{"id":81986,"date":"2025-12-17T15:09:14","date_gmt":"2025-12-17T15:09:14","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81986"},"modified":"2025-12-17T15:09:15","modified_gmt":"2025-12-17T15:09:15","slug":"o-narcotrafico-e-um-negocio-capitalista-conveniente-para-a-intervencao-imperialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/12\/17\/o-narcotrafico-e-um-negocio-capitalista-conveniente-para-a-intervencao-imperialista\/","title":{"rendered":"O narcotr\u00e1fico \u00e9 um neg\u00f3cio capitalista, conveniente para a interven\u00e7\u00e3o imperialista"},"content":{"rendered":"\n<p>O fato de Trump e a extrema-direita colombiana, o Uribismo, concordarem em uma pol\u00edtica antidrogas de repress\u00e3o militar, erradica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de planta\u00e7\u00f5es il\u00edcitas e defesa da \u201ccoopera\u00e7\u00e3o\u201d entre os Estados Unidos e a Col\u00f4mbia n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia. Eles est\u00e3o unidos pela defesa t\u00e1cita do car\u00e1ter ilegal do neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico, devido aos lucros que ele gera, representando 7% do PIB mundial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 o narcotr\u00e1fico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de seus efeitos nocivos \u00e0 sa\u00fade, os narc\u00f3ticos s\u00e3o mercadorias, valores de troca, ou seja, algo produzido para o mercado, assim como os t\u00eanis s\u00e3o mercadorias porque s\u00e3o produzidos para o mercado, para serem trocados por outra mercadoria, que \u00e9 o dinheiro. Portanto, o narcotr\u00e1fico \u00e9 um neg\u00f3cio capitalista, mas ilegal, o que o torna um dos mais lucrativos, pois gera lucros extraordin\u00e1rios. Al\u00e9m disso, serve de pretexto para a interven\u00e7\u00e3o imperialista em pa\u00edses produtores como a Col\u00f4mbia. Isso n\u00e3o acontece, por exemplo, com o tabaco e o \u00e1lcool, que s\u00e3o mercadorias legais, embora tamb\u00e9m tenham efeitos nocivos \u00e0 sa\u00fade humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Diversos setores da burguesia se beneficiam desse neg\u00f3cio. No caso da Col\u00f4mbia, a mesma burguesia \u00e9 envolvida com o narcotr\u00e1fico, a pecu\u00e1ria e a posse de terras. Al\u00e9m dos bancos e empresas que lavam o dinheiro proveniente desse neg\u00f3cio, h\u00e1 a burguesia da ind\u00fastria militar que produz armas para a guerra gerada por essa economia, e os &nbsp;&#8220;respeitados&#8221; capitalistas que controlam os insumos, incluindo as f\u00e1bricas de glifosato usadas para fumigar as folhas de coca, supostamente para erradic\u00e1-las. No M\u00e9xico, um pa\u00eds produtor de fentanil, os capitalistas dos cart\u00e9is lucram; enquanto na China, os capitalistas desse pa\u00eds lucram com a produ\u00e7\u00e3o de insumos tanto para o fentanil quanto para a coca\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p>Como qualquer empreendimento capitalista, o narcotr\u00e1fico goza da prote\u00e7\u00e3o do Estado, ainda que ilegalmente. Agentes de institui\u00e7\u00f5es como as for\u00e7as armadas, a pol\u00edcia e autoridades alfandeg\u00e1rias e de avia\u00e7\u00e3o (Aerocivil na Col\u00f4mbia), entre outras, garantem o neg\u00f3cio. Um exemplo not\u00f3rio \u00e9 a acusa\u00e7\u00e3o contra \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, quando era diretor da Aerocivil (1980-1982), de ter aprovado licen\u00e7as para rotas a\u00e9reas utilizadas pelo Cartel de Medell\u00edn para o tr\u00e1fico de drogas. Essas licen\u00e7as foram posteriormente revogadas pelo Ministro da Justi\u00e7a, Rodrigo Lara Bonilla, que foi assassinado pelo pr\u00f3prio cartel por desafiar os empres\u00e1rios que o compunham, cujo gerente e propriet\u00e1rio era Pablo Escobar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o existe crime que n\u00e3o esteja sujeito ao capital<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quarterly Reviewer, colunista an\u00f4nimo, em um artigo publicado em julho de 1826 na revista brit\u00e2nica <em>The Quarterly Review<\/em>, afirma que o capital \u00e9 capaz de cometer qualquer crime para obter lucro. De fato, o capital se arrisca a cometer crimes, pequenos ou grandes, dependendo da taxa de lucro prometida pela produ\u00e7\u00e3o de determinada mercadoria. Se a margem de lucro for de 10%, a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores chegar\u00e1 ao ponto de arruinar sua sa\u00fade; mas se for maior, por exemplo, 3.000%, que \u00e9 aproximadamente a margem de lucro do tr\u00e1fico de coca\u00edna, a empresa cometer\u00e1 crimes contra a humanidade, como a organiza\u00e7\u00e3o de grupos paramilitares para realizar massacres. Foi por esse motivo que Santiago Uribe, irm\u00e3o do ex-presidente \u00c1lvaro Uribe, foi recentemente condenado a 28 anos de pris\u00e3o. Seu primo, Mario Uribe, tamb\u00e9m foi condenado a 7 anos de pris\u00e3o por conspira\u00e7\u00e3o agravada por cometer um crime, por fazer pactos e alian\u00e7as com grupos paramilitares de extrema-direita, especificamente as Autodefesas Unidas da Col\u00f4mbia (AUC). Pode-se dizer que os Uribes foram empres\u00e1rios de alto risco, n\u00e3o meros empreendedores.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros crimes de capital incluem contrabando, tr\u00e1fico de pessoas, especula\u00e7\u00e3o financeira, fal\u00eancias fraudulentas e corrup\u00e7\u00e3o envolvendo or\u00e7amentos p\u00fablicos, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos a cita\u00e7\u00e3o da Quarterly Reviewer sobre este assunto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO capital evita tumultos e conflitos e \u00e9 t\u00edmido por natureza. Isso \u00e9 verdade, mas n\u00e3o toda a verdade. O capital abomina a aus\u00eancia de lucro ou lucros muito pequenos, assim como a natureza abomina o vazio. \u00c0 medida que o lucro aumenta, o capital se torna mais ousado. Garanta-lhe 10% e ele ir\u00e1 a qualquer lugar; 20%, e ele j\u00e1 se sentir\u00e1 encorajado; com 50%, positivamente imprudente; com 100%, \u00e9 capaz de transgredir todas as leis humanas; com 300%, n\u00e3o h\u00e1 crime que ele n\u00e3o arrisque, mesmo que isso signifique a forca. Se o tumulto e o conflito significam lucro, haver\u00e1 capital fomentando-os. Prova disso: contrabando e tr\u00e1fico de escravos.\u201d (P. J. Dunning, Sindicatos, etc., p. 36). Citado por Karl Marx em O Capital, Cap\u00edtulo XXIV. Para o capitalismo, se as empresas s\u00e3o legais ou ilegais \u00e9 irrelevante. Este sistema tem apenas uma moralidade: o lucro. Vale tudo, desde que seja \u00fatil para gerar lucro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o social e apropria\u00e7\u00e3o privada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo apresenta a seguinte contradi\u00e7\u00e3o: produ\u00e7\u00e3o social, por um lado, e apropria\u00e7\u00e3o privada da riqueza, por outro.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os \u00e9 social porque envolve coopera\u00e7\u00e3o em larga escala entre trabalhadores do mundo todo, al\u00e9m de conhecimento cient\u00edfico e tecnologia, que s\u00e3o produtos do desenvolvimento social e hist\u00f3rico coletivo da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a produ\u00e7\u00e3o seja um empreendimento coletivo e social, os meios de produ\u00e7\u00e3o (f\u00e1bricas, m\u00e1quinas e capital) pertencem a uma classe social minorit\u00e1ria: a classe capitalista com suas empresas privadas. Portanto, a mais-valia gerada pelo trabalho dos trabalhadores, convertida em lucro, \u00e9 apropriada por propriet\u00e1rios privados, e n\u00e3o pelo coletivo de trabalhadores que a produziu. A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente com os narc\u00f3ticos, pois, como j\u00e1 mencionado, esses produtos s\u00e3o simplesmente mercadorias; apenas sua natureza ilegal aumenta seu potencial de lucro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O mercado da coca\u00edna<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o global de coca\u00edna, que atingiu 3.708 toneladas em 2024, depende de mat\u00e9rias-primas como folhas de coca cultivadas na Col\u00f4mbia (230.000 hectares), Peru (95.000 hectares) e Bol\u00edvia (30.000 hectares), bem como de insumos qu\u00edmicos como permanganato de pot\u00e1ssio (usado para purificar a pasta de coca), acetona, \u00e1cido sulf\u00farico, \u00e1cido clor\u00eddrico e \u00e9ter, produzidos principalmente pela China, seguida pela \u00cdndia, Alemanha e Estados Unidos. <strong><em>Trata-se de produ\u00e7\u00e3o social.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O pre\u00e7o pago a um agricultor na Col\u00f4mbia por um quilo de folhas de coca \u00e9 de 50 centavos de d\u00f3lar, enquanto um quilo de base de coca\u00edna vale cerca de US$ 500. Um quilo de coca\u00edna na Col\u00f4mbia vale aproximadamente US$ 5.000, mas o mesmo quilo nos Estados Unidos ou na Europa pode chegar a custar US$ 39.000. Essa lucratividade \u00e9 o segredo por tr\u00e1s de todos os crimes na Col\u00f4mbia e no mundo, dentro do contexto do mercado da coca\u00edna. Agora, o lucro com o fentanil \u00e9 muito maior. <strong><em>A apropria\u00e7\u00e3o desse lucro \u00e9 privada<\/em>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O mercado do Fentanil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O maior produtor de fentanil para venda como narc\u00f3tico \u00e9 o M\u00e9xico, cujos empres\u00e1rios est\u00e3o organizados no Cartel Jalisco Nova Gera\u00e7\u00e3o (CJNG) e no Cartel de Sinaloa, comandados pelos filhos de El Chapo Guzm\u00e1n, um proeminente empres\u00e1rio mexicano envolvido com diversas drogas psicoativas, que atualmente cumpre pena de pris\u00e3o perp\u00e9tua na penitenci\u00e1ria federal ADX Florence, no Colorado, EUA, por exportar sua &#8220;valiosa&#8221; mercadoria para aquele pa\u00eds. Hoje, a maior parte do fentanil que chega aos Estados Unidos entra pela fronteira norte do M\u00e9xico, causando cerca de 100.000 mortes por ano nos Estados Unidos por overdose. Quanto \u00e0 mat\u00e9ria-prima (precursores), o pa\u00eds produtor \u00e9 a China.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hero\u00edna e \u00d3pio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 concentrada em duas \u00e1reas: o &#8220;Tri\u00e2ngulo Dourado&#8221; no Sudeste Asi\u00e1tico e o Crescente Dourado na \u00c1sia Central. Os principais pa\u00edses produtores s\u00e3o Mianmar (Birm\u00e2nia), Afeganist\u00e3o e M\u00e9xico. Assim como no caso da coca\u00edna e do fentanil, o principal produtor de precursores \u00e9 a China.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) estima que a receita total do com\u00e9rcio de \u00f3pio e hero\u00edna esteja entre US$ 2,8 bilh\u00f5es e US$ 3,4 bilh\u00f5es anualmente, com base em dados de alguns anos atr\u00e1s. \u00c9 importante notar que os n\u00fameros podem variar consideravelmente e as estimativas recentes s\u00e3o dif\u00edceis de determinar com certeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Europa, o valor anual do mercado varejista de hero\u00edna foi estimado em pelo menos \u20ac 5,2 bilh\u00f5es em 2021\u201d (Google.com, modo IA).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A proibi\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fatil para os capitalistas, n\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O debate sobre a legalidade ou ilegalidade das drogas \u00e9 t\u00e3o antigo quanto as pr\u00f3prias drogas. Nesse \u00e2mbito, as realidades econ\u00f4micas e sociais, como sempre, prevaleceram sobre a lei e a justi\u00e7a. Ao longo da hist\u00f3ria, diferentes tipos de subst\u00e2ncias foram consideradas medicamentos ou produtos de consumo socialmente aceitos, para depois serem proibidas e criminalizadas; e vice-versa, subst\u00e2ncias \u201cilegais\u201d tornaram-se legais e socialmente aceitas. O que antes era considerado droga ou subst\u00e2ncia ilegal prejudicial ao corpo humano e \u00e0 sociedade tornou-se disseminado e, em seguida, legalizado: tabaco, \u00e1lcool, estimulantes, tranquilizantes, etc. Mais do que um problema moral ou legal, o que existe \u00e9 uma disputa sobre a imposi\u00e7\u00e3o de um \u201cnovo\u201d produto e o controle de sua produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e consumo. O capitalista n\u00e3o distingue entre o que \u00e9 moral ou imoral, legal ou ilegal, prejudicial ou n\u00e3o prejudicial; ele apenas sabe distinguir com grande precis\u00e3o o que gera pouco lucro e o que gera muito lucro.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito das express\u00f5es pol\u00edticas e militares, esse fen\u00f4meno tamb\u00e9m expressa a \u201cmoralidade\u201d imperialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o imperialismo americano, apenas o que favorece sua seguran\u00e7a nacional \u00e9 permitido e, portanto, a pilhagem e domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica de pa\u00edses semicoloniais exige que pa\u00edses como Col\u00f4mbia, Peru, M\u00e9xico e Bol\u00edvia pro\u00edbam o cultivo de maconha e folhas de coca e reprimam brutalmente o tr\u00e1fico de drogas. Mas em outras regi\u00f5es e pa\u00edses, essas atividades continuam sem controle e s\u00e3o at\u00e9 usadas para atingir objetivos estrat\u00e9gicos.\u201d (Luis Herrera, Narcotr\u00e1fico: <em>Um Neg\u00f3cio Capitalista Lucrativo, um Pretexto para a Interven\u00e7\u00e3o Imperialista<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos exemplos mais conhecidos de proibi\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool \u00e9 a Lei Seca nos Estados Unidos (1920-1933), que foi replicada em outros pa\u00edses. Essa lei proibia a fabrica\u00e7\u00e3o, a venda e o transporte de bebidas alco\u00f3licas. Foi revogada em 1933 justamente porque n\u00e3o funcionou e, em vez disso, levou a um aumento do crime organizado, com Al Capone como um de seus l\u00edderes mais proeminentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Col\u00f4mbia, onde a burguesia nacional considera o capitalismo norte-americano seu modelo ideal, algo semelhante foi feito com a chicha, uma bebida fermentada ind\u00edgena ancestral feita de milho. Sua produ\u00e7\u00e3o e venda foram proibidas pelo Decreto 1839 de 1948 e pela Lei 34 de 1949. Sua proibi\u00e7\u00e3o foi orquestrada para impedir que competisse com a cerveja produzida pela f\u00e1brica Bavaria, de propriedade do capitalista Julio Mario Santodomingo, que buscava o monop\u00f3lio das bebidas alco\u00f3licas. Mas a chicha , por ser proibida deixou de ser produzida e consumida. Agora, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 permitida, como Bogot\u00e1 sedia um festival anual de chicha no tradicional bairro de La Perseverancia, no centro da cidade, sob os ausp\u00edcios do governo local.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a coca\u00edna na Col\u00f4mbia e em outros pa\u00edses, aconteceu o mesmo que com a proibi\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool nos Estados Unidos: o crime organizado floresceu e muitos Al Capones surgiram, como Pablo Escobar, os irm\u00e3os Rodr\u00edguez Orejuela, os irm\u00e3os Ochoa, Carlos Lehder e Gonzalo Rodr\u00edguez Gacha, sem mencionar aqueles que operam legalmente. Alega-se que a m\u00e1fia da coca\u00edna incluiu senadores, representantes da c\u00e2mara (incluindo o pr\u00f3prio Pablo Escobar) e o ex-presidente \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, todos com m\u00faltiplas acusa\u00e7\u00f5es de liga\u00e7\u00f5es com o tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 mais uma prova de que a pol\u00edtica antidrogas do imperialismo estadunidense \u00e9 apenas um pretexto para a interven\u00e7\u00e3o militar, \u00e9 o indulto e a liberdade que Trump concedeu em 2 de dezembro ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hern\u00e1ndez de uma pris\u00e3o americana. Hern\u00e1ndez foi condenado a 45 anos de pris\u00e3o em 2024 por tr\u00e1fico de drogas e posse de armas, e foi considerado culpado de importar centenas de toneladas de coca\u00edna para os Estados Unidos. Este narcotraficante foi perdoado devido \u00e0s suas afinidades pol\u00edticas com Trump e por ter sido um de seus aliados durante o governo anterior; no entanto, ele acusa Maduro e Petro de serem narcotraficantes, sabendo que n\u00e3o o s\u00e3o, simplesmente como pretexto para intervir nesses dois pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O narcotr\u00e1fico e o conflito armado na Col\u00f4mbia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, setores da burguesia na Col\u00f4mbia optaram por atalhos para enriquecer, lucrando com diversos neg\u00f3cios ilegais, como o contrabando e, posteriormente, o narcotr\u00e1fico. O peso desses neg\u00f3cios ilegais serviu de amortecedor para a economia colombiana, o que permitiu que a Col\u00f4mbia superasse recess\u00f5es e crises econ\u00f4micas. Os lucros ilegais permearam todos os ramos da economia e da sociedade, gerando viol\u00eancia cr\u00f4nica na Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, contrabandistas e narcotraficantes burgueses recorrem a armas para proteger e defender seus neg\u00f3cios, Por outro lado, o aparato militar, principal ator na viol\u00eancia colombiana, foi infiltrado pelos lucros de neg\u00f3cios ilegais, seja por meio de extors\u00e3o ou impostos sobre empresas, controle de territ\u00f3rios e rotas, ou participa\u00e7\u00e3o direta na produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de narc\u00f3ticos. O poder do narcotr\u00e1fico foi t\u00e3o grande que penetrou profundamente no ex\u00e9rcito e na pol\u00edcia e, no caso das guerrilhas, transformou-as de organiza\u00e7\u00f5es com um programa reformista pequeno-burgu\u00eas em ex\u00e9rcitos a servi\u00e7o do tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o boom da maconha na d\u00e9cada de 1970 e o da coca\u00edna na d\u00e9cada de 1980, a burguesia narcotraficante, organizou grupos paramilitares armados para monopolizar o neg\u00f3cio, expropriar terras camponesas e desmatar, alegando que esses grupos tinham como objetivo combater a insurg\u00eancia guerrilheira. \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez \u00e9 um dos patrocinadores desses grupos armados. Quando era governador do departamento de Antioquia, legalizou grupos paramilitares sob o nome de Associa\u00e7\u00f5es Comunit\u00e1rias de Vigil\u00e2ncia Rural e Urbana (Convivir), durante as administra\u00e7\u00f5es de C\u00e9sar Gaviria e Ernesto Samper, por meio do Decreto-Lei 356 de 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta dessa mesma \u00e9poca, um setor do grupo guerrilheiro mao\u00edsta, o Ex\u00e9rcito Popular de Liberta\u00e7\u00e3o (EPL), que se desmobilizou em 1991, juntou-se \u00e0s fileiras dos paramilitares para se envolver no neg\u00f3cio do narcotr\u00e1fico, apoiando os propriet\u00e1rios de terras e pecuaristas. V\u00e1rios dos principais comandantes desse grupo guerrilheiro tornaram-se chef\u00f5es do narcotr\u00e1fico; um deles, Dairo Antonio \u00dasuga (codinome Otoniel), tornou-se o chefe do grupo paramilitar e de narcotr\u00e1fico \u201cLos Urabe\u00f1os\u201d, que mais tarde mudou seu nome para Clan del Golfo e \u00e9 hoje um dos maiores grupos armados de direita, com entre 7.000 e 14.000 paramilitares em suas fileiras. Atualmente, dissidentes das FARC e do ELN tamb\u00e9m s\u00e3o acusados \u200b\u200bde envolvimento com o narcotr\u00e1fico, mas esses grupos guerrilheiros negam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse contexto que o governo Petro promoveu sua pol\u00edtica de paz total, incluindo tanto as organiza\u00e7\u00f5es que se autodenominam guerrilheiras quanto as que se autodenominam paramilitares, e no \u00e2mbito da qual foram realizados atentados a bomba nos quais menores recrutados por grupos armados foram mortos. As mortes dessas crian\u00e7as geraram indigna\u00e7\u00e3o tanto da esquerda quanto, oportunisticamente, da direita.<\/p>\n\n\n\n<p>O paramilitarismo tem sido usado n\u00e3o apenas pela burguesia do narcotr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m pela burguesia latifundi\u00e1ria e pecuarista para expulsar camponeses pobres e expropriar suas terras, que somam mais de sete milh\u00f5es de hectares. Assim, pode-se dizer que o que existe hoje \u00e9 uma burguesia do narcotr\u00e1fico, latifundi\u00e1ria e pecuarista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, a burguesia industrial e as corpora\u00e7\u00f5es multinacionais tamb\u00e9m t\u00eam usado o paramilitarismo para assassinar l\u00edderes sindicais, enfraquecer os sindicatos e a luta dos trabalhadores e, assim, defender seus interesses financiando grupos paramilitares. Apenas dois exemplos: a multinacional bananeira Chiquita Brands foi sancionada e declarada respons\u00e1vel pelo financiamento das Autodefesas Unidas da Col\u00f4mbia (AUC), uma organiza\u00e7\u00e3o hipocritamente designada como organiza\u00e7\u00e3o terrorista pelo governo dos EUA. Al\u00e9m disso, a Chiquita Brands foi multada em US$ 38,3 milh\u00f5es para indenizar 16 fam\u00edlias de v\u00edtimas de assassinato.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caso \u00e9 o da Coca-Cola, que, embora n\u00e3o tenha sido sancionada porque o sistema judici\u00e1rio dos EUA afirma n\u00e3o haver provas de que sua sede em Atlanta esteja envolvida, teve seus executivos na Col\u00f4mbia acusados \u200b\u200bde financiar grupos paramilitares para assassinar l\u00edderes sindicais nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000. Mas, neste caso, o sistema judici\u00e1rio colombiano tamb\u00e9m deixa de processar e punir porque, como \u00e9 sabido, defende os interesses dos empres\u00e1rios, n\u00e3o os dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Legalizar o neg\u00f3cio e abordar o v\u00edcio como um problema de sa\u00fade p\u00fablica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Existem alguns setores dentro da pr\u00f3pria burguesia que defendem a legaliza\u00e7\u00e3o das drogas porque a repress\u00e3o e a proibi\u00e7\u00e3o se mostraram ineficazes.<\/p>\n\n\n\n<p>A legaliza\u00e7\u00e3o elimina a ilegalidade do tr\u00e1fico de drogas e, portanto, os imensos lucros divididos entre a burguesia envolvida com o narcotr\u00e1fico, os bancos que lavam dinheiro e os funcion\u00e1rios corruptos. Isso tamb\u00e9m elimina o pretexto para o imperialismo intervir nos pa\u00edses produtores e na periferia, como a administra\u00e7\u00e3o Trump est\u00e1 fazendo atualmente com sua m\u00e1quina de guerra no Caribe e ao longo da costa venezuelana.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma perspectiva oper\u00e1ria, o problema do narcotr\u00e1fico deve ser abordado compreendendo-se a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de narc\u00f3ticos como um ramo da economia. Assim como o \u00e1lcool, \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, j\u00e1 que milh\u00f5es usam seus efeitos como uma fuga da aliena\u00e7\u00e3o capitalista e da decad\u00eancia social. Portanto, uma solu\u00e7\u00e3o fundamental n\u00e3o reside em proibir e perseguir as subst\u00e2ncias, as plantas, as planta\u00e7\u00f5es ou os camponeses e trabalhadores que dependem de sua produ\u00e7\u00e3o para sobreviver, mas sim em combater os burgueses donos do neg\u00f3cio, a ilegalidade que multiplica seus lucros e o problema social do consumo. A luta contra o narcotr\u00e1fico est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 luta contra o capitalismo e \u00e0 luta pela revolu\u00e7\u00e3o socialista. Dentro da estrutura dessa luta estrat\u00e9gica, mesmo na sociedade decadente de hoje, \u00e9 necess\u00e1rio e poss\u00edvel lutar por medidas urgentes que eliminem a distor\u00e7\u00e3o que o narcotr\u00e1fico representa para a economia e a luta de classes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Legaliza\u00e7\u00e3o sob controle estatal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro passo deve ser eliminar a fonte que torna o neg\u00f3cio lucrativo, ou seja, sua ilegalidade, e legaliz\u00e1-lo, como ocorre com o \u00e1lcool e o tabaco. A maconha est\u00e1 atualmente passando por um processo de legaliza\u00e7\u00e3o. O Uruguai foi o primeiro pa\u00eds a legaliz\u00e1-la completamente em 2013; o Canad\u00e1 a legalizou em 2018, Malta em 2021 e Luxemburgo em 2023; na Alemanha, houve legaliza\u00e7\u00e3o parcial para uso recreativo e cultivo dom\u00e9stico desde abril de 2024, permitindo a posse e o cultivo limitado, com vendas por meio de clubes de cannabis planejadas para mais adiante. No M\u00e9xico, o uso recreativo para consumo pessoal foi descriminalizado, embora existam restri\u00e7\u00f5es \u00e0s vendas comerciais em larga escala, e nos Estados Unidos, no n\u00edvel federal, \u00e9 ilegal, mas em v\u00e1rios estados foi legalizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as drogas devem ser legalizadas, sob controle estatal e social, eliminando assim o monop\u00f3lio dos cart\u00e9is de drogas. Portanto, no caso da coca\u00edna e da maconha na Col\u00f4mbia, a produ\u00e7\u00e3o, a distribui\u00e7\u00e3o e o consumo devem ser legalizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Legalizar as drogas n\u00e3o significa que recomendamos seu uso; pelo contr\u00e1rio, defendemos o desenvolvimento de campanhas contra o uso viciante, partindo do princ\u00edpio de que, como acontece com todas as drogas, se o usu\u00e1rio se torna viciado, isso prejudica sua sa\u00fade. Portanto, a legaliza\u00e7\u00e3o implica diversas medidas:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Combater<\/strong> a interven\u00e7\u00e3o e a militariza\u00e7\u00e3o dos esfor\u00e7os &#8220;antidrogas&#8221; pelo imperialismo estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Controle oper\u00e1rio<\/strong> de laborat\u00f3rios farmac\u00eauticos, portos, zonas francas e do sistema financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Expropria\u00e7\u00e3o sem indeniza\u00e7\u00e3o<\/strong> dos bens de traficantes de drogas e empresas envolvidas em lavagem de dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Descriminaliza\u00e7\u00e3o do consumo<\/strong>. A criminaliza\u00e7\u00e3o concentra-se em atingir consumidores e pequenos traficantes, enquanto os grandes chef\u00f5es do narcotr\u00e1fico gozam de impunidade e da colabora\u00e7\u00e3o de agentes dentro das institui\u00e7\u00f5es estatais. Isso ajudar\u00e1 a reduzir a viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o e os homic\u00eddios relacionados a esse neg\u00f3cio il\u00edcito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Campanhas de sa\u00fade p\u00fablica<\/strong> para combater o v\u00edcio, garantindo programas de atendimento e reabilita\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o viciada em todas as drogas, incluindo o \u00e1lcool. Um mercado regulamentado que permita o controle de qualidade, pureza e dosagem, reduzindo o risco de overdose devido \u00e0 adultera\u00e7\u00e3o ou \u00e0 falta de conhecimento sobre a pot\u00eancia da subst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Recursos para investimento social<\/strong>. Os recursos atualmente destinados \u00e0 &#8220;guerra \u00e0s drogas&#8221; podem ser redirecionados para programas de investimento social para a preven\u00e7\u00e3o e o tratamento do v\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Acesso a tratamento m\u00e9dico sem estigma<\/strong>, valorizando o uso de drogas como uma quest\u00e3o de sa\u00fade, e n\u00e3o como uma quest\u00e3o de justi\u00e7a criminal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fato de Trump e a extrema-direita colombiana, o Uribismo, concordarem em uma pol\u00edtica antidrogas de repress\u00e3o militar, erradica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de planta\u00e7\u00f5es il\u00edcitas e defesa da \u201ccoopera\u00e7\u00e3o\u201d entre os Estados Unidos e a Col\u00f4mbia n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia. 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