, mais de mil pessoas morriam de fome por dia. Segundo ele, os habitantes vendiam esposas e filhos, comiam barro ou restos de cad\u00e1veres humanos. E quando a grande seca acabou, vieram as doen\u00e7as e epidemias que ceifaram mais centenas de milhares de vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Relat\u00f3rios mostram que os altos funcion\u00e1rios do imp\u00e9rio sabiam exatamente o que se passava, mas adotaram uma postura ainda mais cruel: cobravam impostos de camponeses arruinados e tomavam as terras daqueles que n\u00e3o pagavam. Em outras palavras, o imperialismo aproveitou-se da situa\u00e7\u00e3o para acabar com as terras comunais tradicionais e convert\u00ea-las em propriedade privada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o super El Ni\u00f1o de 1877&nbsp; tamb\u00e9m ajudou a produzir grandes rebeli\u00f5es coloniais como a Revolta dos Boxers na China, Canudos no sert\u00e3o do Nordeste brasileiro e, sem d\u00favida, o crescimento do nacionalismo indiano nas d\u00e9cadas seguintes, que fortaleceria a luta pela independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ecologia pol\u00edtica da fome<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao combinar a economia pol\u00edtica marxista com a hist\u00f3ria ambiental, ele adota o m\u00e9todo que chama de \u201cecologia pol\u00edtica da fome\u201d e recha\u00e7a velhas explica\u00e7\u00f5es baseadas no determinismo naturalista ou em teses malthusianas de que a fome teria sido consequ\u00eancia da superpopula\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, vigoravam estere\u00f3tipos orientalistas que apresentavam a \u00c1sia como uma terra da fome, habitada por camponeses magros, famintos e que usavam tangas.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande m\u00e9rito de Mike Davis \u00e9 mostrar que essa trag\u00e9dia n\u00e3o pode ser explicada apenas pelos efeitos do El Ni\u00f1o. As grandes fomes do final do s\u00e9culo XIX n\u00e3o foram um simples produto da natureza, mas resultado da forma como a sociedade organiza a produ\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o dos alimentos&nbsp; e como se prepara (ou n\u00e3o) para enfrentar eventos clim\u00e1ticos extremos. As v\u00edtimas da fome pagaram o pre\u00e7o das transforma\u00e7\u00f5es impostas pelo avan\u00e7o do imperialismo, em um verdadeiro Holocausto colonial que a hist\u00f3ria oficial procurou manter invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Transpondo essa an\u00e1lise para os dias de hoje, mais de um s\u00e9culo depois, nos deparamos novamente com a possibilidade de um super El Ni\u00f1o \u2014 talvez ainda mais intenso que o de 1877. Diferentemente daquela \u00e9poca, por\u00e9m, sua for\u00e7a se combina com o aquecimento global produzido pelo capitalismo f\u00f3ssil, capaz de virar a chave do sistema clim\u00e1tico da Terra. O pr\u00f3ximo El Ni\u00f1o encontrar\u00e1 um mundo ainda mais vulner\u00e1vel: marcado por d\u00e9cadas de pol\u00edticas neoliberais que desmontaram mecanismos de preven\u00e7\u00e3o, privatizaram recursos naturais como a \u00e1gua, e se combinam com a ascens\u00e3o da extrema direita e o negacionismo clim\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>O que podemos esperar de um pr\u00f3ximo El Ni\u00f1o ainda mais forte, num mundo cada vez mais desigual e amea\u00e7ado pela cat\u00e1strofe clim\u00e1tica? Essa \u00e9 uma quest\u00e3o para o pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As principais ag\u00eancias meteorol\u00f3gicas j\u00e1 confirmaram a chegada de um super El Ni\u00f1o\u00a0 em 2026, e cientistas de todo o mundo alertam para consequ\u00eancias devastadoras. Muitos temem que o fen\u00f4meno possa virar a chave do sistema clim\u00e1tico da Terra. 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