{"id":82723,"date":"2026-06-15T01:02:41","date_gmt":"2026-06-15T01:02:41","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82723"},"modified":"2026-06-15T01:35:29","modified_gmt":"2026-06-15T01:35:29","slug":"15-de-junho-bolivia-entra-em-seu-45o-dia-de-luta-em-meio-a-disputas-sobre-o-rumo-do-movimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/06\/15\/15-de-junho-bolivia-entra-em-seu-45o-dia-de-luta-em-meio-a-disputas-sobre-o-rumo-do-movimento\/","title":{"rendered":"14 de junho: Bol\u00edvia entra em seu 45\u00ba dia de luta em meio a disputas sobre o rumo do movimento"},"content":{"rendered":"\n<p>Neste domingo, 14 de junho, marcando 45 dias de conflito e 40 dias desde o primeiro bloqueio de estradas, a Bol\u00edvia vive um momento marcado por profundas contradi\u00e7\u00f5es. Enquanto o governo e diversos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o insistem em retratar o debilitamento dos protestos, bloqueios de estradas, reuni\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es sociais e mobiliza\u00e7\u00f5es exigindo a continuidade e at\u00e9 mesmo a intensifica\u00e7\u00e3o das t\u00e1ticas de press\u00e3o continuam em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds. Ao mesmo tempo, outros setores pressionam por negocia\u00e7\u00f5es com o governo e buscam direcionar o conflito para acordos.<\/p>\n\n\n\n<p>No centro dessa disputa est\u00e1 a Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB), onde as crescentes contradi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m se expressam entre aqueles que defendem a continuidade e a intensifica\u00e7\u00e3o das t\u00e1ticas de press\u00e3o e aqueles que defendem uma solu\u00e7\u00e3o negociada para o conflito. Com o objetivo de discutir essa situa\u00e7\u00e3o e definir uma posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise, a COB havia convocado uma assembleia nacional para este domingo. No entanto, a reuni\u00e3o foi suspensa devido \u00e0 falta de garantias de seguran\u00e7a. A decis\u00e3o foi tomada ap\u00f3s um ataque ao dirigente da COB, Octavio Urquizo, que foi agredido por membros de um grupo de choque civil, segundo relatos de dirigentes sindicais e organiza\u00e7\u00f5es mobilizadas. O incidente agravou as tens\u00f5es existentes e alimentou acusa\u00e7\u00f5es sobre as a\u00e7\u00f5es de grupos civis incitados pelo governo no conflito pol\u00edtico em curso no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os bloqueios persistem apesar dos discursos oficiais de enfraquecimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa oficial de um enfraquecimento progressivo dos protestos contrasta com uma realidade muito mais complexa. Dezenas de bloqueios permanecem ativos em v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds, e organiza\u00e7\u00f5es de base est\u00e3o realizando reuni\u00f5es, assembleias setoriais e assembleias populares para discutir a continuidade das medidas. As informa\u00e7\u00f5es mais recentes indicam entre 77 e mais de 80 bloqueios distribu\u00eddos por seis departamentos, com Cochabamba e La Paz apresentando a maior concentra\u00e7\u00e3o, seguidos por Potos\u00ed, Oruro, Chuquisaca e Santa Cruz. Embora as autoridades governamentais e os meios de comunica\u00e7\u00e3o afins destaquem o levantamento de alguns bloqueios espec\u00edficos para apresentar uma imagem de normaliza\u00e7\u00e3o, omitem o fato de que muitos bloqueios est\u00e3o sendo realocados ou reorganizados para enfrentar a press\u00e3o repressiva, e que novas a\u00e7\u00f5es continuam a surgir em diferentes regi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A disputa sobre o rumo do movimento se intensifica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A principal contradi\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o reside entre um movimento enfraquecido e um governo fortalecido, como as autoridades e a m\u00eddia pr\u00f3-governo tentam retratar. A enorme marcha nacional realizada na \u00faltima quarta-feira em La Paz, que reuniu dezenas de milhares de trabalhadores, camponeses, ind\u00edgenas, moradores de El Alto, mineiros e jovens, demonstrou que o movimento mant\u00e9m um poder de mobiliza\u00e7\u00e3o significativo e disposi\u00e7\u00e3o para lutar. A resist\u00eancia dos manifestantes \u00e0 repress\u00e3o policial e aos repetidos ataques com g\u00e1s lacrimog\u00eaneo refor\u00e7ou a ideia, entre amplos setores, de que era poss\u00edvel intensificar as t\u00e1ticas de press\u00e3o e estender os bloqueios a todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, ap\u00f3s essa demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, come\u00e7aram a surgir diferentes propostas sobre a dire\u00e7\u00e3o que o movimento deveria tomar, com alguns dirigentes sindicais e sociais levantando a necessidade de abrir negocia\u00e7\u00f5es com o governo e buscar mecanismos para pacificar o conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa tens\u00e3o atravessa atualmente a pr\u00f3pria COB e diversas de suas organiza\u00e7\u00f5es filiadas. Nos \u00faltimos dias, v\u00e1rios setores come\u00e7aram a explorar solu\u00e7\u00f5es negociadas para o conflito. A Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores Fabris da Bol\u00edvia (CGTFB) realizou reuni\u00f5es com o governo e concordou em estabelecer uma agenda de trabalho sobre produ\u00e7\u00e3o e emprego. Simultaneamente, o Poder Executivo promoveu negocia\u00e7\u00f5es com as federa\u00e7\u00f5es de transporte a respeito de medidas de &#8220;Aux\u00edlio Financeiro&#8221; e compromissos relacionados ao fornecimento de combust\u00edvel. Soma-se a isso a posi\u00e7\u00e3o assumida pela Central Departamental de Trabalhadores (COD) de Cochabamba, que aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o propondo que a COB declare um &#8220;recesso humanit\u00e1rio&#8221; para facilitar a abertura de um di\u00e1logo com o governo. Essas iniciativas foram amplamente divulgadas por ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o alinhados ao Poder Executivo, que as apresentaram como sinais de um suposto enfraquecimento das mobiliza\u00e7\u00f5es e de um iminente retorno \u00e0 normalidade no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A press\u00e3o para negociar est\u00e1 aumentando, mas a base est\u00e1 respondendo com novas medidas de radicaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, ao mesmo tempo que alguns dirigentes sindicais e setores sociais est\u00e3o explorando solu\u00e7\u00f5es negociadas para o conflito, reuni\u00f5es p\u00fablicas, assembleias ampliadas e encontros de base continuam a ser realizados, reafirmando a os bloqueios continuam e exigem intensificar as t\u00e1ticas de press\u00e3o. Longe de uma posi\u00e7\u00e3o unificada em favor da negocia\u00e7\u00e3o, surgem em diferentes partes do pa\u00eds resolu\u00e7\u00f5es que refletem um clima combativo e uma crescente press\u00e3o da base sobre suas dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos exemplos mais significativos foi a Assembleia Aberta da Prov\u00edncia de Los Andes, realizada em Pucarani, onde organiza\u00e7\u00f5es camponesas, ind\u00edgenas e de base ratificaram a continuidade dos bloqueios e aprovaram uma s\u00e9rie de resolu\u00e7\u00f5es com o objetivo de fortalecer as t\u00e1ticas de press\u00e3o. Entre elas, estavam chamados para refor\u00e7ar o cerco \u00e0 sede do governo e propostas para suspender o fornecimento de \u00e1gua e energia \u00e0 cidade de La Paz, decis\u00f5es que receberam ampla cobertura da m\u00eddia nacional e demonstraram o n\u00edvel de radicaliza\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ado pelos setores mobilizados do altiplano de La Paz.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa tend\u00eancia se somaram tamb\u00e9m setores da minera\u00e7\u00e3o. Os trabalhadores de Huanuni reafirmaram seu estado de emerg\u00eancia e mobiliza\u00e7\u00e3o permanente, defendendo a necessidade de fortalecer a unidade entre trabalhadores, camponeses e povos ind\u00edgenas para sustentar a luta. Da mesma forma, h\u00e1 relatos de que, em uma assembleia de mineiros realizada em Oruro, houve fortes cr\u00edticas a dirigentes considerados conciliadores ou ausentes da mobiliza\u00e7\u00e3o, refletindo tens\u00f5es internas e press\u00e3o de setores de base. Informa\u00e7\u00f5es divulgadas por organiza\u00e7\u00f5es camponesas e ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o ligados \u00e0s regi\u00f5es mobilizadas tamb\u00e9m relatam assembleias e reuni\u00f5es que continuam a aprovar novas t\u00e1ticas de press\u00e3o e a rejeitar acordos considerados insuficientes. Em v\u00e1rios casos, as resolu\u00e7\u00f5es insistem que qualquer negocia\u00e7\u00e3o deve ser subordinada aos mandatos da base e n\u00e3o se tornar um mecanismo para desarmar a mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas posi\u00e7\u00f5es expressam uma tend\u00eancia cada vez mais vis\u00edvel dentro do conflito: enquanto alguns setores dirigentes prop\u00f5em di\u00e1logos, tr\u00e9guas ou processos de paz, segmentos significativos de trabalhadores, camponeses, mineiros e povos ind\u00edgenas continuam a exigir um aprofundamento da luta e insistem que as decis\u00f5es fundamentais sejam tomadas pela base mobilizada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise pol\u00edtica tamb\u00e9m impacta o governo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O contexto dos protestos coincide com novas dificuldades para o governo. A apreens\u00e3o, no porto chileno de Arica, de um carregamento de madeira proveniente da Bol\u00edvia, supostamente ligado ao narcotr\u00e1fico internacional, gerou uma nova crise pol\u00edtica que afeta diversas institui\u00e7\u00f5es estatais.<\/p>\n\n\n\n<p>A controv\u00e9rsia tamb\u00e9m impactou o Ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, que assumiu o cargo recentemente em meio a agita\u00e7\u00e3o social e enfrenta cr\u00edticas crescentes de setores da oposi\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00f5es mobilizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o governo tenta conter simultaneamente a crise pol\u00edtica e o conflito social, setores mobilizados afirmam que esses eventos refletem uma crescente eros\u00e3o do apoio ao governo de Rodrigo Paz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Organiza\u00e7\u00f5es de solidariedade est\u00e3o coordenando a\u00e7\u00f5es em apoio ao povo boliviano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A luta protagonizada por trabalhadores, camponeses, povos ind\u00edgenas e setores populares na Bol\u00edvia come\u00e7a a repercutir al\u00e9m das fronteiras do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste fim de semana, foi realizado um encontro internacional de solidariedade, convocado pela Secretaria de Imprensa e Propaganda da COB (Central Oper\u00e1ria Boliviana), com o apoio da CSP-Conlutas do Brasil, reunindo aproximadamente 100 participantes de cerca de dez pa\u00edses. O encontro facilitou a troca de informa\u00e7\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o na Bol\u00edvia e proporcionou uma oportunidade para discutir iniciativas de fortalecimento da solidariedade internacional com os setores mobilizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Os participantes se comprometeram a promover declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, campanhas de divulga\u00e7\u00e3o, atividades de den\u00fancia e a\u00e7\u00f5es em frente \u00e0s embaixadas e consulados bolivianos para denunciar a repress\u00e3o e defender as liberdades democr\u00e1ticas e o direito de protesto.<\/p>\n\n\n\n<p>Como continuidade desse esfor\u00e7o, uma nova reuni\u00e3o internacional foi convocada para a pr\u00f3xima quinta-feira, com o objetivo de ampliar a coordena\u00e7\u00e3o e fortalecer uma campanha internacional em apoio \u00e0 luta do povo boliviano.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta que se desenrola atualmente na Bol\u00edvia faz parte dos movimentos de resist\u00eancia que recorrem a Am\u00e9rica Latina contra as medidas de austeridade, a repress\u00e3o e as pol\u00edticas que imp\u00f5em o \u00f4nus da crise \u00e0s maiorias populares. Portanto, a solidariedade internacional emerge cada vez mais como um elemento crucial para apoiar e fortalecer as lutas que ocorrem no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, nesse contexto, a consigna &#8220;<strong>Todo o poder \u00e0 COB, apoiada por organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, camponesas e ind\u00edgenas&#8221;<\/strong> ganha relev\u00e2ncia. Esta \u00e9 uma proposta de independ\u00eancia de classe em rela\u00e7\u00e3o ao governo, aos partidos patronais, aos empres\u00e1rios e a todos os setores que buscam canalizar a crise dentro dos limites do regime vigente. A sa\u00edda favor\u00e1vel para a maioria n\u00e3o passa por negocia\u00e7\u00f5es secretas ou acordos que desmobilizem o povo, mas sim no fortalecimento da organiza\u00e7\u00e3o independente daqueles que atualmente sustentam a luta. Trata-se da necessidade de construir uma alternativa independente de classe frente ao governo, aos partidos tradicionais e aos setores empresariais que buscam transferir a responsabilidade da crise para o povo pobre. Diante de uma situa\u00e7\u00e3o em que as institui\u00e7\u00f5es do regime s\u00e3o cada vez mais questionadas e em que crescem as press\u00f5es para desmobilizar a luta, a perspectiva de que os pr\u00f3prios trabalhadores e o povo organizado decidam democraticamente os rumos do pa\u00eds surge como uma das principais discuss\u00f5es abertas pela atual crise boliviana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo, 14 de junho, marcando 45 dias de conflito e 40 dias desde o primeiro bloqueio de estradas, a Bol\u00edvia vive um momento marcado por profundas contradi\u00e7\u00f5es. 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