{"id":82604,"date":"2026-05-13T14:39:33","date_gmt":"2026-05-13T14:39:33","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82604"},"modified":"2026-05-13T14:40:38","modified_gmt":"2026-05-13T14:40:38","slug":"a-criminalizacao-da-solidariedade-com-o-povo-palestino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/05\/13\/a-criminalizacao-da-solidariedade-com-o-povo-palestino\/","title":{"rendered":"A criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade\u00a0com o povo palestino"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o: A Nova Fronteira da Repress\u00e3o Pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, especialmente entre 2022 e 2026, o mundo ocidental testemunhou um fen\u00f4meno que transcende o debate t\u00e9cnico-jur\u00eddico: a promo\u00e7\u00e3o de uma nova defini\u00e7\u00e3o de antissemitismo pela Alian\u00e7a Internacional para a Mem\u00f3ria do Holocausto (IHRA \u2014&nbsp;<em>International Holocaust Remembrance Alliance<\/em>). Estamos diante de uma ofensiva pol\u00edtica coordenada em escala internacional \u2014 uma tentativa deliberada de transformar a solidariedade com o povo palestino em crime, ao mesmo tempo em que se restringem as liberdades democr\u00e1ticas fundamentais nos pr\u00f3prios pa\u00edses que se apresentam como &#8220;defensores da democracia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No Brasil, essa ofensiva j\u00e1 tem v\u00edtimas concretas. O oper\u00e1rio, dirigente sindical e tamb\u00e9m presidente do PSTU Jos\u00e9 Maria de Almeida, o Z\u00e9 Maria, que tem uma condena\u00e7\u00e3o de dois anos de pris\u00e3o por racismo, decorrente de um discurso contra o Estado de Israel \u2014 uma decis\u00e3o que escancara o uso da luta contra o antissemitismo para criminalizar a solidariedade com a Palestina.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os chamados simult\u00e2neos da legisla\u00e7\u00e3o fazem parte de um mesmo movimento pol\u00edtico que busca impor uma equival\u00eancia artificial entre antissionismo e antissemitismo, uma forma real e historicamente documentada de racismo contra os judeus. \u00c9 uma ferramenta pol\u00edtica com um duplo objetivo deliberado. Primeiro, desarmar a luta contra o genoc\u00eddio do povo palestino, que ganha popularidade a cada dia, e legitimar o projeto sionista como &#8216;defensivo&#8217; e de &#8216;autodetermina\u00e7\u00e3o&#8217;, e n\u00e3o como o que \u00e9: colonial, racista e exterminador.&#8221;&nbsp; <a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Segundo, intimidar e, quando necess\u00e1rio, criminalizar qualquer forma de oposi\u00e7\u00e3o organizada \u00e0s pol\u00edticas do Estado de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>As novas defini\u00e7\u00f5es legais buscam criar as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas para a continuidade \u2014 e a normaliza\u00e7\u00e3o \u2014 da destrui\u00e7\u00e3o em Gaza e da coloniza\u00e7\u00e3o completa do restante do territ\u00f3rio hist\u00f3rico dos palestinos. Tamb\u00e9m estabelecem precedentes perigosos para a repress\u00e3o de movimentos sociais em geral, abrindo caminho para ataques mais amplos aos direitos democr\u00e1ticos. Trata-se de como os Estados imperialistas \u2014 sob a lideran\u00e7a dos EUA e da Alemanha \u2014 est\u00e3o ensaiando um novo regime de controle social no s\u00e9culo XXI, usando o combate ao antissemitismo como fachada para criminalizar a solidariedade internacionalista. \u00c9 uma ofensiva de classe e de imp\u00e9rio. E precisa ser enfrentada como tal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Engenharia Pol\u00edtica por Tr\u00e1s da Defini\u00e7\u00e3o da IHRA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No centro dessa ofensiva est\u00e1 a chamada defini\u00e7\u00e3o de antissemitismo da Alian\u00e7a Internacional para a Mem\u00f3ria do Holocausto (IHRA), adotada em 2016 e progressivamente incorporada por dezenas de governos, universidades e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. \u00c0 primeira vista, sua formula\u00e7\u00e3o parece gen\u00e9rica: define o antissemitismo como &#8220;uma certa percep\u00e7\u00e3o dos judeus que pode se manifestar como \u00f3dio a eles&#8221;.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a> O problema n\u00e3o est\u00e1 nessa defini\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u2014amplamente consensual \u2014, mas nos&nbsp;exemplos&nbsp;que a acompanham.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesses exemplos que ocorre a inflex\u00e3o pol\u00edtica. Ali se estabelece, na pr\u00e1tica, que:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>A quest\u00e3o de car\u00e1ter do Estado de Israel pode ser considerada antissemitismo.<\/li>\n\n\n\n<li>Comparar pol\u00edticas israelenses a regimes hist\u00f3ricos (como o apartheid sul-africano ou mesmo o nazismo) pode ser classificado como discurso de \u00f3dio.<\/li>\n\n\n\n<li>Aplicar padr\u00f5es cr\u00edticos a Israel que n\u00e3o se aplicam a outros Estados pode ser visto como discrimina\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, isso desloca o foco: de combater o racismo contra judeus para proteger um Estado espec\u00edfico contra cr\u00edticas pol\u00edticas leg\u00edtimas.<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a> O pr\u00f3prio Kenneth Stern, principal redator da defini\u00e7\u00e3o da IHRA e autodeclarado sionista, afirmou, em entrevista \u00e0 NPR em 2025, que a defini\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo &#8220;absolutamente instrumentalizada&#8221; para suprimir o debate pol\u00edtico, classificando o uso atual como &#8220;um ataque \u00e0 liberdade acad\u00eamica e \u00e0 liberdade de express\u00e3o&#8221;.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Estamos diante de um instrumento de poder. At\u00e9 janeiro de 2026, 47 pa\u00edses adotaram formalmente a defini\u00e7\u00e3o da IHRA. At\u00e9 2021, 37 pa\u00edses haviam adotado a defini\u00e7\u00e3o; ap\u00f3s os acontecimentos de outubro de 2023, houve uma nova ofensiva, com um total de 97 novas ado\u00e7\u00f5es, considerando todos os tipos de entidades (incluindo governos locais e universidades). Hoje, al\u00e9m dos Estados Unidos, do Canad\u00e1 e do Reino Unido, 26 dos 27 estados-membros da Uni\u00e3o Europeia reconhecem legalmente essa defini\u00e7\u00e3o, e v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos e asi\u00e1ticos alinhados com o imperialismo estadunidense (Argentina, El Salvador, Panam\u00e1, Costa Rica, Coreia do Sul, Filipinas etc.) tamb\u00e9m a adotaram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estados Unidos: O Laborat\u00f3rio da Repress\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, esse processo assume uma forma particularmente avan\u00e7ada. N\u00e3o por acaso. O pa\u00eds funciona como um verdadeiro laborat\u00f3rio de experimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. At\u00e9 2026,&nbsp;39 estados americanos&nbsp;adotaram a defini\u00e7\u00e3o da IHRA em suas legisla\u00e7\u00f5es ou diretrizes administrativas. O Missouri, por exemplo, aprovou em abril de 2026 o projeto HB 2061, que exige que escolas e universidades incorporem a defini\u00e7\u00e3o da IHRA em seus c\u00f3digos de conduta, tratando o antissemitismo como discrimina\u00e7\u00e3o racial e estabelecendo mecanismos de den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es de direitos civis t\u00eam denunciado o uso instrumental da defini\u00e7\u00e3o. O Council on American-Islamic Relations (CAIR) alertou que a defini\u00e7\u00e3o da IHRA tem sido &#8220;repetidamente usada para silenciar a defesa contra o genoc\u00eddio e pelos direitos humanos palestinos&#8221;, e que qualquer tentativa de punir estudantes por cr\u00edticas ao governo israelense violaria a Primeira Emenda[4]. O pr\u00f3prio Stern alertou, em 2019, em artigo para o&nbsp;<em>The Guardian<\/em>, que codificar a defini\u00e7\u00e3o em lei &#8220;seria usado para suprimir o discurso pol\u00edtico e prejudicar a liberdade acad\u00eamica&#8221;.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alemanha: A Infraestrutura Repressiva Consolidada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na Alemanha, o cen\u00e1rio \u00e9 particularmente grave. O&nbsp;<em>World Report 2026<\/em>&nbsp;da Human Rights Watch documentou que as autoridades alem\u00e3s &#8220;minaram a liberdade de express\u00e3o, reuni\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o, visando particularmente as manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade \u00e0 Palestina&#8221;. O Conselho da Europa manifestou preocupa\u00e7\u00e3o com as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade de reuni\u00e3o e de express\u00e3o relacionadas \u00e0 ofensiva israelense em Gaza, com o uso excessivo da for\u00e7a policial contra manifestantes em Berlim e com as restri\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade acad\u00eamica baseadas na &#8220;classifica\u00e7\u00e3o ampla da cr\u00edtica a Israel como antissemitismo&#8221;.<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A repress\u00e3o ancora-se no princ\u00edpio de Staatsr\u00e4son, segundo o qual a seguran\u00e7a de Israel constitui raz\u00e3o de Estado. A mem\u00f3ria do Holocausto \u00e9 mobilizada para deslocar o foco da prote\u00e7\u00e3o contra o antissemitismo para a blindagem de um Estado espec\u00edfico contra cr\u00edticas pol\u00edticas. Relatos recorrentes indicam a abertura de milhares de processos contra ativistas, o cancelamento de eventos culturais e a exclus\u00e3o de artistas e intelectuais de espa\u00e7os p\u00fablicos por suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Na \u00c1ustria, pa\u00eds de l\u00edngua alem\u00e3 com estrutura jur\u00eddica semelhante, o ativista socialista internacional Michael Pr\u00f6bsting responde a processos baseados na interpreta\u00e7\u00e3o extensiva da defini\u00e7\u00e3o da IHRA.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, decis\u00f5es judiciais recentes revelam tens\u00f5es internas nesse modelo. Em novembro de 2025, um tribunal superior da Ren\u00e2nia do Norte-Vestf\u00e1lia determinou que o Estado n\u00e3o pode proibir, de forma ampla, discursos que questionem o direito \u00e0 exist\u00eancia de Israel, reconhecendo tais posi\u00e7\u00f5es como protegidas pela liberdade de express\u00e3o. A decis\u00e3o afirma que a an\u00e1lise cr\u00edtica da funda\u00e7\u00e3o do Estado e a defesa de mudan\u00e7as pac\u00edficas nas condi\u00e7\u00f5es existentes s\u00e3o compat\u00edveis com a ordem constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fran\u00e7a: O Projeto de Lei Yadan<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na Fran\u00e7a, o mesmo movimento assume uma configura\u00e7\u00e3o jur\u00eddica distinta, deslocando-se do campo das diretrizes administrativas para a tentativa expl\u00edcita de criar novos tipos penais. O chamado &#8220;Projeto de Lei Yadan&#8221; \u2014 apresentado em novembro de 2024 e em discuss\u00e3o at\u00e9 abril de 2026\u2014 buscava criar um novo crime: a &#8220;incita\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de um Estado reconhecido pela Fran\u00e7a&#8221;.<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Embora o texto n\u00e3o mencionasse Israel nominalmente, o pre\u00e2mbulo deixava claro o alvo, alinhando-se a slogans como &#8220;Do rio ao mar, a Palestina ser\u00e1 livre&#8221; \u2014express\u00e3o que, para os palestinos, significa o fim da ocupa\u00e7\u00e3o e a conquista da igualdade de direitos, mas foi reinterpretada como uma amea\u00e7a existencial ao Estado de Israel.<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A lei tamb\u00e9m pretendia ampliar o crime de &#8220;apologia ao terrorismo&#8221; para punir a &#8220;desvaloriza\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;trivializa\u00e7\u00e3o&#8221; de ataques, o que, segundo cr\u00edticos, serve para criminalizar a defesa da resist\u00eancia palestina como um direito internacionalmente reconhecido contra ocupa\u00e7\u00f5es militares.<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a> A Anistia Internacional e especialistas da ONU alertaram que a lei, ao punir de forma vaga a &#8220;banaliza\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;justifica\u00e7\u00e3o&#8221; do terrorismo, poderia ser usada para silenciar defensores dos direitos palestinos, confundindo cr\u00edticas pol\u00edticas leg\u00edtimas com apologia a atos criminosos.<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o popular, no entanto, foi massiva. Diante de uma peti\u00e7\u00e3o que ultrapassou 700 mil assinaturas &nbsp;e de uma forte obstru\u00e7\u00e3o parlamentar da Fran\u00e7a Insubmissa (LFI)<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>, o governo foi for\u00e7ado a retirar o projeto da pauta da Assembleia Nacional em 16 de abril de 2026. O governo Macron se comprometeu a reapresentar o texto em junho do mesmo ano, o que mostra que a batalha est\u00e1 longe de acabar. O epis\u00f3dio n\u00e3o \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o acidental do liberalismo franc\u00eas \u2014 \u00e9 sua verdadeira face: quando a defesa dos &#8220;direitos humanos&#8221; amea\u00e7a interesses geopol\u00edticos, o Estado n\u00e3o hesita em atropel\u00e1-la. A derrota t\u00e1tica de abril de 2026 foi uma vit\u00f3ria da mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Mas a luta continua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reino Unido: O Caso da Palestine Action<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Reino Unido, a criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade com a Palestina atingiu um novo patamar com a proscri\u00e7\u00e3o da&nbsp;Palestine Action, em vigor desde 5 de julho de 2025, ao abrigo da Terrorism Act 2000.<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a> O grupo, fundado em 2020, dedicava-se a a\u00e7\u00f5es de desobedi\u00eancia civil \u2014 como invas\u00f5es simb\u00f3licas de f\u00e1bricas de armas, destrui\u00e7\u00e3o de equipamentos e pintura com tinta vermelha \u2014 para denunciar o papel da ind\u00fastria b\u00e9lica brit\u00e2nica no fornecimento de armas a Israel. Nenhum dos seus membros foi alguma vez acusado de viol\u00eancia contra pessoas; seus alvos eram exclusivamente propriedades de empresas como a Elbit Systems, a maior fabricante de armas israelense. Ainda assim, o governo ingl\u00eas classificou suas a\u00e7\u00f5es como &#8220;terrorismo&#8221;, abrindo caminho para penas de at\u00e9 14 anos de pris\u00e3o por mero apoio ao grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros s\u00e3o estarrecedores: at\u00e9 novembro de 2025, mais de&nbsp;2.000 pessoas&nbsp;haviam sido presas ao abrigo da lei antiterrorismo \u2014 algumas por algo t\u00e3o simples quanto segurar uma placa com os dizeres&nbsp;<em>&#8220;I oppose genocide. I support Palestine Action&#8221;<\/em>. Destas, cerca de 700 foram formalmente acusadas. Em dezembro de 2025, oito ativistas da Palestine Action \u2014 parte do chamado &#8220;Filton 24&#8221; \u2014 entraram em greve de fome nas pris\u00f5es brit\u00e2nicas, tendo algumas chegado a 49 dias sem se alimentar, ap\u00f3s terem sido detidas preventivamente por mais de um ano enquanto aguardavam julgamento. Mais de 800 profissionais de sa\u00fade alertaram para o &#8220;risco iminente de morte&#8221;, mas o governo de Keir Starmer recusou-se a negociar.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o do governo foi contestada judicialmente pela cofundadora do grupo, Huda Ammori, e, em abril de 2026, a Alta Corte considerou a proscri\u00e7\u00e3o&nbsp;ilegal&nbsp;por violar os direitos \u00e0 liberdade de express\u00e3o e de reuni\u00e3o (artigos 10 e 11 da Conven\u00e7\u00e3o Europeia de Direitos Humanos).<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a> No entanto, o governo recorreu da decis\u00e3o, e a proibi\u00e7\u00e3o permanece em vigor at\u00e9 o julgamento final. O caso da Palestine Action revela, de forma crua, o que est\u00e1 em jogo: transformar ativistas que se op\u00f5em ao genoc\u00eddio em &#8220;terroristas&#8221; n\u00e3o \u00e9 um excesso pontual \u2014 \u00e9 a nova normalidade que se pretende consolidar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Brasil: O PL 1424\/2026 e o Caso de Z\u00e9 Maria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil n\u00e3o est\u00e1 imune a essa ofensiva. Pelo contr\u00e1rio: tornou-se um dos campos de batalha mais recentes e preocupantes da criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade com a Palestina na Am\u00e9rica Latina. O principal instrumento legislativo dessa investida \u00e9 o&nbsp;<strong>Projeto de Lei 1424\/2026<\/strong>, de autoria da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), que define o antissemitismo com base nos par\u00e2metros da IHRA e o equipara ao crime de racismo, prevendo pena de reclus\u00e3o de 2 a 5 anos, sem prescri\u00e7\u00e3o ou fian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta \u2014 que j\u00e1 teve o apoio de 45 deputados de 15 partidos, incluindo oito do PT que depois retiraram suas assinaturas diante da repercuss\u00e3o negativa \u2014 estabelece que cr\u00edticas ao Estado de Israel, &#8220;encarado como uma coletividade judaica&#8221;, podem ser tipificadas como antissemitismo. Embora o texto ressalve que &#8220;cr\u00edticas a Israel que sejam semelhantes \u00e0s dirigidas contra qualquer outro pa\u00eds n\u00e3o podem ser consideradas antissemitas&#8221;, a armadilha est\u00e1 na natureza singular das cr\u00edticas que Israel atrai: n\u00e3o h\u00e1 outro pa\u00eds no mundo que esteja cometendo um genoc\u00eddio contra o povo palestino, matando dezenas de milhares de crian\u00e7as, ocupando ilegalmente territ\u00f3rios e aplicando pena de morte a prisioneiros de um grupo \u00e9tnico espec\u00edfico. Dessa forma, o PL 1424\/2026 criminaliza, na pr\u00e1tica, o antissionismo \u2014 a oposi\u00e7\u00e3o ao projeto colonial do Estado de Israel \u2014 sob o r\u00f3tulo de antissemitismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o PL 1424\/2026 tramita na C\u00e2mara dos Deputados, a repress\u00e3o j\u00e1 come\u00e7a a produzir suas primeiras v\u00edtimas concretas em solo brasileiro<strong>.<\/strong> Em 28 de abril de 2026, o juiz Massimo Palazzolo, da 4\u00aa Vara Criminal Federal de S\u00e3o Paulo, condenou o presidente do PSTU,&nbsp;Jos\u00e9 Maria de Almeida \u2014 Z\u00e9 Maria&nbsp;\u2014 a dois anos de pris\u00e3o pelo crime de racismo, com base em den\u00fancia apresentada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal ap\u00f3s notifica\u00e7\u00e3o da Confedera\u00e7\u00e3o Israelita do Brasil (Conib) e da Federa\u00e7\u00e3o Israelita do Estado de S\u00e3o Paulo (Fisesp). Z\u00e9 Maria foi condenado por um discurso contra o Estado de Israel. Por sua defesa do povo palestino. Por dizer publicamente o que as imagens de Gaza mostram todos os dias: que Israel comete um genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois fen\u00f4menos \u2014 a condena\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Maria e o PL 1424\/2026 \u2014 n\u00e3o s\u00e3o acidentais nem isolados. S\u00e3o duas faces da mesma moeda: a importa\u00e7\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o da IHRA para o Brasil, com o objetivo expl\u00edcito de criminalizar o antissionismo e silenciar a solidariedade com a Palestina. Se o projeto for aprovado, a persegui\u00e7\u00e3o que hoje atinge Z\u00e9 Maria se tornar\u00e1 sistem\u00e1tica e se espalhar\u00e1 para ativistas, jornalistas, professores, sindicalistas e qualquer cidad\u00e3o que ouse criticar Israel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Alvo Estrat\u00e9gico: A Resist\u00eancia Palestina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A intensifica\u00e7\u00e3o das medidas repressivas n\u00e3o pode ser compreendida sem considerar o poder da resist\u00eancia palestina em seu conjunto e a efic\u00e1cia material do movimento BDS, uma de suas express\u00f5es centrais. O alvo da ofensiva imperialista \u00e9 o cerne da luta palestina: sua resist\u00eancia multifacetada \u2014 da sumud em Gaza e na Cisjord\u00e2nia \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da di\u00e1spora, das manifesta\u00e7\u00f5es globais \u00e0 solidariedade internacionalista. Essa resist\u00eancia produz impactos concretos nos circuitos que sustentam Israel, como o apelo hist\u00f3rico das federa\u00e7\u00f5es sindicais palestinas para que trabalhadores do mundo boicotem as armas destinadas a Israel.<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A persist\u00eancia da resist\u00eancia palestina no meio do genoc\u00eddio tem provocado uma virada hist\u00f3rica na consci\u00eancia popular, inclusive no centro do imp\u00e9rio. Pelo contr\u00e1rio: \u00e9 a pr\u00f3pria resist\u00eancia palestina \u2014 sua coragem diante da morte, sua recusa em abandonar suas terras, sua capacidade de documentar e transmitir ao mundo a barb\u00e1rie do genoc\u00eddio \u2014 que tem rompido as barreiras da propaganda sionista. Ao expor as fragilidades do projeto colonial israelense, a resist\u00eancia palestina produz um efeito deslegitimador que atinge n\u00e3o apenas Israel, mas tamb\u00e9m todo o sistema de domina\u00e7\u00e3o global. \u00c9 por isso que, segundo pesquisas da Gallup de 2026, 57% dos americanos apoiam o estabelecimento de um Estado palestino independente e a simpatia pelo povo palestino (41%) supera a simpatia por Israel (36%).<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a> &nbsp;Entre os jovens de 18 a 34 anos, a virada \u00e9 dram\u00e1tica: 53% expressam mais simpatia pelos palestinos, contra apenas 23% por Israel.<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a> Esse fen\u00f4meno \u00e9 mais not\u00e1vel porque ocorre sob a intensa campanha de criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade, o que prova que a repress\u00e3o n\u00e3o pode conter a verdade quando alimentada pela luta concreta.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas ruas do mundo, a solidariedade se mant\u00e9m firme. Em Istambul, mais de meio milh\u00e3o de pessoas recusaram-se a participar das festividades de Ano Novo de 2026 para marchar pela Palestina sob o slogan &#8220;N\u00e3o nos curvaremos, n\u00e3o nos calaremos, n\u00e3o esqueceremos a Palestina&#8221;.<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a> Da Espanha \u00e0 \u00c1frica do Sul, sindicatos e ativistas t\u00eam bloqueado navios de guerra e cargas destinadas a Israel. O que as elites ocidentais temem n\u00e3o \u00e9 apenas o fim da ocupa\u00e7\u00e3o na Palestina, mas tamb\u00e9m o precedente que uma vit\u00f3ria palestina abriria para outros povos subjugados pelo imperialismo. Por isso, a criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade com a Palestina serve como um teste e um modelo: se conseguirem calar a voz que denuncia o genoc\u00eddio em Gaza, conseguir\u00e3o calar qualquer voz que denuncie as guerras coloniais, a explora\u00e7\u00e3o capitalista e a repress\u00e3o interna aos movimentos sociais. A ofensiva contra a liberdade de express\u00e3o, o direito de protesto e a liberdade acad\u00eamica \u2014 documentada nas se\u00e7\u00f5es anteriores deste texto \u2014 n\u00e3o \u00e9 um efeito colateral da repress\u00e3o \u00e0 Palestina; \u00e9 o objetivo estrat\u00e9gico paralelo. Ao atingir a solidariedade palestina, o imperialismo ensaia os mecanismos de controle social que amanh\u00e3 ser\u00e3o aplicados contra os trabalhadores em greve, os movimentos negros, os defensores da Amaz\u00f4nia e os imigrantes sem documentos.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento BDS, como parte org\u00e2nica dessa resist\u00eancia mais ampla, tem produzido impactos materiais significativos na economia israelense, comprovando que a solidariedade internacional n\u00e3o se limita ao campo simb\u00f3lico. De acordo com o relat\u00f3rio anual de 2025 do Banco de Israel, a economia israelense perdeu mais de US$ 57 bilh\u00f5es (cerca de 8,6557 bilh\u00f5es) entre 2024 e 2025 \u2014o que pode indicar que posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas est\u00e3o influenciando os volumes de exporta\u00e7\u00e3o, segundo o pr\u00f3prio banco central israelense.<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a> Em resposta ao custo crescente da guerra, o governo israelense aprovou um acr\u00e9scimo de US$ 13 bilh\u00f5es no or\u00e7amento de 2026 para financiar opera\u00e7\u00f5es militares.<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a> Esses n\u00fameros n\u00e3o mentem: a resist\u00eancia palestina e o movimento de solidariedade internacional j\u00e1 est\u00e3o sangrando a m\u00e1quina de guerra sionista onde ela mais d\u00f3i \u2014 no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>No plano log\u00edstico, os portos tornaram-se um ponto central de mobiliza\u00e7\u00e3o. Na Espanha, autoridades negaram acesso a embarca\u00e7\u00f5es suspeitas de transportar material militar; na B\u00e9lgica e na \u00c1frica do Sul, sindicatos declararam publicamente que n\u00e3o colaborariam no transporte de armamentos. Nos Estados Unidos, a\u00e7\u00f5es em portos como Oakland e Tacoma bloquearam temporariamente o fluxo de cargas, conectando o movimento trabalhista a redes de solidariedade internacional.<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a> No campo institucional, universidades nos Estados Unidos, no Reino Unido e em outros pa\u00edses tornaram-se epicentros de campanhas de desinvestimento, com estudantes exigindo a retirada de fundos de empresas ligadas ao complexo militar israelense.<a href=\"#_ftn21\" id=\"_ftnref21\">[21]<\/a> A rea\u00e7\u00e3o do&nbsp;establishment&nbsp;n\u00e3o tardou: em Nova York, o prefeito Eric Adams assinou, em dezembro de 2025, uma ordem executiva proibindo que a cidade contrate ou invista em empresas que participem de boicotes a Israel, o que afeta mais de US$ 32 bilh\u00f5es em contratos anuais.<a href=\"#_ftn22\" id=\"_ftnref22\">[22]<\/a> Essa rea\u00e7\u00e3o revela o nervosismo das elites: elas sabem que, se o boicote popular se consolidar, o custo pol\u00edtico e econ\u00f4mico de sustentar o genoc\u00eddio se tornar\u00e1 insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Outro Alvo: Um &nbsp;Ataque Fundamental \u00e0s Liberdades Democr\u00e1ticas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 precisamente essa efic\u00e1cia \u2014 econ\u00f4mica, pol\u00edtica e simb\u00f3lica, nascida da resist\u00eancia palestina e amplificada pela solidariedade internacional \u2014 que ajuda a explicar a resposta coordenada dos Estados imperialistas. A criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade n\u00e3o \u00e9 preventiva, mas reativa: responde a um movimento que deixou de ser apenas discursivo e passou a interferir materialmente em interesses estrat\u00e9gicos, combinando a resili\u00eancia no terreno, a mudan\u00e7a na opini\u00e3o p\u00fablica nos centros do poder \u2014 produzida pela pr\u00f3pria resist\u00eancia palestina \u2014 e um verdadeiro &#8220;embargo dos povos&#8221; que corre o mundo. E responde tamb\u00e9m ao reconhecimento de que o mesmo \u00edmpeto de resist\u00eancia pode, um dia, voltar-se contra suas pr\u00f3prias democracias restritivas e seus privil\u00e9gios de classe. \u00c9 um ensaio geral para criminalizar toda a oposi\u00e7\u00e3o organizada ao imperialismo e ao capital. A resist\u00eancia palestina mostra que \u00e9 poss\u00edvel enfrentar a barb\u00e1rie ocidental e expor suas fragilidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta do imperialismo n\u00e3o \u00e9 apenas contra a Palestina, mas tamb\u00e9m contra as liberdades democr\u00e1ticas de todos.&nbsp;O impacto dessas pol\u00edticas vai muito al\u00e9m da quest\u00e3o palestina e expressa um movimento mais profundo de reorganiza\u00e7\u00e3o dos mecanismos de domina\u00e7\u00e3o nas democracias capitalistas contempor\u00e2neas. Trata-se de um ataque direto a direitos fundamentais conquistados historicamente pelas lutas populares: <strong>(1) a liberdade de express\u00e3o<\/strong>, restringida quando a cr\u00edtica a um Estado aliado do imperialismo passa a ser tratada como ileg\u00edtima; <strong>(2) o direito de protesto<\/strong>, sufocado pela repress\u00e3o policial e pela criminaliza\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es; <strong>(3) a liberdade acad\u00eamica<\/strong>, submetida a vigil\u00e2ncia, censura e puni\u00e7\u00e3o; e <strong>(4) o direito de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/strong>, amea\u00e7ado quando a solidariedade internacionalista \u2014 como o apoio ao BDS \u2014 pode resultar em persegui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, jur\u00eddica e pol\u00edtica. Esses direitos n\u00e3o est\u00e3o sendo formalmente abolidos \u2014 as constitui\u00e7\u00f5es permanecem como fachada \u2014, mas s\u00e3o esvaziados por meio de interpreta\u00e7\u00f5es legais, diretrizes administrativas e mecanismos difusos de intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A educa\u00e7\u00e3o surge como um terreno central dessa ofensiva, justamente por ser um espa\u00e7o estrat\u00e9gico na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social. Nos Estados Unidos, no Reino Unido e em diversos pa\u00edses europeus, h\u00e1 um esfor\u00e7o coordenado para disciplinar o que pode ser ensinado sobre a Palestina, o colonialismo, os direitos humanos e a resist\u00eancia. Professores s\u00e3o punidos por mencionar a Nakba de 1948, curr\u00edculos s\u00e3o ajustados para eliminar categorias anal\u00edticas como \u201cocupa\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201capartheid\u201d, e estudantes s\u00e3o intimidados por expressarem solidariedade. Sob o pretexto de combater o antissemitismo, imp\u00f5e-se um enquadramento ideol\u00f3gico que limita a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao interditar o debate sobre colonialismo e direito internacional, essas pol\u00edticas n\u00e3o apenas silenciam uma quest\u00e3o espec\u00edfica \u2014 elas atuam na reprodu\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia conformada, incapaz de questionar as estruturas de poder existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando n\u00e3o resultam em condena\u00e7\u00f5es formais, essas pol\u00edticas produzem um efeito profundo e difuso: o medo. Acad\u00eamicos evitam determinados temas para preservar financiamento; jornalistas se autocensuram para manter seus empregos; organiza\u00e7\u00f5es moderam seu discurso para n\u00e3o sofrer san\u00e7\u00f5es; estudantes deixam de se expressar para evitar puni\u00e7\u00f5es. Esse \u201cefeito inibidor\u201d \u2014 ou <em>chilling effect<\/em> \u2014 constitui um mecanismo central de controle social nas democracias liberais avan\u00e7adas. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio recorrer \u00e0 repress\u00e3o massiva quando se consegue internalizar os limites do discurso no pr\u00f3prio corpo social. Assim, a censura deixa de ser apenas uma imposi\u00e7\u00e3o externa e passa a operar como autocensura generalizada. O resultado \u00e9 a contra\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico e a neutraliza\u00e7\u00e3o preventiva do dissenso, estabelecendo um precedente perigoso: os instrumentos hoje mobilizados contra a solidariedade com a Palestina podem amanh\u00e3 ser aplicados contra qualquer luta social que confronte os interesses do capital e do imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Necessidade de nos Organizarmos Hoje \u2014 em Defesa de Z\u00e9 Maria e de Todos os Criminalizados<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os governos que promovem essas leis n\u00e3o est\u00e3o combatendo o antissemitismo real \u2014 est\u00e3o sequestrando a luta contra o racismo para servir \u00e0 agenda geopol\u00edtica de Israel e do imperialismo estadunidense. A prova est\u00e1 na aplica\u00e7\u00e3o seletiva: islamofobia, racismo antinegro e antigitanismo seguem sem mecanismos an\u00e1logos. Ao expandir o conceito de antissemitismo a ponto de incluir cr\u00edticas leg\u00edtimas a um Estado e \u00e0s suas pol\u00edticas, essas medidas enfraquecem o combate efetivo ao racismo. Quando compara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, boicotes ou slogans pol\u00edticos passam a ser tratados como formas de discrimina\u00e7\u00e3o, o termo perde precis\u00e3o, densidade anal\u00edtica e for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 em curso n\u00e3o \u00e9 apenas uma disputa jur\u00eddica ou sem\u00e2ntica. \u00c9 uma ofensiva pol\u00edtica coordenada contra o direito de dizer &#8220;Palestina Livre&#8221;. E, como toda ofensiva, precisa ser enfrentada com organiza\u00e7\u00e3o coletiva \u2014 n\u00e3o com resigna\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com autocensura, n\u00e3o com a espera passiva por decis\u00f5es judiciais favor\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A condena\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Maria no Brasil \u00e9 um alerta. Se a esquerda e os movimentos sociais n\u00e3o reagirem agora, a repress\u00e3o que atingiu um dirigente sindical e ativista hist\u00f3rico se espalhar\u00e1. Amanh\u00e3 pode ser um professor que menciona a Nakba em sala de aula. Depois, um jornalista que cobre o genoc\u00eddio em Gaza. Depois, qualquer cidad\u00e3o que compartilhe um post em solidariedade \u00e0 Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia dos \u00faltimos anos ensina uma li\u00e7\u00e3o clara: onde houve mobiliza\u00e7\u00e3o popular massiva, a repress\u00e3o recuou. Na Fran\u00e7a, a retirada do Projeto de Lei Yadan foi uma vit\u00f3ria direta da obstru\u00e7\u00e3o parlamentar da Fran\u00e7a Insubmissa e das mais de 700 mil assinaturas que exigiram seu arquivamento. No Reino Unido, a Alta Corte considerou ilegal a proscri\u00e7\u00e3o da Palestine Action \u2014 ainda que o governo tenha recorrido. Na \u00c1ustria e na Alemanha, ativistas como Michael Pr\u00f6bsting seguem sendo processados, mas a solidariedade internacional pode fazer a diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, organizar-se hoje significa, antes de tudo, assumir compromissos concretos com as v\u00edtimas mais diretas dessa criminaliza\u00e7\u00e3o. Neste momento, no Brasil, a luta imediata tem nome e sobrenome:&nbsp;Z\u00e9 Maria. Exigimos a imediata anula\u00e7\u00e3o de sua condena\u00e7\u00e3o e a retirada de todas as acusa\u00e7\u00f5es contra ele. Ao mesmo tempo, somos solid\u00e1rios com os ativistas perseguidos internacionalmente, como o Tom Alter, a Rima Hassan e o Michael Pr\u00f6bsting.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esses n\u00e3o s\u00e3o casos isolados. S\u00e3o os nomes vis\u00edveis de uma persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica que atinge dezenas, talvez centenas, de ativistas ao redor do mundo. Defend\u00ea-los \u00e9 defender o direito de todos e todas de nos manifestarmos contra o genoc\u00eddio e a favor da liberdade palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta pela liberta\u00e7\u00e3o da Palestina e a luta contra a criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade s\u00e3o uma e mesma coisa. Defender Z\u00e9 Maria \u00e9 defender o direito de dizer &#8220;Palestina Livre&#8221;. Essa luta nos une a todos \u2014 socialistas, sindicalistas, estudantes, professores, trabalhadores \u2014 e tamb\u00e9m \u00e9 a defesa das liberdades democr\u00e1ticas que nos permitem organizar qualquer luta no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade com a Palestina \u00e9 um teste. Se ela passar, os mesmos mecanismos ser\u00e3o aplicados a outras causas \u2014 ao movimento negro, aos trabalhadores em greve, aos defensores da Amaz\u00f4nia, aos imigrantes sem documentos, aos professores que ensinam hist\u00f3ria cr\u00edtica. A recusa em aceitar esse retrocesso come\u00e7a hoje, com organiza\u00e7\u00e3o local, articula\u00e7\u00e3o internacional e a defesa intransigente de cada ativista preso ou processado por dizer o que \u00e9 justo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e0 condena\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Maria! N\u00e3o ao PL 1424\/2026! Pela liberdade de express\u00e3o e pela Palestina livre!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 neutralidade poss\u00edvel diante de uma m\u00e1quina repressiva que j\u00e1 escolheu seu lado. O sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 prud\u00eancia \u2014 \u00e9 cumplicidade. Organizemo-nos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><sup> <\/sup>Sobre o car\u00e1ter colonial do projeto sionista, ver Pappe, Ilan. <em>A Limpeza \u00c9tnica da Palestina.<\/em> S\u00e3o Paulo: Sundermann, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Brown, Sara E. &#8220;San Diego Adopts Antisemitism Definition That&#8217;s Needed More Than Ever&#8221;.&nbsp;<em>American Jewish Committee<\/em>. 23 de mar\u00e7o de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> CAIR (Council on American-Islamic Relations). &#8220;CAIR Calls on Va. Schools to Reject Outgoing AG&#8217;s Call to Falsely Label Students Critical of Israel&#8217;s Racism &#8216;Antisemitic'&#8221;. Comunicado de imprensa. 6 de janeiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> CAIR (Council on American-Islamic Relations). &#8220;CAIR Calls on Va. Schools to Reject Outgoing AG&#8217;s Call to Falsely Label Students Critical of Israel&#8217;s Racism &#8216;Antisemitic'&#8221;. Comunicado de imprensa. 6 de janeiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> CAIR (Council on American-Islamic Relations). &#8220;CAIR Calls on Va. Schools to Reject Outgoing AG&#8217;s Call to Falsely Label Students Critical of Israel&#8217;s Racism &#8216;Antisemitic'&#8221;. Comunicado de imprensa. 6 de janeiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Human Rights Watch.&nbsp;<em>World Report 2026: Germany<\/em>. Events of 2025. Publicado em fevereiro de 2026<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> A proposi\u00e7\u00e3o previa a cria\u00e7\u00e3o de uma nova infra\u00e7\u00e3o penal relacionada \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o ou questionamento da exist\u00eancia de um Estado reconhecido pela Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> A lei visava proibir slogans como &#8220;From the river to the sea&#8221; (&#8220;Do rio ao mar&#8221;), considerando-os uma incita\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio ou uma contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia do Estado de Israel. Para ativistas palestinos, o slogan representa a aspira\u00e7\u00e3o por um \u00fanico Estado democr\u00e1tico e igualit\u00e1rio entre o rio Jord\u00e3o e o mar Mediterr\u00e2neo, com direitos iguais para judeus, mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> A proposta inclu\u00eda a extens\u00e3o do crime de apologia ao terrorismo para punir a &#8220;banaliza\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;minimiza\u00e7\u00e3o excessiva&#8221; de atos terroristas, uma medida criticada por sua vagueza e potencial impacto na liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> A Anistia Internacional e especialistas da ONU alertaram que a lei poderia ser usada para silenciar defensores dos direitos palestinos, confundindo cr\u00edticas pol\u00edticas leg\u00edtimas (incluindo a defesa da resist\u00eancia contra a ocupa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um direito reconhecido pelo direito internacional) com apologia a atos criminosos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> A bancada da LFI, liderada por Mathilde Panot, engajou-se em uma forte obstru\u00e7\u00e3o legislativa (multiplica\u00e7\u00e3o de pedidos de verifica\u00e7\u00e3o de qu\u00f3rum e suspens\u00f5es de sess\u00e3o), tornando imposs\u00edvel a aprova\u00e7\u00e3o do texto no prazo estabelecido.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> UK Home Office. Proscription of Palestine Action under the Terrorism Act 2000. 5 de julho de 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> High Court of Justice, Reino Unido. Ammori v. Secretary of State for the Home Department. Abril de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Sobre as convoca\u00e7\u00f5es das federa\u00e7\u00f5es sindicais palestinas ao boicote internacional, ver Palestinian General Federation of Trade Unions (PGFTU), &#8220;Appeal to Workers Around the World&#8221;, outubro de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> Gallup, &#8220;Americans&#8217; Views on Middle East: Support for Palestinian Statehood Reaches Record High&#8221;, Gallup News, 15 de mar\u00e7o de 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/news.gallup.com<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> Gallup, &#8220;Youth Opinion Shift: Young Americans Favor Palestinians Over Israel for First Time&#8221;, Gallup News, 15 de mar\u00e7o de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> &#8220;Half a Million March for Palestine in Istanbul on New Year&#8217;s Eve&#8221;, Middle East Eye, 1\u00ba de janeiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Bank of Israel, *2025 Annual Report*, se\u00e7\u00e3o &#8220;Fiscal and Macroeconomic Effects of the War&#8221;, publicado em 23 de mar\u00e7o de 2026. Citado por Bloomberg News e Anadolu Ajans\u0131.<\/p>\n\n\n\n<p>Bank of Israel, *2025 Annual Report*, se\u00e7\u00e3o &#8220;International Trade Patterns&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> &#8220;Israel to Expand Budget by $13 Billion to Fund War with Iran&#8221;, Bloomberg\/CNBC TV18, 10 de mar\u00e7o de 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.cnbctv18.com<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a> Sobre a\u00e7\u00f5es em portos, ver &#8220;Port Workers Around the World Refuse to Handle Arms Shipments to Israel&#8221;, *Labor Notes*, fevereiro de 2026; e &#8220;How Dockworkers Are Slowing the Flow of Weapons to Gaza&#8221;, *The Nation*, 12 de janeiro de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a> Sobre campanhas de desinvestimento universit\u00e1rio, ver: University of Nebraska-Lincoln, &#8220;Divest for Humanity Act&#8221;, aprovada pelo governo estudantil em 4 de fevereiro de 2026 (*Nebraska Public Media*, 5 de fevereiro de 2026); University of Maryland, resolu\u00e7\u00f5es da SJP aprovadas entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026 (*Jewish Journal*, 9 de fevereiro de 2026); University of Glasgow, campanha de desinvestimento (\u00a36,8 milh\u00f5es em empresas de armas), *Morning Star*, 26 de abril de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a> Executive Order 60, Office of the Mayor, City of New York, 2 de dezembro de 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.nyc.gov\/mayors-office\/news\/2025\/12\/executive-order-60. Ver tamb\u00e9m *amNY* (3 de dezembro de 2025) e *Jerusalem Post* (3 de dezembro de 2025).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o: A Nova Fronteira da Repress\u00e3o Pol\u00edtica Nos \u00faltimos anos, especialmente entre 2022 e 2026, o mundo ocidental testemunhou um fen\u00f4meno que transcende o debate t\u00e9cnico-jur\u00eddico: a promo\u00e7\u00e3o de uma nova defini\u00e7\u00e3o de antissemitismo pela Alian\u00e7a Internacional para a Mem\u00f3ria do Holocausto (IHRA \u2014&nbsp;International Holocaust Remembrance Alliance). 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