{"id":82742,"date":"2026-06-20T20:27:04","date_gmt":"2026-06-20T20:27:04","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82742"},"modified":"2026-06-20T20:27:37","modified_gmt":"2026-06-20T20:27:37","slug":"bolivia-a-direcao-da-cob-negocia-trai-o-movimento-e-o-governo-declara-estado-de-excecao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/06\/20\/bolivia-a-direcao-da-cob-negocia-trai-o-movimento-e-o-governo-declara-estado-de-excecao\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: A dire\u00e7\u00e3o da COB negocia, trai o movimento e o governo declara estado de exce\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Ap\u00f3s 49 dias de uma das maiores mobiliza\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos anos, a dire\u00e7\u00e3o da Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB) participou de um di\u00e1logo com o governo de Rodrigo Paz (18\/06) e abandonou a exig\u00eancia de sua ren\u00fancia, que havia sido aprovada em assembleias nacionais anteriores. Apresentaram-se como representantes de todos os setores mobilizados e condicionaram a continuidade das negocia\u00e7\u00f5es \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o dos detidos. No entanto, apenas um dia depois (19\/06), assinaram um acordo com o governo que sequer garante a liberta\u00e7\u00e3o dos detidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa decis\u00e3o n\u00e3o conta com mandato e aprova\u00e7\u00e3o das bases que sustentavam a luta. De fato, a pr\u00f3pria base oper\u00e1ria e mineira da COB j\u00e1 havia reduzido significativamente sua participa\u00e7\u00e3o nas mobiliza\u00e7\u00f5es, enquanto organiza\u00e7\u00f5es camponesas e ind\u00edgenas continuavam a manter a maioria dos bloqueios de estradas e a pressionar o governo. Nem a Federa\u00e7\u00e3o Tupac Katari nem a Confedera\u00e7\u00e3o Unificada dos Trabalhadores Camponeses da Bol\u00edvia (CSUTCB) participaram do processo de negocia\u00e7\u00e3o. Ambas as organiza\u00e7\u00f5es denunciaram a falta de consulta e mantiveram suas t\u00e1ticas de press\u00e3o. A decis\u00e3o de negociar foi tomada pela dire\u00e7\u00e3o da COB (Central Oper\u00e1ria Boliviana), desconsiderando os sacrif\u00edcios de milhares de mobilizados e arrogando para si uma representa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o exercia na pr\u00e1tica. Essa mudan\u00e7a pol\u00edtica desarmou a luta justamente no momento em que o governo vivenciava sua maior crise, favoreceu a divis\u00e3o dentro do movimento e abriu caminho para uma nova ofensiva repressiva contra o movimento popular.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Acordos preliminares com os mineiros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o da COB e os dirigentes do setor mineiro estatal chegaram a acordos com o governo antes que as organiza\u00e7\u00f5es camponesas e ind\u00edgenas pudessem discutir coletivamente os rumos da mobiliza\u00e7\u00e3o. Os mineiros de Colquiri e Huanuni, que constituem o setor mais importante e influente da Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB) em seus \u00f3rg\u00e3os decis\u00f3rios, chegaram a acordos com o Poder Executivo nos dias 17 e 18 de junho, antes de a COB assinar o acordo geral e convocar oficialmente o fim dos bloqueios. Em outras palavras, fica n\u00edtido que a dire\u00e7\u00e3o da COB criou as condi\u00e7\u00f5es para impedir qualquer questionamento por parte de sua principal base.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante semanas, trabalhadores, setores populares, camponeses e ind\u00edgenas mantiveram bloqueios de estradas e manifesta\u00e7\u00f5es, enfrentando repress\u00e3o, escassez e enormes dificuldades econ\u00f4micas. A for\u00e7a demonstrada pela base encurralou o governo. Contudo, embora os setores camponeses e ind\u00edgenas continuassem a manter a maioria dos bloqueios e exigissem discuss\u00f5es coletivas sobre os pr\u00f3ximos passos, a dire\u00e7\u00e3o da COB n\u00e3o convocou uma ampliaci\u00f3n do movimento, n\u00e3o fez nenhuma tentativa de manter os setores fabril, mineiro e educacional unidos ao movimento popular, ind\u00edgena e campon\u00eas, e optou, em vez disso, por canalizar a for\u00e7a dos bloqueios para a negocia\u00e7\u00e3o e a desmobiliza\u00e7\u00e3o, priorizando os acordos alcan\u00e7ados por sua principal base oper\u00e1ria e agindo sem o mandato de todos os setores mobilizados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O acordo da COB com o governo n\u00e3o garante a liberta\u00e7\u00e3o dos presos, nenhuma demanda imediata e concede ao governo um prazo de 90 dias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O conte\u00fado do acordo revela a verdadeira natureza da negocia\u00e7\u00e3o. A profundidade da capitula\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da COB ficou evidente em seu tratamento aos detidos. Apenas dois dias antes da assinatura, a pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o da central havia declarado que a liberta\u00e7\u00e3o dos presos era uma condi\u00e7\u00e3o fundamental para o avan\u00e7o do di\u00e1logo e que, sem esse &#8220;primeiro passo&#8221; do governo, qualquer acordo seria visto como uma trai\u00e7\u00e3o pelas bases. No entanto, o documento final n\u00e3o garante a liberta\u00e7\u00e3o de nenhum dos detidos, n\u00e3o estabelece prazos, nem prev\u00ea a retirada das acusa\u00e7\u00f5es ou o encerramento dos processos judiciais. O acordo limita-se \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o composta pelo governo, pela COB e pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico para &#8220;gerir a liberta\u00e7\u00e3o&#8221; e analisar os casos individualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma das principais reivindica\u00e7\u00f5es da mobiliza\u00e7\u00e3o tem uma resposta imediata. O governo obteve um prazo de 90 dias para estudar as reivindica\u00e7\u00f5es e elaborar propostas, sem se comprometer a resolver a crise econ\u00f4mica ou a atender \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es por sal\u00e1rios, abastecimento, emprego e condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, a dire\u00e7\u00e3o da COB deu ao governo o tempo necess\u00e1rio para se reorganizar politicamente e retomar a iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Comunidades camponesas e ind\u00edgenas rejeitam o acordo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O acordo foi recebido com recha\u00e7o por diversos setores camponeses e ind\u00edgenas, que denunciaram a falta de consulta e questionaram a decis\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o da COB foi rotulada de traidora do movimento. Organiza\u00e7\u00f5es de base afirmam que o fim das medidas de press\u00e3o ignora o sacrif\u00edcio de milhares de manifestantes mobilizados e rompe com o acordo de unidade constru\u00eddo durante quase sete semanas de luta.<\/p>\n\n\n\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es camponesas e ind\u00edgenas foram as principais for\u00e7as motrizes da mobiliza\u00e7\u00e3o nacional. Sua participa\u00e7\u00e3o nos bloqueios, marchas e confrontos com as for\u00e7as repressivas foi crucial para sustentar o movimento. Portanto, a exclus\u00e3o desses setores das decis\u00f5es estrat\u00e9gicas reflete uma profunda crise de representatividade dentro da pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o da COB.<\/p>\n\n\n\n<p>A resist\u00eancia da base demonstra que a luta n\u00e3o foi derrotada. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o de uma dire\u00e7\u00e3o que decidiu negociar de cima para baixo e sem o mandato daqueles que mantiveram a mobiliza\u00e7\u00e3o nas ruas e estradas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O governo aproveita-se da divis\u00e3o causada pela dire\u00e7\u00e3o da COB e declara estado de emerg\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da COB de desmobilizar e dividir o movimento foi imediatamente explorada pelo governo. Mal recuperou espa\u00e7o para manobras pol\u00edticas, o Poder Executivo decretou estado de emerg\u00eancia, ampliando os poderes repressivos do Estado e permitindo maiores restri\u00e7\u00f5es \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo pretende usar o estado de exce\u00e7\u00e3o para restaurar a autoridade estatal, conter novos protestos e disciplinar os setores que permanecem mobilizados. A ofensiva do governo confirma que as negocia\u00e7\u00f5es da COB n\u00e3o levaram a um resultado favor\u00e1vel para os trabalhadores e as comunidades rurais. Pelo contr\u00e1rio, a desmobiliza\u00e7\u00e3o enfraqueceu a capacidade de resist\u00eancia e facilitou a iniciativa repressiva do Poder Executivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, mesmo antes de o estado de exce\u00e7\u00e3o ser submetido \u00e0 Assembleia Nacional para aprova\u00e7\u00e3o, not\u00edcias indicam o envio de for\u00e7as militares para diversas regi\u00f5es do pa\u00eds em pontos de bloqueios de estradas, bem como a persegui\u00e7\u00e3o e as tentativas de captura de dirigentes do movimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A solidariedade internacional torna-se cada vez mais necess\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de estado de exce\u00e7\u00e3o pelo governo Rodrigo Paz marca uma nova escalada na ofensiva repressiva contra o movimento popular. Com essa medida, o Poder Executivo busca conceder a si mesmo maiores poderes para desmantelar mobiliza\u00e7\u00f5es, criminalizar protestos e garantir a interven\u00e7\u00e3o de for\u00e7as repressivas contra camponeses e povos ind\u00edgenas que continuam lutando e mantendo os bloqueios. Ao mesmo tempo, a trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da COB, ao abandonar a exig\u00eancia de ren\u00fancia do governo, sentar-se para negociar e pedir o fim das medidas de press\u00e3o, enfraquece a resist\u00eancia e deixa os setores mobilizados mais expostos aos ataques do Estado. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a solidariedade internacional torna-se essencial. Organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, populares, camponesas, ind\u00edgenas, estudantis e de direitos humanos em toda a Am\u00e9rica Latina e no mundo devem se manifestar contra o estado de exce\u00e7\u00e3o, denunciar qualquer tentativa de repress\u00e3o e apoiar ativamente a luta do povo boliviano. Diante do isolamento que o governo e as dire\u00e7\u00f5es conciliat\u00f3rias buscam impor, \u00e9 necess\u00e1rio fortalecer uma ampla campanha internacional de solidariedade com aqueles que continuam a enfrentar as pol\u00edticas de austeridade e fome.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 necess\u00e1rio construir uma dire\u00e7\u00e3o alternativa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A luta destes \u00faltimos 49 dias demonstraram um enorme esp\u00edrito combativo entre trabalhadores, camponeses e povos ind\u00edgenas. Tamb\u00e9m exp\u00f4s as limita\u00e7\u00f5es de uma dire\u00e7\u00e3o que, quando o governo estava mais fragilizado, optou por salv\u00e1-lo por meio de negocia\u00e7\u00f5es e concess\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia oferece uma li\u00e7\u00e3o fundamental: nenhuma sa\u00edda favor\u00e1vel para as maiorias exploradas e oprimidas pode depender de dire\u00e7\u00f5es que subordinam a luta a acordos com os governos no poder. Contudo, a pr\u00f3pria Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB), devido \u00e0 sua composi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social, permanece potencialmente um espa\u00e7o onde a for\u00e7a organizada da classe trabalhadora, do campesinato e dos movimentos populares do pa\u00eds se expressa, podendo, portanto, constituir uma base para um poder alternativo das maiorias oprimidas. Mas esse potencial s\u00f3 pode ser realizado em condi\u00e7\u00f5es de democracia oper\u00e1ria e controle efetivo da base sobre a sua dire\u00e7\u00e3o. Enquanto a dire\u00e7\u00e3o da COB agir de forma desvinculada das decis\u00f5es coletivas e sem controle efetivo daqueles que sustentam as mobiliza\u00e7\u00f5es, seu papel continuar\u00e1 sendo o de mediar e conter a luta, mesmo em momentos decisivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, n\u00e3o se trata simplesmente de trocar nomes na dire\u00e7\u00e3o mas de construir uma nova dire\u00e7\u00e3o verdadeiramente democr\u00e1tica, revolucion\u00e1ria e socialista, independente dos setores governamental e empresarial, que responda exclusivamente \u00e0s decis\u00f5es soberanas da base mobilizada.<\/p>\n\n\n\n<p>A tarefa imediata \u00e9 reorganizar a resist\u00eancia e fortalecer a coordena\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores, camponeses e povos ind\u00edgenas e preparar novas inst\u00e2ncias de delibera\u00e7\u00e3o. A for\u00e7a demonstrada pela mobiliza\u00e7\u00e3o nacional permanece. O que se faz necess\u00e1rio \u00e9 uma dire\u00e7\u00e3o consequente, disposta a levar a luta at\u00e9 o fim e a construir um caminho para os trabalhadores e povos da Bol\u00edvia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s 49 dias de uma das maiores mobiliza\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos anos, a dire\u00e7\u00e3o da Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB) participou de um di\u00e1logo com o governo de Rodrigo Paz (18\/06) e abandonou a exig\u00eancia de sua ren\u00fancia, que havia sido aprovada em assembleias nacionais anteriores. 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