{"id":82266,"date":"2026-02-13T00:36:45","date_gmt":"2026-02-13T00:36:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82266"},"modified":"2026-02-13T00:37:47","modified_gmt":"2026-02-13T00:37:47","slug":"o-significado-do-acordo-de-livre-comercio-entre-mercosul-e-ue-subordinacao-rapina-e-dependencia-ao-imperialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/02\/13\/o-significado-do-acordo-de-livre-comercio-entre-mercosul-e-ue-subordinacao-rapina-e-dependencia-ao-imperialismo\/","title":{"rendered":"O significado do acordo de livre-com\u00e9rcio entre Mercosul e UE: subordina\u00e7\u00e3o, rapina e depend\u00eancia ao imperialismo"},"content":{"rendered":"\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><\/h6>\n\n\n\n<p>O acordo foi comemorado por Lula: \u201cAp\u00f3s 25 anos de negocia\u00e7\u00e3o, foi aprovado o Acordo entre Mercosul-Uni\u00e3o Europeia, um dos maiores tratados de livre com\u00e9rcio do mundo\u201d. Na verdade, o in\u00edcio das discuss\u00f5es remontam a 1994, come\u00e7ando a ser concretizadas em 1999, na esteira do processo de liberaliza\u00e7\u00e3o e abertura comercial desenfreada promovida pelo governo FHC.<\/p>\n\n\n\n<p>As tentativas de negocia\u00e7\u00e3o atravessaram todos os governos desde ent\u00e3o, sendo destravadas por tr\u00eas fatores fundamentais: a ofensiva protecionista do governo Trump; a crise no bloco europeu, principalmente a ind\u00fastria alem\u00e3 que encabe\u00e7a a UE; e a busca pelas cobi\u00e7adas terras raras e seu papel na chamada ind\u00fastria 4.0. O avan\u00e7o do tratado de livre-com\u00e9rcio, assim, \u00e9 vendido como um contraponto ao imperialismo norte-americano e uma retomada do \u201cmultilateralismo\u201d que marcou os anos de ouro do neoliberalismo, criando um mercado que representaria 20% do PIB mundial e 700 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo Lula, a imprensa e at\u00e9 boa parte da esquerda celebram o acordo como uma vit\u00f3ria do Brasil e a abertura de um novo ciclo de crescimento, desenvolvimento e at\u00e9 mesmo de industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s dos n\u00fameros superlativos e do discurso do \u201cganha-ganha\u201d, por\u00e9m, esconde-se o verdadeiro objetivo do tratado: submeter ainda mais os pa\u00edses do Mercosul, fundamentalmente o Brasil, ao decadente imperialismo europeu, e rebaixar o pa\u00eds ainda mais na Divis\u00e3o Internacional do Trabalho, aprofundando seu car\u00e1ter colonial de mero exportador de produtos prim\u00e1rios e outros de baixo valor agregado, e a depend\u00eancia de produtos industrializados, tecnologia e servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.opiniaosocialista.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/FHC.png\" alt=\"\" width=\"570\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/www.opiniaosocialista.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/FHC.png 570w, https:\/\/www.opiniaosocialista.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/FHC-300x187.png 300w\"><\/p>\n\n\n\n<p id=\"caption-attachment-105042\">Negocia\u00e7\u00f5es pelo acordo come\u00e7aram no governo FHC<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Vacas por carros<\/h4>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por menos que o acordo esteja sendo chamado na Alemanha de \u201cvacas por carros\u201d. A pr\u00f3pria presidente da Comiss\u00e3o Europeia, \u00darsula von der Leyen, prev\u00ea que, at\u00e9 2040, \u201cas exporta\u00e7\u00f5es da UE para o Mercosul devem crescer quase 50 bilh\u00f5es de Euros, enquanto as exporta\u00e7\u00f5es do Mercosul poder\u00e3o aumentar em at\u00e9 9 de bilh\u00f5es Euros\u201d. J\u00e1 estimativas divulgadas pelo Minist\u00e9rio da Fazenda prev\u00ea um impacto de R$ 500 bilh\u00f5es no PIB brasileiro nos pr\u00f3ximos 15 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O tratado \u00e9 composto por dois acordos: o EMPA (Acordo de Parceria UE-Mercosul na sigla em ingl\u00eas), e o ITA (Acordo Comercial Interino), que visa antecipar as redu\u00e7\u00f5es tarif\u00e1rias at\u00e9 que o acordo completo seja ratificado pelos pa\u00edses. A proposta estabelece zerar as tarifas do Mercosul sobre 91% dos produtos europeus num prazo de 15 anos, enquanto a Uni\u00e3o Europeia teria 12 anos para eliminar as tarifas sobre 95% das exporta\u00e7\u00f5es do Mercosul.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.opiniaosocialista.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Cargill_agronegocio_divulgacao-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-101076\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O discurso oficial projeta um cen\u00e1rio em que todos os pa\u00edses sairiam ganhando com o tratado. O Mercosul, e principalmente o Brasil, com o fim da atual tarifa de 15% sobre produtos \u201ccompetitivos\u201d do agroneg\u00f3cio, como carnes, a\u00e7\u00facar, etanol, suco de laranja, caf\u00e9, entre outros itens. E a Uni\u00e3o Europeia com produtos industrializados, principalmente os chamados \u201cbens de capital\u201d (m\u00e1quinas e equipamentos), al\u00e9m de pe\u00e7as e componentes para a ind\u00fastria automobil\u00edstica, e insumos qu\u00edmicos para a ind\u00fastria farmac\u00eautica.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Desindustrializa\u00e7\u00e3o, entrega e reprimariza\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p>O acordo n\u00e3o ocorre sem contradi\u00e7\u00f5es. Dentro do bloco europeu, a Fran\u00e7a encabe\u00e7a um conjunto de pa\u00edses (Pol\u00f4nia, \u00c1ustria, Hungria e Irlanda) historicamente refrat\u00e1rios a acordos que ameacem a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola local. No caso da Fran\u00e7a, essa posi\u00e7\u00e3o parece ter um peso mais pol\u00edtico que essencialmente econ\u00f4mico, j\u00e1 que, ao fim e ao cabo, sair\u00e1 ganhando como os demais pa\u00edses europeus que exportam produtos de alto valor agregado. O setor, por\u00e9m, tem um peso pol\u00edtico significativo no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O tratado, no entanto, imp\u00f5e um sistema de gatilho que restabelece barreiras alfandeg\u00e1rias caso determinado produto aumente em 5% seu volume de exporta\u00e7\u00e3o pelo Mercosul, ou se o pre\u00e7o final ficar 5% mais barato que algum produto europeu. Essa salvaguarda garantiu o arrefecimento da resist\u00eancia desses pa\u00edses em rela\u00e7\u00e3o ao tratado.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os produtores europeus bateram o p\u00e9 e garantiram salvaguardas para seus setores, o setor industrial do Mercosul deve ter feito o mesmo, n\u00e3o? Pelo contr\u00e1rio, mesmo com mais de 98% das importa\u00e7\u00f5es brasileiras vindas da Europa sendo constitu\u00edda de produtos industriais, a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI) classificou o acordo como um \u201cmarco hist\u00f3rico para o fortalecimento da ind\u00fastria brasileira, a diversifica\u00e7\u00e3o da pauta exportadora e a integra\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds ao com\u00e9rcio global\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que isso ocorre? Por um lado, a maior parte da ind\u00fastria nacional j\u00e1 \u00e9 desnacionalizada, como a pr\u00f3pria ind\u00fastria automobil\u00edstica. Assim, a importa\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as e componentes mais baratos aceleraria a transforma\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas das multinacionais instaladas aqui em meras \u201cmaquiladoras\u201d (montagem com pe\u00e7as importadas). Isso significaria uma demanda por m\u00e3o-de-obra menos qualificada, sal\u00e1rios ainda mais rebaixados e arrebentaria o que resta da ind\u00fastria nacional que fornece pe\u00e7as ao setor.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a importa\u00e7\u00e3o de maquin\u00e1rio ajudaria o grande agroneg\u00f3cio a agregar um pouco de valor aos seus produtos. Assim, poderia exportar caf\u00e9 sol\u00favel al\u00e9m do gr\u00e3o, ou \u201cnuggets\u201d junto ao frango. Ajudaria ainda os setores considerados \u201ccompetitivos\u201d da ind\u00fastria, como o cal\u00e7adista. Ou seja, ao contr\u00e1rio do discurso da CNI, n\u00e3o se trata da possibilidade de um novo ciclo de industrializa\u00e7\u00e3o ou moderniza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria, mas do aprofundamento da depend\u00eancia do pa\u00eds e seu papel no mercado mundial de exportador de produtos de baixo valor, principalmente aliment\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na outra ponta, o acordo coloca na mira do imperialismo europeu os minerais cr\u00edticos, reduzindo a depend\u00eancia que hoje a UE tem da China.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Lula segue pol\u00edtica entreguista dos governos neoliberais<\/h4>\n\n\n\n<p>O acordo de livre-com\u00e9rcio entre Mercosul e Uni\u00e3o Europeia rebaixa o pa\u00eds ainda mais na Divis\u00e3o Internacional do Trabalho, aumentando a depend\u00eancia e subordina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses semicoloniais ao imperialismo europeu. E n\u00e3o apenas na quest\u00e3o da desindustrializa\u00e7\u00e3o e reprimariza\u00e7\u00e3o da economia, mas na entrega das cobi\u00e7adas terras raras e dos servi\u00e7os p\u00fablicos ao capital internacional. O acordo, por exemplo, abre o setor de \u201cservi\u00e7os e compras governamentais\u201d para a concorr\u00eancia europeia. A italiana Enel, que deixa milhares de paulistanos no escuro com o menor chuvisco na capital, \u00e9 um exemplo de que o imperialismo europeu n\u00e3o \u00e9 mais eficiente ou bonzinho, mas igualmente predat\u00f3rio e destrutivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo Lula, com a assinatura deste acordo, pisa no acelerador do processo que joga o pa\u00eds no retrocesso e avan\u00e7a na entrega e recoloniza\u00e7\u00e3o de uma economia quase que j\u00e1 totalmente subordinada ao capital internacional. E o que torna tudo ainda mais grave \u00e9 que se trata de um acordo estrat\u00e9gico, que impossibilita qualquer pol\u00edtica consequente de industrializa\u00e7\u00e3o para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas mas, ao contr\u00e1rio, condena o Brasil a um papel rebaixado, aprofundando a espolia\u00e7\u00e3o e a rapina imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode at\u00e9 se concretizar a perspectiva do crescimento do PIB nesse per\u00edodo, como projetado pelo governo, mas concentrado em setores espec\u00edficos do agroneg\u00f3cio, e na ind\u00fastria de baixo valor agregado, como o aliment\u00edcio ou de cal\u00e7ados. Mas isso em nada se refletir\u00e1 em qualquer mudan\u00e7a na vida concreta da classe trabalhadora e da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o. O inverso sim ser\u00e1 realidade: uma economia baseada ainda mais nos setores prim\u00e1rios, a destrui\u00e7\u00e3o do que resta de uma cadeia produtiva industrial e a entrega dos recursos e servi\u00e7os ao capital estrangeiro. Resultado: empregos mais precarizados, sal\u00e1rios rebaixados e o empobrecimento estrutural do pa\u00eds que vem dando a t\u00f4nica nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Setores da classe m\u00e9dia, por sua vez, podem at\u00e9 se beneficiar com o acesso a bens de consumo importados, como o vinho franc\u00eas ou o azeite portugu\u00eas. Mas ser\u00e1, de conjunto, igualmente arrastada por esse retrocesso econ\u00f4mico e social, com o aumento da pobreza, da mis\u00e9ria e da desigualdade. Algo que j\u00e1 vem ocorrendo nos \u00faltimos anos (e que deu base para o fortalecimento da extrema direita no pa\u00eds, inclusive).<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, parte significativa da esquerda capitalista, que gritou \u201cN\u00e3o \u00e0 Alca\u201d nos anos 1990, vergonhosamente celebra o acordo como um contraponto ao imperialismo norte-americano. A realidade, por\u00e9m, \u00e9 que o Brasil nem rompe com os EUA, nem imp\u00f5e uma pol\u00edtica mais independente ou soberana frente aos imperialismos.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta que o governo d\u00e1 \u00e0 ofensiva imperialista de Trump passa pela negocia\u00e7\u00e3o com os pr\u00f3prios EUA, e a busca de um outro imperialismo para chamar de seu, como a emergente China, ou o decadente imperialismo europeu. No entanto, n\u00e3o existe imperialismo \u201cdo bem\u201d, seja EUA, Europa ou China, o resultado \u00e9 mais decad\u00eancia, entrega, subordina\u00e7\u00e3o, rapina e explora\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e \u00e0 classe trabalhadora brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O acordo foi comemorado por Lula: \u201cAp\u00f3s 25 anos de negocia\u00e7\u00e3o, foi aprovado o Acordo entre Mercosul-Uni\u00e3o Europeia, um dos maiores tratados de livre com\u00e9rcio do mundo\u201d. 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O tratado foi formalmente assinado pelos dois blocos no dia 17 no Paraguai, que preside hoje o bloco latino-americano.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82266","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82266"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82270,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82266\/revisions\/82270"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82267"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}