{"id":82665,"date":"2026-05-27T12:43:12","date_gmt":"2026-05-27T12:43:12","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82665"},"modified":"2026-05-27T12:43:28","modified_gmt":"2026-05-27T12:43:28","slug":"bolivia-fora-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/05\/27\/bolivia-fora-paz\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: Fora Paz!"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O contexto da atual levante<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A profunda crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica e o levante popular que atualmente assolam a Bol\u00edvia n\u00e3o podem ser compreendidas sem analisar o ciclo hist\u00f3rico que come\u00e7ou h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas. As ruas, que hoje s\u00e3o novamente palco de enfrentamentos, herdaram as li\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es de processos revolucion\u00e1rios, como os de 2003 e 2005, que n\u00e3o transformaram na raiz a estrutura do sistema capitalista nem destru\u00edram o Estado burgu\u00eas, mas apenas significaram uma mudan\u00e7a na lideran\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>a) A insurrei\u00e7\u00e3o de 2003 e a queda do governo S\u00e1nchez de Lozada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 2003 marcou o in\u00edcio de uma profunda crise de hegemonia para o modelo neoliberal implementado em 1985. O segundo mandato de Gonzalo S\u00e1nchez de Lozada (\u201cGoni\u201d) come\u00e7ou em meio a uma grave crise fiscal, altas taxas de desemprego e profundo descontentamento social herdado da privatiza\u00e7\u00e3o anterior de empresas p\u00fablicas. O estopim da insurrei\u00e7\u00e3o foi o projeto estatal de exporta\u00e7\u00e3o de g\u00e1s natural para os mercados dos Estados Unidos e do M\u00e9xico atrav\u00e9s de portos chilenos. O objetivo era deter a pilhagem de recursos estrat\u00e9gicos por corpora\u00e7\u00f5es transnacionais (como o cons\u00f3rcio Pacific LNG), que roubavam o Estado boliviano pagando royalties de 18%.<\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o civil identificou a exporta\u00e7\u00e3o de g\u00e1s nessas condi\u00e7\u00f5es como uma repeti\u00e7\u00e3o da pilhagem hist\u00f3rica da prata e do estanho de Potos\u00ed no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. O lema unificador dos movimentos oper\u00e1rio, campon\u00eas e comunit\u00e1rio tornou-se a defesa e a recupera\u00e7\u00e3o dos recursos naturais para a industrializa\u00e7\u00e3o soberana do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolta popular adotou m\u00e9todos de luta radicais e comunit\u00e1rios:<\/p>\n\n\n\n<p>O cerco das cidades: As comunidades ind\u00edgenas do Altiplano, lideradas por Felipe Quispe (&#8220;El Mallku&#8221;), cercaram os acessos \u00e0 sede do governo, bloqueando estradas estrat\u00e9gicas e exigindo o cancelamento do projeto de g\u00e1s e a liberta\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes detidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolta armada em El Alto: A cidade de El Alto, com sua popula\u00e7\u00e3o predominantemente migrante e aimar\u00e1, tornou-se o epicentro da resist\u00eancia. Organizados pela Federa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria (FEJUVE) e pela Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores de El Alto, milhares de moradores paralisaram a cidade com barricadas, trincheiras e comit\u00eas de vigil\u00e2ncia comunit\u00e1ria para repelir o avan\u00e7o de ve\u00edculos blindados do ex\u00e9rcito.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta do governo S\u00e1nchez de Lozada foi um confronto militar com os protestos, promulgando o &#8220;Decreto da Morte&#8221; (Decreto Supremo 27209), que concedia imunidade de processo aos militares que participassem da manuten\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica. Em outubro de 2003, a tentativa do ex\u00e9rcito de romper os bloqueios nos bairros de El Alto, utilizando comboios militares carregados de gasolina para abastecer La Paz, desencadeou o que ficou conhecido como o &#8220;Massacre de Outubro&#8221;. As tropas usaram armas de guerra e atiradores de elite contra civis desarmados.<\/p>\n\n\n\n<p>A brutal repress\u00e3o estatal deixou mais de 60 mortos e pelo menos 400 feridos. Mas, longe de quebrar a resist\u00eancia, o massacre de civis gerou uma onda de indigna\u00e7\u00e3o nacional que angariou o apoio ativo da classe m\u00e9dia de La Paz, dos estudantes universit\u00e1rios e setores profissionais, que exigiram o julgamento do presidente. Com um gabinete fragmentado, sem apoio parlamentar e repudiado pela opini\u00e3o p\u00fablica internacional, S\u00e1nchez de Lozada fugiu de helic\u00f3ptero para os Estados Unidos em 17 de outubro de 2003.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a fuga de Goni, a sucess\u00e3o constitucional recaiu sobre o vice-presidente, historiador e jornalista Carlos Mesa. Nas ruas de La Paz e El Alto, as massas mobilizadas debateram se deveriam prosseguir com uma tomada direta do poder ou permitir uma transi\u00e7\u00e3o institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>A Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB), liderada na \u00e9poca por figuras como Jaime Solares, adotou uma postura decisiva: decidiu suspender o bloqueio humano e o cerco militar-popular em torno do Pal\u00e1cio do Governo. Ao conceder uma tr\u00e9gua e facilitar a ascens\u00e3o de Carlos Mesa ao poder, a lideran\u00e7a da COB conteve a for\u00e7a insurrecional da base. Isso deu \u00e0 burguesia boliviana um respiro sob a promessa de Mesa de convocar uma Assembleia Constituinte e realizar um referendo sobre o g\u00e1s, desviando a crise das ruas para os canais institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>b) Desvio eleitoral do processo e a elei\u00e7\u00e3o de Evo Morales<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A tr\u00e9gua de 2003 n\u00e3o resolveu as demandas estruturais. Em 2005, uma nova onda de protestos contra Carlos Mesa (que se recusava a nacionalizar os hidrocarbonetos) tamb\u00e9m for\u00e7ou sua ren\u00fancia. O movimento popular exigia a nacionaliza\u00e7\u00e3o total sem indeniza\u00e7\u00e3o e uma Assembleia Constituinte soberana.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a energia revolucion\u00e1ria que amea\u00e7ava dissolver o Estado burgu\u00eas foi canalizada para o processo eleitoral. O Movimento ao Socialismo (MAS), liderado pelo l\u00edder dos produtores de coca, Evo Morales, apresentou-se como a \u00fanica alternativa institucional. uma solu\u00e7\u00e3o nacional vi\u00e1vel para pacificar o pa\u00eds. Nas elei\u00e7\u00f5es de dezembro de 2005, Morales capitalizou o descontentamento e venceu com um hist\u00f3rico 53,7% dos votos. Essa vit\u00f3ria eleitoral serviu como um desvio do processo insurrecional: a luta pelo poder nas ruas foi transformada na gest\u00e3o do aparato estatal existente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>c) O desvio do processo insurrecional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez no poder, o governo Evo Morales implementou reformas que respondiam \u00e0 press\u00e3o da Agenda de Outubro de 2003, alcan\u00e7ando uma estabilidade econ\u00f4mica in\u00e9dita na hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nacionaliza\u00e7\u00e3o das empresas de petr\u00f3leo e minera\u00e7\u00e3o: Em maio de 2006, foi decretada a &#8220;nacionaliza\u00e7\u00e3o&#8221; dos hidrocarbonetos (Decreto Her\u00f3is do Chaco). Por meio da reestrutura\u00e7\u00e3o da Yacimientos Petrol\u00edferos Fiscales Bolivianos (YPFB), o Estado obteve o controle sobre a propriedade dos recursos e exigiu a renegocia\u00e7\u00e3o de contratos com empresas multinacionais, capturando at\u00e9 82% das receitas petrol\u00edferas nos maiores campos. De forma semelhante, a Corpora\u00e7\u00e3o Boliviana de Minera\u00e7\u00e3o (COMIBOL) foi reativada e fundi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas, como a de Vinto, foram recuperadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Distribui\u00e7\u00e3o da receita do petr\u00f3leo: A enorme entrada de moeda estrangeira proveniente das exporta\u00e7\u00f5es de g\u00e1s (impulsionado pelo boom das commodities) foi parcialmente destinado a investimentos p\u00fablicos e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de b\u00f4nus sociais de bem-estar social. Programas como o B\u00f4nus Juancito Pinto (para reduzir as taxas de evas\u00e3o escolar), o B\u00f4nus Juana Azurduy (para gestantes) e a Pens\u00e3o Dignidade (uma pens\u00e3o para idosos) tiraram milh\u00f5es de bolivianos da extrema pobreza e estimularam o mercado interno.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da ret\u00f3rica anti-imperialista e da proclama\u00e7\u00e3o do &#8220;Estado Plurinacional&#8221;, o governo de Evo Morales atuou como um fator-chave de conten\u00e7\u00e3o social. Em vez de avan\u00e7ar rumo ao desmantelamento do Estado latifundi\u00e1rio e capitalista, o MAS, na pr\u00e1tica, manteve a continuidade do capitalismo dependente e extrativista. O que o governo de Evo Morales fez foi aproveitar o boom das commodities para obter maiores lucros e conceder benef\u00edcios de bem-estar social \u00e0s massas, conseguindo abafar a luta de classes sem afetar os lucros da oligarquia latifundi\u00e1ria ou das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o independente de sindicatos e comunidades ind\u00edgenas foi sistematicamente desencorajada ou cooptada. Sempre que a base tentava ultrapassar os limites da propriedade privada ou as leis vigentes, o governo usava seu prest\u00edgio revolucion\u00e1rio para apaziguar os conflitos, argumentando que &#8220;atacar o governo era fazer o jogo da direita&#8221;. Dessa forma, a participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores foi subordinada \u00e0 burocracia estatal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>d) Evo Morales proporcionou benef\u00edcios significativos aos latifundi\u00e1rios e ao setor banc\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s da ret\u00f3rica socialista, o governo do MAS consolidou a estrutura tradicional de poder econ\u00f4mico, forjando alian\u00e7as com a oligarquia do leste da Bol\u00edvia (Santa Cruz) e o setor financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Alian\u00e7a com o agroneg\u00f3cio: O governo freou a reforma agr\u00e1ria radical nas terras baixas. Leis como a Lei da Fun\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica e Social (FES) foram flexibilizadas e houve anistias para o desmatamento ilegal, garantindo a propriedade de grandes fazendeiros de gado e soja. O uso de transg\u00eanicos foi promovido e as fronteiras agr\u00edcolas foram expandidas por meio de decretos que permitiam queimadas controladas, beneficiando diretamente os propriet\u00e1rios de terras tradicionais em troca de paz pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Lucros recordes para o setor banc\u00e1rio: O setor financeiro privado vivenciou seu maior per\u00edodo de prosperidade econ\u00f4mica. O governo garantiu a seguran\u00e7a jur\u00eddica dos bancos privados, que multiplicaram seus lucros ano ap\u00f3s ano gra\u00e7as \u00e0 liquidez da economia e ao consumo interno, sem jamais sofrer qualquer tentativa de nacionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>e) O ataque do governo MAS ao movimento contra a reforma da previd\u00eancia de 2011 e a entrega de \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o a corpora\u00e7\u00f5es transnacionais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es do modelo vieram \u00e0 tona quando a classe trabalhadora se confrontou frontalmente com os interesses do governo e seus aliados corporativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Conflito previdenci\u00e1rio (2011-2013): Durante a implementa\u00e7\u00e3o da nova Lei de Aposentadorias e Pens\u00f5es, o COB (Central Oper\u00e1ria Boliviana) e o setor de minera\u00e7\u00e3o foram \u00e0s ruas exigindo aposentadorias\/pens\u00f5es equivalentes a 100% de seus \u00faltimos sal\u00e1rios e a redu\u00e7\u00e3o da idade de aposentadoria. O governo de Evo Morales classificou os protestos como &#8220;golpistas&#8221; e &#8220;ego\u00edstas&#8221;, mobilizando setores aliados para contrapor as marchas oper\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Transfer\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o para corpora\u00e7\u00f5es transnacionais: Apesar da ret\u00f3rica de nacionaliza\u00e7\u00e3o, a Lei de Minera\u00e7\u00e3o e Metalurgia consolidou o controle de empresas estrangeiras (como a japonesa Sumitomo, na mina de San Crist\u00f3bal, ou a americana Coeur Mining) sobre os dep\u00f3sitos mais ricos do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, enormes privil\u00e9gios foram concedidos \u00e0s cooperativas de minera\u00e7\u00e3o tradicionais \u2014 que operam sob a l\u00f3gica da explora\u00e7\u00e3o privada do trabalho \u2014 em detrimento das empresas estatais de minera\u00e7\u00e3o e os direitos ambientais das comunidades locais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>f) Desgaste de Evo e ressurgimento da direita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No final da d\u00e9cada de 2010, o modelo come\u00e7ou a mostrar sinais de desgaste devido \u00e0 queda nos pre\u00e7os internacionais do g\u00e1s. Ao mesmo tempo, a insist\u00eancia obstinada de Evo Morales na reelei\u00e7\u00e3o indefinida levou a um grave desgaste pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>O desrespeito aos resultados do referendo de 21 de fevereiro de 2016 (21F), no qual a maioria votou contra um novo mandato, diminuiu sua legitimidade democr\u00e1tica e distanciou amplos setores da classe m\u00e9dia urbana. Esse cen\u00e1rio de descontentamento foi habilmente capitalizado pelas for\u00e7as tradicionais de direita e comit\u00eas c\u00edvicos empresariais, que reorganizaram suas for\u00e7as, usando a bandeira da &#8220;defesa da democracia&#8221; para preparar uma tomada de poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>g) Golpe de Estado em 2019<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crise pol\u00edtica atingiu seu ponto de ruptura nas elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2019. Na sequ\u00eancia das alega\u00e7\u00f5es de fraude eleitoral promovidas pela Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) e da interrup\u00e7\u00e3o do sistema de contagem r\u00e1pida de votos, a extrema-direita desencadeou violentas mobiliza\u00e7\u00f5es urbanas.<\/p>\n\n\n\n<p>A insurrei\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria consolidou-se quando a Pol\u00edcia Boliviana se amotinou e as For\u00e7as Armadas &#8220;sugeriram&#8221; a ren\u00fancia do presidente. Em 10 de novembro de 2019, Evo Morales renunciou e exilou-se no M\u00e9xico (e posteriormente na Argentina). Dois dias depois, a senadora de direita Jeanine \u00c1\u00f1ez assumiu a presid\u00eancia interina em uma sess\u00e3o legislativa sem qu\u00f3rum, inaugurando um regime supervisionado pelos militares que perseguiu l\u00edderes sindicais e perpetrou massacres contra a resist\u00eancia popular em Sacaba e Senkata.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>h) A derrota do golpe e a ascens\u00e3o de Luis Arce<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O regime de \u00c1\u00f1ez entrou em colapso rapidamente devido \u00e0 sua violenta repress\u00e3o, aos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o durante a pandemia e \u00e0 desastrosa gest\u00e3o econ\u00f4mica. A resist\u00eancia da classe oper\u00e1ria e da base ind\u00edgena reorganizou-se de forma independente e, em agosto de 2020, por meio de um bloqueio nacional que paralisou o pa\u00eds, for\u00e7ou o governo a marcar uma data para as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2020, o MAS retornou ao poder por meio das urnas. Luis Arce Catacora, ex-ministro da Economia durante o governo de Evo Morales, venceu a elei\u00e7\u00e3o presidencial com 55,1% dos votos, refletindo a rejei\u00e7\u00e3o un\u00e2nime do povo ao golpe de direita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>i) O Governo Luis Arce<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O governo Luis Arce assumiu o poder com a promessa central de implementar a &#8220;reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica&#8221;. Como ex-ministro da Economia e considerado o &#8220;arquiteto&#8221; do boom econ\u00f4mico anterior, sua estrat\u00e9gia baseava-se na inje\u00e7\u00e3o imediata de liquidez na popula\u00e7\u00e3o por meio do B\u00f4nus de Al\u00edvio \u00e0 Fome e no lan\u00e7amento do ambicioso modelo de Industrializa\u00e7\u00e3o por Substitui\u00e7\u00e3o de Importa\u00e7\u00f5es (ISI). Este plano estatal previa a constru\u00e7\u00e3o de mais de 150 plantas industriais p\u00fablicas (usinas de biodiesel, f\u00e1bricas de fertilizantes NPK, refinarias de zinco e f\u00e1bricas de processamento de l\u00edtio e alimentos) com o objetivo de processar mat\u00e9rias-primas locais, reduzir a depend\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o estrangeira e evitar a fuga de capitais.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o ambicioso plano estatal de industrializa\u00e7\u00e3o esbarrou de frente com as limita\u00e7\u00f5es estruturais e intranspon\u00edveis do modelo extrativista boliviano. A manuten\u00e7\u00e3o de todo o aparato estatal e os subs\u00eddios dependiam historicamente da exporta\u00e7\u00e3o de g\u00e1s natural para o Brasil e a Argentina. D\u00e9cadas de falta de investimento na explora\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos levaram ao esgotamento cr\u00edtico e ao decl\u00ednio das reservas de g\u00e1s. Esse decl\u00ednio na principal fonte de renda do pa\u00eds desencadeou um efeito domin\u00f3 catastr\u00f3fico:<\/p>\n\n\n\n<p>A crise da escassez de d\u00f3lares: Com a dr\u00e1stica contra\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de g\u00e1s, o fluxo de moeda estrangeira que alimentava as Reservas Internacionais L\u00edquidas (RIL) do Banco Central secou. Isso levou a uma escassez cr\u00f4nica de d\u00f3lares americanos no mercado formal.<\/p>\n\n\n\n<p>A escassez de combust\u00edvel: Historicamente, a Bol\u00edvia subsidiava o pre\u00e7o da gasolina e do diesel no mercado interno para mant\u00ea-los baratos. Sem produzir petr\u00f3leo bruto suficiente, o Estado foi for\u00e7ado a importar volumes crescentes de combust\u00edvel a pre\u00e7os internacionais. Sem d\u00f3lares suficientes nos cofres p\u00fablicos para pagar os fornecedores internacionais, a estatal YPFB come\u00e7ou a atrasar os pagamentos. Isso resultou em uma escassez cr\u00f4nica de diesel e gasolina, obrigando transportadores, produtores agr\u00edcolas e cidad\u00e3os a esperar em filas quilom\u00e9tricas por dias em postos de gasolina.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final de seu mandato, seu governo se viu preso em um impasse de d\u00e9ficit fiscal e estagfla\u00e7\u00e3o, deixando um cen\u00e1rio de profunda vulnerabilidade econ\u00f4mica e fratura social que pavimentou o caminho para o subsequente cen\u00e1rio pol\u00edtico conflituoso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>j) Divis\u00f5es dentro do MAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ciclo pol\u00edtico do Movimento para o Socialismo (MAS) entrou em sua fase final devido a uma fratura interna irrevers\u00edvel. Uma acirrada disputa pela dire\u00e7\u00e3o do partido entre a ala &#8220;Evista&#8221; (leal a Evo Morales) e a ala &#8220;Arce&#8221; (leal ao presidente Luis Arce) dividiu as principais organiza\u00e7\u00f5es sociais do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos os lados se enfrentaram nos tribunais, por meio de congressos paralelos e bloqueios de estradas para desqualificar um ao outro. A falta de consenso levou, na pr\u00e1tica, \u00e0 proscri\u00e7\u00e3o de suas candidaturas conjuntas ou a chamados \u00e0 absten\u00e7\u00e3o. Isso deixou a base oper\u00e1ria e ind\u00edgena fragmentada e sem uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coesa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>k) As elei\u00e7\u00f5es de 2025<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em um cen\u00e1rio marcado pela profunda crise do MAS e por uma grave crise econ\u00f4mica, as elei\u00e7\u00f5es gerais foram realizadas em agosto de 2025. O processo eleitoral foi condicionado por uma recess\u00e3o aberta que o pa\u00eds vinha vivenciando desde 2024, desencadeada pelo esgotamento das reservas internacionais, pela escassez cr\u00f4nica de combust\u00edvel e por uma grave falta de d\u00f3lares que disparou o mercado paralelo. Esse colapso demonstrou que o boom anterior n\u00e3o passou de um per\u00edodo sustentado pelo boom das commodities. Quando os altos pre\u00e7os internacionais se dissiparam, o modelo do MAS exp\u00f4s a persist\u00eancia do capitalismo dependente, extrativista e subordinado, que Morales e Arce foram respons\u00e1veis \u200b\u200bpor preservar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o primeiro turno, em 17 de agosto, deu vantagem ao senador Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Crist\u00e3o (PDC), com 32,1% dos votos, seguido pelo ex-presidente conservador Jorge &#8220;Tuto&#8221; Quiroga, da Alian\u00e7a Liberdade e Democracia (Libre), com 26,8%, consolidando uma guinada \u00e0 direita tradicional como consequ\u00eancia do desvio e do fracasso hist\u00f3rico do reformismo governamental.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>l) Vit\u00f3ria de Paz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial foi realizado em 19 de outubro de 2025. Contrariando muitas previs\u00f5es iniciais das pesquisas, Rodrigo Paz Pereira (filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora) e seu vice, Edmand Lara, venceram com 54,5% dos votos, contra 45,4% de Quiroga.<\/p>\n\n\n\n<p>Paz conseguiu ganhar moderando sua ret\u00f3rica na campanha final para conquistar os votos do centro e dos progressistas desiludidos, apresentando-se como uma alternativa institucional \u00e0 crise econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>A base hist\u00f3rica de apoio do MAS foi destru\u00edda. O eleitorado, castigado pela infla\u00e7\u00e3o, filas nos postos de gasolina e falta de d\u00f3lares, puniu severamente o partido nas urnas. O partido oficial MAS-IPSP obteve um resultado hist\u00f3rico e marginal de 2,48% dos votos, passando de uma maioria de 96 deputados eleitos em 2020 para apenas um deputado no Parlamento ap\u00f3s a contagem oficial de 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>m) Medidas de Paz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sob o lema de abertura da economia e implementa\u00e7\u00e3o do &#8220;capitalismo para todos&#8221;, o governo Rodrigo Paz rapidamente forjou alian\u00e7as pol\u00edticas com governos de extrema-direita internacionalmente, demonstrando apoio r\u00e1pido e incondicional a Donald Trump ao adotar prontamente um pacote agressivo de reformas neoliberais em conson\u00e2ncia com seu programa econ\u00f4mico:<\/p>\n\n\n\n<p>Ajuste cambial e fiscal: Cria\u00e7\u00e3o de um Fundo de Estabiliza\u00e7\u00e3o Cambial para unificar o mercado do d\u00f3lar, acompanhada de uma liberaliza\u00e7\u00e3o total das exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es, juntamente com uma reconfigura\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria para reduzir os impostos para as empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Abertura internacional: Uma mudan\u00e7a diplom\u00e1tica imediata para fortalecer os la\u00e7os financeiros e pol\u00edticos com os Estados Unidos e institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Reformas estruturais: Propostas de reforma agr\u00e1ria de livre mercado em regi\u00f5es produtivas e a proposta de reforma constitucional, que a oposi\u00e7\u00e3o denunciou como o in\u00edcio da privatiza\u00e7\u00e3o de recursos naturais estrat\u00e9gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ofensiva judicial: O an\u00fancio de uma profunda reestrutura\u00e7\u00e3o do sistema judici\u00e1rio com advert\u00eancias diretas de que os l\u00edderes do governo anterior, especialmente Evo Morales, seriam processados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>n) Das lutas isoladas de 2025 \u00e0 rebeli\u00e3o de janeiro de 2026: a primeira derrota de Paz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante 2025, a resist\u00eancia das massas bolivianas \u00e0 crise cambial e \u00e0 recess\u00e3o herdada de 2024 come\u00e7ou a se manifestar por meio de uma s\u00e9rie de lutas isoladas, setoriais e fragmentadas em todo o pa\u00eds. Os protestos dos sindicatos contra a infla\u00e7\u00e3o, as greves dos motoristas devido \u00e0 escassez de combust\u00edvel, as greves dos professores por aumentos or\u00e7ament\u00e1rios e os bloqueios camponeses locais aconteceram inicialmente de forma dispersa. No entanto, esse cen\u00e1rio mudou radicalmente com a promulga\u00e7\u00e3o do violento pacote neoliberal do Decreto Supremo 5503, que eliminou os subs\u00eddios aos combust\u00edveis, congelou os sal\u00e1rios do setor p\u00fablico, cortou gastos estatais e desregulamentou a economia para abrir recursos estrat\u00e9gicos ao capital transnacional. O decreto atuou como o gatilho definitivo que unificou a raiva acumulada de todos os setores explorados. Rompendo o isolamento setorial e sobrepassando suas pr\u00f3prias dire\u00e7\u00f5es, os diferentes setores em luta unificaram suas for\u00e7as na grande mobiliza\u00e7\u00e3o nacional de janeiro de 2026, que levou mais de 500.000 pessoas \u00e0s ruas e paralisou o pa\u00eds por meio de bloqueios e greves oper\u00e1rias. Essa colossal a\u00e7\u00e3o direta de massas representou a primeira grande derrota para o governo de Rodrigo Paz, for\u00e7ando-o a revogar completamente o decreto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>o) O levante de maio de 2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A fragmenta\u00e7\u00e3o social chegou ao fim definitivamente em maio de 2026, culminando em uma explos\u00e3o social massiva em todo o pa\u00eds. A persistente escassez de combust\u00edvel, os baixos sal\u00e1rios corro\u00eddos pela infla\u00e7\u00e3o e a retumbante rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o velada dos recursos naturais uniram comit\u00eas c\u00edvicos populares, sindicatos independentes e comunidades agr\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>As principais rodovias do pa\u00eds foram bloqueadas, paralisando o tr\u00e1fego log\u00edstico e cortando importantes vias de acesso \u00e0 cidade de La Paz. Enquanto o presidente Rodrigo Paz insiste publicamente que existem &#8220;grupos radicais que se recusam a dialogar&#8221; e criminaliza as marchas, a classe trabalhadora, os povos ind\u00edgenas e os setores populares da Bol\u00edvia retomaram seus m\u00e9todos hist\u00f3ricos de a\u00e7\u00e3o direta, abrindo um novo cap\u00edtulo de confrontos nas ruas, que remetem \u00e0s insurrei\u00e7\u00f5es de 2003 e colocam em xeque a estabilidade do novo regime capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FORA RODRIGO PAZ! CONSTRUIR UMA ALTERNATIVA REVOLUCION\u00c1RIA PARA O PA\u00cdS!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio de enfrentamentos que atualmente paralisa a Bol\u00edvia marca o esgotamento definitivo das ilus\u00f5es reformistas. A experi\u00eancia hist\u00f3rica demonstra que governos conciliadores, como os de Evo Morales e Luis Arce, constitu\u00edram uma estrat\u00e9gia de engano estrat\u00e9gico para a classe oper\u00e1ria: mudar a lideran\u00e7a pol\u00edtica do Estado burgu\u00eas sem transformar fundamentalmente o sistema socioecon\u00f4mico apenas serviu para fortalecer a burguesia latifundi\u00e1ria e as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, facilitando o retorno de planos neoliberais brutais como o de Rodrigo Paz.<\/p>\n\n\n\n<p>As li\u00e7\u00f5es acumuladas oferecem um ensinamento irrefut\u00e1vel para os setores em luta: as massas s\u00f3 triunfam quando unificam suas demandas dispersas nas ruas, superam as burocracias sindicais e confiam exclusivamente em sua pr\u00f3pria for\u00e7a independente. Portanto, a tarefa diante do atual levante nacional n\u00e3o \u00e9 negociar migalhas ou novos pactos institucionais, mas, como j\u00e1 afirmaram os lutadores\/as, derrubar o governo de Paz, que est\u00e1 matando o povo de fome.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 essencial a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa revolucion\u00e1ria pr\u00f3pria para que a classe trabalhadora, juntamente com os camponeses, os povos ind\u00edgenas e os setores populares, possa assumir as r\u00e9deas do pa\u00eds, resolver as tarefas democr\u00e1ticas e institucionais pendentes e fundar, sobre as ru\u00ednas do Estado burgu\u00eas, uma Bol\u00edvia socialista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O contexto da atual levante A profunda crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica e o levante popular que atualmente assolam a Bol\u00edvia n\u00e3o podem ser compreendidas sem analisar o ciclo hist\u00f3rico que come\u00e7ou h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas. 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