{"id":82178,"date":"2026-02-06T20:55:33","date_gmt":"2026-02-06T20:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82178"},"modified":"2026-02-09T21:58:45","modified_gmt":"2026-02-09T21:58:45","slug":"cuba-soberania-popular-democracia-e-responsabilidade-historica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/02\/06\/cuba-soberania-popular-democracia-e-responsabilidade-historica\/","title":{"rendered":"Cuba: soberania popular, democracia e responsabilidade hist\u00f3rica"},"content":{"rendered":"\n<p>Desde Socialistas en Lucha (SeL) rejeitamos a intensifica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas coercitivas do governo dos Estados Unidos contra Cuba. As disposi\u00e7\u00f5es recentes orientadas a penalizar terceiros pa\u00edses que comercializem petr\u00f3leo ou derivados com a ilha constituem medidas unilaterais de press\u00e3o econ\u00f4mica, de car\u00e1ter extraterritorial, que afetam de forma direta as condi\u00e7\u00f5es materiais de vida da popula\u00e7\u00e3o. Essas pol\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o instrumentos de democratiza\u00e7\u00e3o: s\u00e3o mecanismos de castigo coletivo que trasladam disputas geopol\u00edticas ao terreno social.<\/p>\n\n\n\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o dessas medidas coincide com um momento de extrema vulnerabilidade. A interrup\u00e7\u00e3o do fornecimento energ\u00e9tico proveniente da Venezuela \u2014pr\u00f3ximo a 30 mil barris di\u00e1rios, entre 30 e 40% das necessidades nacionais\u2014 deixou Cuba sem um de seus principais suportes operacionais. Em janeiro, o pa\u00eds recebeu apenas 84 900 barris em uma \u00fanica entrega do M\u00e9xico, muito abaixo da m\u00e9dia di\u00e1ria de 37 mil barris registrada durante 2025. O resultado \u00e9 uma crise energ\u00e9tica profunda, com apag\u00f5es prolongados, deteriora\u00e7\u00e3o produtiva e afetamentos severos aos servi\u00e7os b\u00e1sicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer um fato social ineg\u00e1vel: o esgotamento material e pol\u00edtico levou setores crescentes da popula\u00e7\u00e3o a perceber a press\u00e3o externa \u2014e at\u00e9 mesmo a interven\u00e7\u00e3o\u2014 como uma poss\u00edvel sa\u00edda. Essa percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o surge de uma ades\u00e3o ao poder estrangeiro, mas da aus\u00eancia de horizontes internos cr\u00edveis, do fechamento do debate pol\u00edtico e da falta de mecanismos efetivos para influenciar o rumo do pa\u00eds. Compreender essa deriva \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para deslegitim\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde uma perspectiva de esquerda democr\u00e1tica, afirmamos com nitidez que nenhuma transforma\u00e7\u00e3o emancipadora pode provir da coer\u00e7\u00e3o externa. As pot\u00eancias n\u00e3o agem em nome dos direitos dos povos, mas de seus pr\u00f3prios interesses estrat\u00e9gicos. A hist\u00f3ria latino-americana demonstra que a press\u00e3o econ\u00f4mica e a tutela pol\u00edtica geram depend\u00eancia, fragmenta\u00e7\u00e3o social e novas formas de submiss\u00e3o, n\u00e3o democracia nem justi\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas da mesma forma, seria politicamente est\u00e9ril atribuir a crise cubana exclusivamente a fatores externos. A responsabilidade do atual bloco governante \u00e9 central. Durante d\u00e9cadas, consolidou-se um modelo de poder altamente centralizado, com escassa presta\u00e7\u00e3o de contas, hostil ao pluralismo pol\u00edtico e cada vez mais desconectado das din\u00e2micas sociais reais. A redu\u00e7\u00e3o do socialismo \u00e0 administra\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e controle pol\u00edtico esvaziou de conte\u00fado o projeto emancipador que alguma vez mobilizou amplos setores da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A soberania n\u00e3o pode se sustentar apenas como rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 inger\u00eancia estrangeira. A soberania \u00e9 insepar\u00e1vel da democracia pol\u00edtica, dos direitos civis e da participa\u00e7\u00e3o popular efetiva. Quando a cidadania n\u00e3o disp\u00f5e de canais reais para deliberar, organizar-se e contestar decis\u00f5es estrat\u00e9gicas, a soberania se torna uma f\u00f3rmula ret\u00f3rica administrada de cima para baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>As pol\u00edticas de san\u00e7\u00f5es, restri\u00e7\u00f5es financeiras e isolamento comercial impostas pelos Estados Unidos s\u00e3o reais e profundamente prejudiciais. Mas seu impacto \u00e9 amplificado por um bloqueio interno feito de rigidezes econ\u00f4micas, falta de transpar\u00eancia, penaliza\u00e7\u00e3o do dissenso e uma cultura pol\u00edtica que confunde estabilidade com paralisia. Esse emaranhado explica por que amplos setores sociais n\u00e3o percebem sa\u00eddas end\u00f3genas e acabam depositando expectativas \u2014contradit\u00f3rias e desesperadas\u2014 em fatores externos.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje Cuba enfrenta uma crise multidimensional: uma popula\u00e7\u00e3o envelhecida que supera 20%, aposentadorias que n\u00e3o cobrem o custo b\u00e1sico da vida, um sistema de sa\u00fade deteriorado, uma educa\u00e7\u00e3o em retrocesso, servi\u00e7os p\u00fablicos intermitentes, infraestrutura colapsada e um processo de dolariza\u00e7\u00e3o informal que aprofunda desigualdades. A isso se soma a persist\u00eancia da repress\u00e3o pol\u00edtica, com mais de 1.185 pessoas privadas de liberdade por exercer direitos fundamentais, o que erosiona ainda mais a confian\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de Socialistas em Luta (SeL) sustentamos que a melhor maneira de barrar a interven\u00e7\u00e3o estrangeira n\u00e3o \u00e9 o imobilismo, mas sim a democratiza\u00e7\u00e3o profunda. Somente uma abertura real de direitos pol\u00edticos, o reconhecimento do pluralismo social, a legaliza\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o independente e a restitui\u00e7\u00e3o da soberania popular podem reconstruir um horizonte compartilhado e restituir legitimidade ao projeto socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba enfrenta uma disjuntiva entre coer\u00e7\u00e3o externa ou continuidade autorit\u00e1ria. A verdadeira alternativa \u00e9 entre depend\u00eancia e democracia, entre administra\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e protagonismo popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 inequ\u00edvoca: rejei\u00e7\u00e3o a toda forma de domina\u00e7\u00e3o externa e oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem interna que tem encerrado a participa\u00e7\u00e3o social. Defendemos um socialismo democr\u00e1tico, baseado em direitos, delibera\u00e7\u00e3o p\u00fablica e controle popular do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma coer\u00e7\u00e3o imperial nem fechamento burocr\u00e1tico.<br>Pela soberania popular, democracia pol\u00edtica e socialismo de baixo para cima.<\/p>\n\n\n\n<p>Socialistas em Luta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde Socialistas en Lucha (SeL) rejeitamos a intensifica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas coercitivas do governo dos Estados Unidos contra Cuba. 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