{"id":82441,"date":"2026-04-07T19:03:43","date_gmt":"2026-04-07T19:03:43","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82441"},"modified":"2026-04-08T20:33:04","modified_gmt":"2026-04-08T20:33:04","slug":"a-crise-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/04\/07\/a-crise-em-cuba\/","title":{"rendered":"A crise em Cuba"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u00c9 preciso lutar de verdade contra Trump<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma pequena delega\u00e7\u00e3o da LIT esteve em Cuba em mar\u00e7o de 2026. Est\u00e1vamos l\u00e1 Hertz Dias (candidato \u00e0 presid\u00eancia do Brasil pelo PSTU), Gabriela (tamb\u00e9m do PSTU) e eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Quer\u00edamos, em primeiro lugar, demonstrar nossa solidariedade com Cuba neste momento em que o s\u00f3rdido bloqueio imposto por Trump impede a chegada de petr\u00f3leo e estrangula uma pequena ilha, a 140 km dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fizemos quest\u00e3o de estar l\u00e1 no dia 21 de mar\u00e7o, data de chegada da Flotilha de Solidariedade a Cuba, da qual participaram diversas organiza\u00e7\u00f5es internacionais. Levamos o que pudemos em sinal de solidariedade, dentro das nossas possibilidades: alimentos e medicamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio internacional estava marcado pela agress\u00e3o militar imperialista-sionista contra o Ir\u00e3, imediatamente ap\u00f3s a invas\u00e3o da Venezuela e o sequestro de Maduro.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos sabem que somos cr\u00edticos e opositores da ditadura cubana. Mas isso n\u00e3o altera nossa postura de defesa de Cuba, um pa\u00eds semicolonial, contra o ataque do pa\u00eds imperialista mais poderoso do planeta. Mais ainda quando esse pa\u00eds \u00e9 governado por um governo de extrema direita que afirma descaradamente que vai \u201ctomar Cuba\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enganam-se aqueles que acreditam que as inten\u00e7\u00f5es de Trump t\u00eam algo a ver com democracia. O imperialismo norte-americano apoia as piores ditaduras do mundo, como a Ar\u00e1bia Saudita, desde que sirvam aos seus interesses. Ele respalda a repress\u00e3o brutal de Israel contra os palestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump quer reverter a decad\u00eancia do imperialismo norte-americano e, assim, enfrentar o imperialismo chin\u00eas em ascens\u00e3o, utilizando abertamente seu poderio militar e econ\u00f4mico. Em um documento sobre Seguran\u00e7a Estrat\u00e9gica Nacional publicado em novembro de 2025, ele explicita o objetivo de impor governos t\u00edteres na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela, com a invas\u00e3o militar, ele conseguiu o que queria: o controle do petr\u00f3leo e uma mudan\u00e7a no governo do pa\u00eds, com Delcy Rodr\u00edguez alinhada aos seus interesses.<\/p>\n\n\n\n<p>O bloqueio norte-americano foi imposto por John Kennedy em 1962. Agora, Trump agravou brutalmente o bloqueio e quer estrangular a economia cubana, com a suspens\u00e3o do envio de petr\u00f3leo para a ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>A gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica em Cuba depende do petr\u00f3leo entre 80% e 95%. O sistema, antigo e em mau estado, sustenta-se em oito usinas termoel\u00e9tricas principais. N\u00e3o houve moderniza\u00e7\u00e3o nem a manuten\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba precisa de 110 mil barris de petr\u00f3leo por dia e produz apenas 40 mil. A suspens\u00e3o do fornecimento de petr\u00f3leo venezuelano, que atendia entre 30% e 40% das necessidades de Cuba, \u00e9 um golpe muito duro para a ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem um car\u00e1ter colonial t\u00e3o s\u00f3rdido quanto a apropria\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo venezuelano, que Trump agora diz ser \u201cdos americanos\u201d. Esse tipo de atitude remete aos atos dos imp\u00e9rios coloniais sobre suas col\u00f4nias nos s\u00e9culos passados.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump declarou \u201cemerg\u00eancia nacional\u201d contra Cuba, amea\u00e7ando aumentar as tarifas sobre os pa\u00edses que fornecem petr\u00f3leo \u00e0 ilha. Isso foi aceito pelos chamados \u201cgovernos progressistas\u201d: nem Lula, nem Petro, nem Claudia Scheinbaum,&nbsp; tr\u00eas governos de pa\u00edses exportadores de petr\u00f3leo, n\u00e3o fornecem petr\u00f3leo a Cuba, aceitando a imposi\u00e7\u00e3o de Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias s\u00e3o graves. A constante falta de energia el\u00e9trica afeta diretamente tamb\u00e9m o abastecimento de \u00e1gua e g\u00e1s em um pa\u00eds que j\u00e1 est\u00e1 em recess\u00e3o. H\u00e1 uma crise humanit\u00e1ria em curso.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia sido anunciado um ato p\u00fablico de recep\u00e7\u00e3o \u00e0 Flotilha de Solidariedade a Cuba no dia 21 de mar\u00e7o, que nunca aconteceu. Como a ditadura cubana tem muito medo de eventos abertos, pois podem se voltar contra ela, realizaram-se apenas dois eventos fechados, exclusivamente para delega\u00e7\u00f5es internacionais. Nenhum deles foi anunciado publicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentamos por todos os meios saber quando seria o evento para ver se poder\u00edamos participar. S\u00f3 soubemos que houve um evento fechado na sexta-feira, 20 de mar\u00e7o, no dia seguinte. Nesse evento participou D\u00edaz-Canel, presidente de Cuba, que fez um discurso bastante de esquerda, contra Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e1bado, estivemos duas vezes no Malec\u00f3n (o tradicional cal\u00e7ad\u00e3o \u00e0 beira-mar de Havana), onde se supunha que a frota chegaria. N\u00e3o havia nada, nem evento nem barcos chegando, pelo menos que pud\u00e9ssemos ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Entregamos os alimentos que levamos a uma iniciativa dos ativistas cubanos com quem mantemos contato, de cozinha solid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Os medicamentos (antibi\u00f3ticos utilizados em hospitais brasileiros para infec\u00e7\u00f5es mais graves) foram entregues diretamente ao governo cubano, no Instituto Cubano de Amizade com os Povos, onde foram entregues as doa\u00e7\u00f5es que chegaram na Flotilha. Hertz e eu nos apresentamos como membros do PSTU e da LIT e entregamos os medicamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sairmos do instituto, um dos ativistas presentes nos disse que, naquele breve per\u00edodo de alguns minutos em que estivemos entregando a solidariedade, havia ocorrido um ato, tamb\u00e9m fechado, com as cerca de cem pessoas que estavam ali, entoando \u201cCuba sim, bloqueio n\u00e3o\u201d. Esse foi o segundo ato fechado, os \u00fanicos que ocorreram na semana em que estivemos em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Cumprimos assim nosso objetivo de solidariedade com o povo cubano. Mas, al\u00e9m da den\u00fancia do bloqueio imperialista e da solidariedade imediata com Cuba, \u00e9 necess\u00e1rio debater como lutar realmente contra o imperialismo. Aqui se enfrentam duas estrat\u00e9gias opostas na realidade: a do governo cubano, apoiada pelo stalinismo em n\u00edvel mundial, e a que n\u00f3s defendemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender esse debate, \u00e9 necess\u00e1rio voltar no tempo, \u00e0 hist\u00f3ria da ilha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1959: a primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista na Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao derrotar a ditadura de Batista e avan\u00e7ar para a expropria\u00e7\u00e3o das grandes empresas norte-americanas, a revolu\u00e7\u00e3o liderada por Fidel Castro e Che Guevara conquistou enorme prest\u00edgio entre as massas e a vanguarda de todo o continente. Cuba foi o primeiro e \u00fanico pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina a realizar uma revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa em 1959, declarada como socialista em 1961.<\/p>\n\n\n\n<p>A LIT (e a Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique, que a precedeu) sempre se op\u00f4s ao bloqueio norte-americano contra Cuba, desde sua imposi\u00e7\u00e3o em 1962. Da mesma forma, nos opusemos \u00e0 tentativa de invas\u00e3o imperialista na Ba\u00eda dos Porcos em 1961.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o regime cubano nunca desenvolveu institui\u00e7\u00f5es da democracia oper\u00e1ria como os sovietes da revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917. Desde 1959, sempre existiu um regime autorit\u00e1rio, controlado por uma burocracia, que posteriormente se vinculou ao stalinismo da URSS.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o cubana nas \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade mostraram ao mundo as possibilidades de avan\u00e7o com a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia e o planejamento da economia. As taxas de mortalidade infantil em Cuba eram menores do que as dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi imposto um regime de partido \u00fanico, que frequentemente perseguia e reprimia todos os opositores ou cr\u00edticos, inclusive os de esquerda. Os sindicatos foram incorporados ao controle do Estado, fechando espa\u00e7os centrais para a express\u00e3o das propostas de mudan\u00e7a da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba, existe racismo, machismo e LGBTQIfobia. Como parte do mesmo modelo stalinista, no reino da burocracia sempre houve a continuidade dessas opress\u00f5es e a repress\u00e3o contra os ativistas que se op\u00f5em a elas. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a marcha de 2019 contra a opress\u00e3o LGBTQI foi reprimida. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a elite dirigente cubana seja branca, desde a fam\u00edlia Castro at\u00e9 D\u00edaz-Canel hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em Cuba<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico cubano j\u00e1 n\u00e3o existe. Ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na URSS, Cuba seguiu o mesmo caminho. Na d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo passado, o pr\u00f3prio regime castrista acabou com o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior e o planejamento da economia, e come\u00e7ou a privatizar as empresas estatais.<\/p>\n\n\n\n<p>A economia cubana abriu-se \u00e0s empresas multinacionais, o que foi aproveitado pelo imperialismo europeu para ocupar a ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, come\u00e7ou a se gestar uma nova burguesia cubana, a partir do aparato estatal, em particular da alta c\u00fapula militar, associada \u00e0s multinacionais europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 1995, a Assembleia Nacional aprovou a Lei de Investimentos Estrangeiros. Assim, o terceiro pilar da economia do antigo Estado oper\u00e1rio, a propriedade estatal dos principais meios de produ\u00e7\u00e3o, foi sendo destru\u00eddo, setor por setor. As empresas estatais foram entregues ao capital estrangeiro europeu, em particular por meio de joint ventures (empresas mistas).<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m se imp\u00f4s uma mudan\u00e7a no motor da economia, que passou a ser o turismo, com multinacionais espanholas como Meli\u00e1 e Iberostar controlando os grandes hot\u00e9is de Varadero e Havana para turistas de classe m\u00e9dia europeus, norte-americanos e sul-americanos. A ideia era ocupar um lugar no mercado tur\u00edstico entre as praias do Caribe, disputando espa\u00e7o com Punta Cana (Rep\u00fablica Dominicana) e Canc\u00fan (M\u00e9xico).<\/p>\n\n\n\n<p>O rum cubano \u00e9 controlado pela empresa francesa <em>Pernord Ricard<\/em>. Os charutos cubanos s\u00e3o comercializados por uma <em>joint venture<\/em> entre a empresa estatal cubana e a <em>Altadis<\/em>, do grupo ingl\u00eas <em>Imperial Tobacco Group PLC<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma nova grande burguesia cubana surgiu na c\u00fapula das for\u00e7as armadas, a partir da GAE (SA) \u2014 Grupo de Administra\u00e7\u00e3o Empresarial S.A.- motor da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. Esse centro foi dirigido por Lu\u00eds Alberto Rodr\u00edguez L\u00f3pez-Calleja at\u00e9 sua morte, h\u00e1 dois anos. Esse personagem era marido de D\u00e9bora Castro, filha de Raul Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>O GAE (SA) associou-se as multinacionais europeias, criou empresas internacionais a partir de Cuba e hoje controla entre 40% e 60% da economia da ilha, segundo diversos estudiosos do tema.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tem um significado profundo: a gesta\u00e7\u00e3o de uma nova burguesia cubana a partir do aparato do Estado, mais precisamente dos altos comandos militares e da fam\u00edlia de Raul Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa nova burguesia cubana mant\u00e9m o controle da economia e do regime em Cuba. D\u00edaz-Canel \u00e9 apenas uma figura p\u00fablica, diretamente dirigida pela fam\u00edlia Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso \u00e9 embelezado pelo stalinismo, que afirma que as mudan\u00e7as em Cuba s\u00e3o express\u00f5es do \u201csocialismo moderno\u201d, diferente dos tempos passados. Isso n\u00e3o tem nada de marxista.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade cubana funciona com base na lei do valor e n\u00e3o com base no planejamento da economia, nas empresas estatizadas e no monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior, como existia anteriormente no antigo Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi sob a press\u00e3o do mercado e da lei do valor que o Estado burgu\u00eas cubano optou pelo turismo como motor da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso funcionou inicialmente, mas entrou em colapso com a pandemia. O turismo nunca mais recuperou os 5 milh\u00f5es de visitantes anuais, chegando no ano passado a 1,8 milh\u00e3o e, este ano, certamente, muito menos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Estado garante \u00e0s multinacionais uma m\u00e3o de obra qualificada sem qualquer possibilidade de se mobilizar contra os baixos sal\u00e1rios. Tamb\u00e9m garante a possibilidade de repassar os lucros \u00e0s suas matrizes sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A desigualdade entre os cubanos, que j\u00e1 existia no Estado oper\u00e1rio burocratizado, ampliou-se enormemente com a restaura\u00e7\u00e3o. A nova burguesia cubana e o setor social ligado ao turismo t\u00eam grandes privil\u00e9gios, e a mis\u00e9ria passou a ser a regra para os trabalhadores e o povo pobre de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que a burguesia imperialista norte-americana n\u00e3o fez o mesmo que a europeia, sendo parte da restaura\u00e7\u00e3o capitalista na ilha? A explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na burguesia cubana radicada em Miami, expropriada pela revolu\u00e7\u00e3o em 1959. Essa burguesia integrou-se \u00e0 burguesia imperialista norte-americana e n\u00e3o quer apenas retornar a Cuba, mas derrubar a ditadura castrista e recuperar suas empresas expropriadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mudan\u00e7a provocou uma enorme confus\u00e3o na vanguarda mundial. Cuba continua sendo governada pelo Partido Comunista, mas ocorreu uma transforma\u00e7\u00e3o fundamental: antes, uma ditadura burocr\u00e1tica de um Estado oper\u00e1rio deformado. Depois, a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, dirigida pelo pr\u00f3prio Partido Comunista. Mas, com o apoio do stalinismo em n\u00edvel mundial, continua-se falando de \u201cCuba socialista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que Cuba ficou isolada?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O \u00fanico caminho para que Cuba pudesse avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo seria com o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o mundial e, em particular, na Am\u00e9rica Latina. Mas isso n\u00e3o aconteceu. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma possibilidade de se avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo em um \u00fanico pa\u00eds, como ficou demonstrado na URSS. Muito menos em uma ilha, como Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>O atual isolamento de Cuba n\u00e3o se deveu apenas ao fim do apoio econ\u00f4mico da URSS. Nem exclusivamente ao bloqueio norte-americano. Esses elementos s\u00e3o importantes, mas n\u00e3o se poderia esperar outra resposta da contrarrevolu\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe outro fator, a nosso ver decisivo: a pol\u00edtica adotada pela ditadura castrista. O castrismo nunca buscou desenvolver uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria internacional apoiada nas lutas das massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, o governo cubano fez uma tentativa desastrosa de expandir focos guerrilheiros na Am\u00e9rica Latina, isolados do movimento real das massas. Isso levou a derrotas sucessivas, com a morte de milhares de ativistas e facilitou a repress\u00e3o dos governos burgueses contra o conjunto do movimento de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda mais grave, ap\u00f3s integrar-se ao aparato stalinista em 1972, a burocracia cubana aderiu \u00e0 pol\u00edtica da burocracia russa de \u201ccoexist\u00eancia pac\u00edfica\u201d, buscando o apoio das \u201cburguesias progressistas\u201d latino-americanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como exemplo m\u00e1ximo disso, diante do auge revolucion\u00e1rio de 1979 na Am\u00e9rica Latina, ap\u00f3s a derrota da Guarda Nacional de Somoza e a tomada do poder pela Frente Sandinista, Fidel Castro se op\u00f4s a que a revolu\u00e7\u00e3o na Nicar\u00e1gua fosse uma \u201cnova Cuba\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Castro apoiou os acordos de Contadora e Esquipulas no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80. Esses acordos canalizaram o auge revolucion\u00e1rio para o beco sem sa\u00edda das elei\u00e7\u00f5es, derrotando o processo revolucion\u00e1rio em toda a Am\u00e9rica Central.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda como parte da \u201ccoexist\u00eancia pac\u00edfica\u201d, a ditadura cubana apoiou governos burgueses, como L\u00f3pez Portillo, Luis Echeverr\u00eda (M\u00e9xico) e muitos outros. Isso teve continuidade com os governos \u201cprogressistas\u201d de Lula, Evo Morales, Michelle Bachelet, Cristina Kirchner, etc. Al\u00e9m disso, buscou uma aproxima\u00e7\u00e3o com governos democratas nos EUA, como Carter e Obama.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a ditadura castrista ajudou as ditaduras do MPLA em Angola e da FRELIMO em Mo\u00e7ambique a seguirem o mesmo caminho da Nicar\u00e1gua. Nesses pa\u00edses, ap\u00f3s a derrota das for\u00e7as armadas portuguesas, impuseram-se ditaduras burguesas desses movimentos, com a forma\u00e7\u00e3o de novas burguesias, que continuam governando at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o principal motivo do isolamento de Cuba. A for\u00e7a do imperialismo sempre buscar\u00e1 a contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Mas a verdade \u00e9 que a pol\u00edtica do governo cubano, contr\u00e1ria aos processos revolucion\u00e1rios, foi a express\u00e3o da mesma pol\u00edtica contrarrevolucion\u00e1ria do stalinismo em todo o mundo, que resultou na derrota de in\u00fameros processos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica para romper o isolamento n\u00e3o \u00e9 o apoio \u00e0s \u201cburguesias progressistas\u201d, mas o apoio \u00e0s lutas dos trabalhadores, independentemente desses mesmos governos, visando novas revolu\u00e7\u00f5es socialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ocorreu a queda das ditaduras stalinistas no leste europeu, Cuba sofreu as consequ\u00eancias dessa pol\u00edtica, ficando extremamente isolada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo j\u00e1 se completou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje existe um setor da esquerda mundial que \u00e9 cr\u00edtico ao castrismo e admite a exist\u00eancia de um processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista em Cuba. Mas entende que esse processo n\u00e3o se concluiu e que Cuba continua sendo um Estado oper\u00e1rio deformado. A partir da\u00ed, defende que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cdefender as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o cubana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses setores cometem, em geral, tr\u00eas erros de an\u00e1lise. O primeiro \u00e9 que centram o processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em Cuba no estudo das pequenas empresas de produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio que crescem na ilha, mas que n\u00e3o controlam a economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 um equ\u00edvoco. Essa pequena burguesia n\u00e3o determina o rumo do Estado e da economia cubanos. Foi a nova burguesia, surgida a partir da GAESA (Grupo de Administra\u00e7\u00e3o Empresarial S.A.), dirigida pela fam\u00edlia Castro e formada a partir do Estado, que liderou a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo e se beneficia dele. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o turismo seja o motor da economia cubana atual, baseado em grandes empresas espanholas associadas \u00e0s cubanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, esses setores argumentam que o capitalismo n\u00e3o foi restaurado porque ainda existem muitas empresas estatais em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um erro te\u00f3rico e de an\u00e1lise da realidade. Segundo Lenin e Trotsky, o car\u00e1ter de classe do Estado \u00e9 determinado por sua rela\u00e7\u00e3o com os meios de produ\u00e7\u00e3o, com as formas de propriedade que o Estado defende e preserva. Como definir um Estado que defende e preserva as empresas associadas ao capital europeu? A nosso ver, trata-se de um Estado burgu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma desigualdade temporal entre a mudan\u00e7a de car\u00e1ter do Estado cubano, que ocorreu na d\u00e9cada de 90, e a da economia como um todo, que passou a ser essencialmente capitalista alguns anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tamb\u00e9m ocorreu na URSS. Gorbachev mudou o car\u00e1ter do Estado em 1985, quando chegou ao poder e iniciou a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. Mas a restaura\u00e7\u00e3o s\u00f3 se concluiu na d\u00e9cada de 90. Na China, Deng Xiaoping mudou o car\u00e1ter do Estado em 1979, quando iniciou a restaura\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m s\u00f3 se concluiu muitos anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se pode definir um Estado como oper\u00e1rio, se j\u00e1 n\u00e3o existe o trip\u00e9 que o caracteriza? Ou seja, sem o planejamento central da economia, sem o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior, sem as empresas estatais no centro da economia? Trata-se de um Estado burgu\u00eas, que promove e desenvolve a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A exist\u00eancia de muitas empresas estatais em Cuba n\u00e3o \u00e9 um crit\u00e9rio marxista para definir o car\u00e1ter do Estado. Em muitos e muitos pa\u00edses capitalistas existem empresas estatais, em quantidades vari\u00e1veis. \u00c9 fundamental responder se essas empresas estatais se regem por um planejamento da economia, ou se servem \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o capitalista, como nos demais pa\u00edses capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na China, por exemplo, ainda h\u00e1 muitas empresas estatais. Inclusive os grandes bancos chineses s\u00e3o estatais e servem diretamente ao processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista das grandes empresas privadas chinesas. E a China \u00e9 um pa\u00eds imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode usar uma defini\u00e7\u00e3o linear, quantitativa e mec\u00e2nica para definir uma economia apenas pela quantidade de empresas estatais.<\/p>\n\n\n\n<p>O crit\u00e9rio marxista que define a economia em sua globalidade \u00e9 que, se a economia \u00e9 regida pela lei do valor, pelo mercado, pela oferta e pela demanda, trata-se de uma economia capitalista. Se a economia \u00e9 regida pelo planejamento da economia estatizada, trata-se de uma economia n\u00e3o capitalista, em algum momento de sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, Cuba \u00e9 uma economia regida pelo mercado, com sua evolu\u00e7\u00e3o determinada pela lei do valor. A op\u00e7\u00e3o de se concentrar no turismo foi determinada pelo \u201cmercado\u201d, pela lei do valor.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a depress\u00e3o de 1929, a economia da URSS \u2014 um Estado oper\u00e1rio, embora dirigido pela burocracia stalinista \u2014 cresceu a taxas superiores a 10% ao ano. Em 2020, durante a recess\u00e3o mundial, Cuba sofreu uma queda do PIB de 11%. Por qu\u00ea? Por ter uma economia determinada pelo mercado, neste caso pela queda do turismo mundial, que afetou fortemente o principal setor da economia da ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, esses setores argumentam que ainda existem conquistas na educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, esportes, etc. Mas isso j\u00e1 n\u00e3o existe.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma crise brutal na sa\u00fade e na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds. Os ativistas cubanos denunciam uma forma brutal de privatiza\u00e7\u00e3o por meio da corrup\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se consegue nenhum atendimento m\u00e9dico decente em Cuba sem pagar \u201cpor baixo da mesa\u201d, desde uma consulta at\u00e9 um medicamento b\u00e1sico.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo da crise da sa\u00fade cubana foi a terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o de colapso da assist\u00eancia m\u00e9dica em Cuba com o recrudescimento da pandemia, muito semelhante ao que ocorreu nos pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>A consequ\u00eancia program\u00e1tica dessa discuss\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 enorme. Aqueles que caracterizam Cuba como um Estado oper\u00e1rio t\u00eam como programa uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que apenas modifique o regime pol\u00edtico. Aqueles que, como n\u00f3s, caracterizam Cuba como capitalista, defendem uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista, que exproprie as empresas privatizadas nas m\u00e3os do capital estrangeiro, retome o planejamento da economia e o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior. E que rompa com a ditadura stalinista e construa uma nova democracia dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Queremos perguntar a esses setores que continuam defendendo Cuba como um Estado oper\u00e1rio: O que acham que deve ser feito com o setor mais importante da economia cubana, o setor tur\u00edstico, com os grandes hot\u00e9is privados? Devem ser expropriados ou n\u00e3o? Devem ou n\u00e3o ser estatizadas as outras empresas multinacionais que controlam o pa\u00eds? Deve-se retomar o planejamento da economia ou n\u00e3o? \u00c9 fundamental voltar ao monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior? Se responderem afirmativamente a essas perguntas, isso significa que est\u00e3o propondo uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista em Cuba. Se negarem esse programa, est\u00e3o apontando para a manuten\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria dos trabalhadores cubanos.<\/p>\n\n\n\n<p>O antigo Estado oper\u00e1rio burocratizado cubano desapareceu, restando apenas sua apar\u00eancia, com o PC \u00e0 frente, como na China.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que existe em Cuba \u00e9 uma ditadura burguesa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A consequ\u00eancia mais terr\u00edvel da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo \u00e9 a mis\u00e9ria do povo cubano. N\u00e3o existiriam as bases materiais para o 11 de julho de 2021 nem para a explos\u00e3o que est\u00e1 se gestando em Cuba sem as consequ\u00eancias econ\u00f4micas e sociais da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que diz a propaganda stalinista, o povo cubano vive na mis\u00e9ria e odeia a ditadura castrista.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2020, o governo de D\u00edaz-Canel, j\u00e1 expressando os interesses da nova burguesia cubana, imp\u00f4s o plano \u201cTarea Ordenamiento\u201d, muito semelhante aos planos neoliberais de todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O plano tinha como objetivo declarado a unifica\u00e7\u00e3o das moedas em vigor em Cuba. Mas o resultado para os trabalhadores foi desastroso. O que ocorreu foi um enorme aumento nos pre\u00e7os do g\u00e1s e da eletricidade, uma hiperinfla\u00e7\u00e3o e uma terr\u00edvel escassez. Tudo isso em plena pandemia de Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 verdade que todos sa\u00edram perdendo. Os verdadeiros benefici\u00e1rios desse plano foram as grandes empresas multinacionais instaladas em Cuba e a nova burguesia cubana a elas associada.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdadeira explica\u00e7\u00e3o para a explos\u00e3o popular de 11 de julho de 2021 foi esse plano. O \u201c11J\u201d foi um fato hist\u00f3rico que expressou o profundo descontentamento das massas cubanas com a ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas ruas estavam os cubanos pobres, dos bairros dos trabalhadores. Tudo muito semelhante \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es populares de 2019-2020 no Chile, na Col\u00f4mbia e no Equador.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada a ver com as mobiliza\u00e7\u00f5es da classe m\u00e9dia de direita, dos bairros mais ricos, que \u00e0s vezes ocorrem em nossos pa\u00edses, em apoio \u00e0s propostas da burguesia e do imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime foi duramente atingido por essa mobiliza\u00e7\u00e3o popular espont\u00e2nea das massas e reagiu violentamente, com cerca de 1.500 deten\u00e7\u00f5es. A repress\u00e3o contra os trabalhadores e os jovens foi apoiada pelo stalinismo mundial, com a cal\u00fania de que se tratava de uma mobiliza\u00e7\u00e3o organizada pelo imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, existem cerca de 600 presos pol\u00edticos do 11 de julho, entre eles muitos adolescentes com penas de 15 a 20 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apoiamos as lutas dos trabalhadores contra os planos neoliberais na Col\u00f4mbia e no Chile e denunciamos a dura repress\u00e3o dos governos. Apoiamos o 11 de julho e denunciamos a repress\u00e3o do governo cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cdemocracia popular\u201d de Cuba, propagada pelos stalinistas, \u00e9 uma farsa. Esta ditadura sabe que \u00e9 odiada e, por isso, tem medo do seu pr\u00f3prio povo. N\u00e3o permite nenhum tipo de democracia, nem oper\u00e1ria nem burguesa. A autodenominada \u201cdemocracia popular\u201d n\u00e3o \u00e9 nem democracia, muito menos popular.<\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o sofre persegui\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia policial o tempo todo. Quem discorda perde o emprego, \u00e9 vigiado e perseguido.<\/p>\n\n\n\n<p>O sal\u00e1rio-m\u00ednimo em Cuba hoje equivale a 3 d\u00f3lares. E isso com os alimentos, quando se consegue compr\u00e1-los, custando um pre\u00e7o semelhante ao do Brasil. Pagamos 2,4 d\u00f3lares durante nossa estadia em Cuba por uma d\u00fazia de ovos \u2014 a fonte de prote\u00edna mais barata que encontramos. Ou seja, uma d\u00fazia de ovos vale quase o mesmo que um sal\u00e1rio-m\u00ednimo mensal.<\/p>\n\n\n\n<p>A Libreta de abastecimento \u2014 a alimenta\u00e7\u00e3o subsidiada garantida pelo governo cubano no passado \u2014 foi reduzida a apenas um p\u00e3o pequeno por pessoa por dia. Havia filas enormes em frente \u00e0s padarias oficiais em Havana para conseguir esse p\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A repress\u00e3o constante \u00e9 a forma pela qual essa ditadura impede greves e manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u201celei\u00e7\u00f5es\u201d, s\u00f3 s\u00e3o permitidos candidatos indicados pelo governo, e o PC \u00e9 o \u00fanico partido legal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que n\u00e3o permitem a exist\u00eancia de nenhum partido de esquerda que n\u00e3o apoie o governo? Por que n\u00e3o existe nenhum sindicato livre em Cuba? A CSP Conlutas, central sindical e popular apoiada pelo PSTU, n\u00e3o seria legal em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime reprime qualquer tipo de oposi\u00e7\u00e3o. Reprimiu o 11 de julho, assim como a marcha LGBTI de maio de 2019, as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas independentes e todos os atos que o questionam. A dura repress\u00e3o empurra aqueles que se op\u00f5em para o ex\u00edlio ou para a pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 11 de julho, a crise tem se aprofundado cada vez mais, assim como o descontentamento com a mis\u00e9ria e a repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise atual prepara uma nova explos\u00e3o popular<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso se agravou muito mais com o bloqueio petrol\u00edfero imposto por Trump desde a destitui\u00e7\u00e3o de Maduro. Com o fornecimento de petr\u00f3leo venezuelano interrompido e a proibi\u00e7\u00e3o de qualquer outro pa\u00eds enviar petr\u00f3leo, Cuba est\u00e1 entrando em colapso.<\/p>\n\n\n\n<p>Na semana em que estivemos l\u00e1, ocorreram dois apag\u00f5es nacionais e outros locais. Apesar de estarmos hospedados em um bairro central de Havana, passamos mais tempo sem energia do que com energia.<\/p>\n\n\n\n<p>A ruptura das massas com o governo \u00e9 enorme. Conversamos longamente com os ativistas com quem mantemos contato. Eles falam do \u00f3dio do povo cubano pela ditadura, tanto pela mis\u00e9ria quanto pela repress\u00e3o constante. O povo compara sua mis\u00e9ria com os conhecidos privil\u00e9gios da elite governante, como os da fam\u00edlia de Raul Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa consci\u00eancia antiditatorial \u00e9 aproveitada principalmente pela direita. Existe um apoio pol\u00edtico significativo a Trump entre as massas cubanas. Entre os ativistas, h\u00e1 diferentes estimativas sobre esse fen\u00f4meno: alguns falam de 60% de apoio a Trump, outros de 80%. Essa dura verdade \u00e9 importante para compreender o retrocesso da consci\u00eancia anti-imperialista, antes majorit\u00e1ria em Cuba, por culpa da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>O apoio ao \u201csocialismo\u201d cubano \u00e9 muito minorit\u00e1rio, com uma presen\u00e7a ainda significativa entre os setores mais idosos, que viveram momentos melhores no antigo Estado oper\u00e1rio. Quanto mais jovem \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o, maior \u00e9 o apoio a Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dias antes de nossa chegada, moradores de uma pequena cidade \u2014Mor\u00f3n\u2014 atacaram e incendiaram uma sede do Partido Comunista de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o per\u00edodo em que estivemos l\u00e1, todos os dias houve protestos locais \u00e0 noite, sem alcance nacional nem continuidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 se desenvolvendo uma enorme revolta contra a ditadura burguesa que pode explodir em uma nova mobiliza\u00e7\u00e3o popular, semelhante ou maior do que a de 11 de julho de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O problema do campismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O stalinismo, como aparato mundial, se enfraqueceu muito com a queda das ditaduras da Europa Oriental. Mas continua muito forte at\u00e9 hoje. Conta com partidos comunistas em muitos pa\u00edses, alguns deles com grande influ\u00eancia popular. Al\u00e9m disso, muitos partidos reformistas n\u00e3o estalinistas, como o PT e o PSOL no Brasil, apoiam a ditadura castrista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o estalinismo \u00e9 muito mais do que o autoritarismo bem conhecido e repudiado. Possui uma ideologia reformista cujo alcance \u00e9 muito maior do que o dos pr\u00f3prios partidos comunistas. Substituem o m\u00e9todo de an\u00e1lise marxista das classes sociais pelo dos \u201ccampos progressistas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado, estariam os \u201ccampos progressistas\u201d, que incluem os \u201cgovernos de esquerda\u201d e as \u201cburguesias progressistas\u201d. Do outro, estaria o inimigo, o imperialismo norte-americano. Eles reconhecem apenas o imperialismo norte-americano, ignorando tanto o imperialismo europeu quanto o chin\u00eas e o russo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, todos aqueles que se op\u00f5em a esses governos progressistas s\u00e3o \u201cagentes do imperialismo norte-americano\u201d. Nesses pa\u00edses dirigidos por esses \u201cgovernos de esquerda\u201d, n\u00e3o existem as classes sociais, n\u00e3o se identifica a luta de classes. Existem apenas os governos progressistas e seus inimigos, os agentes do imperialismo norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a propaganda de muitos partidos stalinistas, Cuba e a China, al\u00e9m de terem \u201cgovernos de esquerda\u201d, continuam sendo at\u00e9 hoje pa\u00edses \u201csocialistas\u201d. A partir da\u00ed, muitos PCs apoiaram o massacre da Pra\u00e7a da Paz Celestial em 1989. Mesmo diante de milhares de jovens mortos em uma manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica em Pequim, o aparato stalinista continuou falando de \u201cagentes do imperialismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A China, ao contr\u00e1rio do que diz a propaganda stalinista, \u00e9 uma pot\u00eancia imperialista. Com sal\u00e1rios baix\u00edssimos e uma ditadura que reprime qualquer amea\u00e7a de greve, o modelo chin\u00eas se imp\u00f4s e foi propagado pelo imperialismo mundial como exemplo criando um novo paradigma salarial, o que contribuiu para reduzir o n\u00edvel de vida dos trabalhadores em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa metodologia de an\u00e1lise dos \u201cgovernos progressistas\u201d, os PCs e seus seguidores apoiaram Assad, o ditador s\u00edrio, que matou 500 mil habitantes para se manter no poder. Apoiam a ditadura de Ortega na Nicar\u00e1gua. Mas, ao contr\u00e1rio do que diz a propaganda stalinista, quem governa esses pa\u00edses s\u00e3o as novas burguesias surgidas do aparato do Estado. E nesses pa\u00edses h\u00e1 trabalhadores que lutam contra a mis\u00e9ria capitalista imposta por esses governos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba, o mesmo m\u00e9todo campista do stalinismo serve para justificar toda a pol\u00edtica do governo cubano como \u201cprogressista\u201d e at\u00e9 mesmo como \u201c\u00faltimo basti\u00e3o do socialismo\u201d. Por isso, tamb\u00e9m apoiaram a repress\u00e3o do governo cubano contra o 11 de julho.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, temos duas ideologias dominantes no mundo sobre Cuba. Uma do imperialismo norte-americano, de que em Cuba existe o socialismo e isso \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de que o socialismo \u00e9 igual a ditadura e mis\u00e9ria. Outra, do aparato stalinista, de que Cuba \u00e9 \u201co \u00faltimo basti\u00e3o do socialismo\u201d e que os ativistas t\u00eam de defender o governo cubano, n\u00e3o apenas contra o imperialismo norte-americano, mas tamb\u00e9m contra seu pr\u00f3prio povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essas duas ideologias colidem com a realidade. Em Cuba n\u00e3o existe socialismo de nenhum tipo. Existe uma ditadura burguesa, que se mant\u00e9m por meio da repress\u00e3o constante.<\/p>\n\n\n\n<p>E a ideologia campista do stalinismo, que foi a base de in\u00fameras derrotas dos trabalhadores, est\u00e1 preparando mais uma para Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s combatemos o imperialismo. E tamb\u00e9m combatemos o stalinismo. Para isso, utilizamos o m\u00e9todo marxista, que n\u00e3o substitui as classes em luta por \u201ccampos\u201d. Avaliamos as rela\u00e7\u00f5es entre as na\u00e7\u00f5es no sistema mundial de Estados. E analisamos as situa\u00e7\u00f5es concretas da luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso combatemos o bloqueio imperialista contra Cuba. Por isso tamb\u00e9m podemos lutar contra a ditadura burguesa em Cuba, de forma independente do imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que Trump quer tirar proveito da atual crise do governo cubano e que est\u00e1 disputando a consci\u00eancia das massas cubanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso afetou parte da antiga vanguarda antiditatorial na ilha, como parte das dire\u00e7\u00f5es do Movimento San Isidro, presente na cultura cubana, que se deslocaram para a direita.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o aparato stalinista tamb\u00e9m age para desmantelar essa vanguarda, com pris\u00f5es, julgamentos e difama\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, exerce press\u00e3o ideol\u00f3gica, com a farsa de que todas as mobiliza\u00e7\u00f5es que surgem \u201ct\u00eam o imperialismo por tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, n\u00e3o existem apenas esses dois campos. Um setor da vanguarda cubana \u00e9 contra as manobras imperialistas e contra a ditadura castrista, como \u00e9 o caso do grupo Socialistas em Luta, que compartilha conosco a luta contra o imperialismo, contra a ditadura e a defesa do socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As negocia\u00e7\u00f5es do governo cubano com Trump<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns meses, existem not\u00edcias sobre negocia\u00e7\u00f5es diretas entre o governo de Trump e o regime cubano. A imprensa fala abertamente da proposta em discuss\u00e3o, de uma sa\u00edda \u201c\u00e0 la Venezuela\u201d para Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump disse em fevereiro desse ano: \u201cO governo cubano est\u00e1 conversando conosco. Eles t\u00eam um monte de problemas e nenhum dinheiro. N\u00e3o t\u00eam absolutamente nada neste momento, mas est\u00e3o conversando conosco, e talvez tenhamos uma aquisi\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel. Podemos acabar tendo uma aquisi\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel de Cuba\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quem est\u00e1 negociando com Marco Rubio (secret\u00e1rio de Estado de Trump), por parte de Cuba, \u00e9 Raul Guillermo Rodr\u00edguez Castro, neto de Raul Castro, apelidado de \u201ccaranguejo\u201d. Ou seja, trata-se de negocia\u00e7\u00f5es diretas a partir dos centros de poder tanto do lado de Trump quanto do lado cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>A libera\u00e7\u00e3o por Trump de um cargueiro russo com petr\u00f3leo destinado a Cuba deve ter sido parte dessas negocia\u00e7\u00f5es. A porta-voz de Trump indicou posteriormente que o governo norte-americano analisar\u00e1 \u201ccaso a caso\u201d a possibilidade de outras chegadas. De uma forma ou de outra, isso significa menos de dez dias do petr\u00f3leo necess\u00e1rio para Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Exatamente no dia em que chegamos a Cuba, 16 de mar\u00e7o, D\u00edaz-Canel apareceu na televis\u00e3o estatal para anunciar as negocia\u00e7\u00f5es com Trump, \u201ccom responsabilidade e muita sensibilidade\u201d. \u00c0 sua frente, sentado, estava Raul Guillermo Rodr\u00edguez Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi anunciada a libera\u00e7\u00e3o de investimentos em Cuba por parte dos \u201ccubanos residentes nos Estados Unidos\u201d, ou seja, da burguesia cubana radicada em Miami, nos setores energ\u00e9tico, de infraestrutura em geral e financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses investimentos poder\u00e3o ser realizados sem qualquer controle por parte do Estado cubano. Ou seja, foi anunciada a entrega da economia cubana ao imperialismo norte-americano por meio de negocia\u00e7\u00f5es com Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse momento que Trump declarou que \u201cseria uma grande honra tomar Cuba\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, pouco depois, Marco Rubio, respondendo a D\u00edaz-Canel, afirmou que essas medidas n\u00e3o eram suficientes e exigiu a abertura total do com\u00e9rcio e a ren\u00fancia de D\u00edaz-Canel.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, D\u00edaz-Canel respondeu a Trump, tanto nas redes sociais quanto no evento fechado com a frota, afirmando que era poss\u00edvel uma agress\u00e3o militar contra Cuba e que \u201co pa\u00eds lan\u00e7ou um plano de prepara\u00e7\u00e3o de defesa baseado no conceito de uma guerra de todo o povo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, realizou uma opera\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica. O cantor Silvio Rodr\u00edguez, que apoia o regime, mas critica abertamente a repress\u00e3o, exigiu do governo um fuzil para defender Cuba contra Trump. D\u00edaz-Canel entregou-lhe ent\u00e3o um fuzil.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi tudo uma farsa. A arma entregue a Silvio Rodr\u00edguez, como ele mesmo disse depois, era uma r\u00e9plica, n\u00e3o uma arma de verdade. N\u00e3o existe qualquer prepara\u00e7\u00e3o para uma opera\u00e7\u00e3o popular de defesa de Cuba. Durante o tempo em que estivemos na ilha, n\u00e3o houve nenhuma mobiliza\u00e7\u00e3o de massas nem preparativos reais de armamento popular. Os ativistas com quem conversamos s\u00e3o un\u00e2nimes em caracterizar como uma farsa essa fala sobre mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, existe a possibilidade de um impasse nas negocia\u00e7\u00f5es em curso. \u00c9 preciso levar em conta que a burguesia cubana de Miami faz parte da burguesia imperialista. Ela tem muito mais peso econ\u00f4mico e pol\u00edtico do que a oposi\u00e7\u00e3o burguesa venezuelana de Maria Corina Machado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa burguesia pode ser contra uma sa\u00edda \u201c\u00e0 venezuelana\u201d em Cuba. Trata-se, portanto, de um processo aberto, que pode resultar tanto em uma invas\u00e3o militar imperialista quanto em uma negocia\u00e7\u00e3o real para manter uma parte do regime, mas subordinada a Trump (\u00e0 venezuelana). Ou ainda, que ocorra outra hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como defender realmente Cuba contra o imperialismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba, est\u00e1 ocorrendo uma press\u00e3o brutal do imperialismo contra um pequeno pa\u00eds semicolonial. Esse \u00e9 o elemento central da realidade neste momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, est\u00e1 se gestando uma grande explos\u00e3o contra a ditadura burguesa cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabemos como esses processos desiguais se manifestar\u00e3o nem como se combinar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es de Trump com o governo cubano podem levar a uma nova alternativa semelhante \u00e0 da Venezuela. Ou pode ocorrer um impasse nas negocia\u00e7\u00f5es e terminar em uma invas\u00e3o militar imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m pode acontecer que uma explos\u00e3o popular acabe sendo aproveitada por lideran\u00e7as pr\u00f3-imperialistas, ligadas a Trump. Ou podem ocorrer outras hip\u00f3teses mais ou menos combinadas, com resultados distintos.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo cubano, at\u00e9 agora, mant\u00e9m uma estrat\u00e9gia de negociar com o imperialismo, reprimir seu pr\u00f3prio povo e n\u00e3o recorrer \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de massas contra Trump. O racioc\u00ednio baseia-se quase sempre no mesmo argumento: a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, em termos militares, existe uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as absolutamente desfavor\u00e1vel para Cuba. Mas a hist\u00f3ria cubana j\u00e1 demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel derrotar o imperialismo norte-americano. Em 1961, houve uma invas\u00e3o dos Estados Unidos contra Cuba, na Ba\u00eda dos Porcos. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular e militar derrotou em 72 horas a invas\u00e3o imperialista, garantindo uma vit\u00f3ria que consolidou a revolu\u00e7\u00e3o em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Estendendo os exemplos \u00e0 realidade latino-americana: em 2002 uma mobiliza\u00e7\u00e3o popular derrotou a tentativa de golpe de Estado feito pelas for\u00e7as armadas venezuelanas contra Ch\u00e1vez.<\/p>\n\n\n\n<p>E, no exemplo mais conhecido de todos, em 1975 uma combina\u00e7\u00e3o entre a heroica resist\u00eancia militar dos vietnamitas e a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas contra a guerra nos Estados Unidos conduziu \u00e0 maior derrota pol\u00edtica e militar do imperialismo norte-americano at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, a combina\u00e7\u00e3o entre a resist\u00eancia militar iraniana e as mobiliza\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos pode levar a uma nova e grande derrota do imperialismo na guerra do Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma possibilidade de mudar essa rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel sem a combina\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia militar e da mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, dentro e fora de Cuba. Somente preparando efetivamente uma resist\u00eancia armada popular em Cuba e se unindo as mobiliza\u00e7\u00f5es \u00e0s existentes nos Estados Unidos \u2014 como as que ocorreram em 28 de mar\u00e7o, \u201cNo Kings\u201d, e as pr\u00f3ximas que acontecer\u00e3o em 1\u00ba de maio \u2014 \u00e9 poss\u00edvel alterar a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, seria necess\u00e1rio que o regime cubano libertasse os presos pol\u00edticos, convocasse a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas e entregasse armas aos trabalhadores. Chega de farsas como a que ocorreu com o cantor Silvio Rodr\u00edguez. \u00c9 necess\u00e1rio preparar seriamente uma resist\u00eancia militar popular contra uma poss\u00edvel invas\u00e3o imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendemos que a ditadura cubana, pelo menos at\u00e9 agora, est\u00e1 fazendo o contr\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 mobiliza\u00e7\u00e3o de massas dentro de Cuba, nem rela\u00e7\u00e3o com as mobiliza\u00e7\u00f5es nos EUA. Mant\u00e9m-se uma postura repressiva perante o povo cubano, enquanto se dialoga e se negocia com Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Como disse a m\u00e3e de um dos adolescentes presos pol\u00edticos do 11 de julho em Cuba, impressiona que D\u00edaz-Canel dialogue com o imperialismo e n\u00e3o com o povo cubano. Entre os 2.000 presos libertados pelo governo cubano por meio da negocia\u00e7\u00e3o com o imperialismo mediada pelo Vaticano, n\u00e3o havia nenhum dos presos do 11 de julho.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo cubano quer o fim do bloqueio para que as empresas imperialistas norte-americanas venham para Cuba, como fazem hoje as espanholas, francesas e italianas. O governo cubano quer o fim do bloqueio para avan\u00e7ar na semicoloniza\u00e7\u00e3o da ilha. E agora, est\u00e1 negociando com Trump, o que pode significar ou n\u00e3o a possibilidade de uma sa\u00edda \u201c\u00e0 la Venezuela\u201d para Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de organizar uma verdadeira resist\u00eancia contra o imperialismo norte-americano, propomos lutar contra a ditadura cubana como uma luta democr\u00e1tica, parte de uma estrat\u00e9gia socialista e anti-imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Defendemos uma mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o independentes dos trabalhadores e do povo cubano. Exigimos liberdade para os presos pol\u00edticos e a livre organiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos e das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em Cuba, para podermos combater melhor o imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa luta democr\u00e1tica \u00e9 parte integrante de nossa estrat\u00e9gia para uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista em Cuba, reestatizando as empresas privatizadas, incluindo aquelas que est\u00e3o nas m\u00e3os do imperialismo europeu, com um planejamento da economia e um controle direto e real dos trabalhadores. Queremos uma democracia oper\u00e1ria em Cuba, oposta \u00e0 ditadura stalinista, que, de fato, tenha sua ess\u00eancia na participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em todas as decis\u00f5es fundamentais e estrat\u00e9gicas da ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ativistas de esquerda que defendem a ditadura cubana pensando que, apesar dos erros, o stalinismo defende o que resta da revolu\u00e7\u00e3o cubana, devem refletir.<\/p>\n\n\n\n<p>A ditadura castrista n\u00e3o est\u00e1 defendendo o Estado oper\u00e1rio burocratizado que h\u00e1 muito tempo j\u00e1 n\u00e3o existe, mas sim sua alian\u00e7a com as grandes empresas europeias, seus lucros e privil\u00e9gios. \u00c9 por isso que \u00e9 odiada pelo povo cubano. A ditadura cubana n\u00e3o est\u00e1 enfrentando Trump, pelo menos at\u00e9 agora, mas sim negociando com os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Apoiar acriticamente a ditadura stalinista \u00e9 fortalecer essa vis\u00e3o dos \u00abcampos progressistas ao lado da burguesia\u00bb, que ignora as classes sociais e o marxismo. E prepara uma nova derrota em Cuba, agora nas m\u00e3os do governo norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, da LIT, n\u00e3o apenas defendemos Cuba contra o imperialismo norte-americano, mas apostamos na derrota do imperialismo juntamente com a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas dentro de Cuba e nos Estados Unidos. Estamos dispostos a apoiar qualquer medida concreta do governo cubano para defender a ilha e enfrentar Trump. Com o que n\u00e3o concordamos \u00e9 com sua estrat\u00e9gia de negocia\u00e7\u00e3o com o governo norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Defendemos o lado dos trabalhadores e da juventude em Cuba. Consideramos que sua luta \u00e9 leg\u00edtima, justa e necess\u00e1ria. N\u00e3o se pode negar a realidade da profunda desigualdade econ\u00f4mica e a exist\u00eancia da repress\u00e3o \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas. A verdadeira maneira de lutar contra o imperialismo \u00e9, como ensina a hist\u00f3ria, apoiando-se nas massas cubanas e no mundo, e n\u00e3o contra elas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso lutar de verdade contra Trump Uma pequena delega\u00e7\u00e3o da LIT esteve em Cuba em mar\u00e7o de 2026. Est\u00e1vamos l\u00e1 Hertz Dias (candidato \u00e0 presid\u00eancia do Brasil pelo PSTU), Gabriela (tamb\u00e9m do PSTU) e eu. 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