{"id":82759,"date":"2026-06-25T03:32:14","date_gmt":"2026-06-25T03:32:14","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82759"},"modified":"2026-06-25T03:32:36","modified_gmt":"2026-06-25T03:32:36","slug":"bolivia-revolucao-e-contrarrevolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/06\/25\/bolivia-revolucao-e-contrarrevolucao\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: Revolu\u00e7\u00e3o e Contrarrevolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A rebeli\u00e3o de 2026 e os limites de sua dire\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os dias de luta que sacudiram a Bol\u00edvia entre maio e junho de 2026 constituem o processo de luta de classes mais significativo no pa\u00eds desde a Guerra do G\u00e1s de 2003, que derrubou S\u00e1nchez de Lozada e tamb\u00e9m levou \u00e0 queda de Carlos Mesa em 2005. Por quase dois meses, uma greve geral foi convocada, setores de trabalhadores realizaram greves parciais, enquanto organiza\u00e7\u00f5es camponesas, ind\u00edgenas e de bairro mantiveram mais de uma centena de bloqueios em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds. Duas grandes mobiliza\u00e7\u00f5es nacionais na cidade de La Paz marcaram pontos altos da luta: a marcha de 18 e 19 de maio e a de 10 de junho, ambas protagonizadas por milhares de trabalhadores e moradores de La Paz e El Alto, juntamente com trabalhadores, camponeses e povos ind\u00edgenas vindos de diferentes partes do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ambas as ocasi\u00f5es, ocorreram confrontos com as for\u00e7as repressivas do Estado. Contudo, embora as mobiliza\u00e7\u00f5es demonstrassem um enorme esp\u00edrito de luta, n\u00e3o houve prepara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou organizacional voltada para uma contesta\u00e7\u00e3o efetiva do poder. A aus\u00eancia de organismos centralizados para dirigir a luta, aliada \u00e0s vacila\u00e7\u00f5es das dire\u00e7\u00f5es e \u00e0 crescente repress\u00e3o governamental, permitiu que as mobiliza\u00e7\u00f5es se dispersassem antes que pudessem se transformar em uma ofensiva decisiva contra o regime.<\/p>\n\n\n\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o conseguiu colocar o governo de Rodrigo Paz na parede. Durante v\u00e1rias semanas, grandes regi\u00f5es do pa\u00eds estiveram sob o controle efetivo das organiza\u00e7\u00f5es sociais que mantinham os bloqueios, em particular a Federa\u00e7\u00e3o Camponesa Tupac Katari (Departamento de La Paz), setores da CSUTCB (Confedera\u00e7\u00e3o Sindical \u00danica de Trabalhadores Camponeses da Bol\u00edvia) e outras organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e camponesas das terras altas, como a Confedera\u00e7\u00e3o de Mulheres Bartolina Sisa e os Ponchos Rojos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, existiu na Bol\u00edvia uma estrutura de poder dual por mais de um m\u00eas. Essas organiza\u00e7\u00f5es decidiam quais produtos, alimentos, combust\u00edveis e ve\u00edculos podiam circular nas principais estradas do pa\u00eds e quais permaneciam bloqueados nas barricadas. Essa situa\u00e7\u00e3o levou a crescentes dificuldades de abastecimento, escassez de combust\u00edvel e alimentos e uma forte alta nos pre\u00e7os, especialmente nas cidades de La Paz e El Alto, onde o impacto econ\u00f4mico e pol\u00edtico dos bloqueios foi mais intenso. Embora o governo mantivesse o controle formal das institui\u00e7\u00f5es estatais, as organiza\u00e7\u00f5es mobilizadas demonstraram uma importante capacidade de condicionar o fluxo de mercadorias e o funcionamento da economia. A consigna \u201cFora Paz!\u201d tornou-se a for\u00e7a unificadora de um movimento que reuniu mineiros, camponeses, comunidades ind\u00edgenas, professores, oper\u00e1rios, associa\u00e7\u00f5es de bairro e amplos setores da popula\u00e7\u00e3o. No entanto, apesar da enorme disposi\u00e7\u00e3o para lutar demonstrada pelas massas, o movimento n\u00e3o conseguiu atingir seu principal objetivo pol\u00edtico: a queda do governo. Compreender as raz\u00f5es dessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para se preparar para as batalhas que viriam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rodrigo Paz, a crise do MAS e o in\u00edcio da rebeli\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o de Rodrigo Paz ao poder foi possibilitada pelo profundo desgaste pol\u00edtico acumulado durante quase duas d\u00e9cadas de governo do MAS. A crise econ\u00f4mica, marcada pela escassez de d\u00f3lares, pelo aumento do custo de vida e pelo esgotamento das reservas de g\u00e1s natural, juntamente com a divis\u00e3o entre os partid\u00e1rios de Evo e de Arce, corroeu a base social e pol\u00edtica que sustentara o MAS por anos. Capitalizando-se sobre esse descontentamento, Paz apresentou-se como uma alternativa capaz de restaurar a estabilidade econ\u00f4mica e resolver a crise. Muitos trabalhadores, camponeses e outros setores populares depositaram esperan\u00e7as em suas promessas, n\u00e3o tanto por ades\u00e3o ao seu programa, mas pela falta de uma alternativa pol\u00edtica que parecesse capaz de enfrentar a crise. Contudo, assim que as primeiras medidas governamentais come\u00e7aram a ser implementadas, numerosos ativistas reconheceram publicamente ter confiado em Paz e expressaram sua indigna\u00e7\u00e3o com o que consideraram uma fraude eleitoral. A sensa\u00e7\u00e3o de terem sido v\u00edtimas de falsas promessas e de uma verdadeira fraude pol\u00edtica contribuiu para impulsionar o r\u00e1pido crescimento da mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros meses de seu mandato foram marcados por uma ofensiva neoliberal que lembrava os programas de ajuste da d\u00e9cada de 1990. O Decreto 5503 eliminou os subs\u00eddios aos combust\u00edveis e levou a aumentos imediatos no custo de vida. A chamada Lei da Terra abriu novas vias para a mercantiliza\u00e7\u00e3o das terras comunit\u00e1rias. Simultaneamente, o governo promoveu a liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, eliminou impostos sobre grandes fortunas, congelou sal\u00e1rios e fomentou novos incentivos ao investimento estrangeiro em setores estrat\u00e9gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto de Paz buscava muito mais do que implementar medidas econ\u00f4micas de curto prazo. Visava alterar o equil\u00edbrio de poder estabelecido ap\u00f3s os levantes de 2003 e 2005, fortalecer a burguesia e aprofundar a subordina\u00e7\u00e3o dos recursos naturais bolivianos aos interesses do capital internacional. Paz provou ser um fiel executor das pol\u00edticas de Trump na Bol\u00edvia.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, cada uma dessas medidas encontrou uma resposta imediata nas ruas. O que come\u00e7ou como protestos contra o aumento do custo de vida e a escassez rapidamente se transformou em uma rebeli\u00e3o nacional que desafiou a legitimidade do pr\u00f3prio governo sob a consigna unificadora \u201cFora Paz!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A magnitude da resist\u00eancia for\u00e7ou o governo a recuar parcialmente em diversas ocasi\u00f5es. Mas esses recuos nunca significaram o abandono de seu programa estrat\u00e9gico. Foram manobras t\u00e1ticas destinadas a ganhar tempo, dividir os setores mobilizados e desgastar gradualmente um movimento que havia conseguido encurral\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A for\u00e7a do ascenso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das caracter\u00edsticas mais importantes da luta foi a amplitude dos setores mobilizados.<\/p>\n\n\n\n<p>A COB convocou uma greve geral e colocou o movimento oper\u00e1rio organizado no centro do palco. A FEJUVE transformou El Alto, mais uma vez, no cora\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia popular. A Federa\u00e7\u00e3o Tupac Katari, os Ponchos Vermelhos e as Bartolinas Sisa organizaram bloqueios que isolaram La Paz por semanas. Setores da CSUTCB, organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia, professores urbanos e rurais, oper\u00e1rios e trabalhadores do transporte participaram ativamente das mobiliza\u00e7\u00f5es. Essa converg\u00eancia evocava, ainda que parcialmente, os grandes dias insurrecionais do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p>A exig\u00eancia da ren\u00fancia de Rodrigo Paz atuou como elemento unificador. Al\u00e9m das demandas setoriais, milh\u00f5es de pessoas come\u00e7aram a questionar a pr\u00f3pria legitimidade do governo. Por v\u00e1rias semanas, desenvolveu-se uma situa\u00e7\u00e3o extremamente favor\u00e1vel ao movimento popular, com o movimento na ofensiva e o governo na defensiva. As mobiliza\u00e7\u00f5es e a dualidade do poder na Bol\u00edvia serviram como um importante exemplo para as massas latino-americanas. A imprensa burguesa mundial simplesmente deixou de noticiar o que acontecia na Bol\u00edvia para impedir que esse exemplo se tornasse conhecido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A estrat\u00e9gia do governo: dividir para sobreviver<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A principal for\u00e7a do governo foi a r\u00e1pida percep\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o conseguiria derrotar o movimento por meio do confronto direto. Sua estrat\u00e9gia consistiu em negociar separadamente com diferentes setores, oferecendo concess\u00f5es parciais e incentivando acordos espec\u00edficos que fragmentaram a unidade constru\u00edda a partir da base.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, explorou o desgaste causado por semanas de mobiliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. A escassez de combust\u00edvel, as dificuldades econ\u00f4micas e o cansa\u00e7o acumulado come\u00e7aram a afetar diversos setores.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o aparato estatal intensificou a criminaliza\u00e7\u00e3o dos protestos. Centenas de ativistas foram presos, dirigentes foram processados \u200b\u200be comunidades foram reprimidas. Simultaneamente, o governo conduziu uma intensa campanha pol\u00edtica e midi\u00e1tica com o objetivo de desacreditar o movimento, retratando-o como uma a\u00e7\u00e3o impulsionada por grupos violentos, agitadores ou vinculados ao narcotr\u00e1fico. Essa narrativa foi refor\u00e7ada por altos funcion\u00e1rios do governo e porta-vozes do imperialismo estadunidense, que tentaram justificar a repress\u00e3o associando as mobiliza\u00e7\u00f5es a supostos interesses criminosos. No entanto, essa estrat\u00e9gia n\u00e3o obteve o sucesso esperado. Por um lado, a amplitude do movimento, que envolvia trabalhadores, camponeses, povos ind\u00edgenas e setores populares de todo o pa\u00eds, dificultava a sustenta\u00e7\u00e3o de tal acusa\u00e7\u00e3o. Por outro lado, diversos esc\u00e2ndalos relacionados a redes de narcotr\u00e1fico e contrabando de madeira \u2014 o chamado caso \u201cnarco-madeira\u201d \u2014 que envolviam setores ligados ao pr\u00f3prio aparato estatal, enfraqueceram a credibilidade do discurso oficial. Apesar disso, a campanha de criminaliza\u00e7\u00e3o serviu como complemento \u00e0 repress\u00e3o policial, judicial e militar empregada contra as organiza\u00e7\u00f5es mobilizadas. A aprova\u00e7\u00e3o da nova Lei de Estados de Emerg\u00eancia representou um salto qualitativo nessa pol\u00edtica. O governo buscava criar um arcabou\u00e7o legal para expandir a interven\u00e7\u00e3o militar e restringir os direitos democr\u00e1ticos com o apoio expl\u00edcito do imperialismo estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A COB e o problema da dire\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O papel da dire\u00e7\u00e3o da COB expressa a principal contradi\u00e7\u00e3o do processo. Por um lado, sem a COB, a luta dificilmente teria alcan\u00e7ado uma dimens\u00e3o nacional. Seu chamado \u00e0 greve geral e sua participa\u00e7\u00e3o nas principais mobiliza\u00e7\u00f5es em La Paz permitiram que o descontentamento social se transformasse em uma rebeli\u00e3o pol\u00edtica contra o governo de Rodrigo Paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, sua dire\u00e7\u00e3o demonstrou enormes vacila\u00e7\u00f5es e, acabou traindo a luta. A principal for\u00e7a organizada da COB, o proletariado mineiro, oper\u00e1rios de Huanuni e Colquiri, participaram das medidas de press\u00e3o por meio de representantes de suas organiza\u00e7\u00f5es, mas a produ\u00e7\u00e3o mineira nunca foi paralisada de forma generalizada. Em diversos momentos, expressaram a disposi\u00e7\u00e3o de marchar sobre La Paz e intensificar o confronto com o governo. No entanto, a dire\u00e7\u00e3o da COB recusou-se a promover uma verdadeira greve geral que paralisasse os principais setores produtivos do pa\u00eds, e tamb\u00e9m n\u00e3o avan\u00e7ou na centraliza\u00e7\u00e3o nacional da luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a dire\u00e7\u00e3o da COB tamb\u00e9m n\u00e3o foi firme o suficiente para impedir a pol\u00edtica governamental de negocia\u00e7\u00f5es separadas. Desde o in\u00edcio do conflito, o governo buscou enfraquecer e fragmentar o movimento por meio de acordos parciais com diferentes setores. Inicialmente, mirou nas cooperativas mineiras. Ap\u00f3s uma significativa mobiliza\u00e7\u00e3o e confrontos em La Paz, em 14 de maio, o governo chegou a um acordo com seus l\u00edderes (FENCOMIM) no dia seguinte, retirando esse setor das medidas de press\u00e3o. Posteriormente, negociou em diversas ocasi\u00f5es com o setor do transporte e setores dos professores. Finalmente, o governo chegou a um acordo com a principal base organizada do COB, os mineiros de Huanuni e Colquiri, poucos dias antes de o pr\u00f3pria central assinar o acordo que p\u00f4s fim \u00e0s medidas de press\u00e3o. Longe de combater essa din\u00e2mica divisionista, a dire\u00e7\u00e3o do COB a tolerou, enfraquecendo progressivamente a unidade constru\u00edda durante as semanas mais intensas da mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de coordena\u00e7\u00e3o efetiva e centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre mineiros, oper\u00e1rios fabris, professores, camponeses, comunidades ind\u00edgenas e associa\u00e7\u00f5es de bairro impediu que a for\u00e7a acumulada se transformasse em uma ofensiva capaz de contestar o poder de forma eficaz. Aqui reside uma diferen\u00e7a fundamental em rela\u00e7\u00e3o ao levante de 2003. Naquele momento, a converg\u00eancia entre o movimento oper\u00e1rio, os setores camponeses e as organiza\u00e7\u00f5es populares atingiu n\u00edveis mais elevados de coordena\u00e7\u00e3o, radicaliza\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, desafiando de fato a continuidade do regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, a for\u00e7a das mobiliza\u00e7\u00f5es, a come\u00e7ar por uma greve geral na qual os mineiros desempenharam um papel decisivo, conseguiu dividir as for\u00e7as armadas, levando \u00e0 queda do governo. Isso tamb\u00e9m havia ocorrido em 1952 e entre 1983 e 1985.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma greve geral paralisa a economia do pa\u00eds de forma muito mais decisiva, o que se soma aos bloqueios de estradas. O peso das massas mobilizadas pode dividir as for\u00e7as armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta vez, isso n\u00e3o aconteceu; n\u00e3o houve nem uma verdadeira greve geral nem uma divis\u00e3o das for\u00e7as armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A marcha maci\u00e7a de 10 de junho, com 40.000 a 50.000 lutadores\/as avan\u00e7ando em dire\u00e7\u00e3o ao pal\u00e1cio do governo, expressou a for\u00e7a do movimento. Mas tamb\u00e9m sua fraqueza. Seguindo as instru\u00e7\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o, foi uma marcha &#8220;pac\u00edfica&#8221;, sem os meios para confrontar as for\u00e7as armadas que defendiam o governo. Nem mesmo o armamento natural dos mineiros, com suas dinamites, estiveram presentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a mobiliza\u00e7\u00e3o foi sustentada unicamente pela for\u00e7a dos bloqueios, o que impediu um golpe decisivo contra o governo e levou ao esgotamento das massas.<\/p>\n\n\n\n<p>As dire\u00e7\u00f5es tradicionais e suas contradi\u00e7\u00f5es<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as entre a FEJUVE, a COB, Tupac Katari, Bartolinas, a CSUTCB e outros setores se aprofundaram \u00e0 medida que o conflito avan\u00e7ava. Algumas dire\u00e7\u00f5es mantiveram sua exig\u00eancia pela ren\u00fancia de Paz. Outras come\u00e7aram a priorizar negocia\u00e7\u00f5es referentes \u00e0s suas pr\u00f3prias demandas. Essas diferen\u00e7as refletem processos pol\u00edticos mais profundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante anos, in\u00fameros dirigentes sindicais e sociais foram incorporados ao aparato estatal dos governos do MAS. A administra\u00e7\u00e3o de recursos, cargos p\u00fablicos e espa\u00e7os institucionais gerou processos de burocratiza\u00e7\u00e3o que reduziram a independ\u00eancia pol\u00edtica de muitas organiza\u00e7\u00f5es e promoveram a coopta\u00e7\u00e3o e a acomoda\u00e7\u00e3o de muitos\/as dirigentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a luta levantou a possibilidade de um confronto decisivo com o Estado, essas contradi\u00e7\u00f5es emergiram com toda a for\u00e7a, culminando na trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da COB.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Evo Morales e a crise estrat\u00e9gica do reformismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Evo Morales durante o conflito tamb\u00e9m expressou as limita\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do projeto reformista constru\u00eddo pelo MAS. Evo participou em diferentes momentos do processo, especialmente atrav\u00e9s das Federa\u00e7\u00f5es dos Tr\u00f3picos de Cochabamba e da chamada Marcha para Salvar a Bol\u00edvia. Ele tamb\u00e9m denunciou repetidamente as tentativas do governo de Rodrigo Paz, apoiado pelos Estados Unidos, de prend\u00ea-lo e marginaliz\u00e1-lo politicamente, apresentando essas a\u00e7\u00f5es como parte de uma ofensiva mais ampla contra organiza\u00e7\u00f5es populares. Contudo, apesar de sua influ\u00eancia sobre setores significativos das comunidades camponesas e de cultivo de coca, Evo foi incapaz de oferecer uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica capaz de unificar e guiar todo o movimento. Em vez de promover uma estrat\u00e9gia que centralizasse as for\u00e7as mobilizadas em torno de um objetivo comum, acabou se tornando parte das contradi\u00e7\u00f5es que assolavam o pr\u00f3prio movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas contradi\u00e7\u00f5es ficaram evidentes at\u00e9 mesmo nas declara\u00e7\u00f5es finais de Evo Morales. Inicialmente, ele condenou a trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do COB. Posteriormente, quando as federa\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o de Chapare anunciaram uma pausa nos protestos, Evo declarou publicamente que jamais havia pedido a ren\u00fancia de Rodrigo Paz, distanciando-se de um das principais demandas que unificavam amplos setores da popula\u00e7\u00e3o mobilizada havia semanas. A declara\u00e7\u00e3o provocou cr\u00edticas e ridiculariza\u00e7\u00e3o entre in\u00fameros ativistas e demonstrou, mais uma vez, as oscila\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de uma dire\u00e7\u00e3o incapaz de oferecer uma solu\u00e7\u00e3o coerente para a crise.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cr\u00edticas da base \u00e0s dire\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos fen\u00f4menos pol\u00edticos mais significativos que emergiram da luta foi o crescente questionamento da dire\u00e7\u00e3o, pela base. Em reuni\u00f5es ampliadas, assembleias populares, bloqueios e encontros sindicais, surgiram cr\u00edticas cada vez mais contundentes n\u00e3o apenas contra o governo de Rodrigo Paz, mas tamb\u00e9m contra os dirigentes que conduziam o processo. Para amplos setores de trabalhadores mobilizados, camponeses, povos ind\u00edgenas e popula\u00e7\u00e3o pobre, as diversas dire\u00e7\u00f5es devem ser responsabilizadas pelas decis\u00f5es tomadas durante o conflito e por sua culpa no desfecho da luta.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, as cr\u00edticas mais profundas foram dirigidas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da COB. A central sabandonou a exig\u00eancia da ren\u00fancia de Rodrigo Paz, que havia sido um dos principais fatores de uni\u00e3o do movimento, para se concentrar em negocia\u00e7\u00f5es com o governo. Para muitos ativistas, essa mudan\u00e7a significou o abandono do objetivo pol\u00edtico central da luta justamente quando o governo estava mais fragilizado.<\/p>\n\n\n\n<p>A capitula\u00e7\u00e3o tornou-se ainda mais evidente quando, ap\u00f3s declarar publicamente que a liberta\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos e perseguidos era condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a continuidade das negocia\u00e7\u00f5es, a dire\u00e7\u00e3o da COB abandonou essa exig\u00eancia em menos de 24 horas e assinou um acordo com o governo. Isso representou uma trai\u00e7\u00e3o ao conjunto do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, o que se sabe publicamente sobre esse acordo \u00e9, essencialmente, a concess\u00e3o de um prazo de 90 dias para discutir as reivindica\u00e7\u00f5es apresentadas pela COB. Em outras palavras, a dire\u00e7\u00e3o da COB suspendeu as t\u00e1ticas de press\u00e3o sem ter alcan\u00e7ado as principais reivindica\u00e7\u00f5es que mobilizaram milhares de trabalhadores e setores populares durante semanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para muitos ativistas, essa decis\u00e3o representou uma trai\u00e7\u00e3o ainda mais grave, pois foi imediatamente seguida pela declara\u00e7\u00e3o de estado de emerg\u00eancia pelo governo. Enquanto a COB suspendia a mobiliza\u00e7\u00e3o, Rodrigo Paz aproveitava a tr\u00e9gua para fortalecer os mecanismos repressivos do Estado, restringir os direitos democr\u00e1ticos e preparar novas ofensivas contra o movimento popular. Ou seja, o governo passou da defensiva para a ofensiva, aproveitando-se da trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da COB.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa experi\u00eancia ter\u00e1 profundas consequ\u00eancias pol\u00edticas na Bol\u00edvia? Esperamos que milhares de ativistas tirem conclus\u00f5es sobre as limita\u00e7\u00f5es das dire\u00e7\u00f5es tradicionais e a necessidade de construir uma dire\u00e7\u00e3o disposta a levar a luta at\u00e9 o fim, sem subordin\u00e1-la a negocia\u00e7\u00f5es que conduzam \u00e0 derrota.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As perspectivas para a luta e a ofensiva imperialista na Bol\u00edvia e na Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora o movimento tenha entrado em um per\u00edodo de recuo ap\u00f3s a assinatura do acordo da COB e a declara\u00e7\u00e3o de estado de exce\u00e7\u00e3o, as causas que desencadearam a rebeli\u00e3o permanecem intactas. O governo Rodrigo Paz n\u00e3o possui os recursos econ\u00f4micos necess\u00e1rios para atender \u00e0s principais demandas dos trabalhadores, camponeses, povos ind\u00edgenas e outros setores populares. A crise fiscal persiste, a escassez de d\u00f3lares continua sem solu\u00e7\u00e3o e as longas filas para abastecer os carros ainda fazem parte do cotidiano da popula\u00e7\u00e3o. Tampouco desapareceram a infla\u00e7\u00e3o, o aumento do custo de vida ou o descontentamento acumulado contra as pol\u00edticas governamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, \u00e9 improv\u00e1vel que a tr\u00e9gua atual se transforme em uma estabiliza\u00e7\u00e3o duradoura do regime. O movimento sofreu uma derrota devido \u00e0 trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da COB, quando poderia ter conseguido derrubar o governo.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, essa n\u00e3o \u00e9 uma derrota estrat\u00e9gica. As contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais que deram origem \u00e0 revolta continuam persistindo &nbsp;e podem provocar novas explos\u00f5es de luta em um tempo que n\u00e3o se pode prever.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a experi\u00eancia boliviana prenuncia processos que provavelmente se desenrolar\u00e3o em outros pa\u00edses do continente. A crise boliviana faz parte de um cen\u00e1rio internacional mais amplo. O l\u00edtio, os minerais estrat\u00e9gicos e outros recursos naturais colocam a Bol\u00edvia e a Am\u00e9rica Latina no centro da disputa entre os Estados Unidos e a China, que busca consolidar os investimentos e contratos obtidos durante os governos do MAS.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma dessas pot\u00eancias age em prol dos interesses dos trabalhadores, camponeses e povos ind\u00edgenas bolivianos.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump est\u00e1 lutando pelo l\u00edtio boliviano por meio de Paz, assim como obteve o petr\u00f3leo venezuelano por meio de sua invas\u00e3o do pa\u00eds e do sequestro de Maduro. O imperialismo norte-americano se apoia em seus governos fantoches para conter o imperialismo chin\u00eas e recolonizar o continente. Paz e Trump alcan\u00e7aram uma vit\u00f3ria. Diante do agravamento da crise capitalista global, governos subservientes ao imperialismo buscam garantir o controle de recursos naturais estrat\u00e9gicos por meio de medidas de austeridade, privatiza\u00e7\u00f5es, ataques aos direitos democr\u00e1ticos e fortalecimento de aparelhos repressivos. A interven\u00e7\u00e3o aberta dos Estados Unidos em apoio ao governo de Rodrigo Paz demonstra que a luta pelos recursos naturais e pelo controle pol\u00edtico da Am\u00e9rica Latina ocupa um lugar cada vez mais importante na estrat\u00e9gia imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a solidariedade internacional com a luta do povo boliviano \u00e9 uma tarefa fundamental. Os trabalhadores e os povos da Am\u00e9rica Latina devem se preparar para enfrentar uma ofensiva continental impulsionada por governos que atuam como administradores locais dos interesses imperialistas. A defesa dos recursos naturais, dos direitos democr\u00e1ticos e das conquistas sociais s\u00f3 pode ser garantida por meio da unidade das lutas em todo o continente e da constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias capazes de confrontar tanto as burguesias nacionais quanto as diversas pot\u00eancias imperialistas que disputam o controle da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tarefas estrat\u00e9gicas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A principal li\u00e7\u00e3o dos protestos de 2026 \u00e9 que as massas bolivianas mant\u00eam sua enorme capacidade de luta. O problema fundamental n\u00e3o foi a falta de vontade de lutar, nem a falta de organiza\u00e7\u00e3o social. O que faltou foi uma dire\u00e7\u00e3o capaz de levar a luta at\u00e9 sua conclus\u00e3o definitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia demonstra, mais uma vez, que n\u00e3o basta exigir a queda de um governo. \u00c9 necess\u00e1rio construir uma estrutura de poder alternativa. A COB, as organiza\u00e7\u00f5es camponesas, ind\u00edgenas e de bairro possuem enorme autoridade hist\u00f3rica. Mas essa autoridade deve ser colocada a servi\u00e7o de uma estrat\u00e9gia independente de qualquer variante burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>A perspectiva continua sendo a constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas de trabalhadores, camponeses, povos ind\u00edgenas, setores populares e juventude que possam efetivamente contestar o poder pol\u00edtico e reorganizar a economia sobre novas bases sociais. Enquanto o poder permanecer subordinado \u00e0s leis do capitalismo e aos interesses do imperialismo, as crises se repetir\u00e3o. Portanto, a principal tarefa estrat\u00e9gica continua sendo a constru\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria capaz de transformar a enorme for\u00e7a demonstrada pelas massas bolivianas em uma alternativa real de governo de trabalhadores, camponeses e povos ind\u00edgenas. Somente assim as tarefas inacabadas das revolu\u00e7\u00f5es bolivianas de 1952, 2003 e 2026 poder\u00e3o ser resolvidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rebeli\u00e3o de 2026 e os limites de sua dire\u00e7\u00e3o Os dias de luta que sacudiram a Bol\u00edvia entre maio e junho de 2026 constituem o processo de luta de classes mais significativo no pa\u00eds desde a Guerra do G\u00e1s de 2003, que derrubou S\u00e1nchez de Lozada e tamb\u00e9m levou \u00e0 queda de Carlos Mesa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":82761,"menu_order":12,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Lena Souza","footnotes":""},"categories":[477,5620],"tags":[5767,935,9624,9598],"class_list":["post-82759","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bolivia","category-america-latina","tag-cob-bolivia","tag-lena-souza","tag-protestos-bolivia","tag-rodrigo-paz"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/COB-BOlivia.jpg","categories_names":["Am\u00e9rica Latina","Bol\u00edvia"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Lena Souza","tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82759","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82759"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82759\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82762,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82759\/revisions\/82762"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82761"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82759"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82759"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82759"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}