{"id":82114,"date":"2026-02-05T19:55:54","date_gmt":"2026-02-05T19:55:54","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82114"},"modified":"2026-02-09T21:28:51","modified_gmt":"2026-02-09T21:28:51","slug":"uma-polemica-com-o-campismo-estalinista-de-breno-altman-sobre-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/02\/05\/uma-polemica-com-o-campismo-estalinista-de-breno-altman-sobre-venezuela\/","title":{"rendered":"Uma pol\u00eamica com o campismo estalinista de Breno Altman sobre Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p>A invas\u00e3o da Venezuela pelo imperialismo norte-americano e o sequestro de Nicol\u00e1s Maduro s\u00e3o hoje um dos temas centrais debatidos pela vanguarda a n\u00edvel mundial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O jornalista Breno Altman escreveu um artigo sobre o tema com o qual temos alguns acordos e muitas diferen\u00e7as. Gostar\u00edamos come\u00e7ar essa discuss\u00e3o pelos acordos, pelo respeito que temos por Altman. Embora, provavelmente, n\u00e3o fundamentemos esses acordos com os mesmos argumentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A invas\u00e3o imperialista tem de ser repudiada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A invas\u00e3o de Trump \u00e9 um ato criminoso, cometido pelo pa\u00eds imperialista mais poderoso do mundo contra um pa\u00eds semicolonial. A motiva\u00e7\u00e3o alegada \u2014 combate ao narcotr\u00e1fico &#8211; \u00e9 rid\u00edcula, e logo foi substitu\u00edda pela real motiva\u00e7\u00e3o: o controle do petr\u00f3leo venezuelano e a disputa com o imperialismo chin\u00eas. Trata-se de uma express\u00e3o da pol\u00edtica do documento de seguran\u00e7a estrat\u00e9gica dos EUA, como analisamos em outro artigo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa a\u00e7\u00e3o brutal de Trump pode despertar expectativas em setores das massas venezuelanas e latino-americanas em fun\u00e7\u00e3o do desgaste da ditadura de Maduro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, ao contr\u00e1rio dessas expectativas, essa interven\u00e7\u00e3o imperialista n\u00e3o trar\u00e1 liberdade \u00e0s massas venezuelanas. Todo o aparato repressivo venezuelano segue presente, e agora amplificado pela possibilidade de presen\u00e7a terrestre de tropas americanas. N\u00e3o existem mais liberdades hoje na Venezuela e nem sequer se apontam elei\u00e7\u00f5es livres no pa\u00eds. A imposi\u00e7\u00e3o imperialista, para garantir seus objetivos no petr\u00f3leo, implica manter a repress\u00e3o sobre o povo venezuelano.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de o regime de Maduro ter sido uma ditadura burguesa, odiada pelas massas, n\u00e3o muda nosso rep\u00fadio \u00e0 agress\u00e3o dos EUA, por se tratar de um ataque de um pa\u00eds imperialista contra um pa\u00eds semicolonial, a servi\u00e7o dos interesses norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tampouco as expectativas de melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de vida t\u00eam base na realidade.&nbsp; O imperialismo norte-americano est\u00e1 impondo, mundialmente, sal\u00e1rios cada vez mais baixos aos trabalhadores. N\u00e3o vai ser diferente na Venezuela. Nem sequer os investimentos propagandeados por Trump foram assumidos at\u00e9 agora pelas grandes empresas petroleiras, que exigem seguran\u00e7a estrat\u00e9gica para investir. E isso, ao menos at\u00e9 agora, n\u00e3o existe na Venezuela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio das expectativas, a invas\u00e3o imperialista para garantir o controle do petr\u00f3leo s\u00f3 vai trazer mais mis\u00e9ria e mais repress\u00e3o ao povo venezuelano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Houve ou n\u00e3o a facilita\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas nosso acordo com Breno Altman para a\u00ed, no rep\u00fadio a agress\u00e3o imperialista contra Venezuela. A partir da\u00ed v\u00eam as diferen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, Breno nega a realidade. Segundo ele, n\u00e3o houve facilita\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o dos EUA por parte de uma importante fac\u00e7\u00e3o do regime chavista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u201cDe um lado, a Venezuela chavista, agora sem seu m\u00e1ximo condutor, ficou emparedada pelas tropas norte-americanas, com sua imensa superioridade a\u00e9rea e naval, capazes de bloquear o pa\u00eds e feri-lo gravemente. De outro lado, os Estados Unidos demonstram enorme potencial de press\u00e3o externa, mas sem as cartas para derrotar estrategicamente o inimigo, que continua governando.\u201d<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o em equil\u00edbrio prec\u00e1rio, como \u00e9 evidente. At\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel entender, em seus modos err\u00e1ticos, o presidente norte-americano, aproveitando-se da vantagem atual, trata de exigir as mais brutais concess\u00f5es e de tentar desmoralizar o governo chavista, agora liderado pela&nbsp;<a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/conflito-eua-e-venezuela\/delcy-rodriguez-apresenta-ao-congresso-projeto-para-proteger-soberania-da-venezuela\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>presidente interina Delcy Rodr\u00edguez<\/strong><\/a>. Apresenta-o como um fantoche em suas m\u00e3os e alimenta os mais s\u00f3rdidos boatos de trai\u00e7\u00e3o do novo n\u00facleo dirigente a Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses rumores, despropositados, s\u00e3o repercutidos pela imprensa ocidental e seus aliados, na tentativa de levar \u00e0 lona o movimento criado por&nbsp;<a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/politica-e-economia\/depois-de-golpe-em-2002-hugo-chavez-consolidou-rumos-do-chavismo-e-abriu-caminho-para-governo-socialista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Hugo Ch\u00e1vez<\/strong><\/a>, contra o qual bateram armas por tantos anos \u2013 muitas vezes com a simpatia dos c\u00edrculos de esquerda influenciados por ideias liberais ou simplesmente enganados pela narrativa exalada desde os Estados Unidos e a Europa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que as For\u00e7as Armadas venezuelanas t\u00eam 120 mil soldados, que n\u00e3o entraram em combate contra a invas\u00e3o norte-americana. Possui um sistema de defesa a\u00e9rea apoiado em armas russas como os sistemas S-300 (com foguetes de alcance de 150 km, considerado o rival do Patriot norte-americano) e BUK-M2 (alcance a 40 km), al\u00e9m dos m\u00edsseis port\u00e1teis Pechora e Igla-S, que podem ser manejados por um soldado. Nada disso funcionou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Seguramente, a ineg\u00e1vel superioridade militar norte-americana e sua guerra tecnol\u00f3gica funcionaram. Mas somente isso n\u00e3o pode explicar como duzentos soldados dos EUA entraram na Venezuela, sequestraram Maduro em menos de tr\u00eas horas, sem sequer uma baixa. Mesmo a opera\u00e7\u00e3o de invas\u00e3o do Panam\u00e1 e sequestro de Noriega em 1989, implicou 13 dias de combate terrestre.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Como se explica isso, sem que se tenham entregado as for\u00e7as invasoras, os pontos cegos do sistema de defesa venezuelano e a exata localiza\u00e7\u00e3o de Maduro?<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade \u00e9 que todas as fontes, desde a imprensa burguesa, os ativistas independentes na Venezuela e at\u00e9 mesmo o pr\u00f3prio governo Trump, dizem que \u201cuma parte do governo venezuelano entregou Maduro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00fanica e \u00f3bvia exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio governo chavista e seus apoiadores a n\u00edvel internacional. Grande parte dos partidos comunistas faz parte desse coro, assim como figuras identificadas com o castrochavismo como Breno Altman. Uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos PC, o venezuelano, que tamb\u00e9m afirma que houve entrega.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O car\u00e1ter do governo Delci Rodrigues&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa discuss\u00e3o sobre a facilita\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o norte-americana n\u00e3o \u00e9 menor. E ela se liga diretamente ao car\u00e1ter do novo governo venezuelano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para surpresa de muitos, a vice-presidente Delci Rodrigues, uma vez empossada, prop\u00f4s uma &#8220;agenda de coopera\u00e7\u00e3o&#8221; com Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, Trump descreveu Delcy como \u201cuma pessoa formid\u00e1vel\u201d. \u201c\u00c9 algu\u00e9m com quem trabalhamos muito bem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para completar o quadro, Trump n\u00e3o apostou em Maria Corina Machado, a representante da oposi\u00e7\u00e3o burguesa de ultradireita venezuelana, trumpista de primeira hora, que ela \u201cn\u00e3o tem o for\u00e7a e o respeito da popula\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo depois de sua visita a Trump, quando lhe entregou de forma subserviente a medalha recebida pelo pr\u00eamio Nobel, o presidente norte-americano manteve o apoio a Delci Rodrigues, e n\u00e3o a Corina Machado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo grande parte dos analistas de esquerda e de direita, Delci Rodrigues teve contato com o governo norte-americano v\u00e1rios meses antes da invas\u00e3o e participou da facilita\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso explica o novo papel do governo chavista, que passa a ser o de apoio direto \u00e0 pol\u00edtica de Trump na Venezuela. Delci Rodrigues, embora tenha a mesma apar\u00eancia chavista, n\u00e3o tem o mesmo significado que Maduro. N\u00e3o se trata de um governo da boliburguesia chavista, com atritos parciais com o imperialismo norte-americano. \u00c9 um governo alinhado diretamente a Trump.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de manter um discurso chavista na forma tem a ver com a preserva\u00e7\u00e3o de suas bases, educadas formalmente no anti-imperialismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso se explicita abertamente no acordo sobre o petr\u00f3leo, almejado por Trump e objetivo da invas\u00e3o. A partir de agora, o petr\u00f3leo venezuelano passa a ser comercializado diretamente pelo governo norte-americano e, com a venda, os venezuelanos ter\u00e3o de comprar produtos dos EUA. Esse tipo de acordo, diretamente colonial, n\u00e3o existe em nenhuma outra parte do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mudan\u00e7a no governo e regime chavista est\u00e1 em curso, rec\u00e9m se inicia. V\u00e3o ocorrer novos desdobramentos, seguramente. Uma mudan\u00e7a como essas, quase seguramente vai levar a crises no aparato chavista. A base material do petr\u00f3leo em que se apoiava a boliburguesia venezuelana se estreitou. O discurso formalmente antiimperialista por d\u00e9cadas tem base em setores de massas e do aparato do estado. Novas contradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo gestadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas est\u00e1 ocorrendo uma mudan\u00e7a de fundo no regime venezuelano, realinhado agora com Trump.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A explica\u00e7\u00e3o de Altman&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Breno Altman afirma que a atitude de \u201cn\u00e3o confronta\u00e7\u00e3o\u201d de Delci Rodrigues \u00e9 uma pol\u00edtica determinada \u201cpela rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d. Altman se apoia na continuidade da forma (\u201co regime chavista segue\u201d), para dizer que o governo Delci \u00e9 o mesmo que o regime chavista anterior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, Delci busca ganhar tempo, reaglutinar for\u00e7as para poder se enfrentar com o imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u201cA presidente interina opera para manter coeso o bloco hist\u00f3rico chavista e mobilizada sua base social \u2013 denunciando a agress\u00e3o imperialista, reafirmando a soberania nacional e exigindo a liberta\u00e7\u00e3o imediata do casal presidencial. Entre suas incont\u00e1veis tarefas, Delcy Rodr\u00edguez necessita\u00a0<a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/conflito-eua-e-venezuela\/delcy-rodriguez-apresenta-ao-congresso-projeto-para-proteger-soberania-da-venezuela\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">manter o funcionamento do Estado<\/a>, reativar o \u00e2nimo das ruas e cicatrizar as feridas do ataque sofrido.<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">Tamb\u00e9m visa ampliar as alian\u00e7as internas, apesar da hegemonia do PSUV sobre todas as institui\u00e7\u00f5es, buscando um arco de apoios mais amplo para defender a sobreviv\u00eancia da na\u00e7\u00e3o. O desencarceramento de presos, j\u00e1 em curso, faz parte dessa estrat\u00e9gia de distens\u00e3o interna.\u201d<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Realmente existe um problema de rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as importante, que \u00e9 necess\u00e1rio analisar. O imperialismo \u00e9 qualitativamente mais forte em termos militares. No entanto, resta saber se essas a\u00e7\u00f5es do novo governo venezuelano apontam no sentido da reaglutina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as ou a sua desorganiza\u00e7\u00e3o e desmoraliza\u00e7\u00e3o. As declara\u00e7\u00f5es de Delci Rodrigues, apontando um trabalho \u201cconstrutivo\u201d com o invasor Trump, apontam para a segunda hip\u00f3tese.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, os povos t\u00eam se enfrentado com os imperialismos, na maioria absoluta das vezes em uma brutal inferioridade militar. Em alguns casos, obtiveram vit\u00f3rias muito importantes, como no Vietn\u00e3, na Arg\u00e9lia e no Iraque. Em todos eles, a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas teve um papel fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria hist\u00f3ria venezuelana demonstra isso. Em 2002, um golpe militar, patrocinado pelo governo Bush derrubou o governo Chavez. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o de massas derrotou o golpe e recomp\u00f4s o governo chavista.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Delci Rodrigues n\u00e3o chamou a mobiliza\u00e7\u00e3o das massas venezuelanas contra o ataque, n\u00e3o entregou armas para os trabalhadores. Tampouco chamou a mobiliza\u00e7\u00e3o internacional contra a invas\u00e3o, nem nos EUA, nem na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O exemplo de Brest-Litovsk<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Altman recorre ao exemplo do acordo de Brest-Litovsk, assinado entre os bolcheviques e o governo alem\u00e3o, para justificar os acordos entre Delci Rodrigues e Trump, como um acordo obrigado pela rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u201cO chavismo atravessa, no entanto, um momento que poderia ser comparado ao da Revolu\u00e7\u00e3o Russa nas negocia\u00e7\u00f5es de Brest-Litovski, nos primeiros meses de 1918, ainda durante a Primeira Guerra, quando a Alemanha apresentou reivindica\u00e7\u00f5es absurdas para um acordo: o controle sobre territ\u00f3rios que abrigavam um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o russa, 50% da ind\u00fastria e 90% das minas de carv\u00e3o.\u201d<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um malabarismo te\u00f3rico, muito comum do reformismo. Frequentemente, para justificar o injustific\u00e1vel, recorre-se ao problema da \u201crela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d. Por exemplo, assim se justifica a pol\u00edtica do governo Lula de acordo com as multinacionais e o agroneg\u00f3cio \u2014 defendida explicitamente por Breno Altman- pela \u201crela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d. Nessa avalia\u00e7\u00e3o da \u201crela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d, o reformismo frequentemente recorre \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as parlamentar, o que \u00e9 coerente com sua vis\u00e3o de mundo, segundo a qual as mudan\u00e7as devem ser feitas por meio do regime democr\u00e1tico burgu\u00eas, e n\u00e3o por meio de revolu\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, segundo o marxismo, a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as est\u00e1 centrada na rela\u00e7\u00e3o entre as classes em luta ou em sua express\u00e3o militar durante as guerras. Isso \u00e9 coerente com a tradi\u00e7\u00e3o marxista, segundo a qual as mudan\u00e7as na estrutura de classes e nos enfrentamentos com o imperialismo devem ser realizadas pela via das revolu\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 vimos que o governo chavista n\u00e3o recorreu \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de massas nem ao enfrentamento militar com o imperialismo norte-americano.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, como existe um problema real de rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, examinemos o exemplo hist\u00f3rico citado-Brest \u2014 Brest-Litovsk \u2014 e depois voltemos ao caso venezuelano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O acordo de Brest Litovsk foi assinado em 3 de mar\u00e7o de 1918 entre o governo bolchevique e o alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, os bolcheviques eram uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do primeiro estado oper\u00e1rio da hist\u00f3ria. Nada a ver com o estado burgu\u00eas dirigido pela ditadura de Maduro. Breno Altman, com sua metodologia campista, compara dois estados e governos opostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, os bolcheviques estavam no poder h\u00e1 alguns meses, n\u00e3o existia ainda o Ex\u00e9rcito Vermelho. As massas russas estavam exaustas pela guerra imposta pelo czarismo e continuada pelo governo provis\u00f3rio. O fim da guerra foi uma das palavras de ordem defendidas pelos bolcheviques e apoiadas pelas massas. Caso n\u00e3o se aceitasse o acordo de Brest-Litovsk, os alem\u00e3es poderiam derrotar militarmente o novo estado rec\u00e9m-formado.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois desse acordo, o estado oper\u00e1rio se organizou, montou o Ex\u00e9rcito Vermelho e derrotou 14 ex\u00e9rcitos dos pa\u00edses imperialistas que invadiram a URSS durante a guerra civil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O chavismo governa a Venezuela h\u00e1 28 anos; tem um ex\u00e9rcito formado e organizado que n\u00e3o entrou na luta. Se n\u00e3o recorreu \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de massas e ao armamento dos trabalhadores no passado e nem agora, isso tem a ver com o car\u00e1ter de classe burgu\u00eas do regime chavista e do Estado venezuelano, que Altman se recusa a caracterizar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A ades\u00e3o do novo governo venezuelano a Trump n\u00e3o tem nada a ver com um recuo t\u00e1tico, e menos ainda com o Tratado de Brest-Litovsk. Trata-se de uma passagem melanc\u00f3lica de um regime bonapartista decadente para o adesismo ao imperialismo norte-americano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mais uma vez, a fal\u00eancia do campismo&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Breno Altman \u00e9 um jornalista e intelectual conceituado, que defende abertamente a vis\u00e3o estalinista dos \u201ccampos progressivos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise marxista compreende a realidade a partir de sua estrutura de classes sociais e da luta de classes. O campismo estalinista substitui essa metodologia pela dos \u201ccampos progressivos\u201d, com setores burgueses. Isso inclui os \u201cgovernos progressivos\u201d que se \u201cenfrentam com o imperialismo norte-americano\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a l\u00f3gica pela qual a China \u00e9 um regime \u201cprogressivo\u201d, alternativo ao imperialismo norte-americano, e n\u00e3o um pa\u00eds imperialista ascendente, com empresas multinacionais explorando brutalmente o proletariado chin\u00eas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Breno Altman n\u00e3o enxerga o imperialismo chin\u00eas, assim como defende a ditadura iraniana no massacre contra o povo iraniano. Em sua l\u00f3gica, \u201co governo progressista dos aiatol\u00e1s\u201d \u00e9 atacado por infiltrados sionistas e norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, Altman n\u00e3o viu a decad\u00eancia do regime chavista nem sua transforma\u00e7\u00e3o em uma ditadura burguesa, odiada pelas massas. N\u00e3o viu a forma\u00e7\u00e3o de uma boliburguesia no pa\u00eds nem a brutal mis\u00e9ria dos trabalhadores. Tratava-se de um \u201cgoverno progressivo\u201d &#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas agora, o erro \u00e9 maior. O novo governo venezuelano \u00e9 o instrumento de Trump no pa\u00eds.&nbsp; A boliburguesia e seu regime chavista preferiram se aliar ao imperialismo norte-americano a enfrentar o imperialismo e arriscar suas propriedades.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A invas\u00e3o da Venezuela pelo imperialismo norte-americano e o sequestro de Nicol\u00e1s Maduro s\u00e3o hoje um dos temas centrais debatidos pela vanguarda a n\u00edvel mundial.&nbsp; O jornalista Breno Altman escreveu um artigo sobre o tema com o qual temos alguns acordos e muitas diferen\u00e7as. Gostar\u00edamos come\u00e7ar essa discuss\u00e3o pelos acordos, pelo respeito que temos por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":82117,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"Edu Almeida - PSTU Brasil","footnotes":""},"categories":[4280],"tags":[4172,9432,9247,9434],"class_list":["post-82114","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-correio-internacional","tag-breno-altman","tag-ci28","tag-maduro-e-trump","tag-trump-e-america-latina"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela_4-2-2026_15236_www.brasil247.com_.jpeg","categories_names":["Correio Internacional"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":"Edu Almeida - PSTU Brasil","tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82114"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82114\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":82120,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/82114\/revisions\/82120"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/82117"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=82114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=82114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}