{"id":82583,"date":"2026-05-08T02:44:36","date_gmt":"2026-05-08T02:44:36","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82583"},"modified":"2026-05-08T02:45:41","modified_gmt":"2026-05-08T02:45:41","slug":"quem-e-ze-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/05\/08\/quem-e-ze-maria\/","title":{"rendered":"Quem \u00e9 Z\u00e9 Maria"},"content":{"rendered":"\n<ol class=\"wp-block-list\"><\/ol>\n\n\n\n<p>Nascido em 1957, no interior de S\u00e3o Paulo, Z\u00e9 Maria iniciou sua vida profissional como metal\u00fargico. Foi no ambiente industrial que ingressou na milit\u00e2ncia pol\u00edtica, j\u00e1 vinculado \u00e0 corrente trotskista Converg\u00eancia Socialista, que atuava contra o regime militar (1964\u20131985).<\/p>\n\n\n\n<p>A repress\u00e3o era uma realidade constante. Em 1977, foi preso ao participar da distribui\u00e7\u00e3o de materiais convocando mobiliza\u00e7\u00f5es para o 1\u00ba de Maio, permanecendo cerca de 30 dias detido. O epis\u00f3dio gerou repercuss\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o de setores estudantis e democr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1980, durante a hist\u00f3rica greve dos metal\u00fargicos do ABC paulista, voltou a ser preso junto com o ent\u00e3o dirigente sindical Luiz In\u00e1cio Lula da Silva \u2013 o Lula \u2013 e outras lideran\u00e7as. As pris\u00f5es ocorreram sob a Lei de Seguran\u00e7a Nacional e simbolizaram a repress\u00e3o do regime \u00e0s greves que reuniam centenas de milhares de trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reorganiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e Diretas J\u00e1<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O final dos anos 1970 e a d\u00e9cada de 1980 foram marcados por um intenso processo de reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio brasileiro, ap\u00f3s anos de repress\u00e3o durante a ditadura. Greves de grande escala, assembleias massivas e novas formas de organiza\u00e7\u00e3o coletiva passaram a desafiar o modelo sindical controlado pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Inserido nesse contexto, Z\u00e9 Maria participou ativamente das mobiliza\u00e7\u00f5es que combinavam reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas (como reajustes salariais e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho) com uma crescente dimens\u00e3o pol\u00edtica de enfrentamento ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p>As greves do ABC paulista, no final dos anos 1970 e in\u00edcio dos 1980, abriram caminho para uma nova etapa de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora no pa\u00eds. Esse processo se expandiu para outras regi\u00f5es e categorias, contribuindo para a forma\u00e7\u00e3o de uma nova gera\u00e7\u00e3o de dirigentes sindicais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, Z\u00e9 Maria tamb\u00e9m esteve presente na campanha das Diretas J\u00e1, uma das maiores mobiliza\u00e7\u00f5es populares da hist\u00f3ria brasileira. Milh\u00f5es de pessoas foram \u00e0s ruas em defesa do direito ao voto direto para presidente, pressionando o regime militar e acelerando o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Maria nesse movimento esteve articulada \u00e0 atua\u00e7\u00e3o da Converg\u00eancia Socialista, corrente que defendia a liga\u00e7\u00e3o entre a luta pelas liberdades democr\u00e1ticas e as reivindica\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Para esses setores, a democratiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deveria caminhar junto com a amplia\u00e7\u00e3o dos direitos sociais e com o fortalecimento da organiza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Congresso de Lins e a constru\u00e7\u00e3o do PT e da CUT<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos anos 1980, o avan\u00e7o das lutas oper\u00e1rias colocou na ordem do dia a necessidade de uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pr\u00f3pria da classe trabalhadora. Z\u00e9 Maria participou diretamente desse debate, presente em encontros e articula\u00e7\u00f5es que buscavam dar forma a esse projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre esses espa\u00e7os, destacou-se o chamado Congresso de Lins, realizado em Lins, que reuniu dirigentes sindicais, ativistas e correntes da esquerda em torno da reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sindical do pa\u00eds. O encontro foi parte de um processo mais amplo que questionava as estruturas herdadas da ditadura e defendia a independ\u00eancia pol\u00edtica dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, Z\u00e9 Maria teve um papel ativo na defesa da cria\u00e7\u00e3o de um partido oper\u00e1rio, que expressasse diretamente os interesses da classe trabalhadora e n\u00e3o estivesse subordinado a projetos da burguesia. Ele apresentou e defendeu a proposta de cria\u00e7\u00e3o de um partido dos trabalhadores. Proposta aprovada, deu-se in\u00edcio as articula\u00e7\u00f5es para a funda\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, marco na reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da esquerda brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, desenvolveu-se o processo de constru\u00e7\u00e3o da Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT), fundada em 1983. Z\u00e9 Maria tamb\u00e9m esteve envolvido nessa iniciativa, que buscava reorganizar o movimento sindical em bases independentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A CUT surgiu como alternativa ao sindicalismo atrelado ao Estado, herdado do per\u00edodo autorit\u00e1rio, propondo uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o baseada na autonomia, na democracia interna e na mobiliza\u00e7\u00e3o direta dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Maria nesses processos evidencia sua inser\u00e7\u00e3o em dois dos principais marcos institucionais do movimento oper\u00e1rio brasileiro contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Atua\u00e7\u00e3o na CUT e lideran\u00e7a sindical<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos 1980 e 1990, Z\u00e9 Maria integrou a dire\u00e7\u00e3o nacional da Central \u00danica dos Trabalhadores, participando de um dos per\u00edodos mais intensos de organiza\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o do sindicalismo brasileiro no p\u00f3s-ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>A CUT, fundada em 1983, tornou-se rapidamente a principal central sindical do pa\u00eds, reunindo categorias estrat\u00e9gicas da economia e desempenhando papel decisivo nas lutas por direitos trabalhistas, reposi\u00e7\u00e3o salarial e amplia\u00e7\u00e3o de garantias sociais em um cen\u00e1rio marcado por infla\u00e7\u00e3o elevada e instabilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, Z\u00e9 Maria atuou em debates centrais sobre os rumos da central, incluindo estrat\u00e9gias de enfrentamento \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f4micas dos governos federais e formas de organiza\u00e7\u00e3o das greves, em defesa de organiza\u00e7\u00e3o de base e da democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua atua\u00e7\u00e3o esteve vinculada aos setores que defendiam um sindicalismo combativo e independente, com \u00eanfase na autonomia da classe trabalhadora frente ao Estado, aos governos e aos interesses empresariais. Essa posi\u00e7\u00e3o o inseriu nas disputas internas que marcaram a CUT ao longo de sua trajet\u00f3ria, especialmente em momentos de inflex\u00e3o pol\u00edtica da central.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante esse per\u00edodo, participou de mobiliza\u00e7\u00f5es nacionais, campanhas salariais e articula\u00e7\u00f5es intersindicais, contribuindo para a consolida\u00e7\u00e3o de um modelo de organiza\u00e7\u00e3o que buscava romper com o sindicalismo corporativista herdado da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a de Z\u00e9 Maria na dire\u00e7\u00e3o nacional da CUT ao longo de v\u00e1rios anos evidencia sua relev\u00e2ncia no interior do movimento sindical brasileiro, especialmente entre os setores que defendiam uma atua\u00e7\u00e3o mais combativa e aut\u00f4noma.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A greve da Mannesmann<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No final da d\u00e9cada de 1980, em meio a um cen\u00e1rio de forte instabilidade econ\u00f4mica, infla\u00e7\u00e3o elevada e intensifica\u00e7\u00e3o dos conflitos trabalhistas no pa\u00eds, ocorreu um dos epis\u00f3dios mais marcantes da trajet\u00f3ria de Z\u00e9 Maria: a greve dos trabalhadores da Mannesmann, em Contagem, na regi\u00e3o metropolitana de Belo Horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>A Mannesmann, uma das principais ind\u00fastrias metal\u00fargicas do pa\u00eds \u00e0 \u00e9poca, concentrava um grande contingente de oper\u00e1rios e tinha papel estrat\u00e9gico na produ\u00e7\u00e3o industrial. O ambiente de trabalho era marcado por reivindica\u00e7\u00f5es relacionadas a sal\u00e1rios, condi\u00e7\u00f5es de trabalho e direitos trabalhistas, em um per\u00edodo em que os efeitos da crise econ\u00f4mica atingiam diretamente a classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve, que teve in\u00edcio em 1988, rapidamente ganhou dimens\u00e3o pol\u00edtica e sindical. Z\u00e9 Maria foi a principal lideran\u00e7a do movimento, atuando na organiza\u00e7\u00e3o das assembleias, na articula\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores e na defini\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de paralisa\u00e7\u00f5es tradicionais, o movimento na Mannesmann assumiu caracter\u00edsticas de radicaliza\u00e7\u00e3o. Em determinado momento, os trabalhadores ocuparam a f\u00e1brica e passaram a exercer controle direto sobre a produ\u00e7\u00e3o, mantendo as atividades sob gest\u00e3o oper\u00e1ria por v\u00e1rios dias.<\/p>\n\n\n\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o representou um salto qualitativo na forma de luta, rompendo com os limites habituais das greves e colocando em debate o controle da produ\u00e7\u00e3o pelos pr\u00f3prios trabalhadores. Esse tipo de a\u00e7\u00e3o tinha forte carga simb\u00f3lica e pol\u00edtica, ao questionar diretamente a autoridade patronal dentro do espa\u00e7o produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O epis\u00f3dio ocorreu em um contexto nacional de endurecimento das disputas trabalhistas. No mesmo per\u00edodo, outras mobiliza\u00e7\u00f5es enfrentavam repress\u00e3o, como a greve da Companhia Sider\u00fargica Nacional (CSN), em Volta Redonda, tamb\u00e9m em 1988, que terminou com interven\u00e7\u00e3o militar e a morte de trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Contagem, a greve da Mannesmann se destacou n\u00e3o apenas pela radicalidade, mas tamb\u00e9m pelo n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Assembleias massivas, com ampla participa\u00e7\u00e3o, orientavam os rumos do movimento, enquanto comiss\u00f5es de base e estruturas internas garantiam a continuidade da mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia teve repercuss\u00e3o nacional e se tornou refer\u00eancia para setores do movimento sindical que defendiam estrat\u00e9gias mais combativas. Ao mesmo tempo, intensificou o debate dentro do pr\u00f3prio movimento oper\u00e1rio sobre os limites e possibilidades das formas de luta adotadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Z\u00e9 Maria, a participa\u00e7\u00e3o nesse processo consolidou sua proje\u00e7\u00e3o como dirigente sindical de perfil combativo, associado a setores que defendiam maior enfrentamento com o patronato e independ\u00eancia pol\u00edtica da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve da Mannesmann permanece como um dos epis\u00f3dios emblem\u00e1ticos das lutas oper\u00e1rias no per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, expressando tanto o potencial de mobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora quanto as tens\u00f5es que marcaram a reorganiza\u00e7\u00e3o sindical no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ruptura com o PT e funda\u00e7\u00e3o do PSTU<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, as disputas pol\u00edticas no interior do PT se intensificaram, refletindo diferentes concep\u00e7\u00f5es sobre estrat\u00e9gia pol\u00edtica, alian\u00e7as e participa\u00e7\u00e3o institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>A corrente Converg\u00eancia Socialista, da qual Z\u00e9 Maria fazia parte, posicionou-se de forma cr\u00edtica a mudan\u00e7as na orienta\u00e7\u00e3o do partido, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o em governos, alian\u00e7as com setores da burguesia e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s regras do sistema pol\u00edtico institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos pontos de maior tens\u00e3o ocorreu durante a crise pol\u00edtica que levou ao impeachment do ent\u00e3o presidente Fernando Collor de Mello. Naquele momento, a palavra de ordem \u201cFora Collor\u201d ganhou for\u00e7a nas ruas, impulsionada por mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis, sindicais e populares.<\/p>\n\n\n\n<p>Z\u00e9 Maria, junto com a Converg\u00eancia Socialista, esteve \u00e0 frente defesa da derrubada do governo, adotando publicamente a palavra de ordem \u201cFora Collor\u201d e participando ativamente da organiza\u00e7\u00e3o dos protestos de rua. Dentro do PT, no entanto, houve diverg\u00eancias sobre a forma e o ritmo dessa mobiliza\u00e7\u00e3o. Setores da dire\u00e7\u00e3o do partido priorizou a via institucional e o andamento das investiga\u00e7\u00f5es no Congresso Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Os conflitos internos aumentaram e evidenciaram as diferen\u00e7as estrat\u00e9gicas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre mobiliza\u00e7\u00e3o de massas e a\u00e7\u00e3o institucional. Essas diverg\u00eancias se somaram a outros embates pol\u00edticos e culminaram, em 1992, na expuls\u00e3o do Z\u00e9 Maria e de toda a milit\u00e2ncia da Converg\u00eancia Socialista do PT, em um processo marcado por forte disputa interna e repercuss\u00e3o no conjunto da esquerda brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa ruptura, Z\u00e9 Maria e o conjunto dos militantes da corrente iniciaram a constru\u00e7\u00e3o de uma nova organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que resultaria, em 1994, na funda\u00e7\u00e3o do PSTU.<\/p>\n\n\n\n<p>Z\u00e9 Maria teve papel destacado nesse processo, participando da articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e organizativa que deu origem ao novo partido. Desde ent\u00e3o, tornou-se uma de suas principais lideran\u00e7as nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>O PSTU se constituiu como um partido de orienta\u00e7\u00e3o trotskista, com atua\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, \u00e0 interven\u00e7\u00e3o em movimentos sociais e \u00e0 cr\u00edtica \u00e0s pol\u00edticas adotadas por diferentes governos.<\/p>\n\n\n\n<p>A funda\u00e7\u00e3o do PSTU marcou a continuidade de uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que buscava manter a independ\u00eancia de classe como eixo central de atua\u00e7\u00e3o, em contraste com os caminhos adotados por outras for\u00e7as da esquerda institucional no per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ruptura com a CUT e constru\u00e7\u00e3o da CSP-Conlutas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000, o cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro passou por mudan\u00e7as significativas com a chegada de Lula e o PT ao poder. A elei\u00e7\u00e3o de um dirigente oriundo do movimento sindical abriu novas disputas sobre o papel das organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores diante do governo federal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, setores da Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT) passaram a adotar uma postura mais alinhada ao governo, o que gerou cr\u00edticas internas. Z\u00e9 Maria, como membro da executiva nacional da central, destacou-se na defesa da manuten\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia pol\u00edtica da central em rela\u00e7\u00e3o ao Executivo.<\/p>\n\n\n\n<p>As diverg\u00eancias se aprofundaram especialmente durante o debate sobre a reforma da Previd\u00eancia, proposta no in\u00edcio do primeiro mandato de Lula. Para esses setores, a reforma representava um ataque a direitos hist\u00f3ricos dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo levou \u00e0 ruptura com a CUT e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma nova articula\u00e7\u00e3o sindical e popular: a Conlutas (Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Lutas). A iniciativa buscava reunir sindicatos, movimentos sociais, organiza\u00e7\u00f5es da juventude e setores ligados \u00e0 luta pela terra em torno de uma proposta de atua\u00e7\u00e3o independente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos, a Conlutas se consolidou e deu origem \u00e0 CSP-Conlutas, que passou a atuar como uma central sindical e popular com presen\u00e7a em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A CSP-Conlutas se caracteriza por buscar articular lutas sindicais com movimentos sociais mais amplos, incluindo pautas relacionadas \u00e0 terra, \u00e0 moradia, \u00e0 juventude e \u00e0s lutas contra opress\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2026, a central realizou seu 6\u00ba Congresso, em S\u00e3o Paulo, reunindo cerca de 1.500 participantes entre delegados e observadores, em um encontro que discutiu a conjuntura nacional, a organiza\u00e7\u00e3o sindical e as estrat\u00e9gias de mobiliza\u00e7\u00e3o, marcando tamb\u00e9m duas d\u00e9cadas de sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de Z\u00e9 Maria nesse processo reafirma sua atua\u00e7\u00e3o em momentos-chave de reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento sindical brasileiro, tanto na constru\u00e7\u00e3o quanto na ruptura e cria\u00e7\u00e3o de novas estruturas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Candidaturas e campanha contra a ALCA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Z\u00e9 Maria foi candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em quatro elei\u00e7\u00f5es \u2014 1998, 2002, 2010 e 2014 \u2014 pelo PSTU. Suas candidaturas ocorreram em um contexto de forte polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de consolida\u00e7\u00e3o de grandes partidos no cen\u00e1rio eleitoral brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com estrutura reduzida e tempo limitado de exposi\u00e7\u00e3o, as campanhas do PSTU cumpriram o papel de apresentar um programa socialista e dar visibilidade \u00e0s pautas do movimento oper\u00e1rio, utilizando o processo eleitoral como espa\u00e7o de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O slogan \u2018Contra burgu\u00eas, vote 16\u2019 \u00e9 bastante conhecido e relacionado ao partido at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os temas centrais dessas campanhas esteve a cr\u00edtica \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f4micas adotadas por diferentes governos, com \u00eanfase na defesa de direitos trabalhistas, na den\u00fancia das desigualdades sociais e na oposi\u00e7\u00e3o a medidas consideradas prejudiciais \u00e0 classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos momentos de maior destaque desse per\u00edodo foi a atua\u00e7\u00e3o do partido na campanha contra a \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (ALCA), no in\u00edcio dos anos 2000. O projeto, impulsionado pelos Estados Unidos, previa a cria\u00e7\u00e3o de uma zona de livre com\u00e9rcio que abrangeria todo o continente americano.<\/p>\n\n\n\n<p>O PSTU participou ativamente das mobiliza\u00e7\u00f5es contra a ALCA, organizando campanhas, debates e a\u00e7\u00f5es junto a sindicatos, movimentos sociais e setores da juventude. Para o partido, o acordo representaria um aprofundamento da depend\u00eancia econ\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias centrais.<\/p>\n\n\n\n<p>A rejei\u00e7\u00e3o da ALCA, que acabou n\u00e3o sendo implementada, foi resultado de um conjunto de fatores pol\u00edticos e da resist\u00eancia de diferentes setores sociais no continente, contexto no qual se inseriu a atua\u00e7\u00e3o do PSTU.<\/p>\n\n\n\n<p>As candidaturas de Z\u00e9 Maria contribu\u00edram para inserir temas ligados ao mundo do trabalho e ao socialismo no debate p\u00fablico, al\u00e9m de consolidar sua presen\u00e7a como porta-voz pol\u00edtico do partido em \u00e2mbito nacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Anistia pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As pris\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es sofridas por Z\u00e9 Maria durante a ditadura militar foram posteriormente reconhecidas no processo de anistia pol\u00edtica no Brasil, inserido nas pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o. Assim como ele, diversos militantes ligados \u00e0 antiga Converg\u00eancia Socialista tamb\u00e9m tiveram sua condi\u00e7\u00e3o de perseguidos pol\u00edticos reconhecida pelo Estado brasileiro, em fun\u00e7\u00e3o das viola\u00e7\u00f5es sofridas por sua atua\u00e7\u00e3o nas lutas oper\u00e1rias e democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse processo ganhou visibilidade p\u00fablica especialmente com a realiza\u00e7\u00e3o das chamadas Caravanas da Anistia, que levaram julgamentos e atos p\u00fablicos a diversas regi\u00f5es do pa\u00eds, transformando o reconhecimento institucional em momentos de resgate hist\u00f3rico e afirma\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria da resist\u00eancia \u00e0 ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente a esse processo oficial, militantes e organiza\u00e7\u00f5es vinculadas \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Converg\u00eancia Socialista, hoje expressa no PSTU, tamb\u00e9m impulsionaram iniciativas pr\u00f3prias de mem\u00f3ria, den\u00fancia e valoriza\u00e7\u00e3o das trajet\u00f3rias de luta contra o regime militar.<\/p>\n\n\n\n<p>A anistia n\u00e3o \u00e9 apenas um ato jur\u00eddico de repara\u00e7\u00e3o individual, mas parte de uma luta pol\u00edtica permanente. Preservar a mem\u00f3ria das persegui\u00e7\u00f5es, pris\u00f5es e resist\u00eancias \u00e9 fundamental para compreender a hist\u00f3ria recente do Brasil e fortalecer a consci\u00eancia pol\u00edtica das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a defesa da mem\u00f3ria, da verdade e da justi\u00e7a aparece como elemento central na atua\u00e7\u00e3o militante de Z\u00e9 Maria, que \u00e9 parte de uma experi\u00eancia coletiva de milit\u00e2ncia que atravessa o per\u00edodo autorit\u00e1rio e se projeta nas lutas pol\u00edticas do presente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Milit\u00e2ncia internacionalista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Z\u00e9 Maria tamb\u00e9m mant\u00e9m atua\u00e7\u00e3o internacionalista, integrando a Liga Internacional dos Trabalhadores \u2013 Quarta Internacional (LIT-QI), organiza\u00e7\u00e3o que articula correntes socialistas em diferentes pa\u00edses e atua em debates pol\u00edticos e interven\u00e7\u00f5es junto a movimentos sociais e sindicais no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de sua trajet\u00f3ria, posicionou-se em rela\u00e7\u00e3o a diferentes conflitos e processos pol\u00edticos no mundo, defendendo, em linha com o PSTU, o apoio a lutas que considera vinculadas \u00e0 resist\u00eancia de trabalhadores e povos oprimidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse campo, destacam-se posi\u00e7\u00f5es de apoio a mobiliza\u00e7\u00f5es populares na Am\u00e9rica Latina, como processos de luta social na Argentina, no Chile e na Venezuela; o respaldo a movimentos oper\u00e1rios e greves em diferentes pa\u00edses; al\u00e9m da solidariedade a levantes populares no Norte da \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio, especialmente durante o ciclo de mobiliza\u00e7\u00f5es conhecido como Primavera \u00c1rabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m se insere nesse contexto a oposi\u00e7\u00e3o a guerras e interven\u00e7\u00f5es militares de grandes pot\u00eancias, com cr\u00edticas a a\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos e da OTAN em diferentes regi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre esses posicionamentos, ganha destaque sua atua\u00e7\u00e3o em defesa da causa palestina. Z\u00e9 Maria defende a constitui\u00e7\u00e3o de uma Palestina livre, laica e democr\u00e1tica como solu\u00e7\u00e3o para o conflito no Oriente M\u00e9dio. Em manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, tem se colocado ao lado da resist\u00eancia do povo palestino e defendido o fim do Estado de Israel, posi\u00e7\u00e3o alinhada \u00e0 linha pol\u00edtica do PSTU e da LIT-QI.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente em fun\u00e7\u00e3o dessas posi\u00e7\u00f5es que Z\u00e9 Maria vem sendo alvo de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Recentemente, ele foi condenado a dois anos de pris\u00e3o por declara\u00e7\u00f5es feitas em defesa da causa palestina, acusado de antissemitismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 infundada e distorce suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Sua atua\u00e7\u00e3o est\u00e1 baseada no antissionismo, entendido como cr\u00edtica ao sionismo e \u00e0s pol\u00edticas do Estado de Israel, especialmente no que se refere \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso tem gerado repercuss\u00e3o internacional. Organiza\u00e7\u00f5es, militantes e entidades ligadas \u00e0 esquerda t\u00eam impulsionado uma campanha internacional de apoio e solidariedade a Z\u00e9 Maria, denunciando a condena\u00e7\u00e3o e defendendo o direito \u00e0 livre express\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no debate internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascido em 1957, no interior de S\u00e3o Paulo, Z\u00e9 Maria iniciou sua vida profissional como metal\u00fargico. Foi no ambiente industrial que ingressou na milit\u00e2ncia pol\u00edtica, j\u00e1 vinculado \u00e0 corrente trotskista Converg\u00eancia Socialista, que atuava contra o regime militar (1964\u20131985). A repress\u00e3o era uma realidade constante. Em 1977, foi preso ao participar da distribui\u00e7\u00e3o de materiais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":82584,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"PSTU Brasil","footnotes":""},"categories":[8068,228],"tags":[9477],"class_list":["post-82583","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especial-palestina","category-palestina","tag-solidariedade-ze-maria"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Z-Maria.jpeg","categories_names":["Especial Palestina","Palestina"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"PSTU Brasil","tagline":"A trajet\u00f3ria de Jos\u00e9 Maria de Almeida, o Z\u00e9 Maria, se confunde com a hist\u00f3ria recente do movimento oper\u00e1rio brasileiro. Metal\u00fargico de origem, sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica come\u00e7ou ainda sob a ditadura militar e atravessou algumas das principais mobiliza\u00e7\u00f5es que marcaram a redemocratiza\u00e7\u00e3o, a reorganiza\u00e7\u00e3o sindical e as disputas pol\u00edticas das \u00faltimas d\u00e9cadas.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82583"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82583\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82585,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82583\/revisions\/82585"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82584"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}