{"id":82171,"date":"2026-01-31T16:24:12","date_gmt":"2026-01-31T16:24:12","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82171"},"modified":"2026-02-06T19:25:29","modified_gmt":"2026-02-06T19:25:29","slug":"auge-e-decadencia-do-chavismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/01\/31\/auge-e-decadencia-do-chavismo\/","title":{"rendered":"Auge e decad\u00eancia do chavismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Setembro de 2014<\/p>\n\n\n\n<p>Os governos cubano e venezuelano contam com o apoio da maioria das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda de todo o mundo. Esse apoio, no entanto, viveu seu auge na d\u00e9cada passada e agora est\u00e1 em decad\u00eancia, assim como a situa\u00e7\u00e3o de crise desses governos.<\/p>\n\n\n\n<p>O peso internacional desse apoio \u2014que chamaremos de castro-chavismo\u2014 \u00e9 muito importante. Mas por serem muito heterog\u00eaneos os partidos e movimentos que apoiam os governos cubano e venezuelano, n\u00e3o podemos classificar o castro-chavismo como uma organiza\u00e7\u00e3o internacional (como foi, em seu momento, o aparato estalinista internacional) nem como uma corrente. Trata-se de partidos, organiza\u00e7\u00f5es, movimentos, governos de diversas origens e caracter\u00edsticas, muito diferentes entre si. Uma parte assume o modelo nacionalista burgu\u00eas do chavismo, o bonapartismo do castrismo e a colabora\u00e7\u00e3o de classes entre ambos. Outra parte apenas apoia esses governos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os governos cubano e venezuelano n\u00e3o s\u00e3o oper\u00e1rios (nem pequenos-burgueses reformistas). T\u00eam origens distintas, mas hoje s\u00e3o governos burgueses que dirigem estados capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>O castrismo prov\u00e9m de uma corrente pequeno-burguesa que cumpriu uma tarefa revolucion\u00e1ria ao tomar o poder e expropriar a burguesia. Depois, conduziu a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em Cuba e se tornou burguesa. A ditadura castrista se apoia em um estado burgu\u00eas p\u00f3s-restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O chavismo era uma corrente pequeno-burguesa que chegou ao governo venezuelano e gerou uma nova burguesia. Maduro dirige um governo bonapartista no estado burgu\u00eas venezuelano. \u00c9 mais uma vers\u00e3o do nacionalismo burgu\u00eas, como o peronismo argentino, o aprismo peruano e o nasserismo eg\u00edpcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba n\u00e3o \u00e9 o \u201c\u00faltimo basti\u00e3o do socialismo\u201d do s\u00e9culo XX. Na Venezuela nunca se expropriou o capitalismo. O \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d \u00e9 apenas uma propaganda sem nenhum ponto de contato com a realidade. O estalinismo j\u00e1 fez muito mal ao movimento revolucion\u00e1rio ao identificar as ditaduras estalinistas com o socialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas s\u00e3o dire\u00e7\u00f5es burguesas, com base no movimento oper\u00e1rio, popular e estudantil. Mas o apoio a esses governos, que viveram um auge no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, agora est\u00e1 em um n\u00edtido decl\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1- Cuba: da revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o capitalista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o cubana marcou profundamente a hist\u00f3ria latino-americana. Uma pequena ilha, a poucas centenas de quil\u00f4metros da costa norte-americana, expropriou as empresas multinacionais e p\u00f4s fim \u00e0 economia capitalista. Isso nunca havia ocorrido at\u00e9 ent\u00e3o e n\u00e3o se repetiu at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>O exemplo cubano permitiu materializar o que significa uma alternativa \u00e0 economia capitalista. Isso superava o n\u00edvel de debate anterior com os defensores do capital no terreno das ideias e do programa, transformando-se em uma experi\u00eancia que podia ser comparada. Isso, que j\u00e1 existia a n\u00edvel mundial com a URSS, se concretizou na Am\u00e9rica Latina atrav\u00e9s de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba era um dos pa\u00edses mais pobres e miser\u00e1veis do continente. Uma parte do turismo para a Ilha era de ricos norte-americanos que iam aos seus prost\u00edbulos. Isso terminou com a revolu\u00e7\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um exemplo impactante. Na Ilha, acabaram-se os problemas sociais que nem nos pa\u00edses imperialistas haviam sido solucionados. Acabaram com o desemprego e a falta de moradia. Todos podiam comer e acessar a educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade. Os cubanos puderam acessar uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade e gratuita, incluindo a universit\u00e1ria. Podiam contar com assist\u00eancia m\u00e9dica qualificada em todos os n\u00edveis. A mudan\u00e7a na qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o se refletiu nos esportes: uma pequena ilha come\u00e7ou a disputar com os Estados Unidos a lideran\u00e7a em medalhas nos Jogos Pan-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso teve uma enorme import\u00e2ncia para a consci\u00eancia das massas latino-americanas e para sua vanguarda. O que a revolu\u00e7\u00e3o russa j\u00e1 havia demonstrado a n\u00edvel mundial, agora se fazia presente na Am\u00e9rica Latina. O socialismo n\u00e3o \u00e9 um sonho, mas sim um programa real que pode mudar o mundo e a vida das pessoas. Gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de ativistas na Am\u00e9rica Latina receberam as primeiras li\u00e7\u00f5es de socialismo a partir dos exemplos cubanos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Movimento 26 de Julho, que tomou o poder, era uma guerrilha de dire\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa. Esse movimento cumpriu uma tarefa revolucion\u00e1ria, n\u00e3o s\u00f3 por ter derrotado a ditadura de Fulgencio Batista, mas tamb\u00e9m por ter constru\u00eddo um Estado oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto da dire\u00e7\u00e3o castrista n\u00e3o era chegar t\u00e3o longe. Mas depois de derrubar a ditadura de Batista, quis recuperar a economia, que estava em uma crise completa. E teve que enfrentar a burguesia cubana e, em particular, as empresas norte-americanas presentes no pa\u00eds. Depois do acordo para a importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo da URSS a pre\u00e7os muito baixos, as refinarias norte-americanas se negaram a refin\u00e1-lo. Fidel reagiu expropriando essas empresas, o que iniciou um enfrentamento com o imperialismo e levou \u00e0 ruptura com o capitalismo e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um novo estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tratava-se de uma dire\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa, apoiada essencialmente no movimento estudantil, nas classes m\u00e9dias das cidades e no campesinato pobre. Desde o in\u00edcio, esse movimento teve uma diferen\u00e7a fundamental com a revolu\u00e7\u00e3o russa: o exerc\u00edcio do poder em Cuba nunca esteve respaldado pela democracia oper\u00e1ria dos sovietes como em 1917, mas sob o controle ditatorial dos dirigentes guerrilheiros. Desde o in\u00edcio foi um estado oper\u00e1rio burocratizado.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, Castro inclusive adotou uma postura mais \u00e0 esquerda do que a da burocracia sovi\u00e9tica. Enquanto a dire\u00e7\u00e3o da URSS aplicava a pol\u00edtica de \u201ccoexist\u00eancia pac\u00edfica\u201d com o imperialismo, a dire\u00e7\u00e3o cubana estimulava a guerrilha latino-americana. O Che Guevara morreu impulsionando essa pol\u00edtica na Bol\u00edvia em 1967. Mesmo sendo a estrat\u00e9gia guerrilheira completamente equivocada, demonstrava uma pol\u00edtica distinta da russa. Mas depois, a dire\u00e7\u00e3o cubana se incorporou \u00e0 mesma pol\u00edtica da URSS, o que foi fundamental para evitar que a revolu\u00e7\u00e3o sandinista na Nicar\u00e1gua, em 1979, evolu\u00edsse para a expropria\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na URSS foi acompanhada pelo mesmo processo em Cuba. A partir do ano 1977, iniciam-se mudan\u00e7as de abertura ao capitalismo na Ilha. No in\u00edcio, foi a abertura do campo \u00e0s cooperativas e aos mercados livres camponeses, assim como ao trabalho aut\u00f4nomo nas cidades. Na d\u00e9cada de 90, s\u00e3o dados os passos qualitativos para a restaura\u00e7\u00e3o com a Lei de Investimentos Estrangeiros de 1995, a privatiza\u00e7\u00e3o dos setores fundamentais da economia cubana (turismo, produ\u00e7\u00e3o de cana e tabaco), o fim da planejamento econ\u00f4mico estatal e do monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>O bloqueio econ\u00f4mico a Cuba, imposto pelo governo dos Estados Unidos em 1962, \u00e9 uma das principais \u201cdemonstra\u00e7\u00f5es\u201d dos castro-chavistas de que a Ilha continua sendo um \u201cbasti\u00e3o do socialismo\u201d. No entanto, o bloqueio n\u00e3o \u00e9 do conjunto do imperialismo, mas apenas dos norte-americanos. A burguesia europeia se aproveitou dessa situa\u00e7\u00e3o para tomar a dianteira na ocupa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Ilha durante a restaura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que boa parte da estrutura hoteleira de turismo tem como principais agentes redes espanholas como Meli\u00e1. Mesmo a burguesia dos Estados Unidos est\u00e1 dividida, com um setor crescente que se op\u00f5e ao bloqueio pela perda da \u201coportunidade\u201d. Na realidade, ainda pesa decisivamente para a manuten\u00e7\u00e3o do bloqueio a posi\u00e7\u00e3o da burguesia cubana \u201cgusana\u201d, assentada principalmente em Miami. Essa burguesia quer a restaura\u00e7\u00e3o, mas com a devolu\u00e7\u00e3o de \u201csuas\u201d propriedades e, por isso, mant\u00e9m uma postura belicosa contra a ditadura castrista. Mesmo assim, os Estados Unidos s\u00e3o um dos maiores exportadores para Cuba (variando entre o quarto e o quinto lugar).<\/p>\n\n\n\n<p>O plano da burocracia castrista \u00e9 transformar Cuba em uma China mais pr\u00f3xima da costa dos Estados Unidos. No entanto, at\u00e9 agora pelo menos, o imperialismo apenas se apropriou das antigas empresas estatais cubanas, sem grandes investimentos na Ilha. O resultado \u00e9 uma n\u00edtida decad\u00eancia do pa\u00eds. A produ\u00e7\u00e3o industrial foi 55% menor em 2011 do que em 1989. A produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar caiu de 8 para 1,3 milh\u00f5es de toneladas. O sal\u00e1rio real foi reduzido em 72% em vinte anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, j\u00e1 com a restaura\u00e7\u00e3o completada, Ra\u00fal Castro est\u00e1 dando um novo passo de qualidade: outra Lei de Investimentos Estrangeiros, o plano de demiss\u00e3o de um milh\u00e3o de funcion\u00e1rios e a abertura de uma enorme zona franca (semelhante \u00e0s chinesas) no Porto de Mariel. Pela nova lei de investimentos, os investidores n\u00e3o pagar\u00e3o impostos sobre os lucros durante os primeiros oito anos de opera\u00e7\u00e3o e, depois, pagar\u00e3o a metade da al\u00edquota vigente. O Porto de Mariel \u00e9 modern\u00edssimo e pode receber navios de grande calado (pos-Panamax). Custou um bilh\u00e3o de d\u00f3lares e \u00e9 uma aposta para que Cuba fa\u00e7a parte do com\u00e9rcio da \u00c1sia em dire\u00e7\u00e3o ao mercado americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes s\u00e3o novos passos de abertura do pa\u00eds, j\u00e1 restaurado, em dire\u00e7\u00e3o a novos investimentos estrangeiros. Pode ser que essas novas iniciativas estejam articuladas com uma perspectiva de fim do bloqueio e de investimentos da burguesia norte-americana.<\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00e1bula, amplamente divulgada pelos castro-chavistas, \u00e9 que Cuba \u00e9 o \u201c\u00faltimo basti\u00e3o do socialismo\u201d. Negam a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, apoiados nas figuras de Fidel e Ra\u00fal Castro, que deram a mesma dire\u00e7\u00e3o que comandou a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade cubana desmente o castro-chavismo. A economia na Ilha n\u00e3o \u00e9 mais regida pelo planejamento estatal, mas sim pelas leis do mercado capitalista. N\u00e3o existe estado oper\u00e1rio se n\u00e3o estiver apoiado na propriedade estatal dos meios de produ\u00e7\u00e3o, no planejamento econ\u00f4mico e no monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, na consci\u00eancia das massas latino-americanas, a demonstra\u00e7\u00e3o de que um estado oper\u00e1rio pode ser uma alternativa ao capitalismo. Pelo contr\u00e1rio, na Ilha existe uma trag\u00e9dia social derivada da restaura\u00e7\u00e3o, que implica uma queda dur\u00edssima do n\u00edvel de vida dos cubanos. Os trabalhadores ganham sal\u00e1rios de 18 d\u00f3lares mensais; o desemprego amea\u00e7a aumentar em grandes propor\u00e7\u00f5es devido ao plano governamental de demiss\u00f5es em massa de funcion\u00e1rios p\u00fablicos. A crise chega \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade cubanas.<\/p>\n\n\n\n<p>A opress\u00e3o contra as mulheres n\u00e3o foi resolvida pela ditadura castrista, mesmo quando existia um Estado oper\u00e1rio. Mas com a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, o agravamento \u00e9 qualitativo. Dezenas de prostitutas cercam todos os hot\u00e9is de turismo em Cuba, retomando a triste realidade dos tempos de Batista.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do questionamento do&nbsp;Comit\u00ea pela Elimina\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia contra as Mulheres,&nbsp;das Na\u00e7\u00f5es Unidas, sobre a prostitui\u00e7\u00e3o na Ilha, o governo cubano respondeu com um cinismo impressionante: isso \u201cconstitui uma escolha pessoal de mulheres e homens que&nbsp;buscam no exerc\u00edcio da prostitui\u00e7\u00e3o uma via para acessar determinados bens de consumo que propiciem um n\u00edvel de vida superior ao do resto da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora\u201d. Fidel Castro foi mais longe ainda em um discurso, quase fazendo propaganda da prostitui\u00e7\u00e3o: \u201cNossas prostitutas s\u00e3o as mais saud\u00e1veis e instru\u00eddas do mundo\u201d (cita\u00e7\u00e3o de Alejandro Armengol).<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o turismo sexual retornou com for\u00e7a, inclusive com prostitui\u00e7\u00e3o infantil. O cantor de rock Gary Glitter foi detido por pedofilia na Inglaterra ap\u00f3s viagens consecutivas a Cuba. Um canadense de 78 anos, James McTurk, foi considerado culp\u00e1vel perante a justi\u00e7a de seu pa\u00eds por turismo sexual com meninas cubanas de at\u00e9 tr\u00eas anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>A opress\u00e3o contra os homossexuais nunca terminou, mesmo em tempos em que ainda existia um Estado oper\u00e1rio-burocratizado. O document\u00e1rio \u201cConduta impr\u00f3pria\u201d teve grande repercuss\u00e3o ao mostrar a repress\u00e3o contra homossexuais an\u00f4nimos, assim como contra reconhecidos escritores como Reinaldo Arenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem quiser comprovar o rep\u00fadio majorit\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura cubana bastaria viajar \u00e0 Ilha e conversar com as pessoas nas ruas, fora do circuito \u201coficial\u201d. Existe um rejei\u00e7\u00e3o passiva da ampla maioria da popula\u00e7\u00e3o, em particular dos mais jovens. Falam mal do governo o tempo todo; fazem piadas com a maneira expansiva dos cubanos. A ditadura ainda conserva o apoio do setor mais velho da popula\u00e7\u00e3o, que viveu na \u00e9poca da ditadura de Batista. Mas a ampla maioria se op\u00f5e \u00e0 ditadura castrista.<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a nas manifesta\u00e7\u00f5es convocadas pelo governo \u00e9 obrigat\u00f3ria e est\u00e1 controlada pela pol\u00edcia pol\u00edtica, como nas ditaduras do Leste. Pouco antes do colapso da ditadura stalinista na Rom\u00eania houve uma gigantesca manifesta\u00e7\u00e3o oficial. Os Comit\u00eas de Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o cubanos s\u00e3o como comissariados pol\u00edticos em cada bairro, para vigiar qualquer pessoa que manifeste uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contr\u00e1ria ao governo, o que pode acarretar a perda do emprego ou a pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o cubana comandou a restaura\u00e7\u00e3o e passou a dirigir um estado burgu\u00eas. Apesar de todo o segredo com que a ditadura castrista rodeia esses fatos, circulam informa\u00e7\u00f5es de que altos oficiais das for\u00e7as armadas cubanas s\u00e3o s\u00f3cios de empresas multinacionais que operam em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>O segredo tamb\u00e9m envolve a vida privada dos altos dirigentes cubanos. Mas acaba de ser publicado um livro de Juan Reinaldo S\u00e1nchez, que foi seguran\u00e7a de Fidel durante 17 anos. O ex-fiel servidor de Fidel afirma que este \u00e9 dono da ilha Cayo Piedra, situada ao sudeste de Cuba, um \u201cpara\u00edso para milion\u00e1rios\u201d, para a qual sempre viaja no iate de sua propriedade, \u00abAquarama II\u00bb. Para essa ilha, Fidel s\u00f3 convida algumas pessoas escolhidas, como o propriet\u00e1rio da CNN, Ted Turner, o empres\u00e1rio franc\u00eas Gerard Bourgoin, o ex-presidente colombiano Alfonso L\u00f3pez Michelsen.<\/p>\n\n\n\n<p>O que existe hoje em Cuba \u00e9 semelhante \u00e0 realidade chinesa: uma ditadura do Partido Comunista que comanda um estado burgu\u00eas em uma economia capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa revolucion\u00e1rio necess\u00e1rio para a Ilha j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o de uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como nos tempos do estado oper\u00e1rio burocratizado, mas sim o de uma revolu\u00e7\u00e3o social contra um estado burgu\u00eas e uma ditadura capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a maior parte da esquerda mundial defende o castrismo, apoia uma ditadura burguesa que explora e oprime seu povo. \u00c9 inevit\u00e1vel que, em algum momento, ocorra em Cuba o que ocorreu no Leste europeu. E essa esquerda ter\u00e1 ent\u00e3o que apoiar a repress\u00e3o do governo cubano ou desdizer-se de tudo o que defendeu at\u00e9 agora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2- Chavismo: do nacionalismo pequeno-burgu\u00eas ao nacionalismo burgu\u00eas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O surgimento com peso do chavismo tem sua origem pol\u00edtica na crise vivida pela Venezuela com o Caracazo, a insurrei\u00e7\u00e3o que abalou o pa\u00eds em 1989. O presidente Carlos Andr\u00e9s P\u00e9rez imp\u00f4s um violento pacote econ\u00f4mico, com a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda (aumento de 100% em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar) e o aumento de 80% no pre\u00e7o do combust\u00edvel. A popula\u00e7\u00e3o pobre dos morros que circundam Caracas desceu deles, enfrentou violentamente a pol\u00edcia e saqueou os com\u00e9rcios. A dur\u00edssima repress\u00e3o matou mais de mil pessoas, contendo assim a situa\u00e7\u00e3o. Mas as for\u00e7as armadas se dividiram e a crise se instalou no regime.<\/p>\n\n\n\n<p>O ent\u00e3o coronel Ch\u00e1vez tentou um golpe militar em 1992, que expressava a insatisfa\u00e7\u00e3o generalizada nas FF.AA. Apesar de estar preso e de ter sido condenado, ganhou um enorme prest\u00edgio entre os setores mais pobres. Em 1998, ganhou as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, iniciando um longo per\u00edodo de chavismo no poder que se mant\u00e9m at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Ch\u00e1vez teve contra o imperialismo norte-americano uma ret\u00f3rica que lhe valeu grande prest\u00edgio em toda a Am\u00e9rica Latina. Os discursos de Ch\u00e1vez contra o governo de Bush eram claramente diferentes dos de Lula e de outros governos do continente. Mas nem Ch\u00e1vez nem Lula romperam em nenhum momento com o imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive em termos de discursos, tudo mudou quando Obama assumiu a presid\u00eancia dos Estados Unidos. Ch\u00e1vez declarou sobre as elei\u00e7\u00f5es norte-americanas: \u201cSe eu fosse americano, votaria em Obama. E eu acho que, se Obama fosse de Barlovento ou de um bairro de Caracas, votaria em Ch\u00e1vez.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O governo venezuelano continuou pagando religiosamente a d\u00edvida externa e manteve o abastecimento de petr\u00f3leo para os Estados Unidos, mesmo quando o imperialismo invadia o Iraque.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo suas medidas mais famosas, como a \u201cnacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo\u201d, n\u00e3o significaram mais do que a manuten\u00e7\u00e3o da sociedade com as multinacionais na explora\u00e7\u00e3o e refino do petr\u00f3leo, aumentando um pouco a porcentagem que recebia o Estado. No principal item da economia venezuelana \u2013o petr\u00f3leo\u2013, as multinacionais podem ser donas de at\u00e9 49% das empresas e das reservas. No caso do g\u00e1s, podem ser donas de at\u00e9 100%. Assim, n\u00e3o estamos falando de pequenas empresas, mas do \u201csocialismo\u201d com a Exxon Mobil, a Chevron Texaco e a Repsol. Os enormes edif\u00edcios dessas empresas est\u00e3o localizados nas cidades petrol\u00edferas do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, o imperialismo repudiou duramente Ch\u00e1vez e propiciou um golpe de Estado em abril de 2002. As massas reagiram violentamente, iniciando uma nova insurrei\u00e7\u00e3o que s\u00f3 foi contida com o retorno de Ch\u00e1vez, tr\u00eas dias depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro, o imperialismo ainda tentou um lockout patronal e foi derrotado pelas massas mais uma vez. Depois, o governo dos Estados Unidos e a direita venezuelana aprenderam com suas derrotas e passaram a apostar no desgaste do governo e na via eleitoral para derrotar o chavismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d de Ch\u00e1vez \u00e9 apenas uma farsa, uma ideologia para conquistar a vanguarda e as massas para seu projeto burgu\u00eas. O capitalismo permaneceu intocado durante todo esse per\u00edodo chavista, com caracter\u00edsticas semelhantes \u00e0s do resto do continente, como o predom\u00ednio das multinacionais (neste caso, as petrol\u00edferas) e dos bancos privados. O Estado burgu\u00eas venezuelano permaneceu intacto, com suas for\u00e7as armadas controladas pelo chavismo. Nunca houve nada parecido com organismos de poder das massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse fen\u00f4meno j\u00e1 foi definido por Trotsky como bonapartismo&nbsp;sui generis, um tipo de governo burgu\u00eas que se apoia no movimento de massas e apresenta fric\u00e7\u00f5es parciais com o imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de bonapartismo se relaciona com o car\u00e1ter antidemocr\u00e1tico e autorit\u00e1rio do chavismo. Isso \u00e9 algo que os chavistas tentam, mas n\u00e3o conseguem esconder. Os sindicatos est\u00e3o controlados por uma burocracia chavista e os ativistas s\u00e3o perseguidos. Ch\u00e1vez reprimiu as greves que escapavam ao controle da burocracia chavista \u2013e Maduro faz isso agora\u2013, como ocorreu com a ocupa\u00e7\u00e3o da Mitsubitch em 2009 (dois mortos) e a da Sidor em 2014 (tr\u00eas feridos). O PSUV (Partido Socialista \u00danico da Venezuela, fundado por Ch\u00e1vez) \u00e9 um partido burgu\u00eas que usa o aparato estatal como fez o PRI mexicano ou o Partido Colorado no Paraguai para cooptar e controlar o movimento em um partido \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros atritos parciais com o imperialismo existem porque o chavismo \u00e9 uma express\u00e3o do nacionalismo burgu\u00eas latino-americano, assim como o peronismo ou o aprismo. Mas com as limita\u00e7\u00f5es que o nacionalismo burgu\u00eas tem em tempos de globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do s\u00e9culo XXI. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para medidas anti-imperialistas de maior peso, como a estatiza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo realizada por C\u00e1rdenas no M\u00e9xico em 1938, ou as estatiza\u00e7\u00f5es realizadas pelo peronismo, tanto do petr\u00f3leo quanto da energia el\u00e9trica e das ferrovias. Nem para concess\u00f5es importantes ao movimento de massas, como as do peronismo.<\/p>\n\n\n\n<p>As multinacionais est\u00e3o t\u00e3o fortemente presentes na Venezuela quanto em toda a Am\u00e9rica Latina. E, como no resto do continente, envolvidas em grandes neg\u00f3cios com o governo. Um dos \u00faltimos esc\u00e2ndalos na Venezuela foi a divulga\u00e7\u00e3o, nada menos que pela presidenta do Banco Central (Edm\u00e9e Betancourt, que durou apenas tr\u00eas meses no cargo), de que em 2012 entre 15 e 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares foram entregues pelo Estado a um grupo de \u201cempresas de malet\u00edn\u201d que superfaturam importa\u00e7\u00f5es. Entre essas empresas estavam General Motors, Toyota, Ford, Cargill, Chrysler, American Airlines, Nestl\u00e9 Venezuela e Procter &amp; Gamble. Entre 2004 e 2012, as \u201cempresas de malet\u00edn\u201d receberam 180 bilh\u00f5es de d\u00f3lares do Estado em uma fraude gigantesca.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela existe uma forte disputa interburguesa entre o chavismo e a burguesia tradicional (chamada \u201cescu\u00e1lida\u201d) desde a ascens\u00e3o do chavismo. \u00c9 isso que explica o golpe de 2002, o lockout, as marchas atuais, assim como as disputas eleitorais violentas. Mas a esquerda chavista confunde essa disputa interburguesa com uma disputa entre um suposto setor revolucion\u00e1rio e a burguesia como um todo. Ou mesmo, como se fossem Cuba e os Estados Unidos nos anos 60.<\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores venezuelanos vivem nas mesmas p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es salariais e laborais que seus irm\u00e3os latino-americanos. O sal\u00e1rio m\u00ednimo \u201cvale\u201d cerca de cem d\u00f3lares (segundo a cota\u00e7\u00e3o real no mercado paralelo), o que \u00e9 menor que o da maioria do continente. No pa\u00eds que \u00e9 o maior exportador de petr\u00f3leo do continente, quase 40% da popula\u00e7\u00e3o vive na pobreza. Existem 1,2 milh\u00f5es de desempregados e metade dos empregados est\u00e1 no setor informal. As cooperativas, impulsionadas pelo governo, contribuem enormemente para a flexibiliza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, sem estabilidade para seus trabalhadores nem reconhecimento de direitos m\u00ednimos, como sindicaliza\u00e7\u00e3o, greve, previd\u00eancia, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>No Venezuela, a opress\u00e3o contra as mulheres, os negros e os homossexuais \u00e9 a mesma que no resto da Am\u00e9rica Latina. Em alguns aspectos \u00e9 ainda maior do que em outros pa\u00edses latino-americanos. Por exemplo, n\u00e3o existe direito ao aborto como na Cidade do M\u00e9xico e no Uruguai (nas primeiras 12 semanas).<\/p>\n\n\n\n<p>A face \u201csocial\u201d do chavismo \u00e9 a mesma que a de outros governos latino-americanos de \u201cesquerda\u201d e de direita: programas sociais compensat\u00f3rios e assistencialistas. As \u201cMiss\u00f5es\u201d venezuelanas t\u00eam o mesmo car\u00e1ter que a \u201cBolsa Fam\u00edlia\u201d do Brasil, o \u201cJuanito Pinto\u201d e a \u201cRenda Dignidade\u201d da Bol\u00edvia, o \u201cHambre Cero\u201d da Nicar\u00e1gua, o \u201cFam\u00edlias em A\u00e7\u00e3o\u201d da Col\u00f4mbia, o \u201cOportunidades\u201d do M\u00e9xico e o \u201cJuntos\u201d do Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta pol\u00edtica atende \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es do Banco Mundial e do FMI de aplicar esses programas junto com os planos neoliberais. V\u00eam juntos com a redu\u00e7\u00e3o dos or\u00e7amentos de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e aposentadoria para garantir o pagamento das d\u00edvidas aos banqueiros. Segundo essas institui\u00e7\u00f5es do imperialismo, s\u00e3o \u201cprogramas eficientes\u201d a um \u201ccusto baixo\u201d que ajudam a aplicar os planos neoliberais e a manter a estabilidade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela, as \u201cMiss\u00f5es\u201d t\u00eam um enorme peso, alcan\u00e7ando mais de 40% da popula\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a diferen\u00e7a quantitativa em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses. Financiadas com a renda petrol\u00edfera, as \u201cMiss\u00f5es\u201d podem abranger um maior n\u00famero de pessoas, assegurando apoio eleitoral e pol\u00edtico ao chavismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O enorme potencial econ\u00f4mico da exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo n\u00e3o foi aproveitado para transformar a economia do pa\u00eds por meio da industrializa\u00e7\u00e3o. O petr\u00f3leo passou de um peso de 70% das exporta\u00e7\u00f5es em 1998 para 96% em 2012. Enquanto isso, o setor industrial caiu de 17,3% do PIB em 1998 para 14% em 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>O chavismo deu continuidade ao modelo rentista parasit\u00e1rio da burguesia venezuelana. N\u00e3o avan\u00e7ou nem mesmo no caminho do nacionalismo burgu\u00eas de antes, como o de Per\u00f3n, Vargas e C\u00e1rdenas, que desenvolveram setores industriais substituindo importa\u00e7\u00f5es em setores chave como a siderurgia, a ind\u00fastria automobil\u00edstica, a aliment\u00edcia, etc. Poderia ter avan\u00e7ado nesse sentido com a renda do petr\u00f3leo, mas manteve-se exatamente na mesma postura parasit\u00e1ria tradicional da burguesia venezuelana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ch\u00e1vez n\u00e3o rompeu com o capitalismo e, por isso, tamb\u00e9m n\u00e3o mudou a vida dos trabalhadores. Assim, a Venezuela n\u00e3o pode apresentar ao mundo uma mudan\u00e7a social semelhante \u00e0 que viveu Cuba ap\u00f3s a expropria\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de avan\u00e7ar em um rumo socialista, como afirmam seus defensores, o chavismo impulsionou, a partir do Estado, a constru\u00e7\u00e3o de uma nova burguesia, conhecida como a \u201cboliburguesia\u201d (burguesia bolivariana). Esta nova burguesia tem um enorme peso no governo e no\u00a0PSUV.\u00a0Seu representante mais importante \u00e9 Diosdado Cabello, ex-oficial das For\u00e7as Armadas e atual presidente da Assembleia Legislativa, que chegou a disputar com Maduro a sucess\u00e3o de Ch\u00e1vez.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo econ\u00f4mico de Diosdado tem tr\u00eas bancos, v\u00e1rias ind\u00fastrias e empresas de servi\u00e7os. J\u00e1 \u00e9 um dos principais grupos econ\u00f4micos do pa\u00eds. Outros dois grupos econ\u00f4micos da boliburguesia giram em torno de Jesse Chac\u00f3n e de Blanco La Cruz, tamb\u00e9m oficiais aposentados das for\u00e7as armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O ALBA \u2013Alian\u00e7a Bolivariana para as Am\u00e9ricas\u2013, impulsionado pela Venezuela, demonstrou-se apenas como uma associa\u00e7\u00e3o a mais de livre com\u00e9rcio, controlada pelas multinacionais instaladas nesses pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo venezuelano utiliza os neg\u00f3cios petrol\u00edferos nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina como parte de seus objetivos pol\u00edticos. Vende a pre\u00e7os mais baixos para os governos aliados e utiliza sua comercializa\u00e7\u00e3o em outros pa\u00edses como ponte para negociar com movimentos e partidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao n\u00e3o avan\u00e7ar em um caminho anticapitalista, o chavismo exp\u00f4s a Venezuela \u00e0 crise econ\u00f4mica mundial e \u00e0s manobras da burguesia local. A Venezuela vive hoje uma das maiores crises econ\u00f4micas do continente, com uma prov\u00e1vel recess\u00e3o este ano (-0,5%), hiperinfla\u00e7\u00e3o (mais de 50%) e escassez de alimentos de primeira necessidade (mais de 30% dos produtos). Se o pa\u00eds fosse realmente socialista, n\u00e3o se poderia justificar essa crise pela situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mundial. Basta comparar os avan\u00e7os da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que crescia a taxas superiores a 10% em plena depress\u00e3o mundial de 1929. Como \u2013 ao contr\u00e1rio do que diz o chavismo \u2013 n\u00e3o se avan\u00e7ou na ruptura com o capitalismo, o pa\u00eds vive hoje uma crise gigantesca.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte de Ch\u00e1vez exp\u00f4s com clareza a crise do chavismo, com in\u00fameras disputas internas que se agravam \u00e0 medida que perde apoio popular. O governo de Maduro \u00e9 cada vez mais fr\u00e1gil e cada vez mais repudiado.<\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia se apoiou nesse descontentamento para promover grandes mobiliza\u00e7\u00f5es nas ruas, no in\u00edcio de 2014, apoiando-se nas classes m\u00e9dias e nos estudantes. Por suas dimens\u00f5es e por estarem associadas ao descontentamento geral com o governo, essas mostram a amea\u00e7a concreta que representa a direita para o chavismo. O acordo entre o governo de Maduro e a oposi\u00e7\u00e3o de direita para frear as mobiliza\u00e7\u00f5es significou mais ataques contra os trabalhadores e mais descontentamento popular.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica, em geral, do imperialismo e da oposi\u00e7\u00e3o de direita \u00e9 desgastar o governo e apostar na sua derrota eleitoral nas legislativas de 2015 e, depois, nas presidenciais. O desencanto com a infla\u00e7\u00e3o, a escassez, a corrup\u00e7\u00e3o do chavismo \u00e9 cada vez maior e pode ser capitalizado pela oposi\u00e7\u00e3o de direita. Uma evolu\u00e7\u00e3o da Venezuela no mesmo sentido que fez a Nicar\u00e1gua (que incluiu uma derrota eleitoral do sandinismo por parte da direita) \u00e9 a primeira estrat\u00e9gia dessa direita.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo continua tendo o controle das for\u00e7as armadas e o apoio de um setor importante da popula\u00e7\u00e3o, o que inviabiliza um golpe militar. N\u00e3o se pode descartar, no entanto, uma mudan\u00e7a no curso do processo caso o governo de Maduro se enfraque\u00e7a ainda mais e a direita consiga apoio nas for\u00e7as armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento oper\u00e1rio protagonizou in\u00fameras greves durante todos esses anos de governo chavista. A resposta foi, em geral, dura, com repress\u00f5es diretas e assassinatos de dirigentes grevistas. Agora est\u00e1 se espalhando um enorme descontentamento nos setores populares e est\u00e1 se iniciando uma ruptura com o chavismo. Recentemente houve lutas de trabalhadores da sa\u00fade, professores, da ind\u00fastria automobil\u00edstica e da Sidor. Sidor \u00e9 uma empresa estatal, a principal sider\u00fargica do pa\u00eds, e desde 2012 est\u00e1 em luta em defesa de um contrato coletivo de trabalho. Diosdado Cabello chamou os trabalhadores da Sidor de \u201cmafiosos\u201d. Maduro os acusou de \u201cfazer o jogo da direita\u201d. No dia 11 de agosto, uma marcha dos oper\u00e1rios da Sidor foi violentamente reprimida pela Guarda Nacional Bolivariana, o que deixou tr\u00eas feridos e muitos detidos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental que o movimento oper\u00e1rio venezuelano construa uma alternativa independente, tanto do governo quanto da oposi\u00e7\u00e3o de direita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3- A g\u00eanese do retrocesso castro-chavista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As caracteriza\u00e7\u00f5es das dire\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias do movimento de massas t\u00eam muita import\u00e2ncia para nossa compreens\u00e3o da realidade e, portanto, do programa. Durante muitos anos, a pol\u00eamica fundamental no movimento oper\u00e1rio girava em torno de reformistas e revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas existe um processo social e pol\u00edtico que afetou as dire\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias do movimento de massas nos \u00faltimos trinta anos, concomitante com a globaliza\u00e7\u00e3o da economia e o desenvolvimento dos planos neoliberais. Em ess\u00eancia, houve um movimento reacion\u00e1rio de transforma\u00e7\u00e3o de burocracias em novas burguesias, que passaram politicamente de reformistas a neoliberais.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que terminava o boom p\u00f3s-guerra (final da d\u00e9cada de 60 e in\u00edcio dos anos 70), o imperialismo fazia a convers\u00e3o de seus planos neokeynesianos para o neoliberalismo. Para recuperar a taxa de lucro, era necess\u00e1rio mudar a economia, impondo um retrocesso \u00e0s conquistas do proletariado na p\u00f3s-guerra (o chamado estado de bem-estar social), al\u00e9m de privatizar as empresas estatais e avan\u00e7ar fortemente no controle do capital financeiro sobre toda a economia.<\/p>\n\n\n\n<p>O neoliberalismo, que era uma corrente intelectual marginal desde sua funda\u00e7\u00e3o em 1947, foi assumido pelos pensadores e governantes do capitalismo. Primeiro, como uma experi\u00eancia durante a ditadura de Pinochet em 1973 (nunca antes havia sido aplicado um plano neoliberal). Depois, assumido pelos governos de Reagan e Thatcher no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80. Finalmente, generalizado pelos pa\u00edses imperialistas e em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio investigar o paralelismo entre a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo no Leste europeu. Existem elementos que apontam para uma rela\u00e7\u00e3o entre ambos os processos, embora n\u00e3o se possa explicar a restaura\u00e7\u00e3o no Leste unicamente por um processo econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 um fato que as burocracias governantes nos ex-estados oper\u00e1rios n\u00e3o tinham as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para efetuar um ataque aos trabalhadores semelhante ao dos planos neoliberais, sem risco de rebeli\u00f5es. Por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para acompanhar a incorpora\u00e7\u00e3o da inform\u00e1tica, da telem\u00e1tica e da rob\u00f3tica na produ\u00e7\u00e3o. Isso refor\u00e7ou enormemente a press\u00e3o do mercado mundial sobre essas burocracias.<\/p>\n\n\n\n<p>A resultante dessa rela\u00e7\u00e3o \u2013e, seguramente, de outros processos associados\u2013 \u00e9 que essas burocracias preferiram se associar diretamente ao grande capital no processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. A partir da\u00ed, se apropriaram das empresas estatais e se transformaram em novas burguesias. Isso ocorreu de maneira generalizada em todos os pa\u00edses onde se efetivou a restaura\u00e7\u00e3o. Um exemplo t\u00edpico \u00e9 o de Abramovich, que se apoderou das empresas petrol\u00edferas russas e se tornou um dos homens mais ricos do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos pa\u00edses semicoloniais ocorria um processo no mesmo sentido: a transforma\u00e7\u00e3o de partidos e movimentos reformistas pequeno-burgueses em burgueses ao chegarem ao governo. Foi assim com o Frente Sandinista na Nicar\u00e1gua. Depois de destruir as for\u00e7as armadas burguesas \u2013 a Guarda Nacional de Somoza \u2013 em 1979, o sandinismo se negou a expropriar o capitalismo. Pelo contr\u00e1rio, os dirigentes sandinistas se apoderaram, de maneira privada, de muitas das propriedades de Somoza. V\u00e1rios deles se tornaram bilion\u00e1rios e parte da burguesia, como Daniel Ortega, atual presidente do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Observou-se o mesmo fen\u00f4meno em Mo\u00e7ambique e Angola. As for\u00e7as armadas que sustentavam o poder burgu\u00eas e colonial eram as tropas portuguesas. A Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos em Portugal, em 1975, favoreceu a vit\u00f3ria dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional que j\u00e1 eram fort\u00edssimos naquele pa\u00eds. Tanto o MPLA [Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola] em Angola quanto o Frelimo [Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique] em Mo\u00e7ambique mantiveram o capitalismo e suas dire\u00e7\u00f5es se transformaram em novas burguesias.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia de Eduardo dos Santos \u2014atual presidente de Angola\u2014 \u00e9 acionista das 21 maiores empresas do pa\u00eds. Sua filha, Isabel dos Santos, \u00e9 s\u00f3cia de um dos burgueses mais poderosos de Portugal \u2014Am\u00e9rico Amorim\u2014 no Banco BIC de Angola. Em Mo\u00e7ambique, a privatiza\u00e7\u00e3o dos bancos estatais BCM [Banco Comercial de Mo\u00e7ambique] e BPD [Banco Popular de Desenvolvimento] em 1996-97 teve como principais benefici\u00e1rios v\u00e1rios dirigentes do Frelimo, que desapareceram com mais de 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Armando Guebuza, atual presidente, \u00e9 um grande acionista da Intelec Holding e s\u00f3cio da multinacional Vodacom. Seu filho, Mussubuluko Ghebuza, tamb\u00e9m \u00e9 s\u00f3cio de Am\u00e9rico Amorim na cria\u00e7\u00e3o do Banco \u00danico em Mo\u00e7ambique.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00c1frica do Sul, os dirigentes do CNA [Congresso Nacional Africano] no governo abriram o caminho para a forma\u00e7\u00e3o de uma nova burguesia negra, s\u00f3cia menor da burguesia branca. Cyril Ramaphosa, l\u00edder do Sindicato dos Mineiros (NUM) e do COSATU [Congresso de Sindicatos Sul-Africanos] na luta contra o apartheid, \u00e9 hoje s\u00f3cio propriet\u00e1rio e membro do conselho da empresa multinacional Lonmin. Foi durante a repress\u00e3o de 2013 contra a greve dos mineiros de Marikana, dessa empresa, quando a pol\u00edcia, enviada pelo governo do CNA, matou 34 mineiros.<\/p>\n\n\n\n<p>No PT brasileiro, que governa h\u00e1 doze anos, est\u00e1 em curso um processo de aburguesamento de sua dire\u00e7\u00e3o. O filho de Lula, laranja da fam\u00edlia, era empregado de um zool\u00f3gico em S\u00e3o Paulo e ganhava cerca de 300 d\u00f3lares mensais quando o pai assumiu o governo. Hoje \u00e9 s\u00f3cio de uma multinacional de telefonia. Z\u00e9 Dirceu, advogado e s\u00f3cio de multinacionais. N\u00e3o afirmamos que j\u00e1 exista uma transforma\u00e7\u00e3o acabada do PT em um partido burgu\u00eas, mas sim que h\u00e1 um processo em curso.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma totalidade que une a globaliza\u00e7\u00e3o e a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, a convers\u00e3o das burocracias em novas burguesias nos antigos estados oper\u00e1rios, nos pa\u00edses imperialistas e nos pa\u00edses dependentes e semicoloniais.<\/p>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o castro-chavista \u00e9, portanto, uma express\u00e3o desse movimento ultrarreacion\u00e1rio de transforma\u00e7\u00e3o das burocracias e dos movimentos pequeno-burgueses em novas burguesias, tanto em Cuba quanto na Venezuela. A origem desses dois governos \u00e9 distinta, como vimos. Mas hoje est\u00e3o unidos e s\u00e3o uma refer\u00eancia pol\u00edtica para boa parte da esquerda mundial. Uma p\u00e9ssima refer\u00eancia, como veremos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. O que resta do aparato mundial do stalinismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os partidos stalinistas de todo o mundo apoiam os governos cubano e venezuelano. Quando se fala de \u201crestos do stalinismo\u201d, pode-se concluir que esses partidos n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a alguma. Isso \u00e9 um grave erro.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, a situa\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o tem nada a ver com os tempos em que tinham atr\u00e1s de si estados oper\u00e1rios burocratizados que dirigiam um ter\u00e7o da humanidade. Mas continuam tendo um peso muito importante em alguns pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses partidos organizam reuni\u00f5es anuais com organiza\u00e7\u00f5es de mais de cinquenta pa\u00edses. Re\u00fanem partidos de distintas naturezas, embora \u2013pela tradi\u00e7\u00e3o\u2013 com o mesmo nome de \u201cpartido comunista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclui partidos maiores que, apesar da crise, ainda t\u00eam grande peso nacional (como o PC portugu\u00eas) e outros de menor peso, produto da crise do estalinismo, como o PC brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m inclui partidos que j\u00e1 deixaram de ser oper\u00e1rios reformistas para se tornarem partidos burgueses na gest\u00e3o de estados capitalistas, como o PC cubano e o PC chin\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. A ascens\u00e3o do castro-chavismo e suas consequ\u00eancias na Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O castro-chavismo teve seu auge no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, associado ao momento em que partidos frentepopulistas e nacionalistas burgueses ocupavam a maioria dos governos da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, o impacto da revolu\u00e7\u00e3o cubana em 1959 provocou uma onda de simpatia na Am\u00e9rica Latina desde ent\u00e3o. Mas isso foi se enfraquecendo devido \u00e0s repercuss\u00f5es do Leste europeu. Estamos falando de um fen\u00f4meno posterior. No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, uma onda anti-imperialista e antineoliberal varreu o continente latino-americano. Existia uma luta crescente contra os planos neoliberais, contra o governo de Bush e seu plano ALCA. A maioria dos governos que aplicaram os planos neoliberais foi derrotada, seja atrav\u00e9s de mobiliza\u00e7\u00f5es diretas (como na Argentina, Bol\u00edvia e Equador) ou atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es (Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e outros).<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca antes na hist\u00f3ria estiveram ao mesmo tempo no poder tantos governos de frente popular e nacionalistas burgueses na Am\u00e9rica Latina. Esse \u00e9 o momento de auge do castro-chavismo, apoiado por Lula, Evo Morales, Ch\u00e1vez, Correa, Bachelet, Lugo e v\u00e1rios outros governos. Como parte desse processo de lutas, o plano imperialista do ALCA foi derrotado. Assim, abriram-se as condi\u00e7\u00f5es para um processo in\u00e9dito na Am\u00e9rica Latina. Era poss\u00edvel lutar contra o n\u00e3o pagamento das d\u00edvidas externas com uma frente de pa\u00edses devedores. Era poss\u00edvel avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a uma ruptura com o imperialismo em uma parte importante do continente, o que abriria caminho para um processo revolucion\u00e1rio anticapitalista de grande peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as vezes que se discute uma pol\u00edtica de ruptura com o capitalismo, com partidos e movimentos que defendem a colabora\u00e7\u00e3o de classes com a burguesia, \u00e9 inevit\u00e1vel que a resposta seja a mesma: \u201cA rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o permite\u201d. Naquele momento, essa resposta era completamente absurda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais que em qualquer outro momento da hist\u00f3ria, o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI provocou uma mudan\u00e7a brusca na rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no continente. Nunca houve um momento t\u00e3o favor\u00e1vel para uma ruptura com o imperialismo e o capitalismo. Nem mesmo no momento posterior \u00e0 vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o cubana existiu algo semelhante, com tantos pa\u00edses que viviam a derrota de governos de direita neoliberais. A maior parte dos governos estava ocupada por partidos e movimentos que se identificavam como de \u201cesquerda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A refer\u00eancia pol\u00edtica principal no continente era o castro-chavismo, em particular o governo venezuelano. Grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio recebiam Bush cada vez que pisava em algum pa\u00eds do continente. Outras tantas manifesta\u00e7\u00f5es de apoio importantes recebiam Ch\u00e1vez. No caso de que houvesse havido uma ruptura real com o imperialismo na Venezuela, um rastro de p\u00f3lvora teria incendiado a Am\u00e9rica Latina. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas nada disso ocorreu. Os governos da Venezuela e de Cuba manobraram para gerenciar os atritos com o imperialismo dentro de limites aceit\u00e1veis. Ch\u00e1vez e Castro n\u00e3o aplicaram em seus pa\u00edses nenhuma ruptura com o imperialismo. E tamb\u00e9m n\u00e3o defenderam medidas nesse sentido no resto do continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses eram governos burgueses, sejam de tipo frentepopular ou sejam nacionalistas burgueses. E as burguesias latino-americanas n\u00e3o est\u00e3o dispostas a romper com o imperialismo. Esses governos de \u201cesquerda\u201d foram a base fundamental para conter o movimento de massas. Se apoiaram em um ascenso econ\u00f4mico conjuntural e, com seu peso popular, conseguiram restabelecer a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. De 2005 at\u00e9 2012, n\u00e3o se registrou praticamente nenhuma greve geral nem rebeli\u00e3o popular no continente. O acordo ALCA foi derrotado, mas esses governos aplicaram em seus pa\u00edses os planos neoliberais que haviam sido derrotados junto com os governos de direita.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel real das dire\u00e7\u00f5es cubana e venezuelana, assim como dos governos latino-americanos que as apoiam, pode ser demonstrado nesse momento. Poderia ter desencadeado um processo hist\u00f3rico de ruptura com o imperialismo. N\u00e3o o fizeram. Pelo contr\u00e1rio, desviaram e congelaram o ascenso que acompanhou seu auge. Mas com isso tamb\u00e9m abriram as portas para seu pr\u00f3prio enfraquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Conseguiram frear as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es que marcaram o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI at\u00e9 2005. Desde esse ano at\u00e9 2012, n\u00e3o se registrou praticamente nenhuma greve geral nem rebeli\u00e3o popular no continente. Mas, com seu desgaste, come\u00e7aram a pagar o mesmo pre\u00e7o que os governos da direita ao aplicar os planos neoliberais.<\/p>\n\n\n\n<p>6. <strong>A decad\u00eancia do castro-chavismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2013 come\u00e7ou a ocorrer um processo distinto no continente. Est\u00e1 come\u00e7ando um novo ciclo na Am\u00e9rica Latina, que inclui crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas, assim como o enfrentamento do movimento de massas contra esses mesmos governos que antes tinham enorme apoio popular.<\/p>\n\n\n\n<p>A decad\u00eancia das economias do continente retornou, acompanhando o fim do&nbsp;boom&nbsp;das mat\u00e9rias-primas que havia sido uma parte importante do crescimento econ\u00f4mico anterior. O movimento de massas se recomp\u00f4s com v\u00e1rias greves gerais que abalaram a Argentina, o Peru e a Bol\u00edvia, al\u00e9m das mobiliza\u00e7\u00f5es populares de junho de 2013 no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe um processo latino-americano homog\u00eaneo nem uma ascens\u00e3o permanente e generalizada. Trata-se de situa\u00e7\u00f5es distintas da luta de classes no continente, com in\u00fameros fluxos e refluxos, idas e vindas. Mais ainda, porque se combina com uma fort\u00edssima crise da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, ou seja, a aus\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias com peso de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>A decad\u00eancia e a crise do castro-chavismo fazem parte deste novo momento. As economias da Venezuela e de Cuba est\u00e3o questionadas pela crise econ\u00f4mica. O governo de Maduro tem que enfrentar grandes mobiliza\u00e7\u00f5es, capitalizadas pela oposi\u00e7\u00e3o de direita. Al\u00e9m disso, muitos governos que apoiam o castro-chavismo enfrentam agora mobiliza\u00e7\u00f5es de peso, como Cristina Kirchner na Argentina e Dilma Rousseff no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses governos n\u00e3o avan\u00e7aram em dire\u00e7\u00e3o a uma ruptura com o imperialismo. Agora t\u00eam que enfrentar o movimento de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem em Cuba nem na Venezuela a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores pode servir de refer\u00eancia para outros pa\u00edses. Pelo contr\u00e1rio, as filas para comprar produtos de primeira necessidade, a infla\u00e7\u00e3o na Venezuela e os sal\u00e1rios extremamente baixos em Cuba s\u00e3o elementos de contrapropaganda.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente do reformismo cl\u00e1ssico, as dire\u00e7\u00f5es chavista e castrista tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam compromissos com a democracia. Cuba \u00e9 uma ditadura e o chavismo um regime bonapartista. Al\u00e9m disso, ao assumir a defesa de ditaduras como as de Khadafi e Assad, o castro-chavismo choca com o sentimento democr\u00e1tico das massas p\u00f3s-restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O rep\u00fadio que existia contra o estalinismo, por suas caracter\u00edsticas autorit\u00e1rias, era atenuado pela exist\u00eancia dos estados oper\u00e1rios e suas conquistas sociais. Hoje, o castro-chavismo tem que enfrentar o ceticismo das massas depois da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo ap\u00f3s as ditaduras, sem saber como oferecer uma refer\u00eancia superior no n\u00edvel de vida dos trabalhadores. O peso de Cuba na consci\u00eancia das massas latino-americanas j\u00e1 estava muito reduzido devido aos acontecimentos do Leste europeu. Agora tamb\u00e9m \u00e9 questionado pelo retrocesso social na Ilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esses motivos, a decad\u00eancia do castro-chavismo vai fazendo com que a vanguarda que surge das lutas j\u00e1 n\u00e3o tenha como seu referente imediato essas correntes. As organiza\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a corrente castro-chavista t\u00eam peso na realidade, mas o castro-chavismo n\u00e3o \u00e9 mais um referente \u201cnatural\u201d da vanguarda, como foi em seu momento de ascens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7. E se os governos de Cuba e da Venezuela ca\u00edssem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo no Leste europeu, ocorreu uma s\u00e9ria crise em toda a esquerda mundial. Houve uma combina\u00e7\u00e3o de dois grandes fatores que impulsionou um profundo retrocesso na consci\u00eancia das massas e da vanguarda.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, a desaparecimento dos Estados oper\u00e1rios burocratizados que, apesar do estalinismo, demonstravam a possibilidade de uma economia n\u00e3o capitalista. Segundo, uma gigantesca campanha de propaganda capitalista que diz que o \u201csocialismo morreu\u201d, que \u201csocialismo \u00e9 igual a ditadura\u201d e que \u201csocialismo \u00e9 igual a atraso econ\u00f4mico e social\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias desse retrocesso se manifestam at\u00e9 hoje porque desapareceu o referente de massas que permite superar o capital. Existe um grande ceticismo em rela\u00e7\u00e3o a tudo que implique revolu\u00e7\u00e3o socialista (partido revolucion\u00e1rio, centralismo, etc.).<\/p>\n\n\n\n<p>O colapso das ditaduras estalinistas teve outra consequ\u00eancia, de sentido oposto: a desaparecimento do aparato estalinista mundial enfraqueceu esse dispositivo contrarrevolucion\u00e1rio que aglutinava partidos e estados de grande peso em todo o mundo. Isso permitiu uma libera\u00e7\u00e3o muito importante de for\u00e7as do movimento de massas. No entanto, esse elemento, muito positivo, ainda est\u00e1 muito mediado pelo retrocesso na consci\u00eancia, que atrasa a constru\u00e7\u00e3o de alternativas revolucion\u00e1rias de peso.<\/p>\n\n\n\n<p>O que vai acontecer se a ditadura castrista for derrubada por uma mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, como aconteceu no Leste? E se isso se combinar com uma derrota eleitoral do chavismo? O mesmo processo vai se repetir, pelo menos na Am\u00e9rica Latina?<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso diferenciar os processos de Cuba e da Venezuela. A queda da ditadura castrista por uma mobiliza\u00e7\u00e3o de massas seria um processo progressivo, da mesma maneira que analisamos o que ocorreu no Leste europeu. Seria o colapso de um estado burgu\u00eas p\u00f3s-restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, de uma ditadura capitalista. A derrota em Cuba veio antes, com a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, como tamb\u00e9m ocorreu no Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vit\u00f3ria eleitoral da oposi\u00e7\u00e3o burguesa na Venezuela seria uma derrota do movimento de massas, mesmo sabendo que se trata de um governo burgu\u00eas. Seria a vit\u00f3ria de uma oposi\u00e7\u00e3o pr\u00f3-imperialista sobre um governo nacionalista burgu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>A responsabilidade por todos os elementos negativos que surgiram na consci\u00eancia das massas, no caso da derrubada dos governos cubano e venezuelano, \u00e9 diretamente desses governos e de todas as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda que os apoiam. At\u00e9 o dia de hoje n\u00e3o existe uma alternativa de esquerda com peso de massas nem em Cuba nem em Venezuela. As alternativas de dire\u00e7\u00e3o, com peso nesses pa\u00edses, s\u00e3o burguesas e pr\u00f3-imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de uma oposi\u00e7\u00e3o de esquerda na Venezuela \u00e9 uma trag\u00e9dia, de responsabilidade direta de toda a esquerda que capitula diante do governo chavista. As mobiliza\u00e7\u00f5es de massas contra o governo s\u00e3o capitalizadas e dirigidas diretamente pela oposi\u00e7\u00e3o de direita. Esta \u00e9 a consequ\u00eancia da capitula\u00e7\u00e3o ao chavismo: a derrota do governo venezuelano pode ser uma vit\u00f3ria da burguesia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior. Existe uma ditadura violenta que impede a manifesta\u00e7\u00e3o de qualquer oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o existem alternativas constru\u00eddas. Mas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar a facilidade com que se poder\u00e3o construir dire\u00e7\u00f5es burguesas respaldadas pelo imperialismo \u201cdemocr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas voltemos \u00e0 pergunta sobre as consequ\u00eancias de uma poss\u00edvel derrota dos governos castristas e chavistas na consci\u00eancia das massas e da vanguarda na Am\u00e9rica Latina. Isso se repetiria \u2013ou se aprofundaria\u2013 como ocorreu no p\u00f3s Leste? Isso ser\u00e1 compreendido como uma \u201cderrota do socialismo\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Na nossa opini\u00e3o, o impacto imediato \u00e9 inevit\u00e1vel, mas sua magnitude depende de v\u00e1rios fatores. Existem elementos que jogam a favor e outros que fazem o contr\u00e1rio. Os elementos que trabalham a favor de um novo desastre na consci\u00eancia das massas e da vanguarda est\u00e3o concentrados no peso da esquerda castro-chavista. As organiza\u00e7\u00f5es de esquerda que apoiam os governos de Cuba e Venezuela, diante da queda destes, v\u00e3o difundir, mais uma vez, a ideologia de que o \u201csocialismo\u201d foi derrotado novamente. \u00c9 prov\u00e1vel que esses partidos e movimentos, em particular os da Am\u00e9rica Latina, enfrentem crises importantes nesse caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que dizemos, ent\u00e3o, que \u201cdepende\u201d e que a dimens\u00e3o desses resultados n\u00e3o est\u00e1 definida? Porque alguns elementos da realidade atual diferem dos da d\u00e9cada de 90 e podem levar a uma situa\u00e7\u00e3o distinta. A primeira diferen\u00e7a \u00e9 que, no momento da queda das ditaduras estalinistas, na d\u00e9cada de 90, o neoliberalismo vivia seu auge. Os planos neoliberais estavam sendo aplicados e despertavam expectativas em muitos pa\u00edses. O capitalismo se mostrava como vitorioso, contraposto ao \u201csocialismo\u201d derrotado. Mas a crise econ\u00f4mica internacional acabou com isso desde 2009, o que determinou uma decad\u00eancia geral, embora com fluxos e refluxos. A crise econ\u00f4mica que afeta o continente latino-americano desde 2013 tamb\u00e9m atua no mesmo sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Como vimos neste texto, tamb\u00e9m existe um desgaste na consci\u00eancia das massas latino-americanas em rela\u00e7\u00e3o aos governos cubano e venezuelano. Isso se deve tanto ao desencanto geral p\u00f3s-Leste quanto \u00e0 decad\u00eancia econ\u00f4mica e social desses pa\u00edses. Tamb\u00e9m pesa na vanguarda o apoio dos governos cubano e venezuelano \u00e0s ditaduras do norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio. O desgaste atual dos governos de frente popular e dos nacionalistas burgueses que apoiam o castro-chavismo diminuiu o prov\u00e1vel trauma posterior \u00e0 sua poss\u00edvel derrota.<\/p>\n\n\n\n<p>A decad\u00eancia do castro-chavismo pode ser um fator que reduza o impacto negativo da derrota dos governos cubano e venezuelano. Pode haver uma libera\u00e7\u00e3o de for\u00e7as devido \u00e0 crise das organiza\u00e7\u00f5es castro-chavistas, o que seria muito positivo. E as consequ\u00eancias negativas do retrocesso da consci\u00eancia podem ser atenuadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ess\u00eancia, o resultado n\u00e3o est\u00e1 predeterminado. Isso tem um profundo significado pol\u00edtico hoje em dia. Quanto mais os ativistas entenderem o significado populista-burgu\u00eas do castro-chavismo, menor ser\u00e1 o impacto negativo das derrotas dos governos cubano e venezuelano. Se o colapso dos Estados oper\u00e1rios teve consequ\u00eancias imediatas fortemente negativas, isso pode ser diferente hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Para avan\u00e7ar nesse sentido, queremos chamar o conjunto da esquerda mundial ao debate sobre os governos cubano e venezuelano. \u00c9 importante que se fa\u00e7a uma ampla discuss\u00e3o j\u00e1 em todo o mundo e, especialmente, na Am\u00e9rica Latina. Em particular, chamamos os setores mais combativos da vanguarda que ainda acreditam nesses governos a entrar neste debate, a verificar se temos raz\u00e3o e a romper com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental construir desde j\u00e1 uma alternativa revolucion\u00e1ria ao castro-chavismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Setembro de 2014 Os governos cubano e venezuelano contam com o apoio da maioria das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda de todo o mundo. Esse apoio, no entanto, viveu seu auge na d\u00e9cada passada e agora est\u00e1 em decad\u00eancia, assim como a situa\u00e7\u00e3o de crise desses governos. 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