{"id":82382,"date":"2026-03-17T13:11:34","date_gmt":"2026-03-17T13:11:34","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82382"},"modified":"2026-03-25T18:04:21","modified_gmt":"2026-03-25T18:04:21","slug":"epstein-e-a-unidade-da-classe-dominante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/03\/17\/epstein-e-a-unidade-da-classe-dominante\/","title":{"rendered":"Epstein e a unidade da classe dominante"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do artigo do\u00a0<em>Miami Herald<\/em>, \u00abA pervers\u00e3o da justi\u00e7a\u00bb, veio \u00e0 tona a conspira\u00e7\u00e3o de Epstein em novembro de 2018, entramos em um per\u00edodo em que os elementos das teorias conspirat\u00f3rias mais assustadoras se revelam como realidades. Jeffrey Epstein, que na \u00e9poca era chamado de um \u00abmisterioso financista de Nova York\u00bb, resultou ser o organizador de uma enorme opera\u00e7\u00e3o de pedofilia e tr\u00e1fico sexual que prestava servi\u00e7os a muitas das figuras mais poderosas do capitalismo internacional, desde pol\u00edticos at\u00e9 diretores executivos e intelectuais.<\/p>\n<p>Embora a classe dominante tenha tentado silenciar e enterrar o caso Epstein por todos os meios poss\u00edveis, suas repercuss\u00f5es continuam vindo \u00e0 tona em toda a sua grotesca magnitude. Os impactantes detalhes do caso teriam atra\u00eddo por si mesmos o interesse massivo, mas a profundidade do assunto e a forma como implica e exp\u00f5e a classe dominante garantiram que n\u00e3o desaparecesse da consci\u00eancia p\u00fablica.<\/p>\n<p>O caso Epstein provocou uma prolongada crise de legitimidade na qual a fachada da sociedade burguesa se deslizou e revelou a verdadeira natureza do sistema a milh\u00f5es de pessoas. Colocou a descoberto os v\u00ednculos entre os capitalistas de todo o mundo, apesar das divis\u00f5es nacionais e pol\u00edticas supostamente irreconcili\u00e1veis. Revelou que a classe dominante est\u00e1 acima da lei e que os princ\u00edpios da ordem p\u00fablica burguesa n\u00e3o s\u00e3o mais do que uma arma contra os trabalhadores e os oprimidos e um escudo para as elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Demonstrou que os capitalistas n\u00e3o apenas est\u00e3o dispostos a cometer crimes atrozes, mas que t\u00eam o poder e a vontade de encobri-los.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia e a deprava\u00e7\u00e3o dos c\u00edrculos governantes confirmam o n\u00facleo patriarcal e opressivo da vida capitalista contempor\u00e2nea. Para o movimento socialista, \u00e9 vital que conectemos com a desilus\u00e3o massiva provocada pela onda de revela\u00e7\u00f5es, que ofere\u00e7amos um marco para analisar seu verdadeiro significado e implica\u00e7\u00f5es, e que organizemos a indigna\u00e7\u00e3o em uma resist\u00eancia eficaz.<\/p>\n<p><strong>O estado da encobertura<\/strong><\/p>\n<p>Durante a campanha eleitoral de 2024, Trump prometeu a r\u00e1pida publica\u00e7\u00e3o dos arquivos de Epstein para agradar sua base e acusar seus oponentes democratas de participar e apoiar a rede de tr\u00e1fico sexual ped\u00f3filo de Epstein. O caso Epstein j\u00e1 havia se tornado um elemento central da vis\u00e3o de mundo de grande parte da base comprometida de Trump, o que lhes confirmava o qu\u00e3o essencial era realmente a promessa de Trump de \u00abdrenar o p\u00e2ntano\u00bb do \u00abEstado profundo\u00bb.<\/p>\n<p>Durante o primeiro mandato de Trump, a popular teoria conspirat\u00f3ria QAnon utilizou o caso Epstein como n\u00facleo racional de uma vis\u00e3o de mundo mais ampla, segundo a qual o mundo \u00e9 presidido por uma obscura camarilha (judaica) de ped\u00f3filos, e Trump tinha a miss\u00e3o secreta de purgar o governo e a sociedade desses malfeitores. A fantasiosa e desquiciada fantasia reacion\u00e1ria de QAnon apenas levou uma minoria de republicanos a participar ativamente, mas muitos de seus princ\u00edpios se filtraram no esp\u00edrito da \u00e9poca mais amplo entre a base trumpista. Em consequ\u00eancia, a profundiza\u00e7\u00e3o da crise de Epstein e a ineg\u00e1vel conex\u00e3o de Trump com ela t\u00eam sido uma das poucas coisas que fizeram balan\u00e7ar a lealdade aparentemente inquebrant\u00e1vel de sua base.<\/p>\n<p>Diante dessa contradi\u00e7\u00e3o, a administra\u00e7\u00e3o agiu de forma incompetente durante mais de um ano, testando todas as solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas imagin\u00e1veis e sem conseguir deter a crise de legitimidade. O in\u00edcio do segundo mandato de Trump veio acompanhado de declara\u00e7\u00f5es audaciosas de funcion\u00e1rios como Pam Bondi, que afirmavam que em breve tudo seria revelado. Misteriosamente, eles se retrataram publicamente de tudo e afirmaram que n\u00e3o havia nenhuma lista nem arquivos de Epstein a serem revelados. Pouco depois, foi realizada uma grande coletiva de imprensa para celebrar a divulga\u00e7\u00e3o dos arquivos, quando na verdade os documentos que j\u00e1 haviam sido publicados simplesmente foram republicados com mais censuras do que da primeira vez.<\/p>\n<p>A press\u00e3o aumentou ap\u00f3s essa tentativa fracassada e, finalmente, precipitou a Lei de Transpar\u00eancia dos Arquivos de Epstein. Assinada em 19 de novembro de 2025, a lei colocou a administra\u00e7\u00e3o Trump em uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Trump esperava uma divis\u00e3o no partido para impedir a aprova\u00e7\u00e3o da lei, mas uma grande porcentagem dos representantes republicanos se posicionou a favor da mesma. Isso levou a lei \u00e0 mesa de Trump para sua aprova\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o. Se Trump permitisse a divulga\u00e7\u00e3o completa, revelaria ao mundo a profundidade de sua rela\u00e7\u00e3o e a de muitas outras pessoas da classe dirigente com Epstein. Se n\u00e3o a divulgasse, confirmaria para milh\u00f5es de pessoas que tem algo a esconder e que est\u00e1 encobrindo uma rede de tr\u00e1fico sexual ped\u00f3filo. Trump se sentiu obrigado a assinar, mas n\u00e3o cumpriu com a letra da lei.<\/p>\n<p>O processo de divulga\u00e7\u00e3o dos arquivos de Epstein por parte do governo tem sido t\u00e3o incompetente e desleixado quanto todas as outras fases da crise. Finalmente, o governo publicou 3 milh\u00f5es de documentos em 19 de dezembro de 2025, aparentemente cumprindo finalmente com a Lei de Divulga\u00e7\u00e3o. No entanto, ap\u00f3s examinar os documentos, ficou claro que havia censuras excessivas, o que sugere que a informa\u00e7\u00e3o foi suprimida por motivos pol\u00edticos. Ainda mais irritante foi que os nomes de algumas sobreviventes n\u00e3o foram censurados, o que as exp\u00f4s a serem alvos de ataques e ass\u00e9dio. Al\u00e9m disso, os 3 milh\u00f5es de documentos publicados n\u00e3o eram os &#8220;arquivos de Epstein&#8221; completos exigidos pela Lei de Transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o havia violado a Lei de Transpar\u00eancia, embora n\u00e3o existissem mecanismos formais para sancion\u00e1-la ou puni-la. No entanto, a press\u00e3o continuou aumentando at\u00e9 que o governo se viu obrigado a publicar outros 3 milh\u00f5es de documentos no m\u00eas seguinte.<\/p>\n<p>A dura luta do governo para evitar a divulga\u00e7\u00e3o dos arquivos de Epstein manchou a reputa\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o tanto a n\u00edvel nacional quanto internacional. Isso at\u00e9 levou a base notoriamente fan\u00e1tica de Trump a questionar por que o homem e o partido que haviam demagogado sobre o caso durante tanto tempo de repente se mostraram t\u00e3o relutantes.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o mais \u00f3bvia das hesita\u00e7\u00f5es do regime de Trump \u00e9 o qu\u00e3o implicado Trump est\u00e1 com Epstein. Nos documentos dispon\u00edveis atualmente, o nome de Trump aparece mais de 38.000 vezes. H\u00e1 muitas fotos dispon\u00edveis publicamente nas quais os dois aparecem juntos. Al\u00e9m disso, est\u00e1 muito claro que Trump e Epstein eram parceiros pr\u00f3ximos, at\u00e9 amigos. Mas h\u00e1 considera\u00e7\u00f5es ainda mais profundas aqui do que o simples fato de que Trump queira salvar sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p><strong>O que era a opera\u00e7\u00e3o de Epstein?<\/strong><\/p>\n<p>O conspiracionismo tem sido por muito tempo um espet\u00e1culo secund\u00e1rio importante na pol\u00edtica dos Estados Unidos. Na maior parte, as teorias conspirat\u00f3rias que animam o corpo pol\u00edtico nos dizem mais sobre os segmentos da sociedade que acreditam nelas do que sobre a realidade, como a alunissagem, o assassinato de JFK ou a suposta infiltra\u00e7\u00e3o comunista nas institui\u00e7\u00f5es americanas. Mas \u00e0s vezes os rumores que a sociedade em geral descarta como imagina\u00e7\u00e3o hiperativa s\u00e3o apenas os primeiros sinais de um terremoto iminente.<\/p>\n<p>Durante os anos sessenta e setenta, os organizadores de esquerda estavam convencidos de que suas organiza\u00e7\u00f5es estavam sendo sistematicamente minadas. Essa ideia parecia uma farsa para a maioria dos americanos, mas a revela\u00e7\u00e3o do COINTELPRO deixou claro que o problema era ainda maior do que a maioria dos ativistas suspeitava. A revela\u00e7\u00e3o do MKUltra, o programa de controle mental da CIA, fez com que muitas das teorias conspirat\u00f3rias mais absurdas parecessem inofensivas em compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje em dia, com Epstein, floresceram centenas de teorias conspirat\u00f3rias. As tr\u00eas perguntas em torno das quais essas teorias costumam girar s\u00e3o: qual era a opera\u00e7\u00e3o de Epstein, quais eram seus objetivos e a quem servia?<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 primeira quest\u00e3o, apesar da confus\u00e3o criada pelo governo dos Estados Unidos, est\u00e1 claro que Jeffrey Epstein era o chefe de uma rede de tr\u00e1fico sexual em grande escala que prestava servi\u00e7os \u00e0 classe dominante. Durante a primeira administra\u00e7\u00e3o Trump, o governo estimou que havia 100 v\u00edtimas das redes de Epstein. Depois que a investiga\u00e7\u00e3o foi ampliada durante a presid\u00eancia de Biden, esse n\u00famero aumentou para mais de 1000. No entanto, ambos os governos evitaram cuidadosamente identificar a quem servia a rede de tr\u00e1fico, al\u00e9m do pr\u00f3prio Epstein. O governo atual afirmou repetidamente que Epstein criou a rede de tr\u00e1fico sexual apenas para seu pr\u00f3prio benef\u00edcio, uma ideia que \u00e9 claramente absurda dada a magnitude da opera\u00e7\u00e3o e os claros v\u00ednculos que muitas elites tiveram com essa faceta de suas atividades.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os documentos deixam claro que Epstein tamb\u00e9m participava da especula\u00e7\u00e3o financeira e oferecia conselhos sobre essas quest\u00f5es \u00e0s elites. Este aspecto chegou a um ponto cr\u00edtico na Inglaterra, onde o ex-pr\u00edncipe Andr\u00e9 Mountbatten Windsor e o pol\u00edtico trabalhista Peter Mandelson foram acusados de revelar segredos de Estado em conversas financeiras com Epstein. A natureza exata dessas atividades e o motivo pelo qual os capitalistas consideravam Epstein um especialista nessas quest\u00f5es continuam sem estar claros.<\/p>\n<p>Nenhum pol\u00edtico ou capitalista destacado foi acusado ainda em nenhum lugar do mundo por sua participa\u00e7\u00e3o em crimes sexuais relacionados a Epstein. Isso nos leva \u00e0 quest\u00e3o dos objetivos de Epstein ao se dedicar ao tr\u00e1fico sexual em grande escala. A teoria mais popular \u00e9 que Epstein era o chefe de uma opera\u00e7\u00e3o de chantagem que coletava informa\u00e7\u00f5es comprometedores sobre muitos dos atores mais poderosos do capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Outras explica\u00e7\u00f5es incluem que ele era simplesmente um libertino e hedonista amoral ou que prestava um servi\u00e7o muito demandado nos c\u00edrculos governantes em troca de dinheiro. O governo dos Estados Unidos, tanto sob as administra\u00e7\u00f5es democratas quanto republicanas, afirmou que o tr\u00e1fico sexual era para uso pessoal de Epstein, o que parece claramente absurdo mesmo com as provas limitadas publicadas pelo governo.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, e o mais controverso, houve um amplo debate sobre a quem servia Epstein. Dado o tamanho de sua rede de tr\u00e1fico e os numerosos ind\u00edcios de que tamb\u00e9m era a base de uma opera\u00e7\u00e3o de chantagem, muitos se perguntaram se Epstein estava a servi\u00e7o de um governo ou outro. Na maior parte, o governo dos Estados Unidos tem evitado abordar essa quest\u00e3o, embora recentemente tenha estado impulsionando a narrativa de que era um ativo russo, uma ideia pouco respaldada pelos arquivos dispon\u00edveis ou pela rede que cultivou. Na consci\u00eancia popular, as suposi\u00e7\u00f5es mais comuns s\u00e3o de que trabalhava para a CIA ou o Mossad. Trata-se de uma quest\u00e3o dos fatos que s\u00f3 pode ser confirmada com a divulga\u00e7\u00e3o completa das informa\u00e7\u00f5es relevantes relacionadas a Epstein. Embora seja uma quest\u00e3o interessante, n\u00e3o \u00e9 especialmente relevante para nossa compreens\u00e3o ou resposta pr\u00e1tica ao caso Epstein.<\/p>\n<p><strong>Epstein e a unidade da classe dominante<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 muitos aspectos importantes do caso Epstein. No entanto, para realmente compreender todas as suas implica\u00e7\u00f5es, precisamos entender o que s\u00e3o as camarilhas ao estilo Epstein no contexto do capitalismo internacional. Seria f\u00e1cil cair na l\u00f3gica conspirat\u00f3ria de que toda a classe dominante \u00e9 uma camarilha de ped\u00f3filos que opera nos bastidores das estruturas formais do capitalismo \u00abdemocr\u00e1tico\u00bb com base no caso Epstein. Por outro lado, tamb\u00e9m seria f\u00e1cil minimizar o que as camarilhas como a de Epstein dizem sobre a classe capitalista e seu modo real de funcionamento.<\/p>\n<p>A forma de quadrar este c\u00edrculo \u00e9 examinar a peculiar unidade da classe dominante sob o capitalismo internacional. Aos pr\u00f3prios capitalistas gostam de nos fazer acreditar que a classe dominante est\u00e1 permanentemente dividida em fac\u00e7\u00f5es por muitos motivos diferentes, da mesma forma que querem que a maioria da classe trabalhadora esteja. Promovem antagonismos em torno da nacionalidade, do partido pol\u00edtico, da ra\u00e7a, do g\u00eanero e dos interesses econ\u00f4micos. Ao manter a ilus\u00e3o de diferen\u00e7as irreconcili\u00e1veis entre os distintos setores da classe dominante, dissolvem o reconhecimento entre as massas de que existe uma classe dominante. Nesta narrativa, n\u00e3o h\u00e1 interesses comuns da classe dominante e, portanto, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 pr\u00e1ticas comuns; em vez disso, h\u00e1 diferen\u00e7as e antagonismos setoriais. Essas diferen\u00e7as se estendem atrav\u00e9s das linhas de classe: tanto um trabalhador quanto um capitalista podem votar pelos democratas ou identificar os interesses dos Estados Unidos como seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>A aparente agudeza desses antagonismos dentro da classe dominante provoca desconcerto e disson\u00e2ncia cognitiva \u00e0queles que observam o caso Epstein.<\/p>\n<p>Na realidade, o capitalismo internacional \u00e9 composto por uma \u00abbanda de irm\u00e3os em guerra\u00bb, como descreveu Marx. Por outro lado, existem conflitos reais entre a classe dominante. Os capitalistas competem pelos lucros e buscam utilizar o Estado para seus pr\u00f3prios interesses pessoais e setoriais. Isso pode ser uma luta mortal para os capitalistas: se perderem para outros capitalistas, podem perder sua posi\u00e7\u00e3o como capitalistas.<\/p>\n<p>Mas o n\u00edvel estrutural do capitalismo se op\u00f5e a esses antagonismos. O Estado capitalista re\u00fane todos os capitalistas em competi\u00e7\u00e3o em uma organiza\u00e7\u00e3o que modera suas disputas internas e lhes proporciona a capacidade de se unirem para oprimir as massas trabalhadoras. Sem essa unidade, n\u00e3o poderiam organizar a sociedade sob seu controle coletivo e a sociedade estaria dominada por conflitos constantes ou se transformaria atrav\u00e9s de uma revolu\u00e7\u00e3o que levaria as massas ao poder.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 mil outras formas menores nas quais a classe dominante consegue sua unidade. Al\u00e9m das raz\u00f5es imediatas e \u00f3bvias para que a classe dominante participe nos crimes de Epstein, todo o assunto \u00e9 um exerc\u00edcio para construir a unidade que a classe dominante necessita.<\/p>\n<p>Epstein e Maxwell eram especialistas em reunir capitalistas, pol\u00edticos e intelectuais e fortalecer seus la\u00e7os. E n\u00e3o \u00e9 algo secund\u00e1rio que formaram uma rede de tr\u00e1fico sexual em particular. Ao participar juntos de atos desprez\u00edveis com impunidade e, ao mesmo tempo, criar a possibilidade de se comprometerem como indiv\u00edduos, esses elementos da classe dominante ficam unidos. Vemos esse mesmo fen\u00f4meno em menor escala com a onipresen\u00e7a das trotes nas fraternidades universit\u00e1rias ou os rituais nas sociedades secretas e organiza\u00e7\u00f5es de elite. A participa\u00e7\u00e3o comum e o conhecimento dos crimes uns dos outros os faz investir profundamente uns nos outros, apesar de suas diferen\u00e7as. Podemos ver a prova disso em como Trump falou suavemente sobre outro estreito colaborador de Epstein, Bill Clinton, durante o \u00faltimo surto da crise de Epstein, apesar de sua aparentemente implac\u00e1vel luta contra os Clinton no terreno pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A matura\u00e7\u00e3o da crise revelou a solidariedade entre toda a classe dominante, que em tempos normais fica oculta pelo conflito di\u00e1rio sobre quest\u00f5es pol\u00edticas cotidianas. Que a crise de Epstein passe sem maiores consequ\u00eancias ou termine em uma verdadeira presta\u00e7\u00e3o de contas depender\u00e1 de se a classe trabalhadora pode aproveitar as fraturas atuais que a classe dominante est\u00e1 tentando suavizar.<\/p>\n<p><strong>O socialismo contra a classe de Epstein<\/strong><\/p>\n<p>Todo o curso da saga de Epstein tem sido um exemplo sombrio do capitalismo mundial em a\u00e7\u00e3o. A impunidade, a explora\u00e7\u00e3o, a coa\u00e7\u00e3o sexual e os encobrimentos s\u00e3o realidades cotidianas da vida em uma sociedade de classes. Que existam pessoas como Epstein, Maxwell e seus clientes de elite n\u00e3o \u00e9, lamentavelmente, nada novo. O que \u00e9 novo \u00e9 o conhecimento do funcionamento real da classe dominante e a indigna\u00e7\u00e3o massiva de milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo. Para os socialistas, \u00e9 nosso dever conectar com essa ira justificada e canaliz\u00e1-la para a luta por justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Nossas demandas imediatas s\u00e3o a total transpar\u00eancia e a justi\u00e7a para a multid\u00e3o de sobreviventes dos crimes de Epstein. Gra\u00e7as \u00e0 defesa dessas sobreviventes, que correm um grande risco, foi revelada toda a brutalidade do aparato de Epstein e o apoio da classe dominante. Todos os capitalistas e pol\u00edticos que abusaram sexualmente de mulheres e meninas devem enfrentar as consequ\u00eancias legais que o sistema de justi\u00e7a burgu\u00eas promete, mas raramente cumpre. Conseguir justi\u00e7a depender\u00e1 de que se continuem a expor os crimes j\u00e1 conhecidos publicamente e de que se pressione o sistema para que revele toda a informa\u00e7\u00e3o que tem ocultado para proteger a classe dominante.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo para garantir a justi\u00e7a \u00e9 a luta organizada. Est\u00e1 claro que o conhecimento p\u00fablico dos crimes e a indigna\u00e7\u00e3o massiva s\u00e3o insuficientes para conseguir justi\u00e7a. Estamos vendo movimentos nessa dire\u00e7\u00e3o, especialmente em Ohio, onde reside Les Wexner, um dos principais patrocinadores de Epstein. Uma organiza\u00e7\u00e3o concertada come\u00e7ou a pressionar Wexner. As organiza\u00e7\u00f5es e os estudantes de esquerda locais convocaram manifesta\u00e7\u00f5es para exigir justi\u00e7a e a remo\u00e7\u00e3o do nome de Wexner dos numerosos edif\u00edcios que o exibem. Em particular, a Associa\u00e7\u00e3o de Enfermeiras de Ohio e a AFL-CIO convocaram uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente ao Centro M\u00e9dico Wexner para denunciar Wexner.<\/p>\n<p>Para conseguir que se celebrem julgamentos ou se apliquem outras medidas, ser\u00e1 essencial envolver os sindicatos no movimento e organizar os trabalhadores e a comunidade para refor\u00e7ar as demandas de justi\u00e7a. Mais al\u00e9m das demandas imediatas do momento, o caso Epstein nos exige travar uma luta sistem\u00e1tica contra o capitalismo mundial como um todo. O patriarcado e a impunidade da classe dominante s\u00e3o caracter\u00edsticas end\u00eamicas do capitalismo e s\u00f3 podem ser mitigadas se o pr\u00f3prio capitalismo for eliminado.<\/p>\n<p>A cumplicidade e o encobrimento da rede de Epstein se estendem a todas as alas da pol\u00edtica burguesa, da direita \u00e0 esquerda, do Partido Republicano, passando pelo Partido Democrata, at\u00e9 o Partido Trabalhista brit\u00e2nico. Precisamos de um partido oper\u00e1rio independente e radical, comprometido com a den\u00fancia de todos os crimes cometidos pela classe dominante e que busque fomentar a luta de massas da classe trabalhadora para arrancar o poder de nossos opressores e exploradores.<\/p>\n<p>Hoje em dia, as massas reconhecem a decad\u00eancia desenfreada da classe dominante. Devemos converter esse conhecimento em a\u00e7\u00e3o para conseguir justi\u00e7a para as sobreviventes e alcan\u00e7ar um mundo onde um Jeffrey Epstein seja imposs\u00edvel. Esse mundo \u00e9 o socialismo.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do artigo do\u00a0Miami Herald, \u00abA pervers\u00e3o da justi\u00e7a\u00bb, veio \u00e0 tona a conspira\u00e7\u00e3o de Epstein em novembro de 2018, entramos em um per\u00edodo em que os elementos das teorias conspirat\u00f3rias mais assustadoras se revelam como realidades. 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