{"id":82153,"date":"2026-02-05T23:18:03","date_gmt":"2026-02-05T23:18:03","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82153"},"modified":"2026-02-05T23:18:04","modified_gmt":"2026-02-05T23:18:04","slug":"a-politica-economica-do-imperialismo-estadunidense-na-encruzilhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/02\/05\/a-politica-economica-do-imperialismo-estadunidense-na-encruzilhada\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica econ\u00f4mica do imperialismo estadunidense na encruzilhada"},"content":{"rendered":"\n<p>O final de 2025 trouxe consigo tr\u00eas importantes documentos estrat\u00e9gicos redigidos pelos planejadores do imperialismo estadunidense. Trata-se da <em>Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional<\/em> (NSS) do presidente para 2025, o <em>Relat\u00f3rio n.\u00ba 83<\/em> do Grupo de Trabalho sobre Seguran\u00e7a Econ\u00f4mica do Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, intitulado \u00abVencer a corrida pelas tecnologias do amanh\u00e3\u00bb, e o \u00ab<em>Relat\u00f3rio anual ao Congresso sobre os avan\u00e7os militares e de seguran\u00e7a que afetam a Rep\u00fablica Popular da China<\/em>\u00bb do Departamento de Defesa\/Guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conjunto, os tr\u00eas relat\u00f3rios desenham um panorama no qual a posi\u00e7\u00e3o internacional do imperialismo estadunidense passa de um dom\u00ednio indiscut\u00edvel a ser obrigado a lutar por seu lugar em uma nova ordem mundial. Embora os Estados Unidos mantenham sua superioridade econ\u00f4mica e militar, os grandes avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos da China e seu controle de setores estrat\u00e9gicos est\u00e3o encurtando rapidamente as lacunas. Todos os relat\u00f3rios apontam para um sistema econ\u00f4mico mundial que enfrenta o estagnamento e conflitos cada vez mais agudos entre as grandes pot\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio do Conselho de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (CFR), principal think tank do governo dos Estados Unidos, reconhece que, em todos os pa\u00edses, \u00abcada vez mais, a economia e a seguran\u00e7a nacional t\u00eam convergido\u2026\u00bb. As economias nacionais s\u00e3o refor\u00e7adas pelo investimento estatal e pela \u00abpol\u00edtica industrial\u00bb, principalmente nos setores de armamento e defesa. Tamb\u00e9m houve um forte aumento no uso de restri\u00e7\u00f5es \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o desde 2018, o que indica uma maior agressividade econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A luta pela hegemonia tecnol\u00f3gica e a IA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesses documentos se perfilam os 3 eixos da pol\u00edtica econ\u00f4mica do imperialismo estadunidense para tentar desesperadamente conservar sua hegemonia: o impulso da competi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica centrada na IA, a guerra tarif\u00e1ria e a reindustrializa\u00e7\u00e3o dos EUA. O <em>NSS<\/em> \u00e9 n\u00edtido: \u201cO poder nacional estadunidense depende de um setor industrial forte, capaz de satisfazer as demandas de produ\u00e7\u00e3o tanto em tempos de paz quanto em tempos de guerra\u201d. Para isso, prop\u00f5e \u201crelocalizar\u201d a produ\u00e7\u00e3o industrial no \u201chemisf\u00e9rio ocidental\u201d sob seu dom\u00ednio e concentrar-se \u201cnos setores tecnol\u00f3gicos cr\u00edticos e emergentes\u201d, \u201cem particular em mat\u00e9ria de intelig\u00eancia artificial, biotecnologia e computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica, que impulsionem o progresso mundial\u201d. \u00c9 importante ressaltar que esses tr\u00eas setores s\u00e3o de \u201cduplo uso\u201d, ou seja, civil ou comercial e tamb\u00e9m militar.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa tecnol\u00f3gica \u00e9 fundamental para o futuro do imperialismo em geral e dos Estados Unidos em particular. De momento, a economia norte-americana apresenta uma estabilidade prec\u00e1ria porque os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es das \u201csete magn\u00edficas\u201d est\u00e3o em alta, em grande parte gra\u00e7as ao investimento especulativo em \u00abintelig\u00eancia artificial\u00bb, na constru\u00e7\u00e3o de centros de dados e em tecnologias de vigil\u00e2ncia massiva. Ainda n\u00e3o h\u00e1 confirma\u00e7\u00e3o de que essa aposta tecnol\u00f3gica se incorpore ao conjunto da economia, o que garantiria uma taxa de lucros correspondente. O gigantesco fluxo de investimentos em IA assegura, at\u00e9 agora, o crescimento do mercado de a\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, com recordes ap\u00f3s recordes. Mas existe uma bolha em torno da IA, ainda maior do que as bolhas de investimento do passado recente. Continua sendo uma aposta, com um enorme potencial e grandes riscos. Apesar da import\u00e2ncia desses grandes monop\u00f3lios de tecnologia avan\u00e7ada, os Estados Unidos est\u00e3o muito atrasados em mat\u00e9ria de investimento, e o resto dos setores econ\u00f4micos apresenta uma baixa produtividade. A produ\u00e7\u00e3o manufatureira nos EUA est\u00e1 em baixa, em parte devido \u00e0s pol\u00edticas tarif\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Como detalha o relat\u00f3rio do <em>CFR,<\/em> nos \u00faltimos dez anos, \u00abo Governo chin\u00eas gastou aproximadamente 900 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em intelig\u00eancia artificial, tecnologia qu\u00e2ntica e biotecnologia, mais do que o triplo do que o Governo dos Estados Unidos destinou a essas tecnologias durante o mesmo per\u00edodo\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>A competi\u00e7\u00e3o com a China, mais uma vez, tamb\u00e9m \u00e9 o pano de fundo desta corrida tecnol\u00f3gica. O imperialismo americano continua sendo hegem\u00f4nico no campo dos semicondutores e da IA, mas a China responde de forma agressiva e surpreendeu o mundo com o DeepSeek. A China tamb\u00e9m est\u00e1 muito \u00e0 frente dos Estados Unidos em ve\u00edculos el\u00e9tricos e baterias de l\u00edtio, pain\u00e9is solares e ve\u00edculos a\u00e9reos n\u00e3o tripulados (drones), e investe o dobro que os EUA em tecnologia qu\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica do \u201cBig Stick\u201d na Am\u00e9rica Latina e Europa, para controlar territ\u00f3rios e recursos, se deve ao fato de que a China conseguiu uma vantagem estrat\u00e9gica ao se inserir nas cadeias de valor dos setores tecnol\u00f3gicos do futuro. Para conseguir reindustrializar-se e competir com a China, os EUA devem primeiro restabelecer um lugar privilegiado nos mercados de recursos estrat\u00e9gicos. O CFR afirma que \u201cos Estados Unidos dependem da China para terras raras (70 % no total, 99 % para terras raras pesadas), componentes de centros de dados e chips (30 % das placas de circuito impresso [PCB], 60 % dos produtos qu\u00edmicos), insumos biotecnol\u00f3gicos e desenvolvimento de f\u00e1rmacos (80 % dos materiais de partida chave [KSM], 33 % da capacidade mundial de ingredientes farmac\u00eauticos ativos [API], 80 % das empresas biotecnol\u00f3gicas americanas t\u00eam pelo menos um contrato com a China) e fornecedores \u00fanicos de equipamentos qu\u00e2nticos (diodos laser, espelhos, amplificadores).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Trump autorizou recentemente a exporta\u00e7\u00e3o de chips da NVIDIA para a China, com o argumento do chefe de IA do governo, David Sacks, de que agora o envio de chips de IA avan\u00e7ados para a China desestimula os concorrentes chineses, como a Huawei, a redobrar seus esfor\u00e7os para alcan\u00e7ar os designs de chips mais avan\u00e7ados da Nvidia e AMD. Isso sup\u00f5e um reconhecimento de que o bloqueio americano apenas refor\u00e7ou a corrida chinesa em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 autonomia no desenvolvimento de semicondutores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A guerra comercial entre a China e os EUA.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o de tarifas j\u00e1 faz parte do reconhecimento do decl\u00ednio dos Estados Unidos. Antes, o imperialismo podia impor sua hegemonia econ\u00f4mica atrav\u00e9s do \u00ablivre com\u00e9rcio\u00bb e, a partir da\u00ed, utilizava o Estado americano, assim como as institui\u00e7\u00f5es mundiais (ONU, FMI, OMC) para impor sua hegemonia pol\u00edtica, militar e financeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, o \u00ablivre com\u00e9rcio\u00bb favorece a China, que consegue em v\u00e1rios \u00e2mbitos, como a produ\u00e7\u00e3o de meios de produ\u00e7\u00e3o, carros el\u00e9tricos, pain\u00e9is solares e outros, vender produtos melhores e mais baratos que os dos Estados Unidos. Esta \u00e9 a base da guerra tarif\u00e1ria de Trump, uma medida defensiva, t\u00edpica das economias mais fr\u00e1geis. O nacionalismo imperialista do governo dos Estados Unidos \u00e9 uma express\u00e3o de sua decad\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso n\u00e3o conseguiu frear a China. Em 2025, a China superou a meta de um trilh\u00e3o de d\u00f3lares em exporta\u00e7\u00f5es em novembro, um aumento de 21,7% em rela\u00e7\u00e3o a 2024. Vendeu menos para os Estados Unidos e mais para o resto do mundo. E as tarifas impostas por Trump fizeram com que as exporta\u00e7\u00f5es chinesas para os Estados Unidos diminu\u00edssem em quase 20%. Mas a China reduziu suas compras de soja americana e de outros produtos e continuou vendendo tr\u00eas vezes mais para os Estados Unidos do que comprava.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ess\u00eancia, as tarifas, como medida defensiva do imperialismo estadunidense, n\u00e3o conseguiram deter a decad\u00eancia do imperialismo. Afetam o com\u00e9rcio mundial, mas n\u00e3o revertam a decad\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de reindustrializa\u00e7\u00e3o de Trump nos Estados Unidos \u00e9 uma aposta complicada. Pode funcionar parcialmente se conseguir repatriar a produ\u00e7\u00e3o de semicondutores e os centros de dados associados \u00e0 disputa pela intelig\u00eancia artificial. Mas os Estados Unidos n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de reverter a globaliza\u00e7\u00e3o como um todo, porque teria que destruir e reconstruir as cadeias de valor internacionais, incluindo a produ\u00e7\u00e3o de componentes hoje globalizados. Isso implicaria um aumento geral dos custos que os grandes monop\u00f3lios dos Estados Unidos n\u00e3o poderiam assumir.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conjunto, a pol\u00edtica econ\u00f4mica de Trump n\u00e3o garante a recomposi\u00e7\u00e3o da hegemonia norte-americana. Sua maior aposta \u00e9 o dom\u00ednio da IA, o centro dos centros do problema. Veremos at\u00e9 que ponto essa aposta conseguir\u00e1 compensar a prov\u00e1vel inefic\u00e1cia da guerra tarif\u00e1ria e da reindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Frente \u00e0 guerra comercial, \u00e9 muito importante que os socialistas expliquem ao movimento oper\u00e1rio que a pol\u00edtica comercial dos governos burgueses \u00e9 elaborada pelos capitalistas em benef\u00edcio de sua pr\u00f3pria classe e n\u00e3o para os trabalhadores. Seja &#8220;livre com\u00e9rcio&#8221; ou protecionismo, a aplica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica tem por objetivo proteger e aumentar os lucros da classe dominante. As contradi\u00e7\u00f5es inerentes ao sistema capitalista n\u00e3o podem ser resolvidas nem por meio de tarifas nem por meio de manobras militares amea\u00e7adoras. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para o desemprego e a precariedade crescentes, assim como para a onda inflacion\u00e1ria, \u00e9 a luta de classes, com um programa que plante a necessidade de que sejam os trabalhadores quem assumam o comando da economia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As pol\u00edticas comerciais protecionistas em pa\u00edses imperialistas como os EUA v\u00e3o de m\u00e3os dadas com o auge do chauvinismo e com os ataques a imigrantes e a outras comunidades oprimidas. Devemos explicar aos sindicatos que n\u00e3o devem apoi\u00e1-las, pois n\u00e3o resolver\u00e3o a crise econ\u00f4mica muito real que o capitalismo est\u00e1 atravessando em escala mundial. Devemos, em todas as nossas organiza\u00e7\u00f5es, lutar contra o patriotismo nacionalista e a xenofobia que instalam as guerras comerciais e explicar que a chave \u00e9 que os trabalhadores e os setores oprimidos travem uma luta pol\u00edtica implac\u00e1vel pela independ\u00eancia da classe capitalista em suas organiza\u00e7\u00f5es e comunidades, para formular um programa de luta que responda \u00e0s suas necessidades mais imediatas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A disputa militar e a corrida armamentista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00ab\u2026 os dias em que os Estados Unidos sustentavam toda a ordem mundial como Atlas terminaram\u00bb. Esta frase pode dar a entender que o imperialismo deixa de lado a luta pela hegemonia mundial no terreno militar. Grande erro. O significado real \u00e9 que os Estados Unidos mudaram os instrumentos dessa luta, adaptando-os \u00e0 sua pr\u00f3pria decad\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, Trump mant\u00e9m todo a \u00eanfase na disputa pela hegemonia militar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abQueremos recrutar, treinar, equipar e movimentar o ex\u00e9rcito mais poderoso, letal e tecnologicamente avan\u00e7ado do mundo para proteger nossos interesses, dissuadir guerras e, se necess\u00e1rio, ganh\u00e1-las de forma r\u00e1pida e decisiva, com o menor n\u00famero poss\u00edvel de baixas entre nossas for\u00e7as\u2026 Queremos a dissuas\u00e3o nuclear mais s\u00f3lida, cr\u00edvel e moderna do mundo, al\u00e9m de defesas antim\u00edsseis de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, incluindo um Golden Dome para o territ\u00f3rio americano, para proteger o povo americano, os ativos americanos no exterior e os aliados dos Estados Unidos. Os Estados Unidos n\u00e3o podem permitir que nenhuma na\u00e7\u00e3o se torne t\u00e3o dominante a ponto de amea\u00e7ar nossos interesses. Trabalharemos com nossos aliados e parceiros para manter o equil\u00edbrio de poder em n\u00edvel global e regional, a fim de evitar o surgimento de advers\u00e1rios dominantes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, o imperialismo se caracteriza por n\u00e3o contar mais com os recursos suficientes para desempenhar o papel de pol\u00edcia do mundo, com tropas militares nos lugares mais importantes do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse enfoque na disputa militar se manifesta em um or\u00e7amento militar cada vez mais desorbitado, apesar do endividamento brutal do pa\u00eds, j\u00e1 que desde 2020 a d\u00edvida p\u00fablica excede o PIB (entre 118% e 126%). Estados Unidos continua sendo, com diferen\u00e7a, o pa\u00eds com o maior or\u00e7amento militar. Em 2024, sob Biden, superou os 824 bilh\u00f5es de d\u00f3lares; em 2026, ascendeu a 900 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, e Trump prop\u00f4s aumentar o or\u00e7amento militar dos Estados Unidos para 1,5 trilh\u00f5es de d\u00f3lares para o ano fiscal de 2027 \u2013 algo nunca visto na hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A China ocupa o segundo lugar, com um gasto militar total de 246 bilh\u00f5es em 2025, mantendo um ritmo de aumento anual de 7% nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. No entanto, outras fontes, como o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI), estimam que o gasto real da China em defesa foi de cerca de 318 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2024, enquanto outro estudo o coloca em um valor ainda maior: 471 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos poderiam estar em guerra com a China em 2027. Esta data sempre fez parte dos documentos estrat\u00e9gicos de planejamento militar dos Estados Unidos como a data em que este pa\u00eds poderia estar preparado para enfrentar o aumento do armamento da China.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A maquinaria b\u00e9lica industrial estadunidense est\u00e1 operando a pleno rendimento. As empresas estadunidenses de produ\u00e7\u00e3o de armas aproveitaram a guerra da Ucr\u00e2nia e as disposi\u00e7\u00f5es e projetos de lei de ajuda militar para reativar suas linhas de produ\u00e7\u00e3o, que agora est\u00e3o refor\u00e7adas pela concorr\u00eancia com a China. Desde o in\u00edcio da guerra na Ucr\u00e2nia, os Estados Unidos j\u00e1 duplicaram sua produ\u00e7\u00e3o de proj\u00e9teis de artilharia de 155 mm, com o objetivo de alcan\u00e7ar 100 000 proj\u00e9teis por m\u00eas at\u00e9 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>No obstante, a r\u00e1pida expans\u00e3o militar da China, em particular seu poderio naval, questionou a vantagem estrat\u00e9gica dos Estados Unidos, especialmente em poss\u00edveis conflitos relacionados a Taiwan. A China est\u00e1 ampliando rapidamente sua for\u00e7a naval e aspira a contar com uma frota maior que a dos Estados Unidos. E este \u00faltimo n\u00e3o pode acompanhar o ritmo devido \u00e0 ampla capacidade dos estaleiros chineses, que supera com folga a dos Estados Unidos: Segundo o Pent\u00e1gono, a China tem a previs\u00e3o de alcan\u00e7ar uma frota de 400 navios em 2025 e de 440 em 2030, enquanto o Plano de Navega\u00e7\u00e3o 2022 da Marinha dos Estados Unidos \u00e9 alcan\u00e7ar os 350 navios tripulados\u2026 \u00a1em 2045!<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, o imperialismo norte-americano est\u00e1 \u00abrecrutando e comprometendo\u00bb ativamente apoiadores regionais para desempenhar esse papel contrarrevolucion\u00e1rio. Isso passa por uma relocaliza\u00e7\u00e3o do papel da R\u00fassia de Putin, a qual Trump quer deslocar de seu bloco com a China. Da\u00ed sua mudan\u00e7a de postura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia e toda a batalha que trava para que a Europa mude de postura frente \u00e0 R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo sentido, Trump exige ao imperialismo europeu um aumento dos investimentos militares (para 5% do or\u00e7amento) para aliviar a carga da OTAN sobre os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>No Oriente M\u00e9dio, Trump aposta no papel regional contrarrevolucion\u00e1rio de Israel e, paralelamente, no da Turquia, Egito e as monarquias do Golfo.<\/p>\n\n\n\n<p>E tamb\u00e9m, o que \u00e9 muito importante, os acordos de Abra\u00e3o, que permitiriam a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Ar\u00e1bia Saudita e outros pa\u00edses da regi\u00e3o com Israel, al\u00e9m dos j\u00e1 assinados, como os dos Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso poderia ser uma barreira para o avan\u00e7o econ\u00f4mico da China, que hoje em dia j\u00e1 \u00e9 o principal exportador para Israel e, provavelmente, para os principais pa\u00edses do Golfo. Al\u00e9m disso, fortaleceria uma nova alian\u00e7a contrarrevolucion\u00e1ria para Trump.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Press\u00e3o ou sabotagem \u00e0 Uni\u00e3o Europeia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste novo ordenamento mundial, a Europa ficou relegada, sem poder aparecer como um bloco econ\u00f4mico e pol\u00edtico pr\u00f3prio nem como um parceiro em igualdade de condi\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos dentro da OTAN. Isso se deve em parte ao decl\u00ednio econ\u00f4mico da regi\u00e3o. Segundo o economista Michael Roberts, \u00abespera-se que o crescimento da zona do euro desacelere em 0,2 pontos percentuais no pr\u00f3ximo ano, situando-se em 1,2 % em 2026\u00bb. Isso est\u00e1 muito abaixo do crescimento do PIB mundial, estimado em torno de 2,6 %. O imperialismo europeu est\u00e1 perdendo rapidamente os \u00faltimos vest\u00edgios de suas posses coloniais formais, especialmente na \u00c1frica, o que deixa mais territ\u00f3rio em jogo na nova luta interimperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra da Ucr\u00e2nia, iniciada em 2022, mostrou que, atualmente, a capacidade da Europa para se defender da R\u00fassia \u00e9 muito mais fraca do que antes. Os Estados Unidos negociam diretamente com Putin a divis\u00e3o da Ucr\u00e2nia e, ao conceder a Putin a manuten\u00e7\u00e3o de sua esfera de influ\u00eancia, deixa a Europa em sua posi\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel desde a Segunda Guerra Mundial. Hoje em dia, a R\u00fassia realiza a\u00e7\u00f5es militares de &#8220;sabotagem&#8221; limitadas na Europa com um alcance sem precedentes, sem que tenha havido quase nenhuma resposta europeia, exceto a tentativa dos pa\u00edses da UE de melhorar sua postura defensiva por meio de um maior gasto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que, como aponta o analista socialista Michael Probsting, o objetivo de Trump seja \u201cdestruir a Uni\u00e3o Europeia e instalar governos pr\u00f3-americanos nos Estados europeus\u201d, utilizando \u201cuma ret\u00f3rica chauvinista de direita sobre os \u00abperigos\u00bb da migra\u00e7\u00e3o e a defesa das \u00abna\u00e7\u00f5es soberanas\u00bb frente \u00e0s \u00abinstitui\u00e7\u00f5es transnacionais\u00bb\u201d. \u00c9 certo que se a UE colapsar, os Estados nacionais ter\u00e3o que tratar com os Estados Unidos \u201cde forma individual, ou seja, a partir de uma posi\u00e7\u00e3o negociadora mais fraca\u201d, e embora \u201csendo realistas, os Estados Unidos n\u00e3o podem esperar transformar todos os Estados europeus em vassalos, esperam conseguir isso pelo menos com v\u00e1rios pa\u00edses\u201d, \u00c1ustria, Hungria, It\u00e1lia ou Pol\u00f4nia \u2013 mencionados na vers\u00e3o ampliada do NSS. Embora essa possibilidade n\u00e3o possa ser descartada, o futuro da UE ainda est\u00e1 por ser decidido.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo caso, o que est\u00e1 claro \u00e9 que os EUA j\u00e1 n\u00e3o contam com a Europa como seu principal parceiro. A NSS e sua vers\u00e3o mais extensa, ainda n\u00e3o publicada, apontam para a cria\u00e7\u00e3o ou revitaliza\u00e7\u00e3o de diversos organismos multilaterais de coordena\u00e7\u00e3o. Isso inclui a ideia de criar uma coaliz\u00e3o \u00abCore 5\u00bb (C5) integrada pelos Estados Unidos, China, R\u00fassia, \u00cdndia e Jap\u00e3o. A ideia da C5 indica que os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o querem governar o mundo junto com a UE. A classe dirigente americana v\u00ea cada vez mais a UE como um obst\u00e1culo para reordenar as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas com a R\u00fassia e a China, cada uma em sua esfera de influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Este declive da Europa o torna expl\u00edcito o documento de Seguran\u00e7a Nacional, que lhe acrescenta um interessado verniz ideol\u00f3gico, o da j\u00e1 conhecida \u201cguerra de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abA Europa continental tem perdido participa\u00e7\u00e3o no PIB mundial \u2014de 25% em 1990 para 14% atualmente\u2014 devido, em parte, \u00e0s regulamenta\u00e7\u00f5es nacionais e transnacionais que minam a criatividade e a laboriosidade. Mas esse decl\u00ednio econ\u00f4mico \u00e9 eclipsado pela perspectiva real e mais crua da desaparecimento da civiliza\u00e7\u00e3o. Entre os problemas mais importantes que a Europa enfrenta est\u00e3o as atividades da Uni\u00e3o Europeia e de outros organismos transnacionais que minam a liberdade pol\u00edtica e a soberania, as pol\u00edticas migrat\u00f3rias que est\u00e3o transformando o continente e criando conflitos, a censura da liberdade de express\u00e3o e a repress\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a queda da natalidade e a perda da identidade nacional e da confian\u00e7a em si mesma\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, a decad\u00eancia europeia \u00e9 um fato e sua origem reside na Uni\u00e3o Europeia e nos governos de democracia liberal, que questionam a extrema direita. O imperialismo norte-americano n\u00e3o pode agir da mesma maneira com os pa\u00edses imperialistas europeus que com os sul-americanos. Mas explicitamente busca fazer explodir a UE para poder negociar pa\u00eds por pa\u00eds e apoia abertamente os movimentos de extrema direita europeus. Para isso, a luta contra os imigrantes desempenha um papel importante, bandeira pol\u00edtica fundamental da extrema direita europeia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As consequ\u00eancias sobre a luta de classes mundial. A polariza\u00e7\u00e3o aumentar\u00e1 ainda mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que um governo de extrema direita no poder do pa\u00eds mais poderoso do planeta, armado com esta estrat\u00e9gia, causar\u00e1 repercuss\u00f5es importantes e brutais em todo o mundo. A press\u00e3o econ\u00f4mica, os recursos militares, a influ\u00eancia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica se manifestar\u00e3o com dureza em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se enganam aqueles que tiram conclus\u00f5es unilaterais sobre a aplica\u00e7\u00e3o desta estrat\u00e9gia. Mesmo com todo o poderio estadunidense, n\u00e3o consegue superar sua decad\u00eancia com medidas extraecon\u00f4micas como a guerra tarif\u00e1ria. Ou avan\u00e7a no dom\u00ednio e na extens\u00e3o da IA e outras tecnologias de ponta, ou aprofunda sua decad\u00eancia e favorece ainda mais a China.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo ocorre com a luta de classes. A enorme polariza\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica, produto da aplica\u00e7\u00e3o desta estrat\u00e9gia, provocar\u00e1 tamb\u00e9m uma polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cada vez maior e uma acentua\u00e7\u00e3o da luta de classes. A invas\u00e3o da Venezuela, que pode ser apenas a primeira de uma s\u00e9rie, aponta na mesma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A ofensiva genocida de Israel contra Gaza provocou um aumento hist\u00f3rico do apoio \u00e0 luta palestina em todo o mundo, o que at\u00e9 mesmo provocou pela primeira vez fen\u00f4menos como a greve geral na It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o mundo est\u00e3o surgindo mobiliza\u00e7\u00f5es que chegam a explos\u00f5es populares, como as ocorridas no Sri Lanka, Bangladesh e Nepal, que apontam nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive nos Estados Unidos, as gigantescas mobiliza\u00e7\u00f5es \u00abNo Kings\u00bb contra Trump, assim como suas derrotas eleitorais na cidade de Nova York e em outros estados, demonstram que essa polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e1 aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p>Podem voltar a ocorrer grandes ascensos revolucion\u00e1rios na Am\u00e9rica Latina, como em 2018 e 2019, que podem gerar confrontos diretos n\u00e3o apenas com os governos burgueses da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m com Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo come\u00e7a a surgir uma efervesc\u00eancia na vanguarda que d\u00e1 lugar ao crescimento do espa\u00e7o para programas revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Como dizia Moreno, \u00abo imperialismo n\u00e3o faz o que quer, mas o que pode\u00bb. E as a\u00e7\u00f5es do imperialismo norte-americano, guiadas por esta estrat\u00e9gia, podem provocar novas convuls\u00f5es na luta de classes a n\u00edvel mundial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O final de 2025 trouxe consigo tr\u00eas importantes documentos estrat\u00e9gicos redigidos pelos planejadores do imperialismo estadunidense. 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