{"id":81934,"date":"2025-11-28T19:30:48","date_gmt":"2025-11-28T19:30:48","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=81934"},"modified":"2025-11-28T19:31:49","modified_gmt":"2025-11-28T19:31:49","slug":"china-a-potencia-imperialista-emergente-em-pugna-com-os-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2025\/11\/28\/china-a-potencia-imperialista-emergente-em-pugna-com-os-eua\/","title":{"rendered":"China, a pot\u00eancia imperialista emergente em pugna com os EUA"},"content":{"rendered":"\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Marco Rubio, o rec\u00e9m-nomeado secret\u00e1rio de Estado de Trump, destacou em sua posse que \u201ca China \u00e9 o advers\u00e1rio mais perigoso e potente que os EUA j\u00e1 enfrentaram\u201d. Em termos semelhantes se pronunciou, dois anos antes, Blinken, o secret\u00e1rio de Estado de Biden, na Universidade G. Washington:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abseguiremos enfocados no desafio a longo prazo mais s\u00e9rio para a ordem internacional, o que prop\u00f5e a China (\u2026) o \u00fanico pa\u00eds com a inten\u00e7\u00e3o de remodelar a ordem internacional e, cada vez mais, com o poder econ\u00f4mico, diplom\u00e1tico, militar e tecnol\u00f3gico para faz\u00ea-lo\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas palavras atestam o antagonismo entre os EUA, o imperialismo que tem ostentado \u2013e continua fazendo\u2013 o dom\u00ednio mundial desde o fim da II Guerra Mundial e o imperialismo emergente chin\u00eas. A irrup\u00e7\u00e3o da companhia de Intelig\u00eancia Artificial (IA) chinesa DeepSeek, desafiando os planos dos grandes monop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos norte-americanos, \u00e9 uma viva manifesta\u00e7\u00e3o desse antagonismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, desde a emerg\u00eancia da China como nova pot\u00eancia imperialista a partir de sua resposta \u00e0 grande crise econ\u00f4mica de 2008, temos entrado em um prolongado per\u00edodo de conflito entre ambos os imperialismos. \u00c9 um choque que condiciona a marcha do organismo econ\u00f4mico mundial, globalmente estagnado desde a crise de 2008. Afeta de cheio a divis\u00e3o mundial do trabalho (DMT) e desequilibra profundamente o Sistema de Estados, relocalizando o papel dos pa\u00edses e regi\u00f5es do mundo. Este antagonismo se tornou um eixo central da pol\u00edtica mundial.<br>O acesso de Trump \u00e0 presid\u00eancia norte-americana precipita a crise da Ordem Mundial, acentua os choques comerciais, tecnol\u00f3gicos e geopol\u00edticos com a China, e intensifica a corrida armamentista global aumentando as tens\u00f5es e at\u00e9 o risco mesmo de colis\u00f5es militares.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste artigo, vamos focar no processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na China, sob a iniciativa e dire\u00e7\u00e3o da burocracia do Partido Comunista Chin\u00eas (PCCh), at\u00e9 a convers\u00e3o do pa\u00eds em uma pot\u00eancia imperialista emergente. Tamb\u00e9m revisaremos o estado atual do conflito com os EUA e a situa\u00e7\u00e3o atual da China, que enfrenta a nova onda tarif\u00e1ria de Trump em um cen\u00e1rio interno complicado.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O processo de restaura\u00e7\u00e3o ocorreu no contexto da reconcilia\u00e7\u00e3o do PCCh com o imperialismo norte-americano. Essa reconcilia\u00e7\u00e3o, com grandes implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas (como a invas\u00e3o chinesa do Vietn\u00e3), ganhou sua dimens\u00e3o mais colossal na restaura\u00e7\u00e3o capitalista da China, que iniciou um processo de reordenamento da economia mundial que ia dar lugar \u00e0 <em>Globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>, na qual a China ia se tornar a \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d. Finalmente, a <em>Grande Recess\u00e3o <\/em>de 2007- 2008 colocou em quest\u00e3o a <em>Globaliza\u00e7\u00e3o <\/em>e provocou uma enorme crise que gerou uma resposta massiva do capitalismo chin\u00eas, que culminou emergindo como nova pot\u00eancia imperialista, em rivalidade com os EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 insepar\u00e1vel de seu grande impulsionador e benefici\u00e1rio: o PCCh, o partido da burocracia mao-estalinista e eixo vertebrado da ditadura chinesa. Seu peso avassalador vem de ter usufru\u00eddo da revolu\u00e7\u00e3o de 1949 e de se erguer sobre ela durante 60 anos como uma casta burocr\u00e1tica onipotente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os investimentos estrangeiros nunca teriam chegado, muito menos no volume gigantesco em que o fizeram, sem a exist\u00eancia de uma ditadura burocr\u00e1tica capitalista que garantisse firmemente os lucros extra\u00eddos de uma classe trabalhadora superexplorada e sem direitos, e que facilitasse,<br>da mesma forma, infraestrutura, suprimentos baratos, mercado e um ambiente fiscal favor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ditadura que, ao mesmo tempo, promovia ativamente a acumula\u00e7\u00e3o capitalista aut\u00f4noma. O PCCh sempre buscou utilizar a restaura\u00e7\u00e3o para se tornar ele mesmo o cora\u00e7\u00e3o do capitalismo chin\u00eas, formando um conglomerado com a nova burguesia privada, que j\u00e1 emergia com for\u00e7a ao calor das IED (investimentos estrangeiros diretos) imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dirigida por Deng Xiaoping, a burocracia mao-estalinista, ao contr\u00e1rio da URSS, n\u00e3o se fraturou nem estourou em peda\u00e7os, mas manteve sua unidade e dirigiu e controlou o processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista. Preservou a independ\u00eancia pol\u00edtica do regime e manteve um ritmo gradualista (\u00abcruzar o rio sentindo as pedras sob a \u00e1gua\u00bb), assegurando-se de manter a qualquer pre\u00e7o seu monop\u00f3lio como partido-Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o de restaurar o capitalismo, alguns anos antes que Gorbachov, foi a op\u00e7\u00e3o do aparato burocr\u00e1tico triunfante da chamada <em>Revolu\u00e7\u00e3o Cultural <\/em>(1966-1976). Esta, inicialmente uma disputa interburocr\u00e1tica instigada por Mao para recuperar o poder perdido ap\u00f3s as consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas do \u201c<em>Grande Salto Para Frente<\/em>\u201d, acabou em uma verdadeira contrarrevolu\u00e7\u00e3o, na qual o aparato mao\u00edsta, com o ex\u00e9rcito \u00e0 frente, acabou a sangue e fogo com uma rebeli\u00e3o de setores de jovens e de trabalhadores que lhe escapou das m\u00e3os<sup>1<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p><kbd>1\u00a0O <em>Grande Salto Para Frente <\/em>foi um plano impulsionado por Mao no campo entre os anos 1958 e 1962. Caracterizou-se pela coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos camponeses, por meio do estabelecimento de <em>comunas <\/em>rurais a que designaram o objetivo de multiplicar a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola (com cotas obrigat\u00f3rias) e por instalar de maneira generalizada pequenos altos-fornos rurais para fundir a\u00e7o, cuja produ\u00e7\u00e3o devia <em>superar a brit\u00e2nica<\/em> em 15 anos. Um aspecto central do plano era garantir a exporta\u00e7\u00e3o agr\u00edcola para reembolsar a d\u00edvida contra\u00edda com a URSS. O plano, arbitr\u00e1rio, coercitivo e sem recursos que o tornassem poss\u00edvel, baseou-se em uma enorme superexplora\u00e7\u00e3o camponesa e fracassou em todos os seus objetivos: a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola n\u00e3o n\u00e3o aumentou, o a\u00e7o era em sua maior parte imprest\u00e1vel e dezenas de barragens constru\u00eddas colapsaram em 1975. Deu lugar, pelo contr\u00e1rio, a uma fome massiva que provocou a morte de milh\u00f5es de camponeses (pelo menos 10 milh\u00f5es, havendo fontes que calculam em 35 milh\u00f5es). <br><\/kbd><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Da \u00abReforma e Abertura\u00bb (1978) de Deng ao massacre de Tiananmen (1989)<\/h5>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista come\u00e7ou em 1978-1979, coincidindo com a visita de Deng a Washington. O eixo inicial da \u00ab<em>Reforma e Abertura<\/em>\u00bb foi o campo, onde vivia a avassaladora maioria da popula\u00e7\u00e3o chinesa (80%). As comunas e fazendas coletivas foram abolidas e instaurou-se o \u00ab<em>sistema de responsabilidade familiar<\/em>\u00bb. A descoletiviza\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou muito r\u00e1pido e a reforma teve um surpreendente sucesso, ajudada pelo aumento do pre\u00e7o do gr\u00e3o, cr\u00e9ditos e melhorias t\u00e9cnicas.<\/p>\n\n\n\n<p>O complemento da descoletiviza\u00e7\u00e3o foram as \u00ab<em>Empresas de Pueblo y Aldea<\/em>\u00bb (<em>TVEs<\/em>), n\u00e3o agr\u00e1rias, que se concentraram nas regi\u00f5es costeiras. Na primeira d\u00e9cada, foram o principal motor de acumula\u00e7\u00e3o capitalista. De empregar 28 milh\u00f5es de trabalhadores (1978), passaram a ocupar 125 milh\u00f5es (1993) e a produzir 25% do PIB. Mais tarde, quando, ap\u00f3s o massacre de Tiananmen (1989), se acelerou a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, a prioridade passou para as cidades da costa e as <em>TVEs <\/em>entraram em crise aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s 1992, coincidindo com o aceleracionismo restauracionista, as \u00e1reas rurais ficaram fortemente desassistidas, provocando uma grave crise que obrigou os camponeses a emigrar em massa. Enquanto isso, o governo promovia a compra e venda dos direitos de uso da terra, sua concentra\u00e7\u00e3o, a usurpa\u00e7\u00e3o de terras pelos governos locais, e a cria\u00e7\u00e3o de uma burguesia agr\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>As medidas restauracionistas no campo foram a pe\u00e7a imprescind\u00edvel para \u00abliberar\u00bb 200 milh\u00f5es de camponeses e obrig\u00e1-los a se deslocar para as cidades como m\u00e3o de obra migrante (<em>nonmigong<\/em>), trabalhando em regime de f\u00e1brica-quartel, com sal\u00e1rios muito baixos, empregos prec\u00e1rios; sem direito a aposentadoria, plano de sa\u00fade ou educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para seus filhos, por n\u00e3o terem registro de resid\u00eancia (hukou) urbano. Um apartheid que os transforma em cidad\u00e3os de segunda, com uma identidade rural heredit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O segredo final do <em>milagre econ\u00f4mico<\/em> chin\u00eas destes 40 anos reside em grande medida na mais-valia extra\u00edda desses trabalhadores migrantes, que comp\u00f5em uma parte substancial da classe trabalhadora chinesa.<\/p>\n\n\n\n<p>O pacote da \u00ab<em>Reforma e Abertura<\/em>\u00bb estabeleceu tamb\u00e9m quatro \u00ab<em>Zonas Econ\u00f4micas Especiais<\/em>\u00bb (<em>ZEE<\/em>), entre elas Shenzhen, projetadas para atrair investimento estrangeiro. A partir de 1984, o PCCh facilitou o acesso do capital estrangeiro a quatorze cidades costeiras com privil\u00e9gios semelhantes, desta vez em colabora\u00e7\u00e3o com os governos locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta fase respondeu ao avan\u00e7o da integra\u00e7\u00e3o chinesa nas cadeias de produ\u00e7\u00e3o asi\u00e1ticas dos novos ramos industriais (TIC, \u201c<em>tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d), orientadas para a exporta\u00e7\u00e3o e sustentadas nos investimentos dos \u201c<em>Tigres Asi\u00e1ticos<\/em>\u201d e Jap\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou a liberaliza\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos bens de consumo, dando lugar a uma infla\u00e7\u00e3o desenfreada (21% em 1988), combinada com um forte aumento da desigualdade social e uma corrup\u00e7\u00e3o generalizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre essas bases, se desenvolveu o levante popular que, liderado pelos estudantes, teve como epicentro a pra\u00e7a de Tiananmen, estendendo-se pelo pa\u00eds, exigindo liberdades, o fim da corrup\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a social. Em 4 de junho de 1989, diante da extens\u00e3o do movimento e do crescente envolvimento de setores de trabalhadores, conscientes de que seu desenvolvimento levava a questionar a ditadura do PCCh, o ex\u00e9rcito esmagou em sangue a revolta e procedeu a uma selvagem repress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ap\u00f3s Tiananmen, a restaura\u00e7\u00e3o capitalista avan\u00e7ou a passos largos<\/h4>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o massacre, durante um breve interregno, o processo ficou paralisado pelas divis\u00f5es internas sobre o ritmo sobre o<br>ritmo e as modalidades da restaura\u00e7\u00e3o e sobre a melhor maneira de preservar o monop\u00f3lio do PCCh e sua ditadura.<br>A famosa Viagem ao Sul de Deng, em fevereiro de 1992, aos 88 anos, encerrou o interregno e inaugurou o &#8220;Grande <em>Compromisso<\/em>&#8220;. Este unificou as distintas fra\u00e7\u00f5es do PCCh. Com Deng \u00e0 frente, deixaram claro que, ap\u00f3s Tiananmen, n\u00e3o havia marcha atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>As empresas estatais (SOEs: <em>State Owned Enterprises<\/em>) \u00ab<em>pequenas e m\u00e9dias<\/em>\u00bb foram privatizadas, caindo nas m\u00e3os dos burocratas provinciais e locais, em combina\u00e7\u00e3o com seus \u00abcronies\u00bb (compinches) e os antigos diretores. As grandes SOEs foram profundamente reestruturadas: parte de seu capital passou a cotar na bolsa; entre 30 e 40 milh\u00f5es de trabalhadores (60%) foram despedidos e os que ficaram sofreram um imenso retrocesso laboral. Paralelamente, a chegada de capital estrangeiro superava as melhores expectativas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O salto ap\u00f3s a entrada na OMC (2001)<\/h4>\n\n\n\n<p>A entrada da China na OMC, em 2001, acelerou as medidas de liberaliza\u00e7\u00e3o, melhorou as condi\u00e7\u00f5es do investimento estrangeiro, abriu muitas portas para o mercado chin\u00eas, e permitiu um forte impulso \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es. Significou um forte aumento dos investimentos estrangeiros, desta vez protagonizados pelos EUA e o resto dos grandes pa\u00edses imperialistas. Em 2009, 27% dos investimentos globais tiveram a China como destino. As multinacionais ocidentais passaram a se servir massivamente da China, via investimento direto e subcontrata\u00e7\u00f5es, para produzir componentes e para sua montagem final, o que provocou, por sua vez, uma deslocaliza\u00e7\u00e3o industrial generalizada em seus pa\u00edses. Ao mesmo tempo, a burguesia norte-americana for\u00e7ou uma intensa queda de sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho em seu pa\u00eds (que se generalizou a todo o mundo). Eis aqui, resumida, a ess\u00eancia da \u00ab<em>Chim\u00e9rica<\/em>\u00bb. Nesse processo, em apenas duas d\u00e9cadas, a China se tornou a \u00ab<em>f\u00e1brica do mundo<\/em>\u00bb, superando em 2011 os EUA como maior pot\u00eancia manufatureira.<\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia chinesa emergiu e se fortaleceu a partir de sua integra\u00e7\u00e3o nas cadeias de suprimento das f\u00e1bricas criadas pelo investimento estrangeiro, com exporta\u00e7\u00f5es massivas, atrav\u00e9s das obras colossais de infraestrutura e da massiva urbaniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Isso foi feito ganhando for\u00e7a em segmentos dos processos de fabrica\u00e7\u00e3o e explorando o vasto mercado rural da China. O pr\u00f3prio atraso da China lhe permitiu, paradoxalmente, saltar etapas inteiras de desenvolvimento Assim, a ado\u00e7\u00e3o da alta tecnologia nas telecomunica\u00e7\u00f5es n\u00e3o foi feita repetindo cada etapa dos pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, mas instalando cabos de fibra \u00f3tica em todo o pa\u00eds praticamente de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo parecido se pode dizer sobre os ve\u00edculos el\u00e9tricos ou os pain\u00e9is solares, em que a China \u00e9 a primeira pot\u00eancia<br>tecnol\u00f3gica e comercial. O processo da acumula\u00e7\u00e3o capitalista aut\u00f4noma, com o surgimento de poderosos oligop\u00f3lios privados, contou com o apoio massivo do Estado, que manteve em suas m\u00e3os o sistema de cr\u00e9dito2, a energia e as ind\u00fastrias de base e desenvolveu as infraestruturas. O Estado forneceu aos oligop\u00f3lios privados &#8211; concentrados nos setores de bens de consumo &#8211; empr\u00e9stimos, ajudas e participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias, assim como energia e bens de produ\u00e7\u00e3o baratos, al\u00e9m de impostos camaradas. Ao mesmo tempo, for\u00e7ava a transfer\u00eancia de tecnologia ocidental atrav\u00e9s de joint-ventures, em troca do acesso ocidental a uma for\u00e7a de trabalho semiescrava e ao crescente mercado chin\u00eas.3<\/p>\n\n\n\n<p>O controle do processo de restaura\u00e7\u00e3o permitiu ao Estado manter taxas de investimento de 40% do PIB durante d\u00e9cadas (com a consequente redu\u00e7\u00e3o do consumo da popula\u00e7\u00e3o) e promover, em especial desde o acesso de Xi Jinping, um poderoso desdobramento de investimentos no exterior. Em rela\u00e7\u00e3o ao PIB, segundo o Escrit\u00f3rio Nacional de Estat\u00edstica, entre 1980 e 2014 apresentou uma taxa m\u00e9dia de crescimento de 9,5%. Embora desde ent\u00e3o o \u00edndice tenha ido em retrocesso: em 2017 era de 6,9%; em 2024 chegou justo a 5%, e para 2025 prev\u00ea 4-5%.<\/p>\n\n\n\n<p><kbd>2 AYALA, Ricardo. \u201cO sistema banc\u00e1rio chin\u00eas e a guerra comercial de Trump\u201d, 24 de julho de 2019, litci.org.<\/kbd><\/p>\n\n\n\n<p><kbd>3\u00a0Mediante SOEs com taxas de lucro netamente inferiores \u00e0s empresas privadas (POEs, <em>Empresas de Propriedade Privada<\/em>).<br><\/kbd><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrela\u00e7amento entre capital estatal e privado<\/h4>\n\n\n\n<p>O capitalismo chin\u00eas se caracteriza por uma amalgama entre o capital estatal e o privado<sup>4<\/sup>. As grandes corpora\u00e7\u00f5es privadas (Internet, alta tecnologia, carro el\u00e9trico, telecomunica\u00e7\u00f5es, eletr\u00f4nica, farmac\u00eauticas, rob\u00f3tica\u2026) se beneficiam de financiamento e contratos massivos do Estado, que desempenha um papel chave em sua expans\u00e3o exterior. As grandes SOEs e bancos estatais t\u00eam participa\u00e7\u00e3o privada em seu capital e est\u00e3o listados nas Bolsas chinesas; muitos tamb\u00e9m em Hong Kong e um n\u00famero significativo em pra\u00e7as estrangeiras. Juntas, as grandes corpora\u00e7\u00f5es privadas e estatais conformam grandes cons\u00f3rcios.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo dados oficiais de 2017, o setor privado contribu\u00eda com mais de 60% do PIB e mantinha a mesma porcentagem no investimento em capital fixo e nas invers\u00f5es exteriores. Representava mais de 70% das empresas de alta tecnologia, mais de 80% do emprego urbano e mais de 90% dos novos empregos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2020, os super-ricos da China alcan\u00e7aram, no calor da pandemia, uma fortuna combinada de 4 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, mais do que o PIB da Alemanha. A fam\u00edlia de Jack Ma (<em>Alipay<\/em>) liderava a lista macabra com uma fortuna do tamanho da economia russa<sup>5<\/sup>. O <em>Star Market<\/em>, a bolsa tecnol\u00f3gica de Xangai (o <em>Nasdaq<\/em> chin\u00eas) havia \u201ccriado\u201d nesse per\u00edodo 13 novos bilion\u00e1rios, entre eles o dono do Tiktok e o fundador da plataforma de com\u00e9rcio eletr\u00f4nica Pinduoduo.<\/p>\n\n\n\n<p><kbd>4\u00a0Aqueles que estiverem interessados na pol\u00eamica com aqueles que sustentam que o regime chin\u00eas \u00e9 \u201c<em>o socialismo de nossos dias<\/em>\u201d ou defendem que o que h\u00e1 na China n\u00e3o \u00e9 capitalismo, mas sim um \u201cregime em transi\u00e7\u00e3o entre capitalismo e socialismo\u201d, ver AYALA, Ricardo e ALEGR\u00cdA, Felipe, \u201cChina: \u00bfUm regime capitalista, o \u00absocialismo de nossos dias\u00bb ou um regime social \u00abintermedi\u00e1rio\u00bb?\u201d, 14 de dezembro de 2021, litci.org.<\/kbd><\/p>\n\n\n\n<p><kbd>5\u00a0REN, Daniel. \u201cJack Ma lidera o grupo enquanto as fortunas dos bilion\u00e1rios chineses em 2020 crescem ao tamanho da economia da R\u00fassia\u201d, <em>South China Morning Post<\/em>, 20 de outubro de 2020.<\/kbd><\/p>\n\n\n\n<p><kbd><a href=\"http:\/\/www.scmp.com\/business\/money\/wealth\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scmp.com\/business\/money\/wealth\/<\/a> artigo\/3106202\/jack-ma-lidera-grupo-de-bilion\u00e1rios-chineses-2020-fortunas-crescem<br><\/kbd><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O impulso imperialista chin\u00eas<\/h4>\n\n\n\n<p>Lenin, em sua obra <em>O imperialismo, fase superior do capitalismo <\/em>(1916), vinculava a emerg\u00eancia da Alemanha como pot\u00eancia imperialista \u00e0 resposta do capitalismo germ\u00e2nico \u00e0 grande crise econ\u00f4mica do final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX. Analogamente, a resposta chinesa \u00e0 grande recess\u00e3o de 2007-2008 (que cortou abruptamente suas exporta\u00e7\u00f5es e provocou uma desvaloriza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do capital) provocou seu impulso imperialista como via para preservar e ampliar o poder dos oligop\u00f3lios chineses e manter a pr\u00f3pria independ\u00eancia pol\u00edtica do regime.<\/p>\n\n\n\n<p>A burocracia mao-estalinista for\u00e7ou a maquinaria de cr\u00e9dito, aumentando o investimento at\u00e9 45% do PIB e prop\u00f4s um \u00ab<em>mudan\u00e7a de modelo de desenvolvimento<\/em>\u201d, que tomou contornos precisos com Xi Jinping (2012).<\/p>\n\n\n\n<p>D. Harvey, em seu livro <em>Marx, o capital e a loucura da raz\u00e3o econ\u00f4mica <\/em>(2017), aponta: \u00abEm 2007 n\u00e3o havia nem um km de ferrovia de alta velocidade, em 2015 h\u00e1 20.000 km (\u2026) Entre 1900 e 1999, os EUA consumiram 4,5 milh\u00f5es de toneladas de cimento. Entre 2011 e 2013, a China consumiu 6,5 milh\u00f5es de toneladas. Em dois anos, os chineses consumiram mais cimento do que os EUA em todo um s\u00e9culo (\u2026) Nos \u00faltimos anos, mais da metade da produ\u00e7\u00e3o e do consumo de a\u00e7o do mundo ocorreu na China\u00bb. <sup>6<\/sup> Tudo isso colocou em 2011 o PIB chin\u00eas na segunda posi\u00e7\u00e3o global. Nestes anos, junto \u00e0s grandes infraestruturas, o setor imobili\u00e1rio saltou de 9% do PIB (2000) para 21% (2020). A sobreinvestimento em setores como o a\u00e7o ou o cimento se acentuou, enquanto a manufatura, telecomunica\u00e7\u00f5es e alta tecnologia ficavam para tr\u00e1s, a taxa de lucro e a produtividade do pa\u00eds ca\u00edram.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta foi um pacote com dois componentes combinados: o primeiro, o programa \u00ab<em>Made in China 2025<\/em>\u00bb, lan\u00e7ado por Xi em 2015. Nele se concretizavam 10 setores priorit\u00e1rios e tecnologias-chave como 5G, Intelig\u00eancia Artificial (IA) e semicondutores (chips). Promovia \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d, isto \u00e9, monop\u00f3lios chineses para os quais preservava o dom\u00ednio do mercado dom\u00e9stico para, sobre essa base, afirmar sua primazia global. Mais tarde veio o programa China Standards 2035, com a meta de fixar padr\u00f5es globais para novas tecnologias. 6\u00a0HARVEY, David. <em>Marx, o capital e a loucura da raz\u00e3o econ\u00f4mica, <\/em>Madrid: Akal Ediciones, 2019.<br>O segundo componente foi a sa\u00edda ao exterior. Se at\u00e9 ent\u00e3o a exporta\u00e7\u00e3o de mercadorias havia crescido rapidamente, agora, com Xi Jinping, o que tomava velocidade vertiginosa era a exporta\u00e7\u00e3o de capitais. A China ocupava em 1990 a 16\u00aa posi\u00e7\u00e3o no ranking de exportadores de capital. Em 2010 era a 4\u00aa e em 2018 a segunda. Em 2019, seu IED foi de US$117  bilh\u00f5es, enquanto a dos EUA era de US$125 bilh\u00f5es. Em 2020, o investimento chin\u00eas no exterior superava o investimento estrangeiro no interior do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00f3rmula que condensou a sa\u00edda chinesa para o exterior foi a BRI (<em>Belt and Road Initiative<\/em>; em portugu\u00eas \u00ab<em>Iniciativa do Cintur\u00e3o e da Rota da Seda<\/em>\u00bb), lan\u00e7ada em 2013 e convertida por Xi no principal mecanismo de expans\u00e3o imperialista chinesa. A BRI \u00e9 uma ferramenta de controle e apropria\u00e7\u00e3o de fontes energ\u00e9ticas e mat\u00e9rias-primas, de sa\u00edda da superprodu\u00e7\u00e3o interna e conquista de mercados, em particular em pa\u00edses semicoloniais (o \u201c<em>Sul Global<\/em>\u201d), de expans\u00e3o dos monop\u00f3lios chineses e de deslocaliza\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias chinesas intensivas em m\u00e3o de obra. Como uma extens\u00e3o \u201cnatural\u201d da BRI, est\u00e3o os grandes investimentos na Am\u00e9rica Latina, associados \u00e0 convers\u00e3o da China no principal parceiro comercial da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, o imperialismo chin\u00eas, de m\u00e3os dadas com o Estado, investiu poderosamente no mercado asi\u00e1tico e africano, onde \u00e9 o principal credor (e o segundo em escala global). Fortaleceu intensas rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia, com os olhos voltados para a \u00c1sia Central e para o fornecimento energ\u00e9tico. Entrou com \u00edmpeto no Oriente M\u00e9dio, onde \u00e9 o principal parceiro comercial. Na \u00c1frica, deslocou as pot\u00eancias tradicionais (Fran\u00e7a, Gr\u00e3-Bretanha, Estados Unidos). Uma express\u00e3o conclusiva \u00e9 a recente celebra\u00e7\u00e3o em Pequim (setembro de 2024) do <em>F\u00f3rum de Coopera\u00e7\u00e3o China-\u00c1frica <\/em>com a participa\u00e7\u00e3o de chefes de Estado e de governo de mais de 50 pa\u00edses africanos.<\/p>\n\n\n\n<p>A China se tornou o primeiro parceiro comercial da Am\u00e9rica Latina (onde 21 pa\u00edses aderiram \u00e0 BRI e \u00e9, ap\u00f3s os EUA, o segundo exportador de capitais para a regi\u00e3o. Exemplos incluem a f\u00e1brica de carros el\u00e9tricos (EV) da ByD no Brasil, o investimento na Bol\u00edvia da CATL (principal produtora mundial de baterias) para extrair l\u00edtio do salar de Uyuni, ou a constru\u00e7\u00e3o dos portos de Chancay (Peru) e Ensenada (M\u00e9xico).<\/p>\n\n\n\n<p>Os monop\u00f3lios chineses se tornaram for\u00e7as nitidamente beligerantes na luta global por recursos, mercados e as \u00ab\u00e1reas <em>de influ\u00eancia<\/em>\u00bb, com a BRI como ponta de lan\u00e7a. O not\u00e1vel e crescente fortalecimento militar da China faz parte desse movimento, em particular de seu poderio naval no Mar do Sul da China.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi esse impulso imperialista da China que fez entrar em crise a <em>Globaliza\u00e7\u00e3o<\/em> (com sua <em>Chim\u00e9rica<\/em>) e a Ordem Mundial, na qual at\u00e9 ent\u00e3o os EUA exerciam um dom\u00ednio absoluto e indiscut\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O conflito China-EUA hoje<\/h4>\n\n\n\n<p>Pouco depois da posse de Trump, grandes tecnol\u00f3gicas norte-americanas anunciavam na Casa Branca um investimento megamilion\u00e1rio de US$500 bilh\u00f5es. Objetivo: assegurar o monop\u00f3lio norte-americano sobre a IA, necess\u00e1rio para uma apropria\u00e7\u00e3o mundial de superganhos tecnol\u00f3gicos e para a hegemonia global norte-americana. A irrup\u00e7\u00e3o, alguns dias depois, do chat chin\u00eas de IA, DeepSeek, questionava esses planos e colocava em d\u00favida a primazia norte-americana na IA e o papel que a China ia desempenhar nesse terreno vital<sup>7<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p><kbd>7\u00a0SULLIVAN, Jake. \u201cComent\u00e1rios do Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional Jake Sullivan na C\u00fapula Global de Tecnologias Emergentes do Projeto de Estudos Competitivos Especiais\u201d Briefing da Casa Branca, 16 de janeiro de 2022. Na confer\u00eancia, o ex-assessor de Biden afirmou expressamente que n\u00e3o permitiriam que a China liderasse a IA porque o dom\u00ednio geopol\u00edtico do pa\u00eds estava subordinado \u00e0 hegemonia neste campo.<\/kbd><\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos continuam mantendo a hegemonia econ\u00f4mica mundial, sustentada em uma produtividade geral que supera claramente a da China, ao que se deve adicionar seu dom\u00ednio financeiro global (e, evidentemente, geopol\u00edtico e militar). Os EUA continuam sendo a primeira pot\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos bens de consumo final (ind\u00fastria digital, eletr\u00f4nica de ponta, farmac\u00eautica ou aeroespacial). A China, no entanto, j\u00e1 alcan\u00e7a 12,24% mundial neste campo e \u00e9, ao mesmo tempo, o maior produtor global de meios de produ\u00e7\u00e3o (30,83% em 2023)<sup>8<\/sup>. Constitui, com diferen\u00e7a, \u201c<em>a superpot\u00eancia manufatureira mundial<\/em>\u201d<sup>9<\/sup> e aparecia, no final de 2024, como a primeira economia mundial segundo <em>paridade de poder aquisitivo<\/em> (ppa) de seu PIB; a segunda, ap\u00f3s os EUA, em d\u00f3lares correntes.<\/p>\n\n\n\n<p>Justo alguns dias antes da apari\u00e7\u00e3o do DeepSeek, a ag\u00eancia norte-americana Bloomberg sinalizava que a China era l\u00edder mundial em carros el\u00e9tricos (EV), drones, pain\u00e9is solares e trens de alta velocidade, e que lutava para ser l\u00edder em rob\u00f4s e medicamentos. O avi\u00e3o comercial chin\u00eas C919 j\u00e1 compete na \u00c1sia com a Boeing e a Airbus. Se tudo isso \u00e9 de grande relev\u00e2ncia, \u00e9 muito mais a batalha pelo lideran\u00e7a em semicondutores (hoje nas m\u00e3os da norte-americana NVIDIA) e em IA, dado que, se a China conseguisse superar os EUA nesse terreno, poderia dar origem a uma onda s\u00edsmica de enormes consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A China est\u00e1 em evidente inferioridade ante o imperialismo norte-americano no terreno financeiro. Os EUA s\u00e3o a grande superpot\u00eancia financeira, que conta com seu sistema banc\u00e1rio, com as institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais (FMI, BM) e com o papel do d\u00f3lar como moeda universal. No entanto, a China est\u00e1 trabalhando arduamente, em paralelo com os seus investimentos estrangeiros, para se tornar uma pot\u00eancia financeira global. Neste campo, o grupo dos BRICS+<sup>10<\/sup>, capitaneado pela China, tem como objetivo dar passos na cria\u00e7\u00e3o de uma estrutura financeira e monet\u00e1ria alternativa ao dom\u00ednio estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p><kbd>8\u00a0Relat\u00f3rio de ILAESE, baseado na evolu\u00e7\u00e3o das 500 maiores corpora\u00e7\u00f5es mundiais nos \u00faltimos 20 anos.<\/kbd><\/p>\n\n\n\n<p><kbd>9\u00a0BALDWIN, Richard. \u201cA China \u00e9 a \u00fanica superpot\u00eancia manufatureira do mundo: Um esbo\u00e7o da ascens\u00e3o\u201d, Centro de Pesquisa em Pol\u00edtica Econ\u00f4mica, 17 de janeiro de 2024. https:\/\/cepr.org\/voxeu\/columns\/chi-<\/kbd><\/p>\n\n\n\n<p><kbd>na-worlds-sole-manufacturing-superpo- wer-line-sketch-rise (17\/01-2024)<br><\/kbd>O acesso de Trump \u00e0 Presid\u00eancia, com todas as suas medidas extraecon\u00f4micas, incluindo suas amea\u00e7as e bravatas, n\u00e3o reflete a fortaleza do imperialismo norte-americano, mas sim sua decad\u00eancia. Durante longas d\u00e9cadas, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, da qual emergiu como pot\u00eancia dominante indiscutida, os EUA n\u00e3o se apoiaram, como norma, em medidas extraecon\u00f4micas para impor sua avassaladora hegemonia econ\u00f4mica, sustentada em sua maior produtividade e em seu dom\u00ednio financeiro, ou seja, se assentou em seu \u201cpoder brando\u201d. A culmina\u00e7\u00e3o (e \u00faltima etapa) desse processo foi a <em>Globaliza\u00e7\u00e3o <\/em>neoliberal, com o famoso \u201c<em>Consenso de Washington<\/em>\u201d e sua plena liberdade de movimento de capitais e mercadorias. Evidentemente, no fundo desse processo sempre se encontrou o ex\u00e9rcito norte-americano, com seu gigantesco arsenal, suas mais de 700 bases no mundo e suas interven\u00e7\u00f5es seletivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o geral tem mudado e hoje se manifesta com estrid\u00eancia sua quebra no segundo mandato de Trump, com sua \u201cguerra tarif\u00e1ria\u201d e o resto de suas medidas extraecon\u00f4micas, provoca\u00e7\u00f5es inclu\u00eddas. A nova pauta de Trump expressa o deterioro da primazia econ\u00f4mica norte-americana em setores de ponta e reflete, em conjunto, a perda da influ\u00eancia global dos EUA, em particular diante do ascenso chin\u00eas. Trump recorre \u00e0s medidas extraecon\u00f4micas para restabelecer o dom\u00ednio perdido, ao pre\u00e7o de colocar abertamente em d\u00favida as maltratadas bases da Ordem Mundial surgida ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, renovada ap\u00f3s a queda da URSS.<\/p>\n\n\n\n<p><kbd>10\u00a0Formado inicialmente por China, R\u00fassia, \u00cdndia, Brasil e \u00c1frica do Sul, e depois ampliado para um n\u00famero importante de pa\u00edses do chamado <em>Sul Global.<\/em><br><\/kbd>A disputa entre os EUA e a China est\u00e1 tomando e vai tomar formas cada vez mais agudas. Tudo aponta para o fato de que Trump, al\u00e9m de manter o embargo tecnol\u00f3gico, est\u00e1 nos in\u00edcios de uma batalha tarif\u00e1ria de grandes dimens\u00f5es contra as exporta\u00e7\u00f5es chinesas, com repercuss\u00f5es no resto dos pa\u00edses. A for\u00e7a da China como superpot\u00eancia manufatureira \u00e9, assim, sua fraqueza diante de uma ofensiva tarif\u00e1ria generalizada, devido \u00e0 sua depend\u00eancia das exporta\u00e7\u00f5es e \u00e0 sua atual sobreprodu\u00e7\u00e3o. Da mesma maneira, a economia dos EUA \u00e9 tamb\u00e9m muito dependente das importa\u00e7\u00f5es chinesas<sup>11<\/sup> e o fechamento destas poderia ter s\u00e9rias consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>A China, diante da ofensiva norte-americana, vai intensificar sua expans\u00e3o exterior, em particular em dire\u00e7\u00e3o ao <em>Sul Global<\/em>. E ter\u00e1 que enfrentar uns EUA que buscam reconquistar \u00e1reas de influ\u00eancia ganhas pela China, impedir que estabele\u00e7a alian\u00e7as e impor um cerco militar regional (AUKUS\u2026). Na verdade, estamos em um processo in\u00e9dito onde se combinam elementos econ\u00f4micos (tecnol\u00f3gicos e comerciais) e quest\u00f5es geopol\u00edticas e onde, al\u00e9m disso, incide a situa\u00e7\u00e3o interna dos respectivos pa\u00edses. Um processo cujo resultado vai depender dessa combina\u00e7\u00e3o e de seus efeitos ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um processo onde tudo vai ser colocado \u00e0 prova.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, mencionamos o aumento dos riscos de colis\u00f5es militares. Na verdade, essa possibilidade n\u00e3o \u00e9 algo aut\u00f4nomo, mas depende do curso geral do conflito nos pr\u00f3ximos anos. No seu caso, o ponto cr\u00edtico mais prov\u00e1vel est\u00e1 no estreito de Taiwan e no mar do Sul da China. \u00c9 onde apontava, em setembro de 2024, a almirante Lisa Franchetti, chefe das for\u00e7as navais norte-americanas quando afirmava que os combates navais no mar Vermelho e no mar Negro eram de grande ajuda para \u201cse preparar para um ataque chin\u00eas em Taiwan\u201d: \u201cEu estou muito focada em 2027\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><kbd>11\u00a0BALDWIN, Richard. \u201cA China \u00e9 a \u00fanica superpot\u00eancia manufatureira do mundo: Um esbo\u00e7o da ascens\u00e3o\u201d. Center for Economic Policy Research, 17 de janeiro de 2024.<\/kbd><\/p>\n\n\n\n<p><kbd>https:\/\/cepr.org\/voxeu\/columns\/china-worlds- sole-manufacturing-superpower-line-sketch-rise<br><\/kbd><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica chinesa<\/h4>\n\n\n\n<p>Desde o final da pandemia da Covid, a economia chinesa n\u00e3o consegue se recuperar. H\u00e1 uma desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento, muito longe do que era d\u00e9cadas atr\u00e1s, com tend\u00eancias deflacion\u00e1rias, impulsionadas por um consumo que n\u00e3o se recupera e pela guerra de pre\u00e7os entre fabricantes, motivada pela sobreprodu\u00e7\u00e3o existente, algo manifesto no caso dos carros el\u00e9tricos. O desemprego atinge 20% entre os jovens, ofuscando suas expectativas e agravando suas p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Os governos locais sofrem uma crise financeira muito grave, que prov\u00e9m da explos\u00e3o da bolha imobili\u00e1ria (quebra da Evergrande, 2021), que os deixou sem sua principal fonte de recursos, a venda de terrenos, e com uma d\u00edvida de grandes propor\u00e7\u00f5es. H\u00e1 lugares onde os governos locais n\u00e3o conseguem nem mesmo pagar seus funcion\u00e1rios e contratados.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise imobili\u00e1ria est\u00e1 longe de ter sido resolvida. Os investimentos do Estado apenas conseguiram amenizar a crise e o mesmo acontece agora, com medidas recentes como a aprova\u00e7\u00e3o de fundos para concluir edif\u00edcios que ficaram inacabados. Os pre\u00e7os das habita\u00e7\u00f5es e as transa\u00e7\u00f5es continuam caindo; em fevereiro de 2025, as autoridades de Shenzhen resgataram a imobili\u00e1ria Vanke e pelo menos uma d\u00fazia de incorporadoras, incapazes de saldar suas d\u00edvidas, enfrentam pedidos de liquida\u00e7\u00e3o. O efeito dessa crise no conjunto da economia chinesa \u00e9 francamente depressivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo isso acontece em meio \u00e0 ofensiva tarif\u00e1ria (e ao embargo tecnol\u00f3gico) reiniciado por Trump contra uma economia altamente dependente das exporta\u00e7\u00f5es (embora metade delas v\u00e1 atualmente para o chamado <em>Sul Global<\/em>), em uma situa\u00e7\u00e3o<br>mundial marcada pelo estancamento, que a guerra das tarifas pode agravar.<\/p>\n\n\n\n<p>Importantes economistas do establishment chin\u00eas alertam para o perigo de entrar em uma profunda <em>recess\u00e3o de balan\u00e7o<\/em> (<em>\u201cbalance sheet recession\u201d<\/em>) como a que afetou gravemente o Jap\u00e3o nos anos 90\u2019<sup>12<\/sup>. Suas propostas s\u00e3o lan\u00e7ar, ao estilo de 2008, um megapaquete de gasto p\u00fablico com o fim de relan\u00e7ar o setor privado e reanimar o consumo (embora a d\u00edvida p\u00fablica atual, de 100% do PIB, n\u00e3o permita tantas alegrias). Da mesma forma, ainda com mais raz\u00e3o do que em 2008, prop\u00f5em dar um novo empurr\u00e3o \u00e0 expans\u00e3o exterior. Falam de um <em>Programa de desenvolvimento verde do Sul Global<\/em>, que \u2013dizem\u2013 viria a ser o equivalente chin\u00eas ao <em>Plano Marshall<\/em> norte-americano que seguiu \u00e0 Segunda Guerra Mundial. Este plano responde ao fato de que o mercado dom\u00e9stico n\u00e3o \u00e9 capaz de absorver a sobreprodu\u00e7\u00e3o vinculada \u00e0s <em>novas energias<\/em>, em primeiro lugar, o carro el\u00e9trico (EV)<em>.<\/em> Por outro lado, centrado no <em>Sul Global<\/em>, serviria para eludir as barreiras comerciais dos EUA e da UE e fortalecer as \u00e1reas <em>de influ\u00eancia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>As dificuldades e medos de Xi diante da situa\u00e7\u00e3o chinesa se refletem indiretamente em sua <em>campanha anticorrup\u00e7\u00e3o, <\/em>que est\u00e1 afetando altos executivos empresariais e do Estado, incluindo alguns ministros e militares de alto escal\u00e3o<sup>13<\/sup>. Uma amostra de seus medos \u00e9 a republica\u00e7\u00e3o, no jornal do PCCh, <em>Qiushi<\/em>, de um de seus discursos de 2023, no qual dizia: \u201cO menor erro poderia detonar um efeito borboleta onde pequenos per- igos escalam a amea\u00e7as s\u00e9rias, riscos localizados se generalizam e riscos socioecon\u00f4micos se transformam em ris- cos pol\u00edticos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta frase de Xi reflete o temor a um deterioro grave da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social e a que, assim, isso acabe provocando uma entrada em cena da classe trabalhadora chinesa<sup>14<\/sup>, passando por cima do \u201c<em>sindicato<\/em>\u201d oficial, um instrumento de enquadramento contra a livre organiza\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores chineses<\/h4>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, as mobiliza\u00e7\u00f5es do final de 2022 contra a brutal e humilhante aplica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica Covid-Zero, lideradas por trabalhadores migrantes e universit\u00e1rios, foram as mais importantes desde a derrota de Tiananmen (1989). Reclamavam o fim do <em>lockdown <\/em>selvagem, enfrentavam a pol\u00edtica repressiva e exigiam liberdades democr\u00e1ticas. Depois, ocorreram mobiliza\u00e7\u00f5es importantes dos aposentados em Wuhan e outras cidades contra os cortes no subs\u00eddio m\u00e9dico. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso levar em conta as lutas das nacionalidades oprimidas no pa\u00eds, como as da regi\u00e3o aut\u00f4noma de Xinjiang, que inclui os uigures, ou o Tibete.<\/p>\n\n\n\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es em 2024 t\u00eam estado circunscritas a uma s\u00e9rie de greves de f\u00e1brica, sobretudo no setor da constru\u00e7\u00e3o e na produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o, ocasionadas por atrasos salariais e, em v\u00e1rios casos, por recoloca\u00e7\u00f5es e demiss\u00f5es. Segundo <em>China Labour Bulletin <\/em>(CLB) as greves foram 1.508, sem que tenham afetado grandes empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, o jornal de Hong Kong, <em>South China Morning Post <\/em>(SCMP), informou sobre a exist\u00eancia generalizada do conhecido regime 996, comum entre as empresas de internet e tecnol\u00f3gicas: jornadas de trabalho das 9 da manh\u00e3 \u00e0s 9 da noite durante 6 dias na semana, apesar da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista que o pro\u00edbe. Quando houve protestos contra esse regime de trabalho em mar\u00e7o de 2019, Jack Ma, o magnata da Alibaba declarou: \u201cO sistema 996 \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o (\u2026) Se voc\u00ea vem para a Alibaba, deve estar disposto a trabalhar 12 horas por dia, se n\u00e3o, por que vem?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>SCMP tamb\u00e9m informou sobre o recente esc\u00e2ndalo de 163 trabalhadores chineses da constru\u00e7\u00e3o trabalhando na edifica\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica ByD em Bahia (Brasil), em regime semiescravo: \u201clongas horas de trabalho, camas sem colch\u00f5es, lavabo comum para dezenas de trabalhadores\u201d, sem dia de descanso semanal e, neste caso, com os passaportes retidos. SCMP revelava que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o similar \u00e0 que vivem na China os oper\u00e1rios deste setor, formado por migrantes rurais, onde se violam sistematicamente os direitos legalmente reconhecidos (8 horas de trabalho di\u00e1rias, 44 horas por semana, um dia de descanso semanal). \u00c9 igualmente brutal o caso das oper\u00e1rias e oper\u00e1rios que trabalham para a marca de moda ultrarr\u00e1pida Shein, tamb\u00e9m migrantes rurais. O bairro de Panyu, em Guangzhou, \u00e9 conhecido como \u201c<em>o povo de Shein<\/em>\u201d, com cerca de 5.000 f\u00e1bricas e oficinas. A maioria das oper\u00e1rias e oper\u00e1rios de Panyu s\u00f3 tem um dia de descanso por m\u00eas, trabalham 75 horas por semana (10, 11 ou 12 horas por dia, aos domingos tr\u00eas horas a menos) e recebem por pe\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Marco Rubio, o rec\u00e9m-nomeado secret\u00e1rio de Estado de Trump, destacou em sua posse que \u201ca China \u00e9 o advers\u00e1rio mais perigoso e potente que os EUA j\u00e1 enfrentaram\u201d. Em termos semelhantes se pronunciou, dois anos antes, Blinken, o secret\u00e1rio de Estado de Biden, na Universidade G. 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