{"id":82096,"date":"2026-02-05T19:55:44","date_gmt":"2026-02-05T19:55:44","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=82096"},"modified":"2026-02-09T21:30:46","modified_gmt":"2026-02-09T21:30:46","slug":"a-nova-politica-do-imperialismo-estadunidense-em-relacao-a-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2026\/02\/05\/a-nova-politica-do-imperialismo-estadunidense-em-relacao-a-america-latina\/","title":{"rendered":"A nova pol\u00edtica do imperialismo estadunidense em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>Em novembro de 2025, o governo Trump publicou a <em>\u201cEstrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional\u201d,<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a> <\/em>&nbsp;delineando os novos fundamentos estrat\u00e9gicos da a\u00e7\u00e3o imperialista durante esse per\u00edodo para impor sua hegemonia no \u201chemisf\u00e9rio ocidental\u201d. Esse plano n\u00e3o surpreende, visto que Trump, em seu discurso de posse, anunciou que \u201cos Estados Unidos voltar\u00e3o a se ver como uma na\u00e7\u00e3o em crescimento \u2013 que aumenta nossa &nbsp;riqueza, expande nosso territ\u00f3rio, constr\u00f3i nossas cidades, eleva nossas expectativas e leva nossa bandeira a novos e belos horizontes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste artigo, queremos nos concentrar nas consequ\u00eancias dessa nova pol\u00edtica para a Am\u00e9rica Latina, que foi brutalmente implementada com a invas\u00e3o e o sequestro de Maduro no in\u00edcio de janeiro de 2026. Com essa agress\u00e3o, o governo dos EUA retomou a pr\u00e1tica de invas\u00f5es militares diretas na Am\u00e9rica Latina, que n\u00e3o ocorria h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O documento publicado pela Casa Branca detalha, com o t\u00edpico descaramento de Trump, a estrat\u00e9gia do governo de extrema-direita \u00e0 frente da pot\u00eancia imperialista ainda hegem\u00f4nica, mas em decl\u00ednio, que busca por todos os meios consolidar uma base regional para competir e enfrentar a China. Essa pol\u00edtica, por sua vez, aprofunda ainda mais a crise da ordem imperialista mundial e a polariza\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Da Doutrina Monroe ao &#8220;Corol\u00e1rio Trump&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O documento reivindica explicitamente a Doutrina Monroe e afirma um &#8220;Corol\u00e1rio Trump&#8221; a ela. A Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente americano James Monroe em 1823, estabeleceu a defini\u00e7\u00e3o de &#8220;Am\u00e9rica para os americanos&#8221;. Naquela \u00e9poca, era uma express\u00e3o defensiva contra a interven\u00e7\u00e3o de pa\u00edses europeus hegem\u00f4nicos na Am\u00e9rica, em um contexto de pa\u00edses recentemente libertados do dom\u00ednio da Inglaterra, Espanha e Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, essa doutrina mudou de car\u00e1ter, refletindo a transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em imperialista, com uma postura ofensiva e interven\u00e7\u00f5es militares no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX. A Guerra Hispano-Americana de 1898 marcou essa mudan\u00e7a. Os EUA n\u00e3o apenas tomaram as antigas col\u00f4nias espanholas (Guam, Filipinas, Porto Rico) e impuseram um protetorado a Cuba, como tamb\u00e9m anexaram o Hava\u00ed, iniciaram a explora\u00e7\u00e3o do que viria a ser o Canal do Panam\u00e1 e, nos meses seguintes, adquiriram mais de 7.000 ilhas no Pac\u00edfico, a mais de 10.000 km da Calif\u00f3rnia, estabelecendo uma presen\u00e7a militar na regi\u00e3o com mais de 100.000 soldados.<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1904, o &#8220;Corol\u00e1rio Roosevelt&#8221; (em homenagem ao presidente Theodore Roosevelt) da Doutrina Monroe defendia sem rodeios uma pol\u00edtica imperialista agressiva, apelidada de &#8220;Big Stick&#8221; (Grande Porrete). Essa pol\u00edtica manifestou-se em sucessivas interven\u00e7\u00f5es militares para controlar o Canal do Panam\u00e1 entre 1903 e 1925, bem como em mais de seis interven\u00e7\u00f5es em Honduras entre 1903 e 1925, e em ocupa\u00e7\u00f5es militares da Nicar\u00e1gua (1912-1933), Haiti (1915-1934) e Rep\u00fablica Dominicana (1916-1924). Com essa giro, os EUA iniciaram sua campanha ideol\u00f3gica para se posicionarem como uma \u201cpot\u00eancia policial internacional\u201d, com autoridade moral e militar para reprimir a \u201cm\u00e1 conduta\u201d de outros governos e defender os valores da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d crist\u00e3 e da democracia liberal.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos tornaram-se hegem\u00f4nicos ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, na qual entraram tardiamente, aliados ao imperialismo brit\u00e2nico (at\u00e9 ent\u00e3o hegem\u00f4nico). Os Estados Unidos capitalizaram sua expans\u00e3o e o fato de n\u00e3o terem sofrido grandes perdas na guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>O imperialismo estadunidense consolidaria sua hegemonia global ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. O acordo de Yalta e Potsdam foram fundamentais para isso, um pacto contrarrevolucion\u00e1rio entre os EUA e a burocracia sovi\u00e9tica de Stalin que garantiu a hegemonia americana.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais de cinco d\u00e9cadas, a hegemonia econ\u00f4mica dos EUA baseou-se em seu dom\u00ednio tecnol\u00f3gico, financeiro e militar. Seus oligop\u00f3lios industriais usaram ideologias como o &#8220;livre com\u00e9rcio&#8221; para expor as fr\u00e1geis ind\u00fastrias de outros pa\u00edses ao seu controle. O &#8220;estilo de vida americano&#8221;, disseminado por Hollywood e pela democracia burguesa americana, foi a base da domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica. Institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e financeiras internacionais, como o FMI e a OMC, operavam internacionalmente como uma express\u00e3o da hegemonia econ\u00f4mica dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>O acordo de Yalta e Potsdam, juntamente com o papel da burocracia stalinista, garantiram in\u00fameras derrotas nas principais lutas do p\u00f3s-guerra. Mesmo assim, algumas revolu\u00e7\u00f5es foram vitoriosas e geraram novos estados oper\u00e1rios, logo burocratizados, como a Iugosl\u00e1via, a China, Cuba e o Vietn\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>A combina\u00e7\u00e3o entre o freio das dire\u00e7\u00f5es e o desvio das revolu\u00e7\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia burguesa nunca foi uma pol\u00edtica exclusiva do imperialismo. Quando isso n\u00e3o era suficiente, o imperialismo recorria a golpes de Estado e invas\u00f5es militares. Nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, o governo dos Estados Unidos promoveu in\u00fameros golpes de Estado na Am\u00e9rica Latina, como no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, a globaliza\u00e7\u00e3o, as pol\u00edticas neoliberais e a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo nos antigos estados oper\u00e1rios possibilitaram uma nova ascens\u00e3o capitalista. Pol\u00edticas neoliberais, a abertura das fronteiras econ\u00f4micas dos pa\u00edses e a forma\u00e7\u00e3o de cadeias de valor internacionais foram ent\u00e3o impostas.<\/p>\n\n\n\n<p>A China e a R\u00fassia, ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, integraram-se de forma subordinada \u00e0 trajet\u00f3ria ascendente do imperialismo. Mas, neste s\u00e9culo, se converteram em novas pot\u00eancias imperialistas emergentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os EUA buscam conter a penetra\u00e7\u00e3o da China na regi\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, o imperialismo estadunidense tem demonstrado crescentes sinais de decl\u00ednio. Embora continue sendo a pot\u00eancia imperialista hegem\u00f4nica nas esferas econ\u00f4mica, financeira, tecnol\u00f3gica e militar, sua hegemonia vem diminuindo, perdendo terreno econ\u00f4mico significativo, particularmente para a China. Desde 2010, a China ultrapassou os Estados Unidos em produ\u00e7\u00e3o industrial e agora representa 31,8% do PIB industrial global. Na lista das 500 maiores empresas do mundo de 2025 da revista Fortune, as empresas chinesas (147) ampliaram sua vantagem sobre as empresas americanas (134) pelo quinto ano consecutivo<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O documento da <em>Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional<\/em> respondeu a essa realidade. O imperialismo estadunidense permanece hegem\u00f4nico, mas est\u00e1 em decl\u00ednio, e sua hegemonia est\u00e1 diminuindo. Longe de abandonar a luta pela hegemonia global, o &#8220;corol\u00e1rio Trump&#8221; da Doutrina Monroe \u00e9 uma express\u00e3o agressiva, o &#8220;Big Stick&#8221; do imperialismo hegem\u00f4nico decadente, visando reconstruir seu dom\u00ednio global diante da ascens\u00e3o do imperialismo chin\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>O imperialismo permanece hegem\u00f4nico na Am\u00e9rica Latina e, embora esse continente n\u00e3o seja onde a China concentra a maior parte de seus investimentos e disputa por hegemonia, como ocorre no Sudoeste Asi\u00e1tico e na \u00c1frica, o investimento chin\u00eas na regi\u00e3o que os EUA outrora consideravam seu quintal deu um salto significativo nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, os la\u00e7os comerciais da regi\u00e3o com o gigante asi\u00e1tico aumentaram: \u201cEm 2000, o mercado chin\u00eas representava menos de 2% das exporta\u00e7\u00f5es latino-americanas, mas o r\u00e1pido crescimento da China e a consequente demanda impulsionaram o subsequente boom das commodities na regi\u00e3o. Nos oito anos seguintes, o com\u00e9rcio cresceu a uma taxa anual de 31%. Em 2021, o com\u00e9rcio ultrapassou US$ 450 bilh\u00f5es, um valor que, segundo a m\u00eddia estatal chinesa, cresceu para um recorde de US$ 518 bilh\u00f5es em 2024, e alguns economistas preveem que poder\u00e1 ultrapassar US$ 700 bilh\u00f5es at\u00e9 2035.\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se obviamente de um com\u00e9rcio altamente desigual que beneficia o imperialismo asi\u00e1tico: enquanto a Am\u00e9rica Latina exporta soja e outros produtos vegetais, produtos c\u00e1rneos, cobre, petr\u00f3leo, l\u00edtio e outros minerais essenciais para o desenvolvimento chin\u00eas, a regi\u00e3o importa bens manufaturados de alto valor agregado, fornecendo assim um mercado para a ind\u00fastria chinesa e prejudicando a ind\u00fastria nacional na regi\u00e3o. Nesse contexto, Pequim j\u00e1 conseguiu impor acordos de livre com\u00e9rcio com cinco pa\u00edses: Chile, Costa Rica, Equador, Nicar\u00e1gua e Peru.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a> No caso de alguns pa\u00edses, como o Chile, a depend\u00eancia comercial da China \u00e9 muito significativa, visto que, em 2023, 38% do total de suas exporta\u00e7\u00f5es foram destinadas a esse pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m desse com\u00e9rcio desigual, a China aumentou seus investimentos diretos (US$ 8,5 bilh\u00f5es em 2024) nos mais de 20 pa\u00edses latino-americanos que incorporou \u00e0 Rota da Seda (BRI). Esses investimentos concentram-se em setores estrat\u00e9gicos, como recursos energ\u00e9ticos, ou em infraestrutura de \u201cdupla utiliza\u00e7\u00e3o\u201d (comercial e militar), que preocupa cada vez mais Washington. O investimento estrat\u00e9gico da China no Tri\u00e2ngulo do L\u00edtio (Chile, Bol\u00edvia e Argentina) \u00e9 bem conhecido, visto que a regi\u00e3o det\u00e9m entre 60% e 70% das reservas mundiais de l\u00edtio, essencial para baterias el\u00e9tricas. Entre 2018 e 2024, empresas multinacionais chinesas de minera\u00e7\u00e3o investiram mais de US$ 16 bilh\u00f5es na sua explora\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a> Na Argentina, a China det\u00e9m ou participa em seis dos dezesseis projetos de l\u00edtio ativos, incluindo quatro dos mais avan\u00e7ados. Em 2023, um cons\u00f3rcio chin\u00eas (CATL, BRUNP e CMOC) fechou um acordo de US$ 1 bilh\u00e3o para construir f\u00e1bricas de carbonato de l\u00edtio nos salares de Uyuni e Coipasa, na Bol\u00edvia, o primeiro projeto comercial de l\u00edtio liderado por estrangeiros no pa\u00eds. Estima-se que as empresas chinesas controlem quase 40% da produ\u00e7\u00e3o global de l\u00edtio. por meio de suas opera\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica do Sul.<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A China atualmente possui investimentos e controle total ou parcial de mais de 40 portos na regi\u00e3o, alguns em setores estrat\u00e9gicos importantes, como o porto de Abaco, nas Bahamas (pr\u00f3ximo \u00e0 Fl\u00f3rida), ou o porto do Canal de Beagle, na Argentina, na Ant\u00e1rtida.<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Al\u00e9m disso, existem dezenas de instala\u00e7\u00f5es de sat\u00e9lite chinesas, e a China fornece equipamentos militares para diversos pa\u00edses. \u00c9 o caso da Venezuela, por exemplo, que est\u00e1 sob embargo de armas dos EUA desde 2006, mas tamb\u00e9m o da Argentina, Bol\u00edvia, Equador e Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, desde 2005, os monop\u00f3lios banc\u00e1rios chineses emprestaram mais de US$ 120 bilh\u00f5es a pa\u00edses latino-americanos. Destacam-se os empr\u00e9stimos solicitados pela Venezuela, principal credora da China na regi\u00e3o, que recebeu quase US$ 60 bilh\u00f5es em empr\u00e9stimos, mais que o dobro do Brasil, o segundo maior credor.<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Vale ressaltar tamb\u00e9m o \u00faltimo empr\u00e9stimo SWAP de US$ 5 bilh\u00f5es que Milei, na Argentina, contratou com a China em abril de 2025, apesar de sua subservi\u00eancia a Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela, o avan\u00e7o da China foi muito significativo. As importa\u00e7\u00f5es de produtos chineses cresceram 114% em 2024. Al\u00e9m de participar da Rota da Seda, a Venezuela foi o \u00fanico pa\u00eds latino-americano a fazer parte de uma Parceria Estrat\u00e9gica Integral com a China. Entre os principais acordos estavam o empr\u00e9stimo do Fundo Conjunto China-Venezuela (FCCV) do Banco de Desenvolvimento da China (CDB) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento (FONDEN).<\/p>\n\n\n\n<p>A Venezuela vendia a maior parte de seu petr\u00f3leo para a China (entre 70% e 80%) a pre\u00e7os mais baixos e em moeda chinesa. A invas\u00e3o do pa\u00eds por Trump tamb\u00e9m representa um golpe direto contra a expans\u00e3o chinesa na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trump busca impor governos fantoches na regi\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O documento explica a estrat\u00e9gia de impor governos fantoches no hemisf\u00e9rio ocidental para alcan\u00e7ar seus objetivos econ\u00f4micos e militares:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQueremos garantir que o hemisf\u00e9rio ocidental permane\u00e7a razoavelmente est\u00e1vel e bem governado o suficiente para prevenir e desencorajar a migra\u00e7\u00e3o em massa para os Estados Unidos; queremos um hemisf\u00e9rio cujos governos cooperem conosco contra narco terroristas, cart\u00e9is e outras organiza\u00e7\u00f5es criminosas transnacionais; queremos um hemisf\u00e9rio que permane\u00e7a livre de incurs\u00f5es estrangeiras hostis ou da apropria\u00e7\u00e3o de ativos-chave, e que apoie cadeias de suprimentos cr\u00edticas; e queremos garantir nosso acesso cont\u00ednuo a locais estrat\u00e9gicos importantes. Em outras palavras, afirmaremos e implementaremos um \u2018corol\u00e1rio Trump\u2019 \u00e0 Doutrina Monroe.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E o caso da Venezuela \u00e9, neste momento, o foco central dessa pol\u00edtica. Ao contr\u00e1rio do que a propaganda stalinista dissemina, o governo de Maduro tem sido subserviente ao imperialismo estadunidense. A Chevron permaneceu presente, com toda a sua for\u00e7a, na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo venezuelano. De fato, em outubro de 2025, segundo reportagem do New York Times, Maduro ofereceu-se para \u201cabrir todos os projetos de petr\u00f3leo e ouro, existentes e futuros, para empresas americanas, conceder contratos preferenciais a essas empresas, reverter o fluxo de exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo venezuelano da China para os Estados Unidos e cortar os contratos de energia e minera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds com empresas chinesas, iranianas e russas\u201d em troca de permanecer no poder.<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a> Mas Trump n\u00e3o aceitou, pois seu objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas o petr\u00f3leo, mas tamb\u00e9m implementar uma estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a nacional mais global. O governo Maduro, apesar de pr\u00f3-imperialista, n\u00e3o era um governo fantoche, mas sim um reflexo dos interesses contradit\u00f3rios e oportunistas da burguesia bolivariana corrupta, constru\u00edda sobre os alicerces da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana. Trump, ao contr\u00e1rio, quer um governo completamente subserviente aos seus interesses na regi\u00e3o, e \u00e9 por isso que invadiu e sequestrou Maduro.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa invas\u00e3o pode abrir caminho para que se repita em outros pa\u00edses, como Col\u00f4mbia, Cuba, entre outros. E representa uma s\u00e9ria amea\u00e7a aos novos processos revolucion\u00e1rios na regi\u00e3o. O significado de \u201crecrutar e engajar\u201d governos aliados \u00e9 muito preciso: governos burgueses pr\u00f3-imperialistas n\u00e3o s\u00e3o suficientes; governos fantoches de extrema-direita s\u00e3o necess\u00e1rios. Como afirma o documento:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pol\u00edtica dos EUA deve se concentrar em recrutar l\u00edderes regionais que possam ajudar a criar uma estabilidade toler\u00e1vel na regi\u00e3o, mesmo al\u00e9m das fronteiras desses parceiros. Essas na\u00e7\u00f5es nos ajudariam a deter a migra\u00e7\u00e3o ilegal e desestabilizadora, neutralizar cart\u00e9is, promover a manufatura pr\u00f3xima \u00e0 costa e desenvolver economias privadas locais, entre outras coisas. Recompensaremos e incentivaremos governos, partidos pol\u00edticos e movimentos na regi\u00e3o que estejam amplamente alinhados com nossos princ\u00edpios e estrat\u00e9gia. Mas n\u00e3o devemos ignorar governos com perspectivas diferentes, com os quais, no entanto, compartilhamos interesses e que querem trabalhar conosco.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para esse fim, Trump usa abertamente e cinicamente a press\u00e3o econ\u00f4mica, condicionando empr\u00e9stimos \u00e0s vit\u00f3rias eleitorais de seus aliados, como Milei na Argentina e Nasry Asfura (Partido Nacional, em Honduras).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que Trump obteve resultados com essa pol\u00edtica. Aproveitando-se dos desastres cometidos por governos de colabora\u00e7\u00e3o de classe, como os de Xiaomara (Honduras), Boric, Petro e outros, a extrema direita est\u00e1 fazendo progressos significativos na Am\u00e9rica Latina. Ela j\u00e1 tem os governos de Milei, Kast (Chile), Bukele (El Salvador), Asfura (Honduras) e est\u00e1 prestes a vencer as elei\u00e7\u00f5es de 2026 na Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de Lula no Brasil \u00e9 diferente. Envolve um governo pr\u00f3-imperialista, com o qual Trump est\u00e1 negociando sob press\u00e3o de sua pr\u00f3pria base burguesa americana, que est\u00e1 rebelde devido \u00e0s consequ\u00eancias negativas da guerra comercial. Mesmo assim, Trump ajudar\u00e1 a construir uma alternativa de direita p\u00f3s-Bolsonaro para tentar derrotar Lula em 2026. Algo semelhante \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo com Sheinbaum (M\u00e9xico), que se adaptou completamente \u00e0 press\u00e3o de Trump, j\u00e1 que a economia mexicana est\u00e1 totalmente subordinada \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com os EUA: cerca de 80% das exporta\u00e7\u00f5es mexicanas, 55% das importa\u00e7\u00f5es e 41% do investimento estrangeiro direto dependem dos Estados Unidos.<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, \u00e9 essencial lutar em todos os pa\u00edses latino-americanos contra essa nova agress\u00e3o de Trump, que busca anexar o continente. Para tanto, \u00e9 importante que todos os partidos que realmente lutam pelo socialismo apresentem um programa para a Segunda Independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina, um programa que proponha o confronto a todos os imperialismos, incluindo o imperialismo estadunidense, europeu e chin\u00eas, que se apresenta como &#8220;amigo&#8221;. Devemos buscar a mais ampla unidade de a\u00e7\u00e3o que possa mobilizar a classe trabalhadora e seus aliados, como os povos ind\u00edgenas, contra interven\u00e7\u00f5es militares como a da Venezuela, contra projetos extrativistas ou de superexplora\u00e7\u00e3o e contra outros ataques \u00e0 soberania nacional, como o endividamento e os acordos comerciais desiguais, independentemente de qual \u00e9 o imperialismo que prop\u00f5e ou imp\u00f5e. Mais uma vez, devemos mostrar que somente um caminho independente para a classe trabalhadora pode alcan\u00e7ar a verdadeira independ\u00eancia, que garanta os direitos sociais e pol\u00edticos da classe trabalhadora e pare com a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u201cCorol\u00e1rio Trump\u201d na Pol\u00edtica: Bonapartismo, Extrema Direita e a Xenofobia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para impor seu plano nos Estados Unidos e no mundo, Trump precisa do bonapartismo: a pol\u00edtica crua do imperialismo decadente. Uma das principais diferen\u00e7as entre a Doutrina Monroe do in\u00edcio do s\u00e9culo XX e as pol\u00edticas de Trump hoje \u00e9 que ela n\u00e3o se disfar\u00e7a mais com o falso discurso \u201ccivilizador\u201d usado pelos colonialismos do s\u00e9culo passado, que buscavam defender uma moralidade e legalidade universais e promoviam uma narrativa de prosperidade, modernidade e progresso. Hoje, Trump busca subjugar outros pa\u00edses com o discurso dos \u201cEUA primeiro\u201d, e assumindo de forma brutal que ele prioriza suas pr\u00f3prias necessidades econ\u00f4micas em detrimento das de outras na\u00e7\u00f5es simplesmente porque tem o poder para faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump \u00e9 um governo bonapartista nos Estados Unidos, em conflito com o regime democr\u00e1tico burgu\u00eas, que ele quer transformar em um regime bonapartista autorit\u00e1rio. Podemos tamb\u00e9m usar a categoria de pr\u00e9-bonapartismo, empregada por Trotsky na d\u00e9cada de 1930, referindo-se a governos com projetos bonapartistas que ainda n\u00e3o tinham o poder de imp\u00f4-los. Est\u00e1 em constante conflito com o sistema judici\u00e1rio. Envia tropas para estados governados por democratas. Fortaleceu consideravelmente a for\u00e7a-tarefa especial (ICE) para a repress\u00e3o de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo, Trump segue um caminho semelhante: ele desconsidera institui\u00e7\u00f5es e acordos internacionais que anteriormente expressavam domina\u00e7\u00e3o imperialista (ONU, OMC, FMI) e recorre \u00e0 for\u00e7a para impor seu dom\u00ednio. Os valores da democracia burguesa, o \u201cmodo de vida americano\u201d, s\u00e3o coisa do passado. A domina\u00e7\u00e3o \u00e9 exercida por meio da for\u00e7a militar, press\u00e3o econ\u00f4mica direta e bonapartismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise da ordem imperialista mundial est\u00e1 se concentrando cada vez mais em dois blocos: um diretamente subordinado ao imperialismo estadunidense e outro se formando em torno da China.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, uma crescente tend\u00eancia ao bonapartismo se consolida em diversos pa\u00edses, aprofundando a crise da democracia burguesa. N\u00e3o s\u00f3 isso, o documento expressa explicitamente apoio direto ao crescimento da extrema direita em todo o mundo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNossos objetivos para o hemisf\u00e9rio ocidental podem ser resumidos em \u2018recrutar e expandir\u2019. Recrutaremos aliados j\u00e1 estabelecidos no hemisf\u00e9rio para controlar a migra\u00e7\u00e3o, conter o fluxo de drogas e fortalecer a estabilidade e a seguran\u00e7a em terra e no mar. Expandiremos cultivando e fortalecendo novas alian\u00e7as, ao mesmo tempo que refor\u00e7amos o apelo da nossa na\u00e7\u00e3o como o parceiro econ\u00f4mico e de seguran\u00e7a preferido do hemisf\u00e9rio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para esse fim, Trump utiliza todos os recursos do Estado americano, incluindo press\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e militar. Mas o fundamento ideol\u00f3gico e pol\u00edtico, comum a toda a extrema-direita, n\u00e3o deve ser negligenciado. Isso inclui a luta contra a imigra\u00e7\u00e3o, t\u00e3o importante para a extrema-direita em pa\u00edses imperialistas:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA era da migra\u00e7\u00e3o em massa acabou: quem \u00e9 admitido nas fronteiras de um pa\u00eds, em que n\u00famero e de onde v\u00eam, inevitavelmente definir\u00e1 o futuro dessa na\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQualquer pa\u00eds que se considere soberano tem o direito e o dever de definir seu futuro. Ao longo da hist\u00f3ria, na\u00e7\u00f5es soberanas proibiram a migra\u00e7\u00e3o descontrolada e raramente concederam cidadania a estrangeiros, que, al\u00e9m disso, tinham que atender a crit\u00e9rios muito exigentes. A experi\u00eancia do Ocidente nas \u00faltimas d\u00e9cadas confirma essa sabedoria duradoura. Em pa\u00edses ao redor do mundo, a migra\u00e7\u00e3o em massa esgotou os recursos nacionais, aumentou a viol\u00eancia e outros crimes, enfraqueceu a coes\u00e3o social, distorceu os mercados de trabalho e minou a seguran\u00e7a nacional. A era da migra\u00e7\u00e3o em massa deve acabar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, o documento dissemina ideologias, como a \u201cguerra contra o narcotr\u00e1fico\u201d, que est\u00e1 ligada \u00e0 explora\u00e7\u00e3o eleitoral da viol\u00eancia urbana pela extrema-direita, t\u00e3o eficazmente capitalizada por governos como o de Bukele (El Salvador), Noboa (Equador) e toda a extrema-direita latino-americana. No Brasil, a extrema-direita ecoa Trump e promove a defini\u00e7\u00e3o de criminosos comuns como \u201cterroristas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O documento defende outro ponto ideol\u00f3gico fundamental para a extrema-direita, tanto em pa\u00edses imperialistas quanto semicoloniais (pa\u00edses latino-americanos, por exemplo), que \u00e9 a defesa da opress\u00e3o contra mulheres, pessoas negras e pessoas LGBTQIA+.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa estrutura ideol\u00f3gica pode ter import\u00e2ncia pol\u00edtica fundamental para unificar a extrema-direita internacional em torno de Trump e enfraquecer a consci\u00eancia anti-imperialista, um produto das a\u00e7\u00f5es do governo Trump contra pa\u00edses latino-americanos, por exemplo. Esta \u00e9 uma hip\u00f3tese que pode ou n\u00e3o ser confirmada no per\u00edodo vindouro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante notar que os chamados \u201cgovernos burgueses de colabora\u00e7\u00e3o de classes\u201d, rotulados de \u201cprogressistas\u201d, t\u00eam responsabilidade direta pela ascens\u00e3o da extrema-direita. A implementa\u00e7\u00e3o de planos neoliberais contra as massas por esses governos causa um desgaste que \u00e9 explorado pela extrema-direita.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso do regime chavista \u00e9 uma express\u00e3o particular desse processo, pois n\u00e3o se tratava de um regime de colabora\u00e7\u00e3o de classes, mas de uma ditadura burguesa odiada pelas massas e origin\u00e1ria da \u201cesquerda\u201d. Pesquisas realizadas ap\u00f3s a invas\u00e3o mostram que a maioria da popula\u00e7\u00e3o latino-americana, inclusive na Venezuela, apoia a derrubada de Maduro pelo imperialismo estadunidense, demonstrando o retrocesso da consci\u00eancia anti-imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 essencial que as organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora abracem as reivindica\u00e7\u00f5es pelos direitos dos imigrantes e dos povos ind\u00edgenas \u00e0 sua soberania nacional, combatam ativamente o racismo e a xenofobia e lutem para defender e ampliar os direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+. Cabe aos socialistas revolucion\u00e1rios buscar a converg\u00eancia das lutas por direitos democr\u00e1ticos com a luta pelo socialismo e a necessidade de nossa classe chegar ao poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;As Consequ\u00eancias da Agress\u00e3o Contra a Venezuela para Cuba<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crise econ\u00f4mica cubana se agrava a cada dia que passa e, ap\u00f3s a destitui\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de Maduro pelos EUA, a ilha pode mergulhar no caos social. Segundo estat\u00edsticas do governo, nos \u00faltimos cinco anos, mais de um milh\u00e3o de cubanos (10% da popula\u00e7\u00e3o), em sua maioria jovens, emigraram para o exterior em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Desde 2020, o PIB do pa\u00eds caiu 11%, a rede el\u00e9trica est\u00e1 em ru\u00ednas e os sal\u00e1rios s\u00e3o muito baixos. Fora de Havana, onde residem setores da burguesia estrangeira e da burguesia nacional infiltrados no aparato estatal cubano, apag\u00f5es de at\u00e9 18 horas por dia s\u00e3o comuns.<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a> \u00c9 \u00f3bvio que as novas san\u00e7\u00f5es impostas por Trump em 2019 contribu\u00edram muito para prejudicar a ilha, com severas restri\u00e7\u00f5es a viagens e remessas de imigrantes cubanos nos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o novo controle que Trump exerce sobre o que resta do regime chavista, liderado por Delcy Rodr\u00edguez, pode levar ao colapso econ\u00f4mico total de Cuba. Cuba precisa de 100 mil barris de petr\u00f3leo por dia para garantir o funcionamento m\u00ednimo de sua economia, e s\u00f3 consegue produzir um quarto disso internamente. Enquanto a Venezuela, h\u00e1 uma d\u00e9cada, enviava o restante, hoje envia apenas 35. A produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em Cuba caiu para 7.000 barris por dia, em parte devido \u00e0 press\u00e3o dos EUA e em parte devido \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o do regime chavista, que n\u00e3o conseguia receber os pagamentos em dia. O mesmo ocorre com o M\u00e9xico, que costumava exportar 22.000 barris por dia, mas reduziu seus embarques para 7.000 barris por dia at\u00e9 o final de 2025.<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a> A pol\u00edtica criminosa de Trump \u00e9 n\u00edtida, como ele escreveu em suas redes sociais em 11 de janeiro: \u201cCHEGA DE PETR\u00d3LEO OU DINHEIRO PARA CUBA, NADA!!\u201d. Diante das amea\u00e7as de Trump, \u00e9 essencial opor-se firmemente a qualquer interven\u00e7\u00e3o dos EUA em Cuba e exigir o fim imediato das san\u00e7\u00f5es e do bloqueio econ\u00f4mico \u00e0 ilha. Construir a maior unidade de a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de nossa classe contra o ataque \u00e0 Venezuela e um poss\u00edvel ataque a Cuba n\u00e3o implica dar qualquer tipo de apoio pol\u00edtico aos governos de Rodr\u00edguez ou D\u00edaz-Canel. Pelo contr\u00e1rio, em Cuba, assim como na Venezuela, nossa solidariedade pol\u00edtica e material est\u00e1 com o povo que se mobiliza por seus direitos, e nosso objetivo \u00e9 garantir que se organizem independentemente do governo e de qualquer interfer\u00eancia de imperialismos estrangeiros, para que possam se apresentar como uma alternativa de classe independente e democr\u00e1tica, capaz de avan\u00e7ar rumo ao verdadeiro socialismo<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As Contradi\u00e7\u00f5es da \u201cDoutrina Donroe\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora o governo Trump esteja determinado a exercer firmemente um dom\u00ednio desp\u00f3tico sobre o continente, isso n\u00e3o garante o sucesso de suas pol\u00edticas. Por um lado, essa nova pol\u00edtica encontrar\u00e1 resist\u00eancia das massas; por outro, ter\u00e1 que lidar com limita\u00e7\u00f5es inerentes, ou seja, o que poder\u00edamos chamar de \u201ccorol\u00e1rios ocultos\u201d dessa doutrina imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, \u00e9 importante considerar que a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na Venezuela n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil nem autom\u00e1tica. A produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo venezuelana est\u00e1 em decl\u00ednio: no final da d\u00e9cada de 1990, produzia-se 3,5 milh\u00f5es de barris por dia, e hoje mal chega a 800 mil.<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a> Analistas afirmam que s\u00e3o necess\u00e1rios pelo menos cinco anos de investimento maci\u00e7o para retornar a n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o equivalentes. A consultoria Rystad Energy, por exemplo, afirma que seriam necess\u00e1rios pelo menos US$ 53 bilh\u00f5es nos pr\u00f3ximos 15 anos para aumentar a produ\u00e7\u00e3o para 1,1 milh\u00e3o de barris por dia.<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a> Para ser lucrativa, a opera\u00e7\u00e3o que Trump vende hoje como f\u00e1cil e r\u00e1pida exige garantir tanto o investimento econ\u00f4mico quanto o controle pol\u00edtico do pa\u00eds por pelo menos as pr\u00f3ximas duas d\u00e9cadas. Muitos dos campos de petr\u00f3leo j\u00e1 foram concedidos \u00e0 China por meio de contratos legais, e essas multinacionais imperialistas exigir\u00e3o que seus direitos sejam reconhecidos ou que sejam indenizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, investir em petr\u00f3leo e recursos minerais n\u00e3o \u00e9 suficiente para expulsar a China da regi\u00e3o. Na verdade, como mostramos, a China conseguiu se integrar \u00e0s cadeias de produ\u00e7\u00e3o do continente, bem como aos setores de energia e infraestrutura digital. Para &#8220;reconquistar&#8221; o continente, os EUA precisar\u00e3o investir muito mais do que apenas nos setores que lhes beneficiam e se posicionar como uma alternativa econ\u00f4mica em outros setores.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, essa repeti\u00e7\u00e3o de Monroe n\u00e3o est\u00e1 acontecendo em um v\u00e1cuo hist\u00f3rico. Pelo contr\u00e1rio, os EUA j\u00e1 t\u00eam experi\u00eancia com a dificuldade de manter o dom\u00ednio econ\u00f4mico e militar sobre outros territ\u00f3rios: uma vez que se intromete, acaba tamb\u00e9m intrometido, o que implica alocar recursos para a domina\u00e7\u00e3o neocolonial. O primeiro caso que demonstrou o custo de tal pol\u00edtica foi o das Filipinas. Embora o governo McKinley acreditasse que a instala\u00e7\u00e3o de um governo fantoche garantiria o seu controle, logo percebeu que os EUA n\u00e3o poderiam simplesmente retirar as suas tropas e manter um governo submisso. De fato, os EUA tiveram que permanecer l\u00e1 por d\u00e9cadas, e as Filipinas s\u00f3 conquistaram a sua independ\u00eancia em 1946. A mesma situa\u00e7\u00e3o repetiu-se mais recentemente com as guerras no Iraque e no Afeganist\u00e3o, que resultaram em desastres semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, existe um \u201ccorol\u00e1rio\u201d nacional: a maioria dos americanos n\u00e3o apoia outra guerra prolongada. As sondagens realizadas em janeiro de 2026 mostram que apenas 33% dos americanos concordam com a a\u00e7\u00e3o militar destinada a sequestrar Maduro, enquanto 72% temem que tal interven\u00e7\u00e3o leve a uma interven\u00e7\u00e3o prolongada na Venezuela.<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a> De fato, o Congresso dos EUA, que est\u00e1 sob controle republicano, tomou medidas para limitar qualquer interven\u00e7\u00e3o militar adicional.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro risco do aprofundamento dessa pol\u00edtica agressiva dos EUA em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Am\u00e9ricas (e \u00e0 Europa) \u00e9 o aumento da popularidade da China entre as massas, como um fator de equil\u00edbrio e desenvolvimento. Embora saibamos que a China \u00e9 outra pot\u00eancia imperialista e saqueadora, o fato de estar em uma din\u00e2mica emergente e possuir mais capital para investir permite que ela apare\u00e7a como a pot\u00eancia que oferece &#8220;desenvolvimento econ\u00f4mico&#8221; a seus aliados semicoloniais, enquanto os EUA oferecem apenas coer\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o mais importante \u00e9 que vai ampliar a polariza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina, assim como nos Estados Unidos. O movimento de massas n\u00e3o foi derrotado e, mais cedo ou mais tarde, grandes mobiliza\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo levantes revolucion\u00e1rios retornar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 2026 come\u00e7ou com algumas manifesta\u00e7\u00f5es dessa polariza\u00e7\u00e3o. Na Bol\u00edvia, o novo governo de direita tentou impor um mega decreto neoliberal (5503) que eliminava os subs\u00eddios aos combust\u00edveis e permitia a explora\u00e7\u00e3o de minerais (incluindo l\u00edtio). Isso desencadeou uma mobiliza\u00e7\u00e3o massiva (500 mil pessoas) e bloqueios de estradas, for\u00e7ando o governo a revogar o decreto. Os ataques imperialistas apontam para um per\u00edodo mais convulsivo na luta de classes no continente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &nbsp;\u201cNational Security Strategy\u201d, Casa Blanca, noviembre 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Aroop Mukharji, \u201cThe New Imperial Age, Trump, Venezuela and a Century-Old Vision of American Power\u201d, <em>Foreign Affairs<\/em>, 6<sup> <\/sup>de enero, 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Felipe Alegr\u00eda, Joao Ricardo Soares, Eduardo Almeida, <em>China, Una Potencia Imperialista Emergente<\/em>, Editora Sunderman, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Council of Foreign Relations, \u201cChina\u2019s Growing Influence in Latin America\u201d, 5 de junio 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Council of Foreign Relations, \u201cChina\u2019s Growing Influence in Latin America\u201d, 5 de junio 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Francesco Torri, \u201cChina\u2019s Expanding Footprint in South America\u2019s Lithium Triangle\u201d, Undisciplined Environments, 11 de marzo del 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Raechel Sparrero, \u201cChina\u2019s Expanding Strategic Investment in the Lithium Triangle\u201d&nbsp;<em>International Journal of Intelligence and CounterIntelligence,<\/em>&nbsp;38(2) 2025, 369\u2013382.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Council on Foreign Relations, \u201cTracking China\u2019s Control of Overseas Ports\u201d, 26 de Agosto del 2024.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> &nbsp;Council of Foreign Relations, \u201cChina\u2019s Growing Influence in Latin America\u201d, 5 de junio 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Anatoly Kurmanaev, Julian Barnes, Julie Turkewitz, \u201cVenezuela\u2019s Maduro Offered the U.S. His Nation\u2019s Riches to Avoid Conflict\u201d, <em>New York Times<\/em>, 18 octubre 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> \u201cUntethering Trade from the US\u201d, <em>The Mexico Political Economist,<\/em> 5 de febrero 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> &nbsp;Ed Augustin, and John Rathbine, \u201cCuba, What is Left for Donald Trump to Tople\u201d, <em>Financial Times<\/em>, 7 de enero 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> Frances Robles, \u201cCan Cuba Survive Without Venezuela\u2019s Oil\u201d <em>New York Times<\/em>, 17 enero 2026<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> David Pilling and Leslies hook, \u201cThe new era of resource imperialism\u201d, <em>Financial Times,<\/em> 9 de enero, 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> \u201cWhat would it take to bring Venezuela\u2019s oil output back to 3 million bpd?\u201d, <em>American Journal of Transportation<\/em>, 6 de enero del 2026.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> Reid Smith, \u201cThe Fate of \u201cAmerica First\u201d How the Assault on Venezuela Threatens Trump\u2019s Promise, <em>Foreign Affairs<\/em>, 9 de enero 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em novembro de 2025, o governo Trump publicou a \u201cEstrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional\u201d,[1] &nbsp;delineando os novos fundamentos estrat\u00e9gicos da a\u00e7\u00e3o imperialista durante esse per\u00edodo para impor sua hegemonia no \u201chemisf\u00e9rio ocidental\u201d. 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