{"id":82194,"date":"2026-01-31T13:25:55","date_gmt":"2026-01-31T13:25:55","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82194"},"modified":"2026-02-09T13:07:31","modified_gmt":"2026-02-09T13:07:31","slug":"coletivos-chavistas-guardioes-da-revolucao-ou-grupos-paramilitares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/01\/31\/coletivos-chavistas-guardioes-da-revolucao-ou-grupos-paramilitares\/","title":{"rendered":"Coletivos chavistas: \u201cGuardi\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o\u201d ou grupos paramilitares?"},"content":{"rendered":"\n<p>A ag\u00eancia alem\u00e3 de not\u00edcias DW, ao citar o Observat\u00f3rio\u00a0Venezuelano de Conflictividade Social (OVCS)<strong>, <\/strong>diz que<strong> <\/strong>\u201cos coletivos<strong>\u201d<\/strong> s\u00e3o <em>grupos parapoliciais e paramilitares que atuam em estreita coordena\u00e7\u00e3o com outras for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado\u201d.<\/em><strong> <\/strong>\u00a0DW<strong> <\/strong>conclui que<strong>: <\/strong><em>\u201cOs civis desarmados da Venezuela s\u00e3o os que mais poderiam sofrer nas m\u00e3os dessas falanges, que foram comparadas mais de uma vez com os Tonton Macoute do ditador haitiano Fran\u00e7ois Duvalier (1957-1971)<\/em>.\u201d\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A compara\u00e7\u00e3o parece exagerada, mas nas mobiliza\u00e7\u00f5es opositoras e nas lutas de trabalhadores dos \u00faltimos anos, viu-se agir alguns desses grupos de civis armados junto \u00e0 Guarda Nacional ou \u00e0 Pol\u00edcia. Disparavam suas armas para dispersar e intimidar os protestos. Em v\u00e1rios casos, s\u00e3o respons\u00e1veis por mortos e feridos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cO bra\u00e7o armado da revolu\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Alguns desses coletivos existem desde o Caracazo (1989), antes de Ch\u00e1vez e do chavismo: eram uma forma de organiza\u00e7\u00e3o de ativistas de esquerda nos distritos pobres de Caracas. Faziam atividades pol\u00edticas, comunit\u00e1rias e culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos deles tiveram uma atua\u00e7\u00e3o destacada contra o golpe pr\u00f3-ianqui de 2002 e o enfrentaram no momento em que Ch\u00e1vez estava preso e o aparato chavista j\u00e1 havia se rendido. Tamb\u00e9m atacaram a sede da FEDECAMARAS, onde se re\u00fane o que h\u00e1 de mais retr\u00f3grado entre os empres\u00e1rios venezuelanos, e de onde provinha o ef\u00eamero presidente que sucedeu Ch\u00e1vez, Pedro Carmona. Inclusive se rebelaram contra a pol\u00edtica do chavismo de \u201cperdoar\u201d os golpistas. Naqueles momentos, eram conhecidos como \u201cC\u00edrculos bolivarianos\u201d e se expandiram por numerosos bairros, onde eram a autoridade mais respeitada, e Ch\u00e1vez os chamou de \u201c<em>o bra\u00e7o armado da revolu\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os coletivos mais antigos est\u00e1 La Piedrita, que surge em meados dos anos 80. Outros eram Alexis Vive (homenagem a Alexis Gonz\u00e1lez Rivette, nome de um ativista assassinado durante o golpe de 2002), Tupamaros (nome tomado do conhecido grupo guerrilheiro uruguaio), surgidos depois do caracazo, o Movimento Revolucion\u00e1rio de Liberta\u00e7\u00e3o e a Coordenadora Sim\u00f3n Bol\u00edvar, entre outros<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A institucionaliza\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, Ch\u00e1vez e o chavismo compreendiam que esses \u201cc\u00edrculos\u201d&nbsp; continham elementos de duplo poder, que n\u00e3o podiam perder o controle de suas a\u00e7\u00f5es e que deviam \u201cdomestic\u00e1-los\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma parte dessa pol\u00edtica consistiu em transform\u00e1-los em meros \u201ccomit\u00eas eleitorais\u201d, controlados por quadros confi\u00e1veis, especialmente a partir do \u201cplebiscito revogat\u00f3rio\u201d de 2004. Por outro lado, foram sendo transformados em comit\u00eas implementadores das Miss\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia m\u00e9dica, distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, etc.&nbsp; Ou seja, a maioria deles passou a ser instrumentos do aparato chavista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A morte de Ch\u00e1vez e a \u201cparceliza\u00e7\u00e3o do poder\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir da morte de Ch\u00e1vez, o poder na Venezuela tem se fragmentado. E isso tamb\u00e9m ocorreu no caso dos coletivos. Segundo a jornalista Sebastiana Barraez, <em>\u201cnem todos respondem a Maduro\u201d<\/em>. Alguns est\u00e3o pr\u00f3ximos de Diosdado Cabello e de um setor das FANB. Outros de Freddy Bernal, respons\u00e1vel pela distribui\u00e7\u00e3o dos CLAP (Comit\u00eas Locais de Abastecimento e Produ\u00e7\u00e3o). Bernal tamb\u00e9m atua como \u201cprotetor\u201d (uma esp\u00e9cie de governador paralelo) do estado T\u00e1chira, um dos mais conflituosos do pa\u00eds, por estar l\u00e1 a principal fronteira com a Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora todos sejam financiados pelo governo, alguns organismos de direitos humanos opinam que \u201c<em>embora nem todos, uma boa parte deles se financia com atividades ilegais<\/em>\u201d [1].<\/p>\n\n\n\n<p>Com a decad\u00eancia econ\u00f4mica e social, os coletivos foram se transformando e escaparam ao controle org\u00e2nico do chavismo.\u00a0 Inclusive, v\u00e1rios foram acusados pelo ent\u00e3o Ministro do Interior, L\u00f3pez Torres, como simples \u201cdelinquentes\u201d. Em 2014 foi assassinado o jovem deputado Jos\u00e9 Serra, estreitamente ligado aos \u201ccoletivos\u201d, em um confuso epis\u00f3dio de \u201ctentativa de roubo\u201d em sua casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos dirigentes da Coordenadora 5 de Mar\u00e7o (composta por cerca de 100 coletivos), Jos\u00e9 Odreman, um ex-policial, declarou \u00e0 imprensa que \u201c\u00a1<em>Basta de assassinar camaradas! Se algo me acontecer, responsabilizo o Ministro L\u00f3pez Torres<\/em>\u201d. Poucos dias depois, em \u201c<em>um confronto com criminosos<\/em>\u201d, Odreman foi morto, junto a outros integrantes da Coordenadora [2].<\/p>\n\n\n\n<p>A import\u00e2ncia e a for\u00e7a desses grupos ficaram demonstradas, naquele momento, quando um protesto dos coletivos saiu \u00e0s ruas de Caracas exigindo a ren\u00fancia de L\u00f3pez Torres e <em>\u201cuma profunda investiga\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> dos assassinatos. A ren\u00fancia do ministro ocorreu poucos dias depois.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De &#8220;guardians da revolu\u00e7\u00e3o&#8221; a grupos paramilitares<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nem todos os coletivos utilizaram armas para intimidar. Mas os trabalhadores e setores populares que se mobilizaram d\u00e3o conta da presen\u00e7a desses grupos que os agrediram para dispers\u00e1-los ou disparar contra eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Roberto Brice\u00f1o, do OVCS, os define como <em>\u201cverdadeiros grupos paramilitares na Venezuela\u201d. <\/em>Tamb\u00e9m atuam em f\u00e1bricas e em outros locais de trabalho, \u201capertando\u201d e intimidando os ativistas. Este salto em seu papel de repress\u00e3o \u201cparamilitar\u201d aparece com toda evid\u00eancia em 2017, com o ataque \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es massivas, onde atuou junto \u00e0 Guarda Nacional, que causou mais de 100 mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a ONG de Direitos Humanos PROVEA, o governo de Maduro teria utilizado esses grupos para reprimir no \u00e2mbito das \u00faltimas manifesta\u00e7\u00f5es opositoras. Os chamados \u201ccoletivos\u201d atuaram em: Acarigua, Barcelona, Barinas, Barquisimeto, Bocon\u00f3, Cabimas,\u00a0Cagua,\u00a0Calabozo,\u00a0Caracas,\u00a0Carora,\u00a0Carrizal,\u00a0Car\u00fapano, Ciudad Bol\u00edvar,\u00a0Coro,\u00a0Cuman\u00e1, Ejido, El Tigre,\u00a0El Vigia, , Guanare, Guarenas-Guatire, La Guaira,\u00a0La Victoria, LosTeques,\u00a0Maracaibo,\u00a0Maracay,\u00a0Matur\u00edn,\u00a0M\u00e9rida,\u00a0Naguanagua,\u00a0Ocumare del Tuy,\u00a0Pampanito,\u00a0Porlamar,\u00a0Puerto Ayacucho,\u00a0Puerto Cabello,\u00a0Puerto La Cruz,\u00a0Puerto Ordaz,\u00a0Punto Fijo,\u00a0San Antonio de Los Altos,\u00a0San Antonio de T\u00e1chira,\u00a0San Carlos,\u00a0San Felipe,\u00a0San Fernando de Apure,\u00a0San Joaqu\u00edn,\u00a0San Juan de los Morros,\u00a0Santa Elena de Uair\u00e9n,\u00a0Tinaquillo,\u00a0Tucupita,\u00a0Upata,\u00a0Ure\u00f1a,\u00a0Valencia e Valera [3].<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Decad\u00eancia e decomposi\u00e7\u00e3o dos \u201ccoletivos\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como dissemos mais acima, h\u00e1 sinais de decomposi\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios desses grupos. A crise econ\u00f4mica e a redu\u00e7\u00e3o de or\u00e7amentos levaram a que seu financiamento fosse realizado por vias ilegais (sequestros, chantagens, drogas, etc.). Alguns degeneraram em gangues comuns que se vendem ao melhor comprador, \u00e0s vezes disparam contra as mobiliza\u00e7\u00f5es opositoras e outras vezes as apoiam. Por isso, j\u00e1 n\u00e3o oferecem garantias, e isso \u00e9 um problema para&nbsp; a ditadura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo v\u00e1rios jornalistas, em alguns \u201ccoletivos\u201d haveria crise e diferen\u00e7as com Maduro. Esses jornalistas inclusive informaram de \u201cdeser\u00e7\u00f5es por centenas\u201d de seus membros e de sua ida para a Col\u00f4mbia e para o Brasil. N\u00e3o conseguimos checar essa informa\u00e7\u00e3o. Mas talvez isso explique que Iris Varela, ministra respons\u00e1vel pelas pris\u00f5es venezuelanas, tenha aparecido na fronteira com a Col\u00f4mbia, acompanhada de civis armados, para cumprir com a\u00e7\u00f5es repressivas\u00a0 (disse-se que eram \u201cpresos\u201d) [4].\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje disparam contra a oposi\u00e7\u00e3o ao regime chavista. Mas n\u00e3o seria estranho que, diante da decomposi\u00e7\u00e3o cada vez mais acentuada do regime, um setor desses \u201ccoletivos\u201d que degeneraram em grupos paramilitares, ligados a neg\u00f3cios legais e ilegais, sem um programa pol\u00edtico, possa passar para o outro campo burgu\u00eas de oposi\u00e7\u00e3o, pr\u00f3-imperialista, t\u00e3o corrupto que oferece \u201canistia\u201d aos chefes militares e civis. Talvez alguns desses grupos acabem se beneficiando dessa \u201canistia\u201d apontando suas armas para seus ex-companheiros de caminhada.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>[1] Ver <a href=\"http:\/\/www.defiendoddhh.org\/rafael-uzcategui\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.defiendoddhh.org\/rafael-uzcategui\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[2] <a href=\"http:\/\/www.el-nacional.com\/noticias\/sucesos\/quien-era-jose-odreman-lider-del-colectivo-marzo_118415\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.el-nacional.com\/noticias\/sucesos\/quien-era-jose-odreman-lider-del-colectivo-marzo_118415<\/a>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>[3] <a href=\"https:\/\/www.derechos.org.ve\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.derechos.org.ve\/<\/a> e <a href=\"http:\/\/talcualdigital.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/talcualdigital.com\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>[4] <a href=\"http:\/\/epmundo.com\/2019\/iris-varela-suelta-presos-en-la-frontera-videos-evidencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/epmundo.com\/2019\/iris-varela-suelta-presos-en-la-frontera-videos-evidencia\/<\/a>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ag\u00eancia alem\u00e3 de not\u00edcias DW, ao citar o Observat\u00f3rio\u00a0Venezuelano de Conflictividade Social (OVCS), diz que \u201cos coletivos\u201d s\u00e3o grupos parapoliciais e paramilitares que atuam em estreita coordena\u00e7\u00e3o com outras for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado\u201d. \u00a0DW conclui que: \u201cOs civis desarmados da Venezuela s\u00e3o os que mais poderiam sofrer nas m\u00e3os dessas falanges, que foram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":82195,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Victor Quiroga","footnotes":""},"categories":[4280],"tags":[9432,9461],"class_list":["post-82194","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-correio-internacional","tag-ci28","tag-coletivos-chavistas"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1767573792695b0920b16cf_1767573792_3x2_rt.jpg","categories_names":["Correio Internacional"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Victor Quiroga","tagline":"A transforma\u00e7\u00e3o dos coletivos venezuelanos: de defensores da revolu\u00e7\u00e3o a instrumentos de repress\u00e3o estatal.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82194"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82197,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82194\/revisions\/82197"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}