{"id":82133,"date":"2026-02-05T14:38:13","date_gmt":"2026-02-05T14:38:13","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82133"},"modified":"2026-02-05T14:44:37","modified_gmt":"2026-02-05T14:44:37","slug":"o-narcotrafico-e-um-negocio-capitalista-conveniente-para-a-intervencao-imperialista-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/02\/05\/o-narcotrafico-e-um-negocio-capitalista-conveniente-para-a-intervencao-imperialista-2\/","title":{"rendered":"O narcotr\u00e1fico \u00e9 um neg\u00f3cio capitalista e pretexto para a interven\u00e7\u00e3o imperialista"},"content":{"rendered":"\n<p>Que Trump e a extrema direita colombiana, o uribismo, coincidam na pol\u00edtica antidrogas de repress\u00e3o militar, erradica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de cultivos il\u00edcitos e defesa da \u201ccoopera\u00e7\u00e3o\u201d entre Estados Unidos e Col\u00f4mbia n\u00e3o \u00e9 casual; o que os une \u00e9 a defesa, n\u00e3o declarada, do car\u00e1ter ilegal do neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico, pois significam os ganhos de uma economia que representam 7% do PIB mundial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 o narcotr\u00e1fico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de seus efeitos adversos na sa\u00fade, os narc\u00f3ticos s\u00e3o mercadorias, valores de troca; ou seja, algo produzido para o mercado. Assim como um par de t\u00eanis \u00e9 uma mercadoria porque \u00e9 produzido para o mercado, para troc\u00e1-lo por outra mercadoria: o dinheiro. Ent\u00e3o, o narcotr\u00e1fico \u00e9 um neg\u00f3cio capitalista, mas ilegal, o que permite que seja um dos mais rent\u00e1veis, porque produz ganhos extraordin\u00e1rios. Tamb\u00e9m serve como pretexto para a interven\u00e7\u00e3o imperialista em pa\u00edses produtores como a Col\u00f4mbia. Isso n\u00e3o acontece, por exemplo, com o tabaco e o \u00e1lcool, que s\u00e3o mercadorias legais, apesar de tamb\u00e9m terem efeitos prejudiciais \u00e0 sa\u00fade humana.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios setores da burguesia se beneficiam deste neg\u00f3cio. No caso da Col\u00f4mbia, a pr\u00f3pria burguesia narcotraficante, pecuarista e latifundi\u00e1ria. Al\u00e9m dos bancos e empresas que lavam o dinheiro do neg\u00f3cio, a burguesia da ind\u00fastria militar que produz armas para a guerra que origina essa economia, os \u201crespeitados\u201d capitalistas que se encarregam dos insumos, incluindo as f\u00e1bricas de glifosato para fumigar a folha de coca, supostamente para erradic\u00e1-la. No M\u00e9xico, pa\u00eds produtor de fentanilo, ganham os capitalistas dos cart\u00e9is, enquanto que na China ganham os capitalistas desse pa\u00eds pela produ\u00e7\u00e3o de insumos, tanto para o fentanilo quanto para a coca\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p>Como todo neg\u00f3cio capitalista, o narcotr\u00e1fico conta com a prote\u00e7\u00e3o do Estado, embora de forma ilegal. Agentes de institui\u00e7\u00f5es como as for\u00e7as armadas, a pol\u00edcia e os funcion\u00e1rios de aduanas e avia\u00e7\u00e3o (Aerocivil na Col\u00f4mbia), entre outros, garantem o neg\u00f3cio. Um exemplo muito conhecido \u00e9 o relacionado com as acusa\u00e7\u00f5es contra \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez quando foi diretor da Aerocivil (1980-1982), que aprovou licen\u00e7as para rotas a\u00e9reas do narcotr\u00e1fico do Cartel de Medell\u00edn, licen\u00e7as que depois foram revogadas pelo ministro da Justi\u00e7a, Rodrigo Lara Bonilla, assassinado precisamente por esse cartel do narcotr\u00e1fico, por ter desafiado os empres\u00e1rios que o compunham, cujo gerente e dono era Pablo Escobar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 crime ao qual n\u00e3o se me\u00e7a o capital<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quarterly Reviewer, autor an\u00f4nimo\u00a0de um artigo publicado em julho de 1826, na revista brit\u00e2nica\u00a0<em>The Quarterly Review<\/em>,\u00a0afirma que o capital \u00e9 capaz de cometer o crime que seja, desde que obtenha ganho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade: o capital se arrisca a cometer um crime, pequeno ou grande, de acordo com a taxa de lucro que promete a produ\u00e7\u00e3o de uma determinada mercadoria. Se a taxa de lucro \u00e9 de 10%, explorar\u00e1 os trabalhadores at\u00e9 tirar-lhes a sa\u00fade; mas, se for maior, por exemplo, 3.000%, que \u00e9 mais ou menos a taxa de lucro com a coca\u00edna, cometer\u00e1 crimes de \u201clesa humanidade\u201d como organizar grupos paramilitares para executar massacres; \u00e9 o caso pelo qual foi acusado Santiago Uribe, o irm\u00e3o do ex-presidente \u00c1lvaro Uribe, condenado recentemente a 28 anos de pris\u00e3o. Seu primo, Mario Uribe, tamb\u00e9m foi condenado a 7 anos de pris\u00e3o por acordos para delinquir agravado, por fazer pactos e alian\u00e7as com grupos paramilitares de ultradireita, concretamente com as Autodefesas Unidas de Col\u00f4mbia (AUC). Pode-se dizer que os Uribe t\u00eam sido empres\u00e1rios muito audazes, n\u00e3o simples empreendedores.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros crimes do capital s\u00e3o o contrabando, o tr\u00e1fico de pessoas, a especula\u00e7\u00e3o financeira, as fal\u00eancias fraudulentas e a corrup\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento dos estados, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos a cita\u00e7\u00e3o do Quarterly Reviewer sobre o tema:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO capital foge dos tumultos e das brigas, e \u00e9 t\u00edmido por natureza. Isso \u00e9 verdade, mas n\u00e3o toda a verdade. O capital tem horror \u00e0 aus\u00eancia de lucro ou a um lucro muito pequeno, como a natureza tem horror ao vazio. Conforme aumenta o lucro, o capital se encoraja. Assegure-se um 10% e ele ir\u00e1 aonde for; um 20% e j\u00e1 se sentir\u00e1 animado; com um 50%, positivamente temer\u00e1rio; ao 100%, \u00e9 capaz de saltar por cima de todas as leis humanas; ao 300%, e n\u00e3o h\u00e1 crime ao qual n\u00e3o se arrisque, mesmo que sofra o pat\u00edbulo. Se o tumulto e as brigas significam lucro, l\u00e1 estar\u00e1 o capital incitando-os. Prova: o contrabando e o tr\u00e1fico de escravos\u201d. (P. J. Dunning, Trade Unions, etc., p. 36. Citado por Karl Marx em\u00a0<em>O Capital<\/em>, cap\u00edtulo XXIV.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o capitalismo, que os neg\u00f3cios sejam legais ou ilegais \u00e9 irrelevante. Este sistema s\u00f3 tem uma moral: a que rege o lucro. Vale tudo se for \u00fatil para obter lucro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o social e apropria\u00e7\u00e3o privada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No capitalismo existe a seguinte contradi\u00e7\u00e3o: produ\u00e7\u00e3o social, por um lado, e, por outro, apropria\u00e7\u00e3o privada da riqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os \u00e9 social porque envolve a coopera\u00e7\u00e3o em grande escala entre trabalhadores de todo o mundo e o conhecimento cient\u00edfico e a tecnologia, que s\u00e3o produtos do desenvolvimento social e hist\u00f3rico coletivo da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesar de que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 um esfor\u00e7o coletivo e social, os meios de produ\u00e7\u00e3o (f\u00e1bricas, m\u00e1quinas e capital) s\u00e3o propriedade de uma classe social minorit\u00e1ria: a classe capitalista, com suas empresas privadas. Por isso, a mais-valia gerada pela for\u00e7a de trabalho dos trabalhadores, convertida em lucro, \u00e9 apropriada pelos propriet\u00e1rios privados; n\u00e3o pela coletividade de trabalhadores que a produziu.&nbsp;No caso dos narc\u00f3ticos n\u00e3o \u00e9 diferente, porque, como j\u00e1 foi dito, esses produtos s\u00e3o simples mercadorias, apenas t\u00eam um car\u00e1ter ilegal que potencializa seu n\u00edvel de lucro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O mercado da coca\u00edna<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o mundial de coca\u00edna, que em 2024 foi de 3.708 toneladas, se sustenta em mat\u00e9rias-primas como a folha de coca cultivada pela Col\u00f4mbia com 230.000 hectares semeados, pelo Peru com 95.000 hectares e pela Bol\u00edvia com 30.000 hectares, al\u00e9m de insumos qu\u00edmicos como permanganato de pot\u00e1ssio (usado para purificar a pasta de coca), acetona, \u00e1cido sulf\u00farico, \u00e1cido clor\u00eddrico e \u00e9ter, produzidos, em primeiro lugar, pela China; seguem-se a \u00cdndia, a Alemanha e os Estados Unidos.&nbsp;<em>Isso \u00e9 produ\u00e7\u00e3o social<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O pre\u00e7o do quilo de folha de coca que pagam a um campon\u00eas na Col\u00f4mbia \u00e9 de 50 centavos de d\u00f3lar; o quilo de pasta base de coca\u00edna vale cerca de 500 d\u00f3lares; o quilo de coca\u00edna na Col\u00f4mbia vale cerca de 5.000 d\u00f3lares, mas esse quilo nos Estados Unidos ou na Europa pode chegar at\u00e9 39.000 d\u00f3lares. Essa rentabilidade \u00e9 o segredo de todos os crimes na Col\u00f4mbia e no mundo, no mercado da coca\u00edna. Agora, o lucro do fentanilo \u00e9, de longe, muito maior.&nbsp;<em>A apropria\u00e7\u00e3o desse lucro \u00e9 privada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O mercado do fentanilo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O maior produtor de fentanilo para vend\u00ea-lo como narc\u00f3tico \u00e9 o M\u00e9xico, cujos empres\u00e1rios est\u00e3o organizados no Cartel Jalisco Nova Gera\u00e7\u00e3o (CJNG) e no Cartel de Sinaloa, dos filhos do Chapo Guzm\u00e1n, destacado empres\u00e1rio mexicano de diversas drogas psicoativas, que atualmente cumpre uma condena\u00e7\u00e3o de pris\u00e3o perp\u00e9tua na pris\u00e3o federal ADX Florence, no Colorado, Estados Unidos, por exportar sua \u201cvaliosa\u201d mercadoria para esse pa\u00eds. Hoje, a maior parte do fentanilo que chega aos Estados Unidos entra pela fronteira norte do M\u00e9xico, deixando nos Estados Unidos cerca de 100 mil mortos por ano devido a overdoses. Quanto \u00e0 mat\u00e9ria-prima (precursores), o pa\u00eds produtor \u00e9 a China.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hero\u00edna e \u00f3pio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o se centra em duas zonas: o \u201cTri\u00e2ngulo Dourado\u201d, no sudeste asi\u00e1tico, e a Crescente Dourada, ou Meia Lua Dourada, na \u00c1sia Central. Os principais pa\u00edses produtores s\u00e3o: Mianmar (Myanmar), Afeganist\u00e3o e M\u00e9xico. Como no caso da coca\u00edna e do fentanilo, o principal pa\u00eds produtor de precursores \u00e9 a China.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Drogas e Crime (ONUDD) estima que o total de receitas provenientes do com\u00e9rcio de \u00f3pio e hero\u00edna est\u00e1 entre 2.800 e 3.400 milh\u00f5es de d\u00f3lares anuais, com base em dados de alguns anos atr\u00e1s. \u00c9 importante ter em mente que os n\u00fameros podem variar consideravelmente e que as estimativas recentes s\u00e3o dif\u00edceis de determinar com certeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Europa, o valor anual do mercado varejista de hero\u00edna foi estimado em pelo menos 5,2 bilh\u00f5es de euros em 2021\u201d (Google.com, modo IA).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A proibi\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fatil para os capitalistas, n\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA discuss\u00e3o sobre a legalidade ou ilegalidade das drogas \u00e9 t\u00e3o antiga quanto a exist\u00eancia das mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste terreno, os fatos econ\u00f4micos e sociais, como sempre, t\u00eam ganhado espa\u00e7o sobre a lei e o direito. Ao longo da hist\u00f3ria, diferentes tipos de subst\u00e2ncias foram consideradas medicamentos ou consumidas socialmente, para depois serem proibidas e ilegalizadas; e vice-versa, subst\u00e2ncias \u201cilegais\u201d passam a ser legais e aceitas socialmente. O que ontem era considerado drogas ou subst\u00e2ncias ilegais ou prejudiciais para o corpo humano e para a sociedade se imp\u00f4s de fato e depois foram sendo legalizadas: o tabaco, o \u00e1lcool, os estimulantes, os calmantes, etc. Antes de um problema moral ou legal, o que existe \u00e9 uma disputa para impor um \u201cnovo\u201d produto e controlar sua produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e consumo. O capitalista n\u00e3o distingue entre o que \u00e9 moral ou imoral, legal ou ilegal, prejudicial ou n\u00e3o prejudicial; ele apenas sabe distinguir com muita precis\u00e3o entre o que d\u00e1 pouco lucro e o que d\u00e1 muito lucro.<\/p>\n\n\n\n<p>No terreno das express\u00f5es pol\u00edticas e militares deste fen\u00f4meno, tamb\u00e9m se expressa a \u201cmoral\u201d imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o imperialismo norte-americano s\u00f3 est\u00e1 permitido o que favore\u00e7a sua seguran\u00e7a nacional e, portanto, o saque econ\u00f4mico e a domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos pa\u00edses semicoloniais. Exige de pa\u00edses como Col\u00f4mbia, Peru, M\u00e9xico e Bol\u00edvia que ilegalizem o cultivo de maconha e de folhas de coca, e que reprimam a sangue e fogo o narcotr\u00e1fico. Mas em outras regi\u00f5es e pa\u00edses deixam correr essas atividades e at\u00e9 as utilizam em benef\u00edcio de seus objetivos estrat\u00e9gicos\u201d. (Luis Herrera,&nbsp;<em>Narcotr\u00e1fico, lucrativo neg\u00f3cio capitalista, pretexto para a interven\u00e7\u00e3o imperialista<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o do consumo de \u00e1lcool conta com a&nbsp;<em>Lei Seca nos Estados Unidos<\/em>&nbsp;(1920-1933) como uma de suas refer\u00eancias mais conhecidas, que se replicou em outros pa\u00edses.&nbsp;Essa lei proibiu a fabrica\u00e7\u00e3o, a venda e o transporte de bebidas alco\u00f3licas. Em 1933&nbsp;foi revogada precisamente porque n\u00e3o funcionou, o que originou um auge do crime organizado, com Al Capone como um de seus chefes mais destacados.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Col\u00f4mbia, onde a burguesia nacional tem como modelo ideal o capitalismo norte-americano, fez algo parecido com a chicha, uma bebida ancestral ind\u00edgena fermentada cuja mat\u00e9ria-prima \u00e9 o milho. Proibiu-se sua produ\u00e7\u00e3o e venda por meio do\u00a0Decreto 1839 de 1948\u00a0e da\u00a0Lei 34 de 1949.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua proibi\u00e7\u00e3o foi orquestrada para que n\u00e3o competisse com a cerveja produzida pela f\u00e1brica Bavaria, propriedade do capitalista Julio Mario Santodomingo, que queria o monop\u00f3lio das bebidas alco\u00f3licas. Mas a chicha n\u00e3o, por proibi-la, deixou de ser produzida e consumida. Agora n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 permitida, como em Bogot\u00e1 se celebra todo ano um festival da chicha no tradicional bairro La Perseverancia, no centro da cidade, sob o patroc\u00ednio do governo local.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a coca\u00edna na Col\u00f4mbia e em outros pa\u00edses aconteceu o mesmo que com a proibi\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool nos Estados Unidos: potencializou-se o crime organizado e surgiram muitos Al Capone, como Pablo Escobar, os irm\u00e3os Rodr\u00edguez Orejuela, os Ochoa, Carlos Ledher e Gonzalo Rodr\u00edguez Gacha, para n\u00e3o falar dos legais, porque se denuncia que a m\u00e1fia da coca\u00edna teve senadores, deputados (entre eles o pr\u00f3prio Pablo Escobar) e o ex-presidente \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, com m\u00faltiplas den\u00fancias de rela\u00e7\u00f5es com o narcotr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma prova a mais de que a pol\u00edtica antidrogas do imperialismo norte-americano \u00e9 apenas um pretexto para intervir militarmente \u00e9 o indulto e a liberta\u00e7\u00e3o que Trump concedeu no dia 2 de dezembro ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hern\u00e1ndez, de uma pris\u00e3o nos Estados Unidos. Hern\u00e1ndez havia sido condenado a 45 anos de pris\u00e3o em 2024 por crimes de narcotr\u00e1fico e posse de armas, e por ter sido culpado de importar centenas de toneladas de coca\u00edna para os Estados Unidos. Este narcotraficante \u00e9 indultado porque tem afinidades pol\u00edticas com ele e, no governo passado de Trump, foi seu capacho; no entanto, acusa Maduro e Petro de serem narcotraficantes, sabendo que n\u00e3o s\u00e3o, apenas como pretexto para a interven\u00e7\u00e3o nesses dois pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O narcotr\u00e1fico e o conflito armado na Col\u00f4mbia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, setores da burguesia na Col\u00f4mbia escolheram atalhos para enriquecer-se, usufruindo de m\u00faltiplos neg\u00f3cios ilegais, como o contrabando e depois o narcotr\u00e1fico. O peso desses neg\u00f3cios ilegais atuou como um colch\u00e3o para a economia colombiana, permitindo-lhe contornar situa\u00e7\u00f5es de recess\u00e3o e crise econ\u00f4mica. As rendas ilegais permeavam todas as ramifica\u00e7\u00f5es da economia e da sociedade, gerando viol\u00eancia cr\u00f4nica na Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, burgueses contrabandistas ou narcotraficantes, recorrem \u00e0s armas para proteger e defender seu neg\u00f3cio, e por outro, os aparelhos militares protagonistas da viol\u00eancia na Col\u00f4mbia, foram permeados pelas rendas dos neg\u00f3cios ilegais, seja pela via de \u201cvacinas\u201d ou impostos sobre os neg\u00f3cios, o controle dos territ\u00f3rios e rotas, ou diretamente a participa\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio na produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de narc\u00f3ticos. O poder do narcotr\u00e1fico tem sido t\u00e3o forte que penetrou profundamente no ex\u00e9rcito e na pol\u00edcia, e, no caso das guerrilhas, as transformou de organiza\u00e7\u00f5es com programa pequeno-burgu\u00eas reformista em ex\u00e9rcitos a servi\u00e7o do neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o boom do tr\u00e1fico de maconha nos anos 70 e o auge da coca\u00edna na d\u00e9cada de 80, a burguesia narcotraficante organizou grupos armados de paramilitares para monopolizar o neg\u00f3cio, expropriar dos camponeses suas terras e desmatar, com o argumento de que esses grupos serviam para enfrentar a insurg\u00eancia guerrilheira. \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez \u00e9 um dos patrocinadores desses grupos armados. Quando foi governador do departamento de Antioquia, legalizou grupos paramilitares sob o nome de Associa\u00e7\u00f5es Comunit\u00e1rias de Vigil\u00e2ncia Rural e Urbana (Convivir) nos governos de C\u00e9sar Gaviria e Ernesto Samper, por meio do Decreto Lei 356 de 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, um setor da guerrilha mao\u00edsta, o Ex\u00e9rcito Popular de Liberta\u00e7\u00e3o (EPL), que se desmobilizou em 1991, passou para as fileiras do paramilitarismo para se incorporar ao neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico e apoiar os latifundi\u00e1rios e pecuaristas. V\u00e1rios dos principais comandantes dessa guerrilha passaram a ser chefes do narcotr\u00e1fico; um deles, Dairo Antonio \u00dasuga (apelido Otoniel), se tornou o chefe do grupo paramilitar e narcotraficante \u201cLos Urabe\u00f1os\u201d, que depois mudou de nome para Clan del Golfo e hoje \u00e9 um dos grupos armados de direita mais grandes, com entre 7.000 e 14.000 paramilitares em suas fileiras. Atualmente, as dissid\u00eancias das Farc e do ELN s\u00e3o acusadas de tamb\u00e9m estarem no neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico, mas essas guerrilhas negaram.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse contexto que o governo de Petro tem impulsionado sua pol\u00edtica de paz total, que inclui tanto as organiza\u00e7\u00f5es que se reivindicam guerrilheiras quanto as que se reivindicam paramilitares, e no \u00e2mbito da qual foram realizados bombardeios nos quais morreram menores de idade recrutados pelos grupos armados. As mortes dessas crian\u00e7as geraram rejei\u00e7\u00e3o tanto da esquerda quanto, de maneira oportunista, da direita.<\/p>\n\n\n\n<p>O paramilitarismo tem sido utilizado n\u00e3o apenas pela burguesia narcotraficante, mas tamb\u00e9m pela burguesia propriet\u00e1ria de terras e pecuarista para deslocar o campesinato pobre e expropri\u00e1-lo de suas terras, em uma superf\u00edcie que supera os sete milh\u00f5es de hectares. Assim, pode-se dizer que hoje existe uma burguesia narcotraficante, propriet\u00e1ria de terras e pecuarista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua parte, a burguesia industrial e as multinacionais tamb\u00e9m t\u00eam utilizado o paramilitarismo para assassinar dirigentes sindicais, enfraquecer os sindicatos e a luta dos trabalhadores, e assim defender seus interesses, financiando os grupos paramilitares. Apenas dois exemplos: a multinacional bananeira Chiquita Brands foi sancionada e declarada respons\u00e1vel por financiar as Autodefensas Unidas de Colombia (AUC), organiza\u00e7\u00e3o hipocritamente apontada pelo governo norte-americano como organiza\u00e7\u00e3o terrorista. Al\u00e9m disso, a Chiquita Brands foi multada em 38,3 milh\u00f5es de d\u00f3lares para indenizar 16 familiares de v\u00edtimas assassinadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro caso \u00e9 a Coca-Cola, que, embora n\u00e3o tenha sido sancionada porque a justi\u00e7a norte-americana diz que n\u00e3o h\u00e1 provas que demonstrem que sua sede matriz em Atlanta esteja envolvida; no entanto, os diretores dessa empresa na Col\u00f4mbia foram acusados de financiar grupos paramilitares para assassinar dirigentes sindicais nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000. Mas neste caso, a justi\u00e7a colombiana tamb\u00e9m n\u00e3o julga nem pune porque, como se sabe, defende os interesses dos empres\u00e1rios, n\u00e3o os dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Legalizar o neg\u00f3cio e assumir a adi\u00e7\u00e3o como um problema de sa\u00fade p\u00fablica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns setores da pr\u00f3pria burguesia que defendem a legaliza\u00e7\u00e3o das drogas porque ficou demonstrado que a repress\u00e3o e o proibicionismo falharam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que com a legaliza\u00e7\u00e3o se elimina o car\u00e1ter ilegal dos imensos ganhos que s\u00e3o repartidos entre a burguesia narcotraficante, os bancos lavadores de dinheiro e os funcion\u00e1rios corruptos, al\u00e9m de tirar o pretexto do imperialismo para sua interven\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses produtores e na periferia, como est\u00e1 fazendo atualmente o governo de Trump com sua m\u00e1quina de guerra no Caribe e nas costas da Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde um ponto de vista oper\u00e1rio, o problema do narcotr\u00e1fico deve ser resolvido entendendo a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de narc\u00f3ticos como um ramo da economia, que, como o \u00e1lcool, \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica, j\u00e1 que seus efeitos s\u00e3o utilizados por milh\u00f5es como uma via de escape da aliena\u00e7\u00e3o capitalista e da decad\u00eancia da sociedade. Portanto, uma solu\u00e7\u00e3o de fundo n\u00e3o est\u00e1 na proibi\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias, das plantas, das planta\u00e7\u00f5es ou dos camponeses e trabalhadores que sobrevivem de sua produ\u00e7\u00e3o, mas sim no combate aos burgueses donos do neg\u00f3cio, ao car\u00e1ter ilegal que multiplica seus ganhos e ao problema social do consumo.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta contra o fen\u00f4meno do narcotr\u00e1fico est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 luta contra o capitalismo e \u00e0 luta pela revolu\u00e7\u00e3o socialista. No \u00e2mbito dessa luta estrat\u00e9gica, mesmo dentro da decadente sociedade atual, \u00e9 necess\u00e1rio e poss\u00edvel lutar por medidas urgentes que eliminem a distor\u00e7\u00e3o que o narcotr\u00e1fico representa para a economia e a luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Legaliza\u00e7\u00e3o sob controle estatal.<\/strong>\u00a0A primeira medida deve ser eliminar a fonte que torna o neg\u00f3cio rent\u00e1vel, ou seja, seu car\u00e1ter ilegal, e que passem a ser legais, como o \u00e1lcool e o tabaco. Em um processo de legaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a maconha. O Uruguai foi o primeiro pa\u00eds a legaliz\u00e1-la completamente em 2013; o Canad\u00e1 a legalizou em 2018, Malta em 2021 e Luxemburgo em 2023; na Alemanha foi legalizada parcialmente para consumo recreativo e autocultivo desde abril de 2024, permitindo a posse e o cultivo limitado, com venda atrav\u00e9s de clubes de cannabis prevista para mais adiante; no M\u00e9xico foi descriminalizado o uso recreativo para consumo pessoal, embora existam restri\u00e7\u00f5es para a venda comercial em grande escala, e nos Estados Unidos, a n\u00edvel federal \u00e9 ilegal, mas em v\u00e1rios estados foi legalizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as drogas devem ser legais, sob controle estatal e social, e assim eliminar o monop\u00f3lio do narcotr\u00e1fico. Portanto, no caso da coca\u00edna e da maconha na Col\u00f4mbia, deve-se legalizar sua produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e consumo.<\/p>\n\n\n\n<p>Legalizar as drogas n\u00e3o significa que recomendamos seu consumo; pelo contr\u00e1rio, estamos a favor de que se desenvolvam campanhas contra o consumo aditivo, com a sustenta\u00e7\u00e3o de que, como com todas as drogas, se o consumidor se torna viciado, isso prejudica sua sa\u00fade. Por isso, a legaliza\u00e7\u00e3o implica v\u00e1rias medidas:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Luta&nbsp;<\/strong>contra a interven\u00e7\u00e3o e a militariza\u00e7\u00e3o \u201cantidrogas\u201d do imperialismo norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Controle oper\u00e1rio<\/strong>&nbsp;de laborat\u00f3rios farmac\u00eauticos, portos, zonas francas e o sistema financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Expropria\u00e7\u00e3o sem indeniza\u00e7\u00e3o<\/strong>&nbsp;dos bens do narcotr\u00e1fico e das empresas envolvidas na lavagem de dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Despenalizar o consumo.<\/strong>&nbsp;A criminaliza\u00e7\u00e3o se concentra em atacar os consumidores e os pequenos distribuidores, enquanto os grandes chefes contam com impunidade e a colabora\u00e7\u00e3o de agentes das institui\u00e7\u00f5es do Estado. Isso permitir\u00e1 reduzir a viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o e os homic\u00eddios relacionados a esse neg\u00f3cio il\u00edcito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Campanhas de sa\u00fade p\u00fablica<\/strong>&nbsp;para enfrentar a adi\u00e7\u00e3o, garantindo atendimento e planos de reabilita\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o dependente de todas as drogas, incluindo o \u00e1lcool. Com um mercado regulado que permita estabelecer controles de qualidade, pureza e dosagem, reduzindo o risco de overdose por adultera\u00e7\u00e3o ou por desconhecimento da pot\u00eancia da subst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Recursos para investimento social.<\/strong>&nbsp;Os destinados hoje \u00e0 \u201cguerra contra as drogas\u201d podem ser direcionados para o investimento social por meio de programas de preven\u00e7\u00e3o e tratamento para a popula\u00e7\u00e3o dependente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Acesso a tratamento m\u00e9dico sem estigma,&nbsp;<\/strong>valorizando o consumo de drogas como uma quest\u00e3o de sa\u00fade e n\u00e3o de justi\u00e7a penal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que Trump e a extrema direita colombiana, o uribismo, coincidam na pol\u00edtica antidrogas de repress\u00e3o militar, erradica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de cultivos il\u00edcitos e defesa da \u201ccoopera\u00e7\u00e3o\u201d entre Estados Unidos e Col\u00f4mbia n\u00e3o \u00e9 casual; o que os une \u00e9 a defesa, n\u00e3o declarada, do car\u00e1ter ilegal do neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico, pois significam os ganhos de uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":82135,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Fernando Graco \/ PST - Col\u00f4mbia","footnotes":""},"categories":[4280],"tags":[9432],"class_list":["post-82133","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-correio-internacional","tag-ci28"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Trafico-e-negocio.jpeg","categories_names":["Correio Internacional"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Fernando Graco \/ PST - Col\u00f4mbia","tagline":"A luta contra o narcotr\u00e1fico \u00e9 tamb\u00e9m uma luta contra a l\u00f3gica capitalista de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o.","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82133"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82133\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82138,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82133\/revisions\/82138"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}