{"id":82607,"date":"2026-05-13T15:22:17","date_gmt":"2026-05-13T15:22:17","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82607"},"modified":"2026-05-13T15:23:04","modified_gmt":"2026-05-13T15:23:04","slug":"o-que-significa-apoio-incondicional-a-luta-de-libertacao-palestina-e-como-defende-lo-dentro-da-democracia-burguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/05\/13\/o-que-significa-apoio-incondicional-a-luta-de-libertacao-palestina-e-como-defende-lo-dentro-da-democracia-burguesa\/","title":{"rendered":"O que significa apoio incondicional \u00e0 luta de liberta\u00e7\u00e3o palestina (e como defend\u00ea-lo dentro da democracia burguesa)"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos 3 anos assistimos \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento de solidariedade \u00e0 Palestina em escala internacional. Essa ofensiva n\u00e3o se limita aos centros imperialistas ocidentais: ela tamb\u00e9m avan\u00e7a em pa\u00edses como o Brasil e a Argentina, onde governos, parlamentos e institui\u00e7\u00f5es v\u00eam adotando medidas repressivas \u2014 da persegui\u00e7\u00e3o a ativistas \u00e0 tentativa de equiparar antissionismo ao antissemitismo e de restringir campanhas como o BDS.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa din\u00e2mica n\u00e3o pode ser compreendida como um fen\u00f4meno puramente &#8220;nacional&#8221;. Trata-se de uma ofensiva articulada sob a press\u00e3o do imperialismo, particularmente dos Estados Unidos, que buscam assegurar a manuten\u00e7\u00e3o de Israel como um enclave colonial estrat\u00e9gico no Oriente M\u00e9dio. No marco das rivalidades inter-imperialistas, a defesa de Israel torna-se um eixo central da pol\u00edtica externa norte-americana, o que se traduz em press\u00e3o direta e indireta sobre Estados dependentes e aliados para que reprimam a solidariedade com a luta palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, coloca-se uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica imediata: como defender o apoio incondicional \u00e0 luta de liberta\u00e7\u00e3o palestina \u2014 incluindo o direito \u00e0 resist\u00eancia \u2014 no espa\u00e7o da democracia burguesa, especialmente quando o governo busca justamente suprimir esse apoio? A resposta n\u00e3o est\u00e1 nem na adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s regras do jogo nem na recusa abstrata do terreno jur\u00eddico. \u00c9 poss\u00edvel \u2014 e necess\u00e1rio \u2014 usar as pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es da democracia burguesa contra ela. Como podem os revolucion\u00e1rios e solid\u00e1rios \u00e0 luta palestina utilizar as liberdades formais da democracia burguesa \u2014 liberdade de express\u00e3o, de reuni\u00e3o, de imprensa, devido processo legal \u2014 para defender o direito de autodetermina\u00e7\u00e3o que inclui, como reconhece a pr\u00f3pria ONU, &#8220;a luta por todos os meios dispon\u00edveis, incluindo a luta armada&#8221;? Esta \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o central que enfrentamos. De um lado, as democracias liberais v\u00eam aprovando leis que equiparam o antissionismo ao antissemitismo, criminalizando o BDS, proibindo slogans como &#8220;do rio ao mar&#8221; e perseguindo ativistas. De outro lado, sabemos que abandonar o terreno jur\u00eddico \u00e9 abandonar a classe trabalhadora e a juventude \u00e0 repress\u00e3o sem defesa. Este artigo defende que \u00e9 poss\u00edvel \u2014 e necess\u00e1rio \u2014 usar os mecanismos da democracia burguesa contra os pr\u00f3prios limites dessa democracia, numa estrat\u00e9gia de defesa legal que exponha a hipocrisia do sistema e prepare a classe para confrontos futuros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O apoio incondicional \u00e0s lutas de liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A posi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do marxismo tem sido dar apoio incondicional \u00e0s lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional dos oprimidos. O apoio incondicional \u00e0s lutas de liberta\u00e7\u00e3o \u2014 o que n\u00e3o significa apoio acr\u00edtico, muito menos apoio pol\u00edtico \u00e0s suas lideran\u00e7as \u2014 resulta da an\u00e1lise materialista do car\u00e1ter dos Estados e das for\u00e7as de classe em jogo. Infelizmente, essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 abandonada por v\u00e1rias correntes esquerdistas ou socialistas, especialmente no caso da Palestina, mas tamb\u00e9m na Ucr\u00e2nia. No caso da Palestina, tem a ver com o car\u00e1ter racista, pr\u00f3-imperialista e de coloniza\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, engajado numa guerra genocida contra os palestinos, e com seu papel reacion\u00e1rio na regi\u00e3o. Qualquer derrota de Israel e qualquer triunfo das massas palestinas e \u00e1rabes contra ele s\u00f3 podem ter um resultado progressivo: o revigoramento e a acelera\u00e7\u00e3o das lutas dos oprimidos na regi\u00e3o at\u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o total.<\/p>\n\n\n\n<p>O apoio incondicional, por\u00e9m, n\u00e3o pode ser confundido com uma recusa em atuar no terreno das institui\u00e7\u00f5es burguesas. Pelo contr\u00e1rio: os marxistas sempre utilizaram os parlamentos, os tribunais e as liberdades formais como&nbsp;<em>tribunas<\/em>&nbsp;para expor a natureza do inimigo e defender os oprimidos \u2014 n\u00e3o porque acreditassem na &#8220;democracia burguesa&#8221;, mas porque a luta por direitos democr\u00e1ticos imediatos \u00e9 parte insepar\u00e1vel da luta pela revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da Palestina e de outras lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional, \u00e9 \u00fatil expor a pura hipocrisia da ONU e da ideologia liberal ocidental. A Resolu\u00e7\u00e3o da Assembleia Geral da ONU de 1990 sobre o direito dos povos \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o afirmou: &#8220;a legitimidade da luta dos povos por independ\u00eancia, integridade territorial, unidade nacional e liberta\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o colonial, do apartheid e da ocupa\u00e7\u00e3o estrangeira por todos os meios dispon\u00edveis, incluindo a luta armada.&#8221;<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>&nbsp;No entanto, a ONU foi a pr\u00f3pria entidade que criou e legitimou o Estado de Israel, em primeiro lugar, e que defendeu continuamente sua exist\u00eancia. Al\u00e9m disso, os pa\u00edses que controlam a ONU s\u00e3o os primeiros a criminalizar, por todos os meios, a resist\u00eancia palestina e seus apoiadores. Da mesma forma, devemos expor o fato de que, apesar da condena\u00e7\u00e3o do TIJ a Israel por seu atual genoc\u00eddio e crimes de guerra, o apoio e a ajuda a Israel n\u00e3o diminu\u00edram por parte do imperialismo ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Criminaliza\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia e defesa jur\u00eddica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O apoio incondicional come\u00e7a com o combate ativo \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento de resist\u00eancia. Isso se concretiza pelo engajamento em trabalhos de defesa de todos os envolvidos na luta por justi\u00e7a na Palestina, em todos os lugares, mas especialmente nos centros imperialistas, onde os direitos \u00e0 liberdade de express\u00e3o e de reuni\u00e3o s\u00e3o cada vez mais restringidos e novas leis e regulamentos est\u00e3o sendo implementados para criminalizar o crescente movimento solid\u00e1rio. Significa tamb\u00e9m se opor aos pedidos de condena\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia palestina e \u00e0 exig\u00eancia de que adotem t\u00e1ticas n\u00e3o violentas diante de um Estado violento condenado por crimes de guerra e genoc\u00eddio pela ONU e pelo direito internacional. Tais exig\u00eancias refor\u00e7am velhos tropos coloniais, orientalistas e islamof\u00f3bicos que retratam os movimentos de resist\u00eancia contra a viol\u00eancia colonial como &#8220;selvagens&#8221;, &#8220;incivilizados&#8221; e &#8220;terroristas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de defesa contra a repress\u00e3o \u00e9 melhor realizado por meio de campanhas de frente \u00fanica para defender os direitos democr\u00e1ticos e recorrendo \u00e0s pol\u00edticas testadas e desenvolvidas pelo movimento revolucion\u00e1rio ao longo do s\u00e9culo passado. Como James Cannon argumentou em&nbsp;<em>Socialismo em Julgamento<\/em>&nbsp;(1965), \u00e9 nossa vantagem usar &#8220;formula\u00e7\u00f5es defensivas&#8221;, isto \u00e9, mostrar &#8220;que a burguesia toma a iniciativa da viol\u00eancia e n\u00e3o permite uma mudan\u00e7a pac\u00edfica&#8221;, porque, ao recentralizar a origem social e pol\u00edtica da viol\u00eancia no Estado capitalista e explicar o car\u00e1ter pol\u00edtico da luta, \u00e9 poss\u00edvel construir o mais amplo apoio \u00e0 nossa luta entre os trabalhadores, educar novas camadas sobre a quest\u00e3o da Palestina, compelindo-as a se juntar ao nosso movimento e expor a hipocrisia das democracias liberais.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>&nbsp;As formula\u00e7\u00f5es defensivas tamb\u00e9m ajudar\u00e3o a preparar os trabalhadores para confrontos futuros com o Estado: &#8220;Aconselhamos os trabalhadores a terem isso em mente e a se prepararem para&nbsp;<em>se defenderem <\/em>contra a viol\u00eancia da minoria reacion\u00e1ria e ultrapassada da classe.&#8221;<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>&nbsp;Isto \u00e9, elas nos ajudam a treinar nosso movimento nos m\u00e9todos de autodefesa da classe trabalhadora, para ir al\u00e9m de iniciativas espont\u00e2neas e individuais e, em vez disso, implementar uma prepara\u00e7\u00e3o ampla, democr\u00e1tica e coletiva para medidas de autodefesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa abordagem das&nbsp;<em>formula\u00e7\u00f5es defensivas<\/em>&nbsp;\u00e9 a chave para atuar nos marcos da democracia burguesa sem cair nem no reformismo (acreditar que as leis podem fazer justi\u00e7a) nem no sectarismo (recusar qualquer engajamento legal). Quando defendemos um ativista preso por gritar &#8220;do rio ao mar&#8221;, n\u00e3o pedimos permiss\u00e3o ao juiz para existir. Mostramos, a partir dos pr\u00f3prios princ\u00edpios da defesa, que a repress\u00e3o \u00e9 seletiva, que as liberdades s\u00e3o formalmente garantidas, mas materialmente negadas aos palestinos e seus solid\u00e1rios; e, ao faz\u00ea-lo, educamos a classe trabalhadora sobre o car\u00e1ter classista do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Devemos denunciar a falsa simetria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O conte\u00fado de nossa propaganda defensiva parte da den\u00fancia da falsa simetria entre as a\u00e7\u00f5es do oprimido e do opressor e, ainda pior, a campanha que apresenta o agredido como agressor. Essas narrativas s\u00e3o criadas pelos governos imperialistas e difundidas pela m\u00eddia corporativa e por certas esquerdas liberais. A tarefa dos marxistas \u00e9 precisamente explicar que as a\u00e7\u00f5es de outubro de 2023, que foram fundamentalmente defensivas, ainda que a resist\u00eancia palestina tenha aparecido como a &#8220;iniciadora&#8221; t\u00e1tica da viol\u00eancia armada. Isso porque a viol\u00eancia estrutural do colonialismo de colonizador \u2014 o cerco, a expropria\u00e7\u00e3o da terra, o assassinato cotidiano, a nega\u00e7\u00e3o de direitos b\u00e1sicos \u2014 j\u00e1 constitu\u00eda um estado de guerra permanente imposto aos palestinos. Antes mesmo de 7 de outubro, Gaza vivia um estrangulamento met\u00f3dico: desde 2007, Israel controla o espa\u00e7o a\u00e9reo, as \u00e1guas territoriais, os pontos de passagem fronteiri\u00e7os, o registro populacional, o acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, aos alimentos, \u00e0 eletricidade e aos cuidados m\u00e9dicos. Esse bloqueio, denunciado por organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos como um cerco coletivo e uma puni\u00e7\u00e3o em massa, j\u00e1 tornava Gaza a maior pris\u00e3o a c\u00e9u aberto do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como recorda Leon Trotsky em seus escritos sobre a Primeira Guerra Mundial:&nbsp;&#8220;Uma guerra defensiva \u00e9 aquela que \u00e9 travada por uma na\u00e7\u00e3o oprimida contra uma na\u00e7\u00e3o opressora. Toda guerra nacional, quando se trata de autodefesa contra um inimigo estrangeiro, \u00e9 justa do ponto de vista do oprimido. Mas uma guerra nunca \u00e9 defensiva para a classe dominante; \u00e9 sempre imperialista. A quest\u00e3o decisiva n\u00e3o \u00e9 quem atirou primeiro, mas quem beneficia da ordem existente e quem luta para romp\u00ea-la.&#8221;<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Portanto, recusar-se a reduzir a resist\u00eancia a um ato abstrato de &#8220;viol\u00eancia inicial&#8221; \u00e9 compreender que a assimetria n\u00e3o est\u00e1 apenas nos meios militares, mas tamb\u00e9m no pr\u00f3prio direito de existir.<\/p>\n\n\n\n<p>A famosa cena de&nbsp;<em>A Batalha de Argel<\/em>&nbsp;(1966), de Gillo Pontecorvo, captura com precis\u00e3o cir\u00fargica a hipocrisia moral que sempre acompanha as guerras coloniais. Quando um jornalista pergunta ao l\u00edder revolucion\u00e1rio Ben M&#8217;Hidi se n\u00e3o \u00e9 &#8220;covarde&#8221; usar os cestos de mulheres para esconder explosivos que matam civis, ele responde:&nbsp;&#8220;E n\u00e3o lhe parece ainda mais covarde lan\u00e7ar bombas de napalm sobre aldeias indefesas, onde h\u00e1 mil vezes mais v\u00edtimas inocentes? Claro, se tiv\u00e9ssemos os seus avi\u00f5es, seria muito mais f\u00e1cil para n\u00f3s. D\u00ea-nos os seus bombardeiros e poder\u00e1 ficar com os nossos cestos.&#8221;&nbsp;&nbsp;Essa troca exp\u00f5e a falsa simetria que o discurso dominante tenta impor: de um lado, a viol\u00eancia &#8220;civilizada&#8221; do estado, com seus ex\u00e9rcitos e arsenais de destrui\u00e7\u00e3o em massa; do outro, a viol\u00eancia &#8220;selvagem&#8221; ou &#8220;terrorista&#8221; do colonizado, que usa os meios primitivos que tem \u00e0 m\u00e3o \u2014 cestos, ataduras, estilingues ou foguetes artesanais. A pergunta sobre a &#8220;legitimidade&#8221; dos m\u00e9todos nunca \u00e9 feita a quem possui a tecnologia da morte industrializada, apenas a quem resiste com sobras e restos. Como Ben M&#8217;Hidi deixa claro, a troca justa seria: o direito \u00e0 autodefesa sim\u00e9trica. Enquanto isso n\u00e3o for poss\u00edvel, exigir que o oprimido abandone seus &#8220;cestos&#8221; enquanto o opressor mant\u00e9m seus &#8220;bombardeiros&#8221; n\u00e3o \u00e9 pacifismo \u2014 \u00e9 cumplicidade com a domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dar apoio incondicional aos esfor\u00e7os de liberta\u00e7\u00e3o palestinos significa opor-se a quaisquer demandas que condicionem ou restrinjam a solidariedade aos m\u00e9todos de luta dos oprimidos, especialmente quando esses apelos s\u00e3o apenas a amplifica\u00e7\u00e3o, no movimento, da guerra ideol\u00f3gica que o opressor imperialista trava contra os oprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Defender o direito de autodetermina\u00e7\u00e3o quer dizer defend\u00ea-lo &#8220;por todos os meios dispon\u00edveis&#8221; nos parlamentos e tribunais ocidentais; significa, na pr\u00e1tica, lutar contra a criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade. Significa apresentar projetos de lei que&nbsp;derrubem&nbsp;as leis anti-BDS, impedir a ado\u00e7\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o da IHRA em universidades e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e exigir o cumprimento das decis\u00f5es do TIJ e do TPI \u2014 n\u00e3o porque o sistema jur\u00eddico internacional seja justo, mas porque expor sua seletividade (Israel julgado e impune) \u00e9 uma arma de agita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Atuar nas brechas da democracia burguesa: t\u00e1ticas para a solidariedade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta pr\u00e1tica que emerge de tudo isso \u00e9: o que fazer&nbsp;<em>hoje<\/em>, enquanto as leis repressivas avan\u00e7am nos centros imperialistas? A resposta tem quatro componentes interligados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Defesa jur\u00eddica ofensiva e educativa de nossos direitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata apenas de pagar fian\u00e7a ou contratar advogados. Trata-se de usar cada julgamento como uma tribuna p\u00fablica para explicar por que a solidariedade com a Palestina n\u00e3o \u00e9 um crime e de organizar um movimento independente de apoio nas ruas e nos locais de trabalho. Para isso, a t\u00e1tica das&nbsp;<em>formula\u00e7\u00f5es defensivas<\/em>&nbsp;de Cannon que consiste em transformar o r\u00e9u em acusador do Estado ajuda a politiza e massificar as lutas. Quando um ativista \u00e9 processado por &#8220;apologia ao terrorismo&#8221; ou por usar o slogan &#8220;do rio ao mar&#8221;, a defesa deve demonstrar que o verdadeiro terrorismo de Estado \u00e9 o de Israel \u2014 apoiado pelo Ocidente com armas, financiamento e cobertura diplom\u00e1tica. Cada absolvi\u00e7\u00e3o, cada redu\u00e7\u00e3o de pena, cada decis\u00e3o favor\u00e1vel \u00e9 uma brecha no muro da repress\u00e3o e uma li\u00e7\u00e3o para a classe trabalhadora sobre como o sistema &#8220;legal&#8221; protege o opressor e pune o oprimido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Campanhas amplias e unificadas por liberdades democr\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A melhor defesa da solidariedade palestina \u00e9 a defesa da liberdade de express\u00e3o para&nbsp;<em>todos<\/em>. Por isso, \u00e9 taticamente correto formar frentes amplas com liberais, sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos em torno de demandas concretas: rejeitar a defini\u00e7\u00e3o da IHRA (Alian\u00e7a Internacional para a Mem\u00f3ria do Holocausto) em universidades e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos; impedir a aprova\u00e7\u00e3o de leis anti-BDS; anular condena\u00e7\u00f5es de ativistas; derrotar projetos de lei que equiparam antissionismo a antissemitismo. Essas campanhas mostram, na pr\u00e1tica, que o inimigo comum n\u00e3o \u00e9 &#8220;o judeu&#8221;, mas o Estado racista de Israel e a censura que o protege. Como demonstrado recentemente em Nova York (revoga\u00e7\u00e3o da ordem executiva que adotava a IHRA) e em Nova Jersey (derrota do projeto A3558), \u00e9 poss\u00edvel vencer batalhas no terreno da democracia burguesa quando se constroem coaliz\u00f5es amplas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Den\u00fancia dos dois pesos e duas medidas da democracia burguesa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A democracia burguesa aplica a lei de forma seletiva.&nbsp; \u00c9 necess\u00e1rio denunciar que o Estado n\u00e3o cumpre suas pr\u00f3prias leis e que os governos ocidentais n\u00e3o tratam a R\u00fassia e Israel com o mesmo rigor: se h\u00e1 san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia por invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, por que n\u00e3o h\u00e1 san\u00e7\u00f5es a Israel por genoc\u00eddio e ocupa\u00e7\u00e3o? Tamb\u00e9m \u00e9 preciso expor a necessidade dos tribunais nacionais cumprirem as decis\u00f5es do TIJ e do TPI.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da Palestina, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grave. Verdadeiros antissemitas poderosos raramente s\u00e3o processados, enquanto antissionistas s\u00e3o criminalizados por meio de falsas acusa\u00e7\u00f5es.&nbsp;Michael Ferro (EUA)&nbsp;, ex-presidente da <em>Tribune Publishing<\/em>, foi gravado falando sobre uma &#8220;cabala judaica&#8221; que controlava Los Angeles. N\u00e3o enfrentou processo criminal.&nbsp;J\u00fcrgen M\u00f6llemann (Alemanha)&nbsp;, vice-presidente do Partido Democr\u00e1tico Livre, fez campanha com declara\u00e7\u00f5es antissemitas expl\u00edcitas; os promotores rejeitaram a den\u00fancia contra ele. Elon Musk (EUA)&nbsp;endossou publicamente uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o antissemita (de que comunidades judaicas promovem &#8220;\u00f3dio contra brancos&#8221;), recebeu condena\u00e7\u00e3o da Casa Branca, viu sua plataforma X ser inundada por discurso de \u00f3dio, e amea\u00e7ou processar a Liga Antidifama\u00e7\u00e3o (ADL) por denunciar o aumento do antissemitismo \u2014 mas n\u00e3o sofreu nenhum processo criminal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, ativistas palestinos e aliados na Europa e na Am\u00e9rica do Norte&nbsp;s\u00e3o rotineiramente acusados de antissemitismo por expressarem solidariedade \u00e0 Palestina, enquanto supremacistas brancos de verdade n\u00e3o sofrem as mesmas consequ\u00eancias. Estudantes universit\u00e1rios nos EUA&nbsp;e no Reino Unido foram suspensos ou perderam empregos por protestarem contra o genoc\u00eddio em Gaza.&nbsp;Acad\u00eamicos na Europa&nbsp;foram demitidos por apoiar o boicote acad\u00eamico a Israel (BDS) ou por criticar o sionismo, sem qualquer prova de antissemitismo.&nbsp;Essa seletividade revela o car\u00e1ter de classe da justi\u00e7a burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A defesa do direito de autodetermina\u00e7\u00e3o do povo palestino \u2014 por&nbsp;<em>todos os meios<\/em>, incluindo a luta armada \u2014 dentro dos marcos da democracia burguesa \u00e9 uma tarefa contradit\u00f3ria, mas n\u00e3o imposs\u00edvel. Exige clareza te\u00f3rica para n\u00e3o cair no reformismo (acreditar que as leis podem fazer justi\u00e7a) nem no sectarismo (recusar qualquer engajamento jur\u00eddico). Exige coragem para usar as tribunas da ordem estabelecida contra ela. E exige organiza\u00e7\u00e3o para transformar cada vit\u00f3ria defensiva num trampolim para a ofensiva de massa.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior contribui\u00e7\u00e3o que os solid\u00e1rios nos centros imperialistas podem dar \u00e0 resist\u00eancia palestina \u00e9 dupla: desfazer as vantagens materiais de Israel (por meio do BDS, da press\u00e3o sobre sindicatos e da interrup\u00e7\u00e3o do fluxo de armas) e desfazer suas vantagens pol\u00edticas (por meio da exposi\u00e7\u00e3o da verdade colonial do sionismo). A luta pela liberdade de express\u00e3o, pelo direito ao boicote, pela rejei\u00e7\u00e3o da IHRA e pela anula\u00e7\u00e3o das condena\u00e7\u00f5es a ativistas n\u00e3o \u00e9 uma luta&nbsp;<em>paralela<\/em>&nbsp;\u00e0 solidariedade palestina \u2014 \u00e9 parte constitutiva dela. Defender os direitos democr\u00e1ticos dos trabalhadores e dos oprimidos hoje \u00e9 defender a possibilidade de organizar, amanh\u00e3, a solidariedade material que pode, de fato, virar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, \u00e9 preciso desenvolver formas de mobiliza\u00e7\u00e3o de massa lideradas pela pr\u00f3pria classe trabalhadora&nbsp;\u2014 ou seja, na organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma e independente da classe, por meio de assembleias, greves pol\u00edticas, ocupa\u00e7\u00f5es, comit\u00eas de solidariedade ativa e a\u00e7\u00f5es diretas que n\u00e3o dependem das institui\u00e7\u00f5es burguesas (Estado, parlamentos, tribunais) nem da burocracia sindical ou partid\u00e1ria tradicional. S\u00f3 a classe trabalhadora, organizada por si mesma, pode impor, de baixo para cima, o fim da seletividade hip\u00f3crita do direito internacional e da cumplicidade dos governos ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> UN General Assembly Resolution on the rights of peoples to self-determination and struggle by all available means, 1990. <a href=\"https:\/\/www.un.org\/unispal\/document\/auto-insert-184801\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.un.org\/unispal\/document\/auto-insert-184801\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> James Cannon, <em>Socialism on Trial<\/em>, 1965.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> James Cannon, <em>Socialism on Trial<\/em>, 1965.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Trotsky, <em>A Guerra e a Internacional<\/em>, 1914.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos 3 anos assistimos \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento de solidariedade \u00e0 Palestina em escala internacional. Essa ofensiva n\u00e3o se limita aos centros imperialistas ocidentais: ela tamb\u00e9m avan\u00e7a em pa\u00edses como o Brasil e a Argentina, onde governos, parlamentos e institui\u00e7\u00f5es v\u00eam adotando medidas repressivas \u2014 da persegui\u00e7\u00e3o a ativistas \u00e0 tentativa de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":82608,"menu_order":9,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Florence Oppen","footnotes":""},"categories":[8068,228],"tags":[9591,4369,205],"class_list":["post-82607","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especial-palestina","category-palestina","tag-criminalizacao-da-luta-palestina","tag-florence-oppen","tag-palestina-2"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Palestina-1.png","categories_names":["Especial Palestina","Palestina"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Florence Oppen","tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82607"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82607\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82610,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82607\/revisions\/82610"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}